Arquivo para Setembro 8th, 2008

Mistérios paulistanos – parte I

08/09/2008

É sempre um tanto misterioso o que faz alguns restaurantes bons falirem e outro, medíocres ou ruins, permanecerem. Em alguns casos, com fama e casa lotada.

Me lembro com saudade e um aperto no coração dos jantares (tantos, meu Deus!) que fiz no restaurante da Cecilia, na rua Tinhorão. Comida muito boa, preços excelentes, atendimento fabuloso. E o restaurante estava sempre vazio, até que fechou.

Em compensação, o Pasquale tem fila na porta. Alguém me explica por quê?

Os antepastos do Pasquale até que são bons. As alcachofrinhas e a caponata, principalmente. Mas o preço é alto. O que justifica, porém, uma casa de massas que praticamente só serve grano duro?

Que oferece um orecchiete com ragu de cordeiro (uma das estrelas do cardápio) sem gosto de cordeiro e com um tempero fortíssimo, que inclui pele de tomate e encobre todo o resto.

Ok, a massa vem quase sempre no ponto. Não é aquela coisa molenga. Mas isso é obrigação – mesmo que a maior parte das “cantinas” paulistanas não a cumpra.

O penne caprese – para usar outro exemplo – traz uma brutal quantidade de alho (amassado). Tem a vantagem de afastar os vampiros da noite paulistana, claro. Difícil é sentir o gosto da massa e dos demais ingredientes.

As sobremesas são razoáveis – só razoáveis. Um pequeno destaque para o conjunto de sorvetes limão siciliano/tiramisù/tangerina. Só.

Nada que justifique a fila, o valor da conta (não, não é tão barato quanto se propala), o serviço incrivelmente desatento e as regras para ocupação de mesas que são, no mínimo, deselegantes (por exemplo: três pessoas não podem se sentar numa mesa dupla, mesmo que haja lugar disponível).

Mistérios da vida, afinal.

Pasquale

Rua Amália de Noronha, 167, Pinheiros, SP

tel. (11) 3081 0333

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Pasquale

Mistérios paulistanos – parte II

08/09/2008

Outro mistério – este, ainda menos compreensível – é o sucesso do La Frontera.

 

Ok, o lugar é cult (do lado de um cemitério), o chef tem atitude e, dizem as moças, é bonito.

 

Fora isso… O couvert é um conjunto de fatias de pão (às vezes, geladas!) com manteiga inexpressiva e azeite idem.

 

O ojo de bife acompanhado de salada verde – destaque do pequeno cardápio que privilegia as carnes vermelhas – mostra uma das primeiras e principais deficiências da casa: o fornecedor de carnes. Numa cidade como São Paulo, com tantas casas que servem carne de boa a fabulosa, é difícil entender porque o La Frontera se abastece tão mal.

 

Há pratos interessantes e com concepção (porque um pedaço de carne com salada verde pode ser bom ou ruim, mas é óbvio). É o caso da garoupa com legumes. Bem preparada e saborosa. Só que vem pouco, muito pouco, no prato.

 

Das sobremesas, merece destaque o canoli com chocolate belga. O creme do recheio podia ter uma pitada mais forte de cítrico, mas é gostoso. Já o bolo de chocolate belga com sorvete e mexerica cristalizada tem apenas uma mexeriquinha. Uma. Por quê? Sei lá.

 

O serviço é um caos. Os pedidos têm que ser repetidos, nada chega à mesa sem uma boa espera. A desatenção absoluta é a marca. No almoço de domingo, então, é caso seriíssimo. O garçom gira a bandeja e quase acerta a cabeça de minha mulher: raspa seu cabelo. Ele pede desculpas? Claro que não. Nem deve ter percebido – como também não percebeu que devia trazer o suco de minha filha, insistentemente pedido (e que só chegou depois que apelamos ao maître).

 

Mas nem todo mundo é desatento. Como a fila é grande, quem cuida da lista de espera fica ligado. Aponta para minha mesa e avisa o garçom: “vê se eles desocupam logo.” O comentário, simpático e gentil, é feito a meio metro da mesa, em tom suficientemente audível e acompanhado de gestual inconfundível.

 

Eu até queria mesmo ir embora. O problema é que não traziam a conta, apesar dos vários pedidos. Para agradar ao moço da lista, fui pagar no caixa e aproveitei para reclamar. O chef – que em nenhum momento foi à cozinha – ouviu e pediu desculpas. Disse que da próxima vez será melhor e deu o clássico tapinha no ombro enquanto nos acompanhava até a porta. Para um bom brasileiro, significa “deixa para lá, mano”.

 

Da próxima vez será melhor. Será mesmo? Não, nunca foi. Sempre foi igual. Vai entender.

 

La Frontera

Rua Coronel José Eusébio, 105, Consolação, SP

tel. (11) 3159 1197

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): La Frontera

Ah, Marcel

08/09/2008

Imagine a seguinte seqüência:

1. foie gras apenas selado, cujo interior veio quase derretido, sobre uva cozida na cachaça e brotos de beterraba;

2. sopa de tomate com língua de bacalhau empanada e brotos de mostarda;

3. camarão no molho de açafrão com cenoura cortada como tagliatelle;

4. suflê de gruyère;

5. rolinho de papel de arroz recheado com codorna desfiada e palmito, sobre purê de alcachofra;

6. grana padano e queijo de coalho com melaço;

7. manga “cozida” a – 17º e cortada como fios de ovos;

8. suflê de cupuaçu com sorvete de creme.

