Arquivo para Março, 2009

AK

29/03/2009

Eu queria ser judeu.

Talvez seja influência de Borges, autor que mais leio e que passou a vida – afirmou mais de uma vez – buscando a ascendência judaica que seu sobrenome português podia oferecer.

Talvez seja pelo gosto de autores judeus – Philip Roth à frente – que esmiúçam um universo confuso de relações comunitárias e a percepção do mundo própria de uma cultura cujos contornos geográficos se dissolveram aos poucos.

Cultura que pôde – apesar disso ou exatamente por isso – estabelecer um diálogo incomum entre tradição e renovação. Que se mantém em parte fixada nas origens para entender a complexidade do mundo e, em parte, busca novos itinerários e percebe as mudanças constantes de que toda tradição depende, nesses tempos de modernidade, para sobreviver.

O fato é que – não importa o motivo – eu queria ser judeu.

Passei anos lendo literatura judaica. Desde catataus, como O físico, até os volteios narrativos de Amós Oz. Das incomparáveis construções de personagens de Bernard Malamud ao mundo de relações pessoais carcomidas dos textos de Isaac Bashevis Singer. Dos policiais de Harry Kemelman a histórias do povo judeu.

Enfim, tudo que me passou ou passa por perto.

Numa das mais emocionantes viagens que já fiz, quase quinze anos atrás, conheci o gueto judeu de Praga e visitei a sinagoga, cuja imagem ainda está na minha retina – pela força, pela dor, pela disposição de persistência.

Mas a questão nunca foi religiosa. Nunca é. É cultural.

É a busca de uma expressão que, no senso comum de um goy, parece homogênea, mas não é. É diversa, plural, multifacetada.

Por isso sua literatura é tão intensa. Por isso sua comida é tão incrível.

E durante anos comi essa comida, preparada maravilhosamente pela Cecilia, no Bom Retiro e em Higienópolis.

Íamos sempre à casa da rua Tinhorão, que ainda hoje, quando visitamos o restaurante que ocupa o mesmo imóvel, ativa lembranças. Cecilia se espantava com a capacidade de minha filha devorar, sozinha e aos cinco anos, um arenque inteiro de entrada. Ela chamava Lia pelo diminutivo, a convidava para subir à cozinha e lhe dava raspas de chocolate do ótimo bolo que fazia.

Quando o restaurante fechou, Cecilia nos ligou e deixou um recado triste na secretária eletrônica. Depois, ainda conversamos por telefone e ela nos preparou a melhor ceia de Natal que já fizemos. No próximo Natal, a procuraremos de novo, claro.

Contradição religiosa? Não. É gastronomia.

Por tudo isso, para nós é tão atraente e tão difícil entrar num restaurante judaico. Nunca vai ser como era, claro. As coisas mudam – assim é a vida.

E talvez por isso, embora gostássemos, nunca nos empolgamos com o AK Delicatessen.

Sempre faltava alguma coisa. O serviço era um pouco desatento? O preparo derrapou aqui e ali? Tudo parecia mais significativo do que suporíamos numa outra casa. Era um bom restaurante? Claro, Andrea Kaufmann é muito talentosa. Mas não era o Cecilia… Não era aquele mundo exato que eu via nos livros e a que eu queria pertencer.

Ontem voltamos ao AK.

Comemos o couvert, que é sempre ótimo, com seu patê de fígado, o pepino e a salada de ovos, tudo acompanhado de pães caseiros frescos e crocantes.

Queria comer o magret na calda de cereja com mandioquinha e arroz negro, mas ele tinha saído do cardápio. O stinco de cordeiro, que em visita anterior decepcionou um pouco, também.

Pedimos, então, o medalhão de filé enrolado em pastrami sobre mix de cogumelos e batata fininha frita. Fabuloso. Os cogumelos vieram saborosos, plurais como a cultura que Andrea representa. A carne, saborosa e macia.

