Arquivo para maio, 2009

Così Così

31/05/2009

 

A amiga e leitora Carola me enviou um comentário sobre o Così.

O que ela conta coincide com vários relatos que tenho ouvido sobre o restaurante novo de Renato Carioni.

Por isso, resolvi publicá-lo aqui (e agradeço, de saída, à Carola):

“Fomos ontem ao Così; diga-se de passagem… bem Così  così !!!

Como estávamos em 2 e não tínhamos reservado a mesa do chef (4 a 6 pessoas) não podíamos pedir o menu degustação!

Resolvemos fazer a nossa degustação.

Pedimos uma taça de espumante para começar a olhar o menu (só tem espumante Casa Valduga).

De antipasto, pedimos o ovo mollet (com lentilhas, molho cremoso e foie gras). Estava bem feitinho e saboroso, um prato bem de inverno, com bastante pancetta.

O primo piatto foi uma decepção. Pedimos a lasagna de pato com cogumelos e abóbora. O pato parecia carne louca e o cogumelo estava sem sabor; acho que  a abóbora passou correndo, pois não a vi nem senti, mas a massa estava no ponto.

Como secondo, fomos de paleta de cordeiro com caneloni de pimentão recheado de cuscuz marroquino. A paleta estava extremamente macia, mas o acompanhamento não agradou: o pimentão atrapalhou o vinho que levamos (um Barbaresco – R$ 30 a rolha) e não gosto de cuscuz doce (com damasco, uvas passas etc.).

Devíamos ter pulado a sobremesa, pois não deu para comer o cheesecake de doce de leite. A massa parecia biscoito Maria com bastante manteiga; o recheio eu não sei o que era, mas definitivamente não nos agradou. Raspamos o doce de leite da cobertura e só!

Conta R$ 180 o casal – custo beneficio bem Ok para São Paulo.

O restaurante é bem bonito, adorei ficar vendo a cozinha e, no andar de cima, um cara fazendo a massa a noite inteira!

No final das contas, acho que o Chef Renato vai se dar bem lá, já que o bairro ao lado (Higienópolis) tem alto poder aquisitivo e carência de restaurante italiano!

Serviço meio confuso, mas gentil.”

Lost in Lisbon

29/05/2009

 

Na noite em que fomos jantar no Jun, mas o Jun não foi (vide post anterior), nos vimos perdidos, sem pai, nem mãe, na Rua Lisboa.

O que fazer? Pretendíamos beber um espumante no Jun. Por isso, estávamos sem carro.

Quais as opções? Vagar de táxi, à procura de um restaurante? Voltar para casa e pegar o carro? Ir a um de nossos “restaurantes de segurança” (aqueles onde sempre comemos bem)? Não sabíamos.

Entramos num táxi, meio sem rumo. Rodamos cinqüenta metros e vimos a Genova – “culinária regional italiana”. Pagamos o valor da bandeirada, descemos, entramos na trattoria.

As cenas e diálogos a seguir, verídicos!, resumem e ilustram nossa noite.

Personagens

A: minha mulher

B: eu

C: o garçom

Abrem-se as cortinas.

Cena 1: O cardápio

A (