Arquivo para fevereiro, 2009

No País Basco

28/02/2009

 

O País Basco é aqui pertinho de casa: a quatro quarteirões do meu prédio.

E se localiza num espaço que já abrigou outros restaurantes. O interessante, mas mal resolvido, Cadalunga, de comida lombarda, e o brevíssimo Rafaelle, que nem tive tempo de conhecer.

Os bascos (que não pertencem, ufa!, ao ETA) tomaram o lugar e lá abriram o Bilbao.

É uma casa gostosa num quarteirão tranqüilo da José Maria Lisboa, com uma área ao ar livre, coberta por uma parreira. Muito agradável. Só não precisavam deixar uma escada e uma vassoura por ali, quase do lado das mesas.

O menu valoriza bastante os peixes e oferece, também, algumas carnes vermelhas – por exemplo, um curioso coelho defumado. Traz, ainda, uma lista de pintxos, versão basca das célebres tapas.

Provamos dois pintxos: o de bacalhau e o de polvo, que vieram no couvert. Ambos bem preparados, com ingredientes frescos e de boa qualidade (os ingredientes, me disse o garçom, são daqui mesmo, e não do País Basco), embora o de polvo estivesse um pouco mais salgado do que deveria.

Nos pratos principais, optamos por peixes. Um bacalhau na brasa com molho de limão e um lombo de tamboril negro. Todos os peixes recebem acompanhamento de arroz puxado no azeite ou legumes cozidos com azeite. Os peixes são finalizados com alho e (adivinhe!) azeite.

O tamboril tinha textura agradável, mas sabor inexpressivo. O molho basco se impunha e o peixe (que devia ser mais forte) não se manifestava. Uma pena. Ainda mais porque tamboril é um dos meus peixes preferidos.

Estava melhor, porém, do que o bacalhau, claramente mal executado. O interior estava rijo e excessivamente fibroso. A brasa não chegou até o centro da posta e deixou seu cozimento irregular e a textura, desagradável.

Os legumes também careciam de gosto – confirmando que a falta de sabor é um problema geral da cozinha.

Pedimos uma “desgustação” (sic) de sobremesas: três, à escolha do cliente. Queríamos a torta de trufa e chocolate branco, mas ela “estava sendo preparada”; logo, ainda inacessível. Escolhemos, então, um canudo de queijo de ovelha, o “molho de chocolate com banana assada” e a torrija de laranja e queijo azul.

A torrija – um equivalente da rabanada – era interessante, embora a laranja (também ela) não se manifestasse. O canudo de queijo de ovelha tinha massa folhada muito boa, mas o queijo exalava sabor amanteigado forte e comprometia o conjunto. O molho de chocolate era agradável e a banana assada… Epa, cadê a banana? Não veio! Comentamos com o garçom, que se surpreendeu e pediu desculpas pelo erro.

Fazer o quê? O chef esqueceu, ora. Mas eu não podia me esquecer de pagar os 26 reais pelo prato incompleto.

Tomamos o café e pedimos a conta: 209, sem serviço. Incluindo um Rioja básico, Razón (56 reais; sobrepreço de aproximadamente 80%, padrão geral da carta). O garçom nos explicou que o serviço era “grátis”. Como achamos que serviço nunca deve ser grátis, pagamos 230.

Caro.

Caro porque os pratos giram entre 50, 60. O tamboril é pouco menos de 50; o bacalhau, pouco mais de 60. Por quê?

As sobremesas ultrapassam, na maioria, os 20 reais – o que é um absurdo para uma casa que, pelo visto, não tem chef pâtissier. Se tivesse, a torta de trufa teria sido preparada a tempo de servi-la no jantar e ele não teria esquecido da banana e servido apenas a calda.

Caro porque falta conceito e execução na cozinha do Bilbao. A repetição dos acompanhamentos revela a falta de conceito. O sabor inexpressivo dos pescados demonstra os problemas de execução.

Caro porque, pelo mesmo preço, é possível comer bem melhor em São Paulo.

Caro porque vivemos uma terrível padronização de preços dos restaurantes na faixa dos 150-250 por casal, que nem sempre se justificam na qualidade da comida servida.

Pode ser que o Bilbao melhore? Pode, mas os quase cinco meses de vida da casa já deveriam ter trazido alguma solidez para a cozinha.

Voltaremos lá? Dificilmente.