E pedimos as vareniques de mandioquinha, preparadas em manteiga noisette e acompanhadas de macadâmia. É a única varenique que, na minha imaginação, se equipara à da Cecilia. Precisa dizer mais? É perfeita.

Para a sobremesa, minha filha manteve a tradição de comer o sorvete, feito na casa, de frutas vermelhas. Minha mulher preferiu o brownie. Ambos deliciosos. Mas eu me saí melhor, com o pain perdu, muito bem montado num potinho e recheado de frutas. Doce, bem doce, mas maravilhoso.

Fechamos com um Nespresso ristretto (bem) tirado curto, e saímos felizes.

Nunca havíamos comido tão bem no AK.

Será que foi sorte? Acaso? Será que o restaurante ajustou melhor seu funcionamento?

Será que as coisas mudaram de fato? Ou eu é que percebi que ia a um restaurante pensando em outro?

Porque nenhuma objetividade analítica consegue ultrapassar nossos pequenos gestos inconscientes que, tantas vezes, se impõem aos olhos, ao tato. Ao paladar.

Não, nunca serei judeu – embora continue querendo.

Sim, continuarei a ler literatura judaica.

Sim, continuarei a lembrar com uma saudade incrível do Cecilia e, se algum dia, ela reabrir seu restaurante, estarei lá para a inauguração, e muitas vezes depois.

Sim, Andrea Kaufmann é uma chef muito talentosa e compreende o contraste entre tradição e renovação que talvez componha a tradição judaica melhor do que qualquer outra.

Sim, voltarei mais vezes ao AK.

AK Delicatessen

Rua Mato Grosso, 450, Higienópolis, SP

tel.  55  11  3231 4497

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): AK Delicatessen

Notas de leitura

26/03/2009

*

No Paladar de hoje, a boa notícia: o Così de Renato Carioni abre na próxima terça, dia 31 de março.

A ótima e breve experiência de Carioni no comando do Famiglia Melilli mostrou que é possível servir comida italiana de primeira por preços razoáveis.

Que venha o Così e que tenha sucesso.

*

O Sal, que já comentei mais de uma vez por aqui, recebeu duas resenhas bastante elogiosas entre ontem e hoje.

No blog do Luiz Américo Camargo, do Estado, e do Julio Bernardo, do restaurante Sinhá.

Eu, o infiel

25/03/2009

Já prometi a mim mesmo, não sei quantas vezes, que nunca mais voltaria à Deli Paris, na Vila Madalena.

Até escrevi a promessa aqui no blog, em novembro do ano passado.

E, de lá para cá, juro que a cumpri.

Até hoje, quando minha vocação para a infidelidade comigo mesmo se manifestou.

Deixei minha filha na escola, em Santa Cecília, e dirigi para Pinheiros. No meio do caminho, a promessa (e a necessidade) de um café da manhã.

Ao cruzar Vila Madalena, tive a idéia: e se eu voltasse à Deli Paris? Afinal, aquele croissant…

Lá fui eu para a rua Harmonia.

Estacionei, entrei e fui prontamente atendido. Uau!

Pedi o croissant e… descobri que não tinha. A máquina quebrara. Ai.

Me conformei com um pão com manteiga (pouca e mal distribuída), um cappuccino com canela suficiente para afastar vampiro e um espresso curto que ocupava a xícara até a borda.

Fui para o caixa cabisbaixo, paguei a conta e pedi a nota paulista.

A mesma que já me foi recusada, lá, inúmeras vezes sob os mais variados pretextos.

E adivinhe? O computador também quebrara e a caixa não podia emiti-la.

Culpa da Deli Paris?

Claro que não. Tudo por lá continua igual.

Eu é que tinha que aprender a cumprir o que prometo.

Bem feito, bobo.

No segundo dia

22/03/2009

Um restaurante que acaba de abrir tem que ser avaliado com muita cautela.

