Arquivo para Outubro, 2008

Confiança

28/10/2008

Todo mundo tem seu restaurante de confiança. Aquele a que você vai quando não está com muita vontade de pensar e de escolher.

Lá – você sabe – vai encontrar boa comida e o que é menos comum do que se supõe: regularidade.

Tenho uns dois ou três nessa categoria.

Ontem à noite, saí da reunião de pais na escola de minha filha e fui a um deles: o Ici.

O atendimento é bom sem ser exagerado; a sommelière é atenciosa, honesta e, ocasionalmente, surpreende.

Sobretudo, a comida de Benny Novak é boa.

O ventinho noturno, após dias de calor horroroso, me fez esticar o olho para o cassoulet.

Minha mulher pediu o magret, acompanhado de figo e purê de batatas com azeite trufado.

Não havia nem cheiro (literalmente) do azeite, mas o magret veio com precisão: intenso e delicado. Aquele jeito ambíguo do peito do pato, que é macio, mas não se deixa dobrar.

Meu cassoulet, acompanhado de uma coxa de pato confit, era uma delícia. A coxa: assada e rapidamente passada na frigideira para a pele ficar crocante. O feijão: mordível – ou seja, sem amolecer demais e ficar pastoso. A línguiça, saborosa, mas não impositiva.

Na sobremesa, uma única tarte tatin, cuja massa poderia ser mais crocante.

Café correto, numa xícara transparente – acho ruim.

Um Bordeaux básico, a preço honesto, e uma conta correta.

Um restaurante, enfim, de confiança.

Ici Bistrô

Rua Pará, 36, Higienópolis, SP

tel. (11) 3257 4064

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Ici

Temakeria?

27/10/2008

Nunca tinha ido a uma “temakeria”.  Resolvi arriscar.

Meu Deus…

No balcão, um quase-garoto misturava, meio a esmo, os ingredientes pré-cortados. Tudo pronto. Nenhuma faca à vista. Combinações estapafúrdias. Peixe com sabor de papel sulfite.

E um mistério: que mente sombria teve a idéia de colocar flocos de arroz num sushi?

Além de tudo, caro. Éramos três e pedimos seis temakis e um “roll-on” (na verdade, oito uramaki), cerveja (bem quente, para combinar com a temperatura do dia) e água. 90 inacreditáveis reais.

Depois da proliferação de queijos nos sushis e do inacreditável rodízio, eis que São Paulo oferece mais uma nefasta contribuição à gastronomia nipônica.

O taxista

23/10/2008

O taxista que nos levou do restaurante para casa era extremamente gentil e educado. Tinha dvd no carro, repetiu várias vezes que nós é que mandávamos e pediu “por favor” insistentemente. No entanto, queria de todo jeito ir da Vila Olímpia aos Jardins pela Rebouças, esticando o caminho e o valor da corrida.

Quando chegamos em casa, compreendi: ele era a metáfora perfeita do lugar que eu acabara de visitar. Não do restaurante, mas do público que o freqüenta e do lugar em que ele está instalado.

É o Buddha Bar, encravado dentro da Daslu.

O Buddha Bar tem um público curioso. Rapazes fortificados por horas de musculação mostram seu peitoral em camisetas de grife justas. Moças bronzeadas e torneadas nas mesmas academias vestem vestidos curtos (bem curtos), na fronteira da vulgaridade – às vezes, além dela.

Uma juventude dourada que vai lá, acho, mais para ver-e-ser-vista do que para comer a boa comida de Bel Coelho.

Bel Coelho é uma chef jovem, que fez bastante sucesso no tranqüilo e inventivo Sabuji, antes de tentar (e não conseguir) a sorte em Londres. Para nossa sorte, ela voltou e comandou a instalação da filial brasileira do Buddha.

Misto de restaurante, bar e lugar de balada, o Buddha é um “restaurante-lounge”, seja lá o que isso significar. Ou seja, um lugar a princípio não recomendado para quem quer apenas um jantar gostoso. A música aumenta com o passar das horas e, por volta das 22, já está muito além do que devia. Mas é aí que os jovens dourados chegam. E que você tem que ir embora.

Apesar da grandiosidade, a decoração é de bom gosto e o salão é bonito, cercado de divindades hinduístas e com um imenso Buda no fundo – à sombra do qual jantei com minha mulher ontem. Não levei minha filha porque o lugar, evidentemente, não é afeito a crianças.