Está salivando, não é, leitor?

Agora suponha que, antes da seqüência, veio um couvert simples e saboroso, com terrine de foie, chutney e manteiga.

E que o acompanhamento foi um Borgonha (Antonin Rodet 2006), a preço honesto.

Mais? Sim: o chef veio pessoalmente à mesa para explicar cada prato que servia e pedir os comentários sobre o prato anterior.

Incrível e maravilhoso que, numa época de tanto estrelismo (muitas vezes injustificado) no meio gastronômico, Rafael Duran Despirite, jovem chef do Marcel, ofereça a imaginação, a execução e a atenção nesta e nas outras vezes que provamos seu menu degustação – cujo preço também é bastante honesto: 98 reais. Uma delícia.

Marcel

Rua da Consolação, 3555, Jardim Paulista, SP

tel. (11) 3064 3089

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Marcel

Desejo & Reparação

08/09/2008

Às vezes vamos a um restaurante com tanta, mas tanta, vontade de gostar, que somos capazes de relevar muita coisa. Mas nem tudo.

Estranhamente, isso acontece toda vez que vou ao Friccò. E por que quero tanto gostar? Porque quase sempre vou acompanhado de um amigo querido, vizinho e entusiasta do restaurante. E também porque Sauro Scarabotta, o chef, é um ótimo cozinheiro.

Scarabotta mostra, em geral, a comida da Umbria (lembre-se, leitor, comida italiana – tratada genericamente – é uma ficção). O atendimento é sempre de uma gentileza incomum – pode até beirar a informalidade excessiva, mas não despenca nela.

É sempre bom começar pela cestinha de provolone. Simples, mas saborosa. E daí circular pelo cardápio, que varia constantemente.

A bisteca à fiorentina, por exemplo, é ótima. Suculenta e cuidadosamente no ponto. Já o carré de cordeiro com polenta cremosa fica um pouco abaixo. Ele é bom, crocante e saboroso. Mas a polenta cremosa é… cremosa – ou leitosa – demais: numa variação de textura um tanto excessiva.

Passamos ao risoto trufado com abrobrinha. Mas onde estão as trufas negras? O resultado é até bom, mas: trufas negras, onde vocês foram parar?

O pior ainda viria: o mix de mare que é composto de… peixes. Claro, peixes. Mas nenhum molusco, nenhum crustáceo? Por que só peixe. E ainda por cima além do ponto?

A sobremesa não redimiu. O mix de sorvetes estava bom, mas a torta de castanha (que, na verdade, é um bolo) era sem graça demais.

165 por casal, o que seria correto, não fosse a decepção.

Mas da próxima vez vai dar certo. O desejo de gostar muito vai ser contemplado e as visitas anteriores, reparadas. Tenho certeza.

Friccò

Rua Cubatão, 837, Paraíso, SP

tel. (11) 5084 0480

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Friccò

Italian food

08/09/2008

Comida italiana, às vezes, não é para principiante. Os molhos mais fortes, tantas vezes puxados no vinho, podem assustar. O privilégio a algumas carnes, também.

A ponto de esquecermos que “comida italiana”, a bem da verdade, não existe. Existem muitas comidas regionais e seus infinitos diálogos. E existe uma comida italiana internacionalizada, que recorre a técnicas que estão presentes também na Espanha, na França, no Brasil. Além, claro, de pensar e retrabalhar ingredientes e formas típicas (naturalmente típicas ou tipicamente não-naturais).

Nem sempre o resultado dá certo (e o fracasso também não é exclusividade da gastronomia italiana). Felizmente, com Pier Paolo Picchi, tem dado.

Depois de passar pelo Filomena, pelo Emiliano e por outras casas, Picchi abriu a própria.

E começa uma refeição com um couvert delicioso, composto por um bolo salgado, sardella bem preparada (isto é, radicalmente diferente da encontrada nas cantinas & cia.), molho de tomate fresco, grissini e creme de abóbora.

Depois vem uma oferta da casa: uma inesquecível bresaola de atum, original, intensa e equilibrada, acompanhada de chutney de manga.

O pato ao vinho com lentilhas decepciona um pouco. É bem servido (coxa & sobrecoxa), frito pós-confit, mas a lentilha é quase dispensável (por que não um acompanhamento cítrico?) e o molho de vinho é carregado, pesa um pouco além do que deveria. O resultado do prato é bom, mas não é ótimo.

Só que o atum mi-cuit com risoto de cítricos compensa. O peixe vem precisamente no ponto e, embora o limão do risoto prevaleça a outros cítricos, combina bem e arremata.

Na sobremesa, o óbvio italiano: tiramisù bem preparado, sem álcool. E o café é correto.

No conjunto, 166 reais (um casal, sem vinho – coisas da Lei Seca).

Valeu a pena. Habemos comida italiana a preço honesto.

Picchi

Rua Jerônimo da Veiga, 36, Itaim, SP

tel. (11) 3078 9119

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Picchi

começo de conversa

08/09/2008

Alhos, Passas & Maçãs

começou no endereço www.alhosepassas.zip.net

Sua proposta era um pouco diferente:

textos mais longos e quase apenas voltados para um grupo de amigos.

Os comentários, porém, foram se tornando raros,

até que o blog foi quase abandonado.

Continua, no entanto, no ar e lá estão cerca de 20 comentários.

Se puder, visite.

Agora, devidamente retemperado, o blog reaparece no WordPress.

Textos mais variados, mais curtos e (tomara!) mais freqüentes.

Um abraço!