Afinal, muita coisa tem que ser colocada no prumo antes de vermos se ele vale ou não a pena, se tem futuro e razão de existir, ou não.

Apesar de sabermos de tudo isso, não resistimos.

Tínhamos acompanhado a reforma da casa que fica a uns trinta metros da entrada do nosso prédio e estávamos curiosos para saber do que se tratava.

Achávamos que seria um bar. Ontem, quando finalmente o vimos em funcionamento, percebemos que era um restaurante.

E hoje fomos lá. Segundo dia de funcionamento.

Não sabíamos o nome, a proposta, nada. Entramos, sentamos, olhamos o cardápio improvisado e só depois perguntamos como a casa se chamava.

Bola Preta, contou um garçom.

O nome meio estranho alude, nos explicou a gerente Rose, a um bloco de carnaval carioca.

Mas o cardápio, felizmente, não é carnavalesco. Prevalece um tom português, com vários pratos à base de bacalhau. O chef passou pelo Supremo e pela Casa Europa, de onde também veio o dono.

Pedimos bolinhos de bacalhau de entrada (3 reais cada) e, como principais, arroz de polvo (28 reais) e robalo no molho de limão (38 reais).

O garçom, após algumas conversas com um colega, voltou à mesa para explicar que o robalo vinha sem acompanhamentos. Parece que o Dalva & Dito está fazendo escola.

Então acrescentei ao pedido uma porção de legumes grelhados (mais 8 reais).

O vinho pedido, um italiano do Veneto (sem especificação de produtor na carta improvisada), não foi encontrado. Ficamos com um Alamos Chardonnay, em meio à lista composta basicamente de rótulos da Mistral e que tem um sobrepreço de cerca de 70%.

Os bolinhos eram gostosos e bem preparados, embora fossem bem pequenos e o gosto do óleo estivesse mais presente do que o desejável. Um ajuste que não deve demorar para ser feito.

Os pratos principais demoraram. Muito. Muito mesmo. Cerca de uma hora, até que perguntássemos o que estava acontecendo e soubéssemos que um erro do serviço fizera com que fossem servidos para outra mesa.

Restava esperar mais. Esperamos e, para tanto, recebemos (finalmente) os pães e azeite que havíamos visto nas outras mesas.

Quando vieram, estavam, no geral, bons. O polvo, muito macio e saboroso. O arroz era parco e muito úmido (sobrando muito caldo no fundo do prato). O tomate prevalecia na base.

O robalo (na chapa, e não na grelha como informava o cardápio) chegou no ponto exato: macio, tostado por fora e quase cru por dentro. Algo raro em São Paulo. Os legumes que o acompanhavam eram gostosos – principalmente a berinjela. Mas faltava o molho de limão que o cardápio prometia. Nem sinal dele.

Entre as sobremesas, preferimos o pudim de leite (correto e pouco doce, mas um tanto inexpressivo) e o petit gâteau com sorvete (gostoso, com sorvete sem graça).

No final, uma conta de 209 reais (três águas, além das comidas e do vinho).

Balanço geral? Alguns (e previsíveis) problemas. O serviço está mal informado do cardápio e bastante confuso. O pão do couvert, comprado na padaria que fica a um quarteirão do restaurante, é o pior da região. A cozinha cometeu um erro bobo ao não colocar o molho de limão no peixe – afinal, a única coisa que o acompanhava era exatamente o molho. E não tem sentido cobrar 38 reais por um prato que, na prática, é uma posta pequena de robalo levada à chapa com um pouco de sal. Por esse valor, o acompanhamento devia estar, obrigatoriamente, incluído.

O tamanho das porções, aliás, merece atenção. Elas são pequenas – menores do que as de casas que cobram o mesmo preço (ou menos) e oferecem a mesma (ou melhor) qualidade. Isso faz com que o preço final fique mais alto do que deveria.

Mas vale lembrar: hoje é apenas o segundo dia de funcionamento da casa.