Comemos bem. O couvert é inexpressivo: uma manteiga e uma pasta meio sem graça, pão sueco e – único ponto positivo – um salmãozinho marinado com rodelas de pepino, para marcar a inclinação oriental da casa, reforçada pelo cardápio de sushis e sashimis que acompanha as criações da chef.

Mas eu não tinha ido lá para a balada, nem para comer sushi. Os sushis, aliás, se tornaram mesmo cardápio de balada paulistana – talvez por serem, em bom português, uma espécie de finger food avant la lettre.

Fui para jantar e, por isso, cheguei cedo e encontrei o restaurante ainda com cara de restaurante, vazio e tranqüilo. A atenção do serviço foi completa, quase no limite do exagero (sabe aquele garçom que não aceita que você tome dois goles de vinho sem que sua taça seja completada entre um e outro? Pois é). Mas nada que incomodasse demais.

E a cozinha? O pato de Pequim não empolga, mas é correto. O robalo com pupunha em cama de castanha de caju, passas e grãos é para lá de bem servido e trazido no ponto exato (ou seja, um pouco antes daquele em que a maioria dos restaurantes serve um pescado). Uma delícia. O carré de cordeiro vem macio, quase assustadoramente macio, e o risoto de grãos que o acompanha é rico e saboroso. Peca apenas pelo excesso de queijo, que encobre um pouco o gosto dos grãos.

De sobremesa, um trio de crème brulée inteligente e gostoso, principalmente o de gengibre. A lichia recheada, acompanhada de água de rosas e gelatina de balsâmico é deliciosa, absolutamente deliciosa. Mas eu confesso que queria comer mais do que as três que vieram no prato. Um pouco mais. Umas vinte mais.

O café é Nespresso, caro, mas vale. E a carta de vinhos, bastante diversificada, traz preços e procedências de todo tipo. Fiquei com um Borgonha básico, que acompanhava as várias carnes que comemos.

O restaurante é bom? É. O lugar é bonito? É. O programa é 100%? Não. Talvez seja implicância ou preconceito, mas não me sinto à vontade nesse mundo dasluziano. Não é uma questão de preço, até porque os praticados pelo Buddha Bar são altos, mas ficam bem aquém dos de um D.O.M. ou Fasano.

É a simpatia artificial. É a juventude dourada e a cortesia opaca. É a impressão de que o taxista revela algo que não é palpável, mas é real: um público que não tem idéia do que é um restaurante ou do que é uma pessoa que não pertence àquele mundo. Que é gentil, mas não enxerga ou respeita o outro. É algo que me deprime.

O que eu queria? Que o talento da Bel Coelho estivesse em outro lugar. Até porque saí com a impressão de que, quando acabar a moda do Buddha Bar – e moda é sempre breve –, o público pólo-country vai bater em outra vizinhança e o restaurante vai pifar.

Buddha Bar

Avenida Chedid Jafet, 131, Vila Olímpia, SP

tel. (11) 3044 6181

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Buddha Bar

Melhores da Gula

18/10/2008

A Revista Gula divulgou, na edição de outubro, sua lista dos “melhores do ano”.

O “chef do ano” foi Tsuyoshi Murakami, do Kinoshita. A Veja SP já o tinha escolhido.

Merecido, embora deixe a impressão de que a escolha teve a intenção de evitar a repetição dos três nomes óbvios e exaustivamente premiados (Atala, Loi, Jun). Murakami é ótimo, claro, mas não foi superior, em 2008, aos três.

Bananeira, um bom restaurante, venceu na categoria de “comida brasileira”, deixando para trás o melhor Brasil a gosto e o muito melhor Tordesilhas.

Le Coq Hardy ganhou entre os franceses, seguido pelo Ici e pelo Chef Rouge. Os três são excelentes e equivalentes, mas os preços do Coq Hardy são muito (muito) superiores aos praticados no Ici e no Chef Rouge. Vale considerar a relação custo-benefício.

O Antiquarius venceu como restaurante português. Bem… O Antiquarius, para mim, é um mistério. Nunca comi bem lá. Nunca. Nem no do Rio, que tem, pelo menos, um serviço mais atento e menos pedante. A Bela Sintra, nosso melhor (único?) português, ficou em segundo.

Don Curro repetiu o prêmio da Vejinha e deixou o Toro em segundo, entre os espanhóis.

Outro espanhol, o Eñe (colocado, pelos critérios da Gula, na categoria “contemporâneos”) foi vice junto com o irregular Emiliano. Nesta categoria ganhou o D.O.M.. Inquestionável. Uma pena que o ótimo Sal Gastronomia não apareça na lista dos melhores.