A única coisa que merece destaque é o serviço. O garçom soube explicar todos os pratos, foi atencioso sem ser pegajoso, abriu o vinho com correção e até perguntou quem o provaria – algo que o machismo predominante na maioria das casas nem lembra de fazer.

Faltou, porém, o essencial de um restaurante: comida memorável, prazerosa. Uma pena.

Bilbao

Rua José Maria Lisboa, 1065, Jardim Paulista, SP

tel. 11 2592 3480

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Bilbao

Ele, o pato

26/02/2009

 

Sempre que vou à Nova York janto pelo menos uma vez no Pongsri.

Por quê? Por muitas razões.

Primeiro (mas não mais importante): a proximidade. Ele fica na mesma rua e a menos de cem metros do hotel em que me hospedo.

Segundo (e bem mais importante): a memória. Na minha primeira visita a Nova York, em 93, entrei lá por acaso e comi uma refeição maravilhosa. Ganhou pontos e, sobretudo, afeto.

Terceiro (e decisivo): a comida. Continua ótima.

Nesses dezesseis anos, muita coisa mudou. O salão está no mesmo endereço, mas ao rés do chão; não fica mais numa sobreloja meio sombria e enevoada. Não ficou chique, mas está mais arrumado e cuidado.

As garçonetes também a se vestir melhor, embora continuem olhando torto quando você chega. É fácil de explicar. O lugar é freqüentado basicamente por orientais. Quando entra um ocidental, elas devem achar que é bom se precaver…

E elas se tornam gradativamente mais simpáticas a medida que a refeição avança e notam que você come bem e parece satisfeito. No final da refeição, até sorriem.

Dessa vez começamos o jantar com rolinhos primavera. Pode parecer falta de imaginação, mas foi um pedido de minha filha – junto com o indefectível suco de cranberry.

Os rolinhos estavam um pouquinho mais engordurados do que deveriam, mas muito saborosos. Só vegetais, temperados na medida –picante ma non troppo – e com molho de laranja, mel e alho. Uma delícia.

E seguimos com patos. Ah, os patos do Pongsri… Assados, fatiados e depois fritos.

Crocantes como devem ser os patos servidos no céu – ou será que são os do inferno?

Um deles mais simples, acompanhado de brócoli. O outro, com echalotas e tamarindo. Este é o que não pode ser dispensado jamais. Este é o que dá vontade de pedir mais cinco e levar para casa. É deste o sabor que vem à boca quando vejo a placa do Pongsri. Este.

Tudo acompanhado de Singha, cerveja tailandesa delicada e saborosa.

Antes de caminhar os quase cem metros de volta para o hotel, uma honestíssima conta de 77 dólares.

Sabe de uma coisa? Quando voltar a Nova York, vou jantar de novo no Pongsri!

Pongsri

http://www.pongsri.com/

Tiros na Nona Avenida

20/02/2009

 

Tem restaurante que vale pela sensação que provoca, e não pela comida.

Foi assim com a Trattoria Casa di Isacco.

Voltávamos de um passeio cinco cocares: completo e absoluto programa de índio.

Exaustos e com fome, caminhando pelo frio e pela Nona Avenida, olhávamos aqui e ali, em busca de um lugar para comer.

O vento começou a bater mais forte e não resistimos: entramos no primeiro lugar que pareceu razoável. Era a tal Casa di Isacco, em plena Hell’s Kitchen – lugar que já foi barra pesada e que manteve o nome, mas hoje é tranqüilo.

O nome da trattoria nos fazia pensar em comida italiana e judaica. Nem tanto. Prevalecia a entonação espanhola – sabe lá Deus por quê. Sangria e jamón por todo lado. Jamón, não prosciutto.

Mas o melhor era o ambiente – esse, sim, bem italiano. Italiano de filme americano. Parecia o restaurante em que Michael Corleone matou os que tramaram o atentado contra Don Vito.

Ou um pouco mais lúgubre. Tudo bem escuro. O garçom, simpático, mas com uma cara meio suspeita. O salão, absolutamente vazio.

Certo, eram cinco e pouco da tarde e recém começara o serviço noturno. Mas que dava a impressão de que, de repente, começaria um tiroteio, dava.

Na dúvida, fui ao banheiro para ver se não tinha uma arma escondida atrás da caixa de descarga.

