Eu queria ser judeu.
Talvez seja influência de Borges, autor que mais leio e que passou a vida – afirmou mais de uma vez – buscando a ascendência judaica que seu sobrenome português podia oferecer.
Talvez seja pelo gosto de autores judeus – Philip Roth à frente – que esmiúçam um universo confuso de relações comunitárias e a percepção do mundo própria de uma cultura cujos contornos geográficos se dissolveram aos poucos.
Cultura que pôde – apesar disso ou exatamente por isso – estabelecer um diálogo incomum entre tradição e renovação. Que se mantém em parte fixada nas origens para entender a complexidade do mundo e, em parte, busca novos itinerários e percebe as mudanças constantes de que toda tradição depende, nesses tempos de modernidade, para sobreviver.
O fato é que – não importa o motivo – eu queria ser judeu.
Passei anos lendo literatura judaica. Desde catataus, como O físico, até os volteios narrativos de Amós Oz. Das incomparáveis construções de personagens de Bernard Malamud ao mundo de relações pessoais carcomidas dos textos de Isaac Bashevis Singer. Dos policiais de Harry Kemelman a histórias do povo judeu.
Enfim, tudo que me passou ou passa por perto.
Numa das mais emocionantes viagens que já fiz, quase quinze anos atrás, conheci o gueto judeu de Praga e visitei a sinagoga, cuja imagem ainda está na minha retina – pela força, pela dor, pela disposição de persistência.
Mas a questão nunca foi religiosa. Nunca é. É cultural.
É a busca de uma expressão que, no senso comum de um goy, parece homogênea, mas não é. É diversa, plural, multifacetada.
Por isso sua literatura é tão intensa. Por isso sua comida é tão incrível.
E durante anos comi essa comida, preparada maravilhosamente pela Cecilia, no Bom Retiro e em Higienópolis.
Íamos sempre à casa da rua Tinhorão, que ainda hoje, quando visitamos o restaurante que ocupa o mesmo imóvel, ativa lembranças. Cecilia se espantava com a capacidade de minha filha devorar, sozinha e aos cinco anos, um arenque inteiro de entrada. Ela chamava Lia pelo diminutivo, a convidava para subir à cozinha e lhe dava raspas de chocolate do ótimo bolo que fazia.
Quando o restaurante fechou, Cecilia nos ligou e deixou um recado triste na secretária eletrônica. Depois, ainda conversamos por telefone e ela nos preparou a melhor ceia de Natal que já fizemos. No próximo Natal, a procuraremos de novo, claro.
Contradição religiosa? Não. É gastronomia.
Por tudo isso, para nós é tão atraente e tão difícil entrar num restaurante judaico. Nunca vai ser como era, claro. As coisas mudam – assim é a vida.
E talvez por isso, embora gostássemos, nunca nos empolgamos com o AK Delicatessen.
Sempre faltava alguma coisa. O serviço era um pouco desatento? O preparo derrapou aqui e ali? Tudo parecia mais significativo do que suporíamos numa outra casa. Era um bom restaurante? Claro, Andrea Kaufmann é muito talentosa. Mas não era o Cecilia… Não era aquele mundo exato que eu via nos livros e a que eu queria pertencer.
Ontem voltamos ao AK.
Comemos o couvert, que é sempre ótimo, com seu patê de fígado, o pepino e a salada de ovos, tudo acompanhado de pães caseiros frescos e crocantes.
Queria comer o magret na calda de cereja com mandioquinha e arroz negro, mas ele tinha saído do cardápio. O stinco de cordeiro, que em visita anterior decepcionou um pouco, também.
Pedimos, então, o medalhão de filé enrolado em pastrami sobre mix de cogumelos e batata fininha frita. Fabuloso. Os cogumelos vieram saborosos, plurais como a cultura que Andrea representa. A carne, saborosa e macia.
E pedimos as vareniques de mandioquinha, preparadas em manteiga noisette e acompanhadas de macadâmia. É a única varenique que, na minha imaginação, se equipara à da Cecilia. Precisa dizer mais? É perfeita.
Para a sobremesa, minha filha manteve a tradição de comer o sorvete, feito na casa, de frutas vermelhas. Minha mulher preferiu o brownie. Ambos deliciosos. Mas eu me saí melhor, com o pain perdu, muito bem montado num potinho e recheado de frutas. Doce, bem doce, mas maravilhoso.
Fechamos com um Nespresso ristretto (bem) tirado curto, e saímos felizes.
Nunca havíamos comido tão bem no AK.
Será que foi sorte? Acaso? Será que o restaurante ajustou melhor seu funcionamento?
Será que as coisas mudaram de fato? Ou eu é que percebi que ia a um restaurante pensando em outro?
Porque nenhuma objetividade analítica consegue ultrapassar nossos pequenos gestos inconscientes que, tantas vezes, se impõem aos olhos, ao tato. Ao paladar.
Não, nunca serei judeu – embora continue querendo.
Sim, continuarei a ler literatura judaica.
Sim, continuarei a lembrar com uma saudade incrível do Cecilia e, se algum dia, ela reabrir seu restaurante, estarei lá para a inauguração, e muitas vezes depois.
Sim, Andrea Kaufmann é uma chef muito talentosa e compreende o contraste entre tradição e renovação que talvez componha a tradição judaica melhor do que qualquer outra.
Sim, voltarei mais vezes ao AK.
Rua Mato Grosso, 450, Higienópolis, SP
tel. 55 11 3231 4497
Como chegar lá (Guia 4 Cantos): AK Delicatessen