Também incontestável é o Fasano como primeiro em “alta gastronomia italiana”. Incompreensível, no caso, é o bom La Vecchia Cucina em segundo lugar. La Vecchia Cucina é alta gastronomia?

O Due Cuochi foi o melhor italiano. Outro prêmio merecido. Impossível é explicar como o Aguzzo ficou em segundo lugar. Nem vale a pena tentar entender. O ótimo Piselli ficou em terceiro e o Picchi foi ignorado.

O Pasquale (ai, meu Deus) foi vice entre as “cantinas”. Este é outro fenômeno incompreensível. Na frente dele, o clássico Jardim de Napoli e o muito bom e honestíssimo La Pasta Gialla.

O Porto Rubayat recebeu seu devido prêmio pelos “peixes”. Estranho foi o Rufino’s ficar em segundo, à frente do superior Amadeus.

Ou seja, concordâncias, discordâncias. Afinal, prêmios – todos – são idiossincráticos. Prefiro a lista da Veja SP, mas sou suspeito, no caso.

A maior idiossincrasia do prêmio de Gula, porém, está na lista de hors-concours, chamada de “Campeões dos campeões”. Lá estão os que receberam o prêmio três vezes consecutivas e, por isso, saíram do páreo.

O problema é que nada impede que essas casas decaiam ou se paralisem. O exemplo, no caso, é a Douce France, de Fabrice Le Nud. De fato, seu sorbet de chocolate amargo não tem igual.

Mas a casa declinou acirradamente de um ano para cá. Nem sempre os doces estão frescos, a brigada varia muito, o gerente (da Jaú) reclama da brigada o tempo todo e ignora as reclamações dos clientes.

A Douce France ainda tem coisas boas, mas está muito abaixo do que foi. Não é “campeão dos campeões”. Torço para que volte a ser. Vi a doceria nascer e vou lá quase semanalmente. Poucos desejariam esse renascimento tanto quanto eu.

Peixe

16/10/2008

O couvert é excelente.

Os ingredientes são de primeira. E alguns, raramente encontrados por aqui.

A carta de vinhos, das melhores, com preços justos.

O bufê de sobremesa, variado e bom. Um problema ou outro (a tarte tatin, por exemplo), mas bom.

O serviço é atento e não-pegajoso – superior, atualmente, ao das outras casas da rede.

O ambiente, bem montado e agradável – também superior ao das outras casas da rede.

Vez ou outra, o ponto sai errado. Até porque se trata de pescados e a maioria dos restaurantes erra no ponto dos pescados. Não devia, mas erra.

Os crustáceos do caixote marinho, por exemplo, já vieram mais de uma vez além do ponto. Paciência. Mas, em geral, é tudo muito, muito bom.

É o Porto Rubaiyat.

Porto Rubaiyat

Rua Leopoldo Couto de Magalhães, 1142, Itaim, SP

tel. (11) 3077 1111

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Porto Rubaiyat

Banguela

16/10/2008

O chopp do Léo é inquestionável, não é?

Não, não é.

A grosseria dos garçons é clássica; nem vale a pena comentar.

Mas o que falar de um colarinho que toma ¾ do copo?

E da bebida uns três graus acima do que deveria?

O bar está descendo a ladeira desengrenado ou o leão perdeu os dentes?

Bar do Leo

Rua Aurora, 100, SP

Em carne viva

14/10/2008

Estilo de restaurante, diz um amigo, é coisa pessoal. Uns preferem a intimidade que lembra a copa de casa, outros preferem a amplidão do supermercado.

Comparações mal feitas, claro. Mas servem para lembrar que existe um tipo de restaurante que, de tão grande, faz com que você se sinta meio perdido.

Quando eles são bons, a brigada impede que o cliente se desoriente. Quando são ruins, você se sente no vácuo.

Mas o que acontece quando o restaurante é historicamente ótimo e serve algumas das melhores carnes de São Paulo, mas a brigada muda tanto que ninguém mais reconhece o espaço?

É o que parece vir acontecendo no Baby Beef Rubaiyat.

Claro que a picanha summus continua linda. Macia. Saborosa. Ai.

Claro, também, que o bufê é de arrasar, inclusive pelos pescados.

Mas é ruim quando o couvert é mal servido, o serviço de pão só passa uma vez, o caldinho não chega nunca e o filé de tira (num pedido à la carte) perde muito de sua textura porque demora para chegar à mesa. É ruim.

Pior é quando a guarnição de legumes no forno de barro vem radicalmente sem tempero e sem gosto. Tudo agravado pelo serviço desatento.