Voltei à mesa, enquanto aguardávamos os pedidos: massas (afinal, estávamos numa trattoria), uma recheada de lagosta, outra de ricota.

E eis que a porta da frente se abriu. Por um instante paramos e o tempo pareceu se interromper.  Entrou um casal. Ele, com um jeito para lá de suspeito. Ela, não: seu estilo era facilmente identificável, e talvez até a profissão.

Íntimos da casa, sentaram-se ao fundo. Depois descobriríamos que ele era o dono do lugar, e gentil. E aprenderíamos que não se deve julgar alguém pela aparência.

De qualquer forma, almoçamos com a expectativa do tiroteio iminente ou da irrupção da polícia.

A comida não era boa, mas não era ruim. A sangria da casa – bem feito: quem mandou pedir um negócio desses? – era horrorosa. Mas pelo menos foi o mais próximo de sangue que encontramos por lá.

Pagamos a conta – cara para a comida: os indefectíveis 140 dólares de quase sempre, coma bem ou coma mal. Mas ninguém ali ia questionar nada.

Na saída, ajeitei o sobretudo. O chapéu ficou assim meio inclinado. E seguimos para o hotel sem olhar para os lados.

De volta ao Sal

15/02/2009

Fazia tempo que não íamos ao Sal – que minha filha define como seu restaurante favorito.

Logo na chegada, ela soube que não havia os chips de alho-porró do couvert, mas absorveu bem o golpe.

Começamos com uma ótima entrada de pupunha grelhado. Tenro, adocicado, saboroso.

Uma longa espera – mais de 50 minutos – para os pratos principais: a fritadeira quebrou, desculpou-se o garçom. Enquanto isso, vinho e couvert reposto.

Quando os pratos chegaram, o chef veio à mesa repetir as desculpas pela demora. Ok, problemas acontecem. Mas a prova dos nove, claro, era a comida.

Minha mulher e minha filha comeram o salmão com crosta de pistache, calda de cardamomo, acompanhado de risoto de grãos e aspargos frescos. Ótimo, o risoto. Mas o peixe estava um pouco seco. E o cardamomo, inexpressivo.

A curiosidade é que já havíamos comido esse prato antes e o problema fora o oposto: excesso de cardamomo, encobrindo o sabor do salmão. Mudou, talvez demais.

Meu cunhado pediu o atum em crosta de gergelim, com molho teryiaki, arroz negro, pupunha e tomate. É um clássico do Sal, sempre impecável. Felizmente, continua assim.

Para quebrar o tom marítimo da mesa, meu sobrinho foi de cupim na manteiga de garrafa, com mandioca e farofa de banana. Macio e saboroso.

Eu estava curioso por meu prato.

Mas talvez estivesse ainda mais ansioso para provar o que minha irmã pediu: o filhote.

Já o tinha provado em novembro passado e achei que precisava de ajustes. Recebeu. A carne do peixe continua fabulosa e servida no ponto.

O purê de banana da terra, que na outra visita veio pesado e excessivamente cremoso e untuoso, agora estava mais leve, delicado, e com muito mais gosto de banana. O coentro, excessivo em novembro, veio na dose certa, sem impor sua força ao peixe. E os mini-legumes, ótimos.

Ou seja, o filhote mudou na dose certa e para bem melhor. Ufa!

E meu prato? Bem, nunca o tinha provado. E saí de lá com a impressão de que foi a melhor coisa que comi até hoje no Sal, em inúmeras visitas: tentáculo de polvo com batata salteada e brócolis no alho. Macio, forte, gostoso. Muito gostoso. Tremendamente gostoso. Falar mais o quê?

Poderíamos ter dispensado as sobremesas, de tanto vinho (três garrafas, com praticamente apenas três bebedores) e tanta boa comida.

Mas fomos em frente. Não havia a melhor delas: o charuto crocante de banana. Pedimos o carpaccio de abacaxi e o garçom avisou que ele também não poderia ser preparado: problemas com o próprio abacaxi, muito azedo.

Veio então o bom, mas exageradamente (e bota exageradamente nisso) doce, brigadeiro com castanha do Pará e sorvete de paçoca.

Para horror de minha mulher, que detesta sagu, pedi as ovas de sagu com leite de coco, frutas e calda de maracujá. E gostei: fresco, não muito doce, delicado. Sem contar que sagu me lembra a comida de minha avó.