O serviço certamente será afinado. O risco de erros – principalmente os que enfrentamos hoje – tende a diminuir e a cozinha provou que sabe executar.

Se o Bola Preta ajustar seu padrão de preço, então, poderá pegar. Tomara.

Assim nós teremos um bom restaurante a menos de 30 metros de casa. Uau!

Bola Preta

Na esquina da Rua José Maria Lisboa com a Alameda Campinas

Jardim Paulista, SP

Bom, barato e inteligente

19/03/2009

Comida tem que ser, em primeiro lugar, boa de comer.

Comida boa pode ser cara ou barata. Em São Paulo, quase sempre é cara.

Embora preço seja subjetivo e circunstancial.

Gastar 300 reais por cabeça – no Jun, por exemplo – é trocá-los por um prazer e algumas horas de tremenda satisfação.

Desperdiçar 20 – ou pior, 150 – numa biboca que serve uma porcaria revolta.

Voltei ao Sinhá no domingo passado para comer bem e barato.

Houve época em que trabalhava bem perto e almoçava lá sempre.

O tempo passou, meu emprego mudou e só de vez em quando provava o trivial bem montado do chef Julio Bernardo.

Chef Julinho, como gosta de ser chamado, é um polemizador na gastronomia paulistana. Por conta disso, parece que colecionou inimigos e adquiriu fiéis adeptos.

Eu, que vivo em outro mundo, não me interesso por essas brigas. As do mundo em que trabalho já são suficientemente encarniçadas e baldias para que eu não precise recorrer a outras. Resumo-me a ler o que ele escreve em seu concorrido blog. Às vezes, concordo; outras vezes, não. Às vezes rio, em outras me irrito. É assim a vida.

Mas me interesso pela comida que ele serve por 30 reais, no almoço de domingo, e um pouco menos durante a semana.

Me interesso por sua proposta – sim, tem uma – de recuperar pratos da cozinha regional brasileira, executá-los de forma que contornem os riscos do super-aquecimento de um bufê e oferecer variações inteligentes de alguns preparos, incorporando ingredientes e combinando tradições e tempos.

Me interessam os legumes pouco cozidos do bufê de saladas, que mantêm a crocância e o sabor do ingrediente de boa procedência. Me interessa seu pãozinho de tapioca, que pode vir acompanhado do chutney de manga, cheio de gosto da fruta.

Me interessam os deliciosos chips de abobrinha – que minha filha (que não gosta de abobrinha) adorou.

Ou o escondidinho de carne seca, um dos melhores pratos – superior, por exemplo, ao Baião-de-dois, que estava um tanto inexpressivo, e à boa-mas-não-empolgante costelinha barbecue.

Me interessa o bife ancho, saído da grelha do fundo do salão e melhor que o de muita churrascaria bacana por aí: macio, saboroso, grelhado no tempo e no ponto certo.

Na sobremesa, o inventivo e bom tiramisù de rapadura, puxado no álcool. O brownie de chocolate branco com castanha do Pará e sorvete de framboesa é doce demais para o meu gosto, mas é fácil perceber que é bem concebido e preparado. Sem contar o leve e delicado pudim de leite – que tem o óbvio, mas tantas vezes perdido, gosto de leite.

Para fechar, um expresso bem tirado.

Tudo isso antes de pedir a conta de 120 reais (dois adultos e uma criança – que paga metade do valor do bufê) e sair de lá caminhando pela rua dos Pinheiros com a sensação do bom e do barato, da comida honesta, que concilia idéias novas e ocasionais adaptações de clássicos com execução correta. Comida que vem – algo raríssimo num bufê – no ponto certo de cocção.

Comida – que mais dizer? – muito boa de comer.

Sinhá

Rua Antonio Bicudo, 25, Pinheiros, São Paulo

Tel.  11  3081 4627

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Sinhá

Que Brasil?

15/03/2009

Brasilidade é um conceito complicado. Não à toa, foi debatido por mais de cem anos, desde a independência e até a metade do XX.