Não, não pode ser assim num restaurante desse porte. Tanto que reclamamos e, dias depois, recebemos um telefonema gentil e um convite para retornar.

Voltamos e, com a cartinha de Don Belarmino na mão, tivemos atenção bem maior do serviço. Mas a picanha do bufê não estava à altura da fama. Nem de longe.

O que valeu a visita – veja que coisa! – não foi a carne vermelha. Foi o salmão defumado, foi o camarão-pitu. Foram os boquerones e a sardinha portuguesa. Quase pensamos que estávamos em outra casa da rede…

E o bufê de sobremesa, apesar de fartíssimo, não consegue empolgar. O Nemesis – esse desafio culinário – é inexpressivo. A tarte tatin, mole na base, decepciona. A crema catalana, comum.

Então, você se sente perdido em meio a algumas das melhores carnes de São Paulo.

Baby Beef Rubaiyat

Alameda Santos, 86, Paraíso, SP

tel. (11) 3170 5100

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Baby Beef Rubaiyat

Bom & Barato

09/10/2008

É fácil comer bem nos restaurantes muito, muito caros de São Paulo. É raríssimo alguém sair do D.O.M., do Fasano ou do Jun – para ficar nos melhores mesmo – insatisfeito com a comida. Pode até reclamar de uma coisa ou outra, mas dificilmente da comida.

E é relativamente fácil comer bem nos restaurantes caros de São Paulo. Caros são aqueles que cobram preços médios. Caros, porque a média de preço, por aqui, é astronômica.

E “relativamente” porque não é garantido que coma bem (você já foi ao La Frontera, nega? Então, vá e aprenda que é possível pagar caro e comer mal).

Difícil é pagar barato e comer bem. Dificílimo. Ok, tem o Mocotó. Mas ir ao Mocotó durante a semana é inviável para quem mora perto do centro.

Tem também a Tenda do Nilo, que é ótima, honestíssima e saborosa – embora seu dulcíssimo e quase sempre desmantelado Mil e uma noites seja superestimado.

E mais algumas poucas (bem poucas) casas. Uma delas é o Osório, onde fui almoçar hoje.

O Osório só abre no almoço e serve um bufê com receitas que variam a cada dia. Faz o básico e também arrisca. Uma paella, por exemplo. Só serve paella em bufê quem é ousado ou irresponsável. Ousado, no caso.

A paella obviamente não era equivalente à do Don Curro, mas era farta em frutos do mar e trazia um arroz gostoso, no ponto certo. Salgada demais, vá lá, mas nada que fizesse a pressão arterial explodir.

Antes dela, um bufê de saladas, com boas surpresas, como o bolinho de arroz frio com passas e gergelim. Ou a maionese de mandioquinha.

Entre os pratos quentes, um bem cuidado bolinho de milho verde e a mostarda refogada – simples e bem feita.

O que havia de mais interessante no bufê de doces era a crostata de maçã e o escondidinho de abacaxi.

Café curto correto e conta de 50 reais para duas pessoas (com duas cervejas e uma água). Só para mostrar que comer bem e barato em São Paulo é difícil, mas possível.

Osório

Rua Osório Duque Estrada, 41, Paraíso, SP

tel. (11) 3051 9393

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Osório

Xô, Galinha!

05/10/2008

Às vezes, tudo dá errado.

Acabamos de votar e minha mulher sugeriu um franguinho grelhado do Galeto’s.

Por algum motivo, me lembrei do Galinheiro Grill e, pior, sugeri. Ela deu a estocada final: topou. Lá fomos nós.

Chegamos e ficamos uns dez minutos esquecidos. Então, o garçom começa a colocar os pratos sobre a mesa, suja.

Peço que limpe antes e recebo uma resposta azeda: só havia ele para cuidar de todas as mesas daquela sala, eu tinha que ter paciência.

Erro meu: como não percebi antes que estava sendo inconveniente? Onde já se viu querer que limpem a mesa antes de colocarem os pratos?

Mesa mais ou menos limpa, pratos dispostos. Fazemos o pedido. Uma salada média, um frango, uma porção de polenta, três sucos de lima da Pérsia. Polenta, esclarecemos, sem a montanha habitual de queijo ralado.

A salada demora, mas chega. Palmito, rúcula, agrião, tomate e cebola. Razoável. Não que valha os 31 reais, convenhamos. Por esse preço, podia ter pelo menos um molho.