Desde nossa primeira visita ao Sal, passou muito tempo. E muita coisa mudou por lá. O lugar foi reformado e ampliado, o chef ganhou prêmios, o restaurante agora fica lotado.

A principal mudança, porém, é mais lenta e mais importante: a cozinha mostra cada vez mais solidez, os pratos passam por pequenos ajustes e melhoram.

Maturidade talvez seja a palavra-chave. Algo pouco comum nos restaurantes paulistanos, que duram pouco ou perdem o eixo ou sobem descontroladamente seus preços.

Por isso, e cada vez mais, minha filha tem razão ao elegê-lo seu restaurante favorito.

Sal Gastronomia

Rua Minas Gerais, 350, Higienópolis, SP

tel. 11 3151 3085

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Sal

Le petit Daniel

12/02/2009

 

Daniel Boulud tem, se não me engano, nove restaurantes. Quatro deles estão em Nova York. Os outros, em Vancouver, Pequim, Las Vegas e Palm Beach.

No dia 21 de janeiro desse ano, Frank Bruni, crítico de gastronomia do New York Times, atribuiu quatro estrelas ao principal deles, o Daniel de Nova York. A resenha era gloriosa. Falava de precisão, intensidade, inventividade, acolhimento.

Foi a segunda vez que o Daniel recebeu a cotação máxima do NYT. Na história do jornal, só outros dois restaurantes conseguiram as quatro estrelas mais de uma vez (o Jean Georges, que também foi duplamente quatro-estrelado, e o Le Bernardin, triplamente quatro-estrelado).

No mesmo 21 de janeiro, coincidentemente, estive em outro restaurante novaiorquino de Boulud: o db Bistro Moderne.

A proposta do db, claro, é outra. Não tem o luxo, a sofisticação e a formalidade do Daniel. E se propõe a servir a qualidade da casa principal.

Seguimos o menu da New York Restaurante Week (entrada, principal e sobremesa pro US$ 24,07, fora as taxas e a gorjeta).

De entrada, minha mulher e eu escolhemos um pot au feu; minha filha preferiu a torta Oliviers alsaciana de queijo branco flambado com bacon e cebolas.

Soa um pouquinho absurdo dizer que o pot au feu, apesar de saboroso, estava meio inexpressivo e menos espesso do que seria desejável.

Afinal, é um restaurante francês. É um bistrô. É o Daniel Boulud, ora! Tem que estar muito bom e na consistência exata.

Mas não estava.

A torta alsaciana de minha filha, em compensação, era ótima. Nem consideramos o fato de que não foi flambada à nossa vista.

Na hora do prato principal, optamos pelos grelhados do mar com trofie. A massa da Liguria e, entre os peixes, o tamboril foi o destaque. Salmão e camarões cumpriam, sem estardalhaço, sua função. Bom, enfim.

De sobremesa, uma pannacota de coco com calda de abacaxi e sorvete de limão estava correta. O trio de chocolates (sorvete, bolo e torta) ostentava a qualidade do chocolate (ao leite).

Nada de vinho. A carta era cara. Águas, o habitual suco de cranberry da minha filha e a gorjetinha de 20% fecharam a conta de 130 dólares.

O atendimento era simpático desde a porta até a mesa, embora tenhamos sido esquecidos na saída, após recebermos os casacos de volta.

Tudo bom? Tudo bom. Mas nada empolgante. Em bom português, pas trop. Tudo correto, tudo burocrático.

Claro que o Daniel deve ser diferente – e muito mais caro. Claro que deve superar bastante seu irmão-bistrô. Claro que deve merecer as quatro estrelas que Frank Bruni lhe atribuiu.

Mas, sem a precisão, a intensidade, a inventividade e o acolhimento do Grand Daniel, o db Bistro Moderne decepcionou. Decepcionou mesmo.

db Bistro Moderne

http://www.danielnyc.com/dbbistro.html

Questão de preço

10/02/2009

 

Preço importa, é óbvio.

Mas é preciso evitar julgamentos apressados. O Jun é caro e vale? Vale. O D.O.M. é caríssimo e vale? Vale.

A cantina da minha rua cobra 20 reais por uma massa molenga e encharcada de molho acidíssimo. Vale? Não.

E, em tempos bicudos como os atuais, o preço pesa bastante.

No domingo à noite fomos ao Hideki.

Pedimos ostras de entrada. Elas estavam carnudas, frescas, saborosas.