Na verdade, identidade, seja qual for, é complicada. Porque ou ela é natural – e nesse caso não cabem discussões: temos que nos conformar – ou é uma construção, e daí não pode ser tomada como absoluta e irreversível.

Natural não é. Então, temos que assumir sua condição instável, variada, oscilante. Temos que saber que cada época, cada grupo social, cada localidade constrói o perfil identitário que lhe apraz. E que ninguém é dono ou senhor da brasilidade.

A produção cultural brasileira se esforçou titanicamente por caracterizar essa tal brasilidade até os anos 50. De lá para cá, salvo por meia dúzia de acadêmicos e uns políticos baldios, o tema saiu de moda. Para reaparecer trinta anos depois, em meio ao debate gastronômico.

E hoje, 2009, a discussão culinária continua quente. A comida brasileira passou a ter pais e mães, que combatem, às vezes raivosamente, outros interessados em assumir a origem e a paternidade do que é digerido em terra tupiniquim.

Só que não existe exame de DNA para identidade nacional – muito menos para comida nacional.

Ainda mais num país como o Brasil que, política e culturalmente, sempre preferiu sublimar as diferenças, ignorar que qualquer identidade era impossível e inventar caricaturas de si mesmo.

Tudo isso vem à cabeça em meio às polêmicas recentes sobre que restaurante é mais brasileiro. No termômetro da brasilidade, uns defendem o Mocotó; outros, o Lá em casa. Há, ainda, quem exclua o foie, por francês, e lembre que coisa nossa é a mandioca – se estivéssemos no Peru, nos restaria comer milho.

Pode também aparecer alguém para dizer que a verdadeira gastronomia era a indígena, e que daí em diante é pura afetação. Ou, ao contrário, afirmar que nada havia antes que Mara Salles ou Alex Atala pusessem a mão na massa (de tapioca, é claro).

Também é curioso ver certas tipologias da culinária nacional, produzidas por sociólogos e historiadores de plantão, que se esforçam em criar taxonomias da brasilidade na cozinha, diferenciando quem a pratica, numa escala que vai do naïf ao modernista, do regional ao assimilador, do colonial ao contemporâneo.

Ou acompanhar a glorificação da espontaneidade e da precariedade por aqueles que empunham armas contra quem pesquisa e inova. Ou observar a celebração de ídolos – idolatria: outra velha marca dessas terras – sob a forma de carne grelhada, torresmo ou feijão.

Para que tudo isso, meu Deus?, pergunta meu paladar.

Porém meus olhos, cansados de um debate inócuo, da beligerância das abstrações intelectuais e das vaidades pessoais, não perguntam nada.

Os olhos se limitam, vez ou outra, a lembrar que se algum signo consegue contemplar, e precariamente, os dois séculos de Brasil independente é o da diversidade e – melhor ainda – o da tolerância. Mas também eles não são plenos ou definitivos.

Lembrar que podemos nos perder em meio aos labirintos de um romantismo ingênuo ou de um modernismo ultrapassado. Ou na ânsia do absoluto e do definitivo.

Lembrar que a arrogância nacionalista produziu mais monstros do que identidades. E que conceitos podem se impor a ingredientes, e derrotá-los.

Talvez por isso – e apoiados enfaticamente pelo paladar – meus olhos se recusem a julgar em termos sociológicos e datados o que a boca, logo ao sul, mastiga.

Por isso, eles podem considerar que um foie com uva e cachaça é “comida brasileira” – se o rótulo interessar a alguém.

E que pequi, brasileiro ou não, não tem graça.

Adeus, SPRW

14/03/2009

A SPRW está acabando. Nos despedimos dela ontem à noite, no Boa Bistrô.

O Boa é simpático e barulhento. Independentemente da SPRW. Também é quente em algumas mesas, como a nossa.