A polenta demora e chega coberta de queijo ralado. O garçom diz que vai trocar. Demora e traz outra porção, sem queijo e encharcada de óleo.

O frango é que não vem. Não vem mesmo. O maître (ou algo assim: pelo menos tinha outro uniforme e mais autoridade) percebe nossa agitação e vem perguntar o que falta. Falamos da ave. Ele diz que vai ver.

E o frango não vem. Daí chega, com o comentário do garçom de que demorou porque estava sendo bem assado. Ah, tá.

Mas não estava. Veio meio cru.

Levanto, sob o olhar preocupado de minha filha, e vou falar com o maître (ou algo assim). Faço um breve histórico dos percalços. Ele ouve, pede desculpas e diz que vai trocar o frango.

E o outro frango não vem. A polenta, quase no fim. A fome, saciada com pão. A irritação, na contramão das bolsas, sobe.

Então a ave chega. Assada e coberta com o horrível tempero vermelho que tomou conta da cidade. Dá vontade de chorar. Mas apenas comemos. Pouco, bem pouco.

Minha filha come meia asa e desiste. Todos nós desistimos.

Pedimos a conta e que embrulhem o resto do frango. O garçom confirma se queremos mesmo “comprar a embalagem”. Queremos. Tem gente em SP que precisa comer algo, nem que seja essa comida. 80 centavos, a embalagem, que depois deixamos na mão de um pedinte.

O total da conta? Cem escandalosos reais. 2/3 do que se paga, por exemplo, no Sal Gastronomia ou no Picchi, se não tomarmos vinho. Com a diferença de que se come bem no Sal e no Picchi. E o serviço é decente.

Saímos de lá para não voltar. Na porta, a espera enchia a rua. Por quê? Acho que porque as pessoas gostam de comer mal e de serem mal tratadas. Não consigo achar outro motivo.

Na volta para casa, passo pela frente do Toro e do Maní. O coração aperta por lembrar como é bom comer bem e um olho enche d’água, talvez de irritação.

É, às vezes, tudo dá errado. E nem vou dar o endereço do Galinheiro Grill. Ora.

Cadê a Julia?

04/10/2008

O Julia Cocina virou Julia Gastronomia. Isso já faz uns meses.

Curioso é que não tem mulher na equipe do Julia Gastronomia. Não podiam arranjar alguma Julia?

De qualquer forma, a casa se mantém estável.

O couvert é simples e gostoso, com seus quatro tipos de pão (sobretudo, o de milho), azeite, requeijão temperado e cristais de sal.

O forno de barro é uma atração. E os pastéis assados nele. O de pato com shimeji é o melhor. Porque, nos outros, o queijo de cabra é encoberto pela berinjela e a erva-doce nocauteia a galinha d’angola.

Aliás, a Julia-sem-Julia adora erva-doce, que também venceu (por pontos) o segundo round com a galinha d’angola, agora no prato principal. Essa galinha é um dos hits da casa e a carne é boa mesmo. Vem com farofa de pão e castanha, que podia ser mais crocante. E com berinjela (olha ela aí de novo, gente!) coberta por tomate.

O confit de pato com batata, shitake, endívia e pesto de figo parece misturado demais no cardápio. E é mesmo. O pato estava correto. A batata, idem. O shitake e o pesto de figo, inexpressivos. E as coisas não dialogavam lá muito bem. Mas valeu pela curiosidade de um prato que tem de tudo: carne, tubérculo, fungo, verdura e fruta. Por que não um grão?

Para a sobremesa, o garçom recomendou o bolo de chocolate com sorvete de maracujá. Dica boa. Principalmente pelo sorvete, feito na casa.

A torta de cupuaçu com queijo de cabra repetiu os problemas das entradas e dos pratos principais. Faltou equilíbrio e o queijo venceu, fácil, fácil. E o diálogo com o creme de goiaba que vem junto (não indicado no cardápio) também não aconteceu.

Uma taça de vinho de sobremesa acompanha a torta e cai bem, principalmente se você não pode beber porque tem medo de ser preso na volta para casa.

Café Pessegueiro, tirado com precisão, mas torrado demais.

Gostoso, o ambiente. Atento, gentil e simpático, o serviço. Nenhuma Julia. Será que se arranjassem alguma, superariam o desequilíbrio e a falta de diálogo?

O preço: 200 reais, um casal, à base de água. Está na média do que se cobra por aí. Alto, porque os restaurantes de São Paulo enlouqueceram.

Julia Gastronomia

Rua Araçari, 200, Itaim, SP

tel. (11) 3071 1377

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Julia Gastronomia