Em seguida, comemos sashimis interessantes – especialmente o robalo, o polvo e o toro. Frescos e saborosos, muito bem fatiados.

As vieiras recém descongeladas, porém, estavam inexpressivas.

E sushis bem preparados. De novo, o toro foi o destaque, junto com as ovas de peixe-voador.

O atendimento foi simpático e o lugar… Bem, o lugar é razoável, sem maiores delongas. A televisão, com a graça do Altíssimo, estava desligada e a baixa freqüência impedia que os ruídos atrapalhassem.

Tudo ok? Tudo ok.

Mas a conta bateu nos 350 reais (duas pessoas, sem bebida alcoólica). Vale tudo isso? Não, não vale.

Sem querer comparar (mas comparando), isso é o que pago no Aizomê, meu vizinho, que usa ingredientes tão bons ou mais e oferece mais conceito, mais elaboração e ambiente mais agradável.

Por que uma refeição sem qualquer destaque sai tão cara? Não devia.

Preço importa, é óbvio.

Hideki

Rua dos Pinheiros, 70, Pinheiros, SP

tel. 11 3083 7744

Como Chegar lá (Guia 4 Cantos): Hideki

 

Stripper?

06/02/2009

 

Foi num dos livros de Anthony Bourdain que li sobre o Prune.

Ele elogiava o restaurante, destacava sua releitura da comida americana tradicional, a ótima relação custo-benefício.

Principalmente lembrava que a chef, Gabrielle Hamilton, havia feito de tudo na vida, antes de trabalhar na cozinha. Isso incluía – sempre segundo Bourdain – uma temporada como stripper e alguns crimes de pequeno e médio porte.

Irresistível.

Reservamos e fomos. O restaurante, no East Village, é minúsculo. Apertadinho. O salão é menor que a sala da minha casa e a cozinha, muito menor que a minha. Mesas e pessoas quase se sobrepõem. Até onde vimos, fora o barman, só mulheres trabalham lá.

Chegamos às 19 e às 19h30 estava abarrotado de gente. Americanos, aliás, vão a restaurante em hora decente. Almoçam ao meio-dia e jantam às 19. Muito restaurante fecha às 22. Nada dessa mania paulistana de comer às 2 da manhã.

Veio o couvert. Simples e promissor: pão fino frito com kümmel. Picante na medida.

De entrada, timo de porco empanado com bacon e alcaparra. Papagaio! Uma das melhores coisas da viagem, da vida. Minha mulher, minha filha e eu disputamos cada pedacinho. Assim, cada um de nós ingeriu cerca de vinte mil calorias – das melhores calorias do mundo. E antes do prato principal.

Minha mulher pediu, como principal, um capão assado com croutons de alho e especiarias. Forte, picante. O alho ficou na memória por uns dias, mas o capão estava saboroso, tenro, maravilhoso.

Minha filha e eu dividimos fatias de cordeiro cozido, acompanhado de batatas grelhadas (inteiras, com casca) em molho de cordeiro e alho-porró. Meu Deus… O alho (não só o porró) se manifestava e também deixou marcas fundas na memória. Mas o cordeiro era uma delícia.

Para a sobremesa, minha filha quis o sorbet de limão com coco e suspiros; minha mulher, o creme de Earl Grey com biscoito de gergelim e caramelo cristalizado. Ambos ótimos. Mas o meu bolo de gengibre com chocolate era demais…

Bebemos um Rhône simples e agradável por 48 dólares.

A conta ficou nos 140, incluindo o expresso, o suco de cranberry de minha filha (isso virou um vício; agora, toca achar suco de cranberry por aqui) e a gorjetinha de 20%.

O único lado ruim da visita é que, em meio ao ajuntamento e à tremenda confusão do salão e da cozinha, não consegui – vejam que coisa! – identificar a chef. Mas acho que ela fez bem em mudar de carreira.


Prune

http://www.prunerestaurant.com/


enésima

04/02/2009

A Gourmet, da minha musa Ruth Reichl (afinal, de onde vocês acham que veio o nome do blog?), publicou.

O Luiz Horta, atento, citou no Glupt!

Eu apenas reproduzo para repetir, pela enésima vez, meu elogio ao jerez.

Basta seguir os links: Gourmet e Glupt!

Primeiro, a boa surpresa

02/02/2009

 

Nunca tinha ouvido falar do Sea Grill. Nem do chef Jawn Chasteen ou do chef pâtissier Michael Gabriel.