E é melhor que fique quente porque a alternativa é um ventilador, diretamente voltado à mesa. Duas vezes ligaram, duas vezes pedimos que desligassem antes que pães, pratos e gentes voassem.

Junto com um casal de amigos, tomamos uma das poucas opções de vinhos de dois dígitos da carta e comemos o ótimo couvert, com pães saborosos e crocantes, queijo temperado com wasabi e pasta de couve.

Na hora da comida, nos dividimos entre o gazpacho com lula sautée, melado e pimenta thai e a terrine de quinua com shitake e crocante de alho porró.

Boas, no gazpacho, eram as lulas, macias e delicadas. A pimenta estava desaparecida e a sopa propriamente dita, excessivamente ácida.

A terrine, bem preparada, tinha apresentação bonita, com cobertura de gelatina, mas pouco gosto. Quinua, afinal – essa mania que tomou São Paulo de assalto.

Na hora dos principais, provamos de tudo. Nossos amigos pediram o correto bife ancho com purê de batata com alho e saladinha de tomate e o espaguete com botarga. Corretos y no más.

Minha mulher e eu ficamos com o pintado com purê de banana, ervilha torta sautée e molho de limão.

E divergimos quanto ao resultado.

O pintado dela veio no ponto; o meu passou e já mostrava os sinais de enrijecimento de um peixe maltratado.

Ela também recebeu um purê uniforme. Eu, um encaroçado, com um pedaço grande e aparentemente esquecido de banana no meio (não acho que seja intencional; se for, não deu certo: ficou feio e estranho).

Perseguição?

Não, porque a ervilha torta – o melhor que tinha diante de mim – estava deliciosa para os dois.

E o molho de limão pecava igualmente pela acidez exagerada.

Para fechar, mousse de chocolate com gengibre. Boa textura e saborosa. Se o chocolate fosse amargo seria melhor. Se tivesse mais gengibre, melhor ainda. Mas estava boa.

Um expresso curto corretamente tirado e um serviço atencioso.

Foi o melhor da Semana? Não. Nem foi perfeito.

Mas tudo correu bem e todos, por ali, saíram satisfeitos (eu, um pouco menos, mas fazer o quê?). É a prova dos nove.

Boa Bistrô

Rua Padre João Manoel, 950, Jardim Paulista, SP

tel.  11   3082 5709

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Boa Bistrô

Na boca da Loba

12/03/2009

Mario Batalli tem um monte de restaurantes, espalhados por meia-dúzia de cidades.

Em Nova York, o mais famosos deles é o Babbo, caro e famoso, que chegou a ganhar quatro estrelas da Ruth Reichl em 98.

Mas não fomos lá. Fomos jantar no Lupa, a “trattoria dos sonhos” – segundo Gael Greene. Comida romana tradicional, bem executada.

Casa relativamente pequena, com decoração que evoca, de maneira elegante, a Itália. Não, nada de camisa pendurada no teto ou cacho de garrafas vazias. Nem latão em profusão.

O menu da Restaurant Week só funcionava para o almoço; então, recorremos ao cardápio regular.

O primeiro garçom era um tanto blasé. Felizmente, se mandou e foi substituído por uma moça atenciosa e simpática. Garçom blasé – espécie que prolifera aqui em São Paulo – é dose.

Não pedimos entrada – para desespero de minha filha, que viu chegar uma porção linda de prosciutto crudo à mesa ao lado, justamente quando nossos pratos estavam para vir.

Ela esticou os olhos, quase os braços. Por pouco não caiu da cadeira e escorregou na saliva farta que lhe escorria pelos cantos da boca.

Minha mulher comeu uma perca com lentilhas e espinafre. A potência da cozinha italiana com a precisão da execução.

Preferi uma rabada com polenta, salsão e passas. O salsão, crocante. A polenta, com queijo, era leve e saborosa. A carne conciliava delicadeza com consistência e sabor intenso. Das melhores.

Minha filha, após a decepção do prosciutto não-pedido, teve que se conformar com o spaghetti no molho de tomate sugerido pela garçonete. Se conformou?

Não. O molho era um pouco picante e ela não tolerou.

Trocamos de prato. Ela comeu até o fim a rabada, sob o olhar espantado da garçonete, que a parabenizou pelo paladar.

Obrigado. Só que eu fiquei com o spaghetti… Bom? Claro. Saboroso e obviamente no ponto exato. Mas não era um oxtail…  O que não se faz por uma filha?

O bom sorvete de tangerina da sobremesa perdia apenas para os cantuccini com vinsanto. Excelentes.

Para acompanhar a refeição um Salice Salentino (um toque sulista sempre cai bem) típico e intenso.

Conta? 150 dólares, incluído o suco de cranberry , as taxas e a gorjetinha de 20%.

O jantar valeu cada um deles.

Pena, apenas, que não nos deixaram levar o estoque restante de vinsanto, cantuccini e oxtail… E uma porção tamanho orca do prosciutto que nem provamos, mas que devia estar ótimo.

Lupa

http://www.luparestaurant.com/restaurant.html

SPRW, passado e presente

08/03/2009

As escolhas que fazemos diante de tantas opções da SPRW podem ser curiosas.

No início, tinha a intenção de ir a restaurantes a que habitualmente vou pouco, a que fui uma vez ou outra.

Era uma chance de tirar dúvidas ou melhorar a imagem que tinha deles, a baixo custo.

No entanto, cardápios inexpressivos ou dificuldades de horário me fizeram procurar alguns mais conhecidos.

Em parte por isso fui parar no Tordesilhas.

O Tordesilhas está na história da minha vida, e isso faz tempo.

Por algum motivo, ainda me lembro de um distante ano, lá na passagem dos 80 para os 90.

Eu morava sozinho e, aos domingos, saía para almoçar com meus pais.

Um dia, eles me falaram de um restaurante que havia aberto pertinho de casa. Eram uma mãe e uma filha que cozinhavam e serviam comida regional brasileira.

Ficava numa rua sem saída, embaixo de um flat, a dez ou vinte metros do prédio em que moravam duas tias velhinhas de meu pai.

Resolvemos experimentar. E foi ótimo.

O lugar era acanhado, mas simpático. O atendimento, gentil. A comida, incrível.

Ainda não tínhamos, em São Paulo, um restaurante de comida regional que não servisse uma comida exagerada nos temperos e na quantidade. Ou, pelo menos, eu não conhecia.

Meu pai, que foi um cozinheiro bissexto e extraordinário, saiu de lá espantado. Ele, que comia pouquíssimo e raramente doces, quase pediu para repetir o sorvete de cupuaçu com calda de banana.

Aliás, salvo engano, foi a primeira vez na vida que provei cupuaçu – o início de uma paixão.

Depois disso, voltamos várias vezes. O Tordesilhas se tornou nosso restaurante preferido para os almoços de domingo.

Passou o tempo, meu pai ficou doente, deixou de sair de casa e, há sete anos, morreu.

Minha mãe hoje sai pouco, mas de vez em quando vai conosco a algum restaurante e, há uns seis meses, a levamos ao Tordesilhas.

Só que o flat da rua Ouro Branco ficou para trás, trocado por uma casa charmosa na Bela Cintra.

Mara Salles ficou famosa e se tornou referência para a reinvenção da gastronomia brasileira.

O sucesso por que torcemos há quase vinte anos se consumou, com todo o mérito possível e imaginável.

E ontem à noite comemos de novo a boa comida do Tordesilhas, quem diria?, em plena SPRW.

Bolinhos de pernil na calda de tucupi, frango no molho de jabuticaba com purê de mandioquinha e ervilha torta, picadinho na ponta da faca com arroz, feijão, banana-da-terra, farofa e ovo-pochê, temperado à mesa com pimenta-bode. De sobremesa, pudim de tapioca com baba de moça.