Estava fazendo minhas reservas em restaurantes, por meio do OpenTable, e bati o olho na lista dos que participariam da New York Restaurant Week.

Acho que foi o nome que me atraiu – associado, provavelmente, ao fato de que minha filha é uma pequena orca no que se refere ao consumo de peixes.

Resolvi reservar. Minha mulher e eu ainda combinamos: vamos ver como é e, conforme for, desmarcamos. Ok.

Vimos o lugar e achamos bonito. Fica num piso inferior, no meio do Rockefeller Center. Você chega a ele por um elevador.

O salão, discreto, bonito e elegante, dá para a famosa pista de patinação do Rockefeller. Caso você vá lá, inclusive, previna-se: sua filha vai querer patinar depois do almoço e você, claro, vai deixar.

Lá dentro, executivos. Mais executivos. E, ainda, executivos. Nenhum casal. Nenhuma criança. Fora minha mulher e eu, fora minha filha. Era nosso primeiro restaurante decente em NY e não sabíamos ainda que as crianças novaiorquinas não freqüentam restaurantes.

Pedimos o menu da Restaurante Week: entrada, prato principal e sobremesa por US$ 24,07 – uma referência ao ritmo da cidade, que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana.

O restaurante, no espírito da semana, oferecia 25% de desconto nas garrafas de vinho. Claro! Pedimos um pinot grigio básico, que não fez feio.

De entrada, minha mulher quis o cappuccino de cogumelos selvagens; minha filha e eu ficamos com o tartare de salmão curado com iogurte e pepinos.

O cappuccino era delicioso – mesmo para quem não é muito fã de sopas e cremes em geral (meu caso). Denso, forte, intenso.

E o tartare de salmão, coberto por wasabi fresco, foi a primeira grande surpresa que o Sea Grill ofereceu. Muito, muito saboroso. Muito. Muito mesmo. O iogurte e o pepino, suaves e frescos, o wasabi, picante na medida, dialogavam com o salmão e pareciam intensificar o sabor dele.

A coisa prometia.

Vieram os pratos principais.

Truta sobre cama de abobrinha crua ralada e couve-de-bruxelas para minha mulher. Grelhada (afinal, grill está no nome da casa), úmida, gosto de fogo – este estágio primal, a que tanto retornamos. Deliciosa, macia. No ponto preciso (ou seja, ela saiu da grelha vários minutos antes do ponto em que a maioria dos restaurantes brasileiros, pródigos em torrar peixes, costuma servi-los).

Um combinado de sushi e sashimi para minha filha. Nada demais, mas os peixes eram variados e saborosos.

Mas o meu (há, há!) era o melhor: hake na chapa com escarola e molho vermelho ligeiramente picante e fresco (red curry, segundo o menu; mas um amigo indiano já me ensinou que curry não existe).

Você sabe o que é hake? Pois é, eu também não sabia. O garçom me explicou que tinha sabor próximo do bacalhau (fresco, claro) e eu resolvi arriscar. Só depois descobri que hake é merluza. E que merluza! Digo, que hake! De novo, o wasabi fresco dava o tom no diálogo com a carne forte e delicada do peixe. Ai, ai. Queria trazer um estoque de hake para casa, mas acho que a alfândega não autorizaria.

Para sobremesa, uma boa torta de limão com sorvete de baunilha (da casa e de verdade: feito com a fava) e um ótimo, ótimo (ótimo!) ganache de chocolate amargo com sorvete de laranja assada, acompanhado de peras cozidas no mel.

Serviço corretíssimo e gentilíssimo e conta final de US$ 150 (com vinho, suco de cranberry para minha filha e a gorjeta de 20% – para não apanhar do garçom), o que é caro para os padrões paulistanos, mas bastante razoável em Nova York – você gasta isso em qualquer biboca.

Saímos do calor do salão e da comida para os cinco graus negativos da cidade e, enquanto minha filha patinava no gelo, eu ainda sentia o gosto de começar nossas peripécias gastronômicas com uma boa surpresa.

Dias depois chegaria à conclusão de que devia ter cancelado a reserva no db bistrot moderne, de Daniel Boulud, e voltado ao Sea Grill. Pena que não fiz isso. Mas essa é outra história.


Sea Grill

http://www.patinagroup.com/east/seaGrill/


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