Comentar a comida depois desse retorno ao passado é difícil.

Digo apenas que estava tudo bom e que o bolinho de pernil foi o melhor da noite.

Embora o sabor do frango estivesse parcialmente encoberto pelo molho de jabuticaba e o pudim de tapioca, doce demais. Embora tenham nos alojado, com uma desculpa esfarrapada, numa mesa para dois (éramos três), e depois acomodado outros trios em mesas para quatro.

Tudo estava bom e bem preparado, em respeito ao cliente da SPRW.

E, sem que soubessem, em respeito ao passado de clientes que acompanham a vida de um restaurante.

Acho que também por isso fui parar no Tordesilhas.

Tordesilhas

Rua Bela Cintra, 465, Consolação, SP

tel.  11  3107 7444

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Tordesilhas

E a SPRW melhorou

06/03/2009

Tem sido difícil aproveitar a SPRW. Restaurantes lotados, que recusam reservas.

Pessoalmente, isso é ruim. Coletivamente, é bom.

Mostra que os restaurantes não estão engessando suas mesas, para variar mais o público.

Mostra que as pessoas estão aproveitando a oportunidade de pagar mais barato por comida melhor elaborada.

Mostra que muita gente que habitualmente não freqüenta bons restaurantes está aproveitando a chance.

Mostra que, se os preços abaixassem um pouco, a freqüência aumentaria muito.

Tomara que sirva de exemplo.

Individualmente, não consegui arrumar meus horários para ir, por exemplo, ao AK ou ao Sal.

Liguei para o Marcel, que também não aceitou reserva, mas que orientou para chegar por volta das 19, dizendo que ainda seria possível nos acomodar.

Normalmente não vou a restaurante sem reserva. Ao contrário da maioria dos paulistanos, não gosto de fila e de espera.

Mas arriscamos. Chegamos lá e o maître nos acomodou na única mesa que ainda estava disponível – às 19.

O garçom perguntou se aceitávamos o couvert. Aceitamos. Claro que ele não faz parte do preço da SPRW, mas vale a pena.

Pedimos, de entrada, a brandade de bacalhau e palmito pupunha. Ao contrário do que previa o cardápio, felizmente não veio com vinagrete de azeitonas pretas. Mas, infelizmente, tampouco trazia os chips de presunto cru. Uma torrada fina e uma folha de erva cidreira a completavam.

Estava ótimo e comemos com prazer e rapidez.

Enquanto esperávamos os pratos principais, o couvert foi reposto e o devoramos novamente .

Para principal, minha mulher e minha filha preferiram a truta com emulsão de alho porro e abobrinhas. Eu fiquei com o ravióli de lingüiça e pinoli.

Ambos estavam deliciosos. Bem concebidos, bem executados. Com muito sabor e sem excessos. Comida boa. Ponto. Não sobrou uma gota nos pratos.

Para a sobremesa, minha mulher e eu ficamos com a crème brulée de maracujá e minha filha preferiu o sorvete de baunilha com calda de frutas vermelhas. Bons.

Raphael Despirite, o chef, ainda veio à mesa perguntar se tínhamos gostado da refeição – como faz quando comemos a degustação. Isso é respeito pelo cliente – independentemente de quanto ele está pagando, se está aproveitando uma promoção ou não.

Ou seja, SPRW respeitada, clientes respeitados, restaurante merecidamente cheio.

O Marcel, que já era bom, está cada vez melhor.

E reparei que o foie com uva na cachaça retornou ao cardápio. É o melhor da cidade. Portanto, assim que acabar a SPRW e as coisas ficarem mais tranqüilas, volto lá para comê-lo.

Pode estar complicado para aproveitar a SPRW, mas saímos de lá com a sensação de que, mesmo se não formos a mais nenhum restaurante nessa semana, ela já valeu a pena.

Marcel

Rua da Consolação, 3555

tel.  11  3064 3089

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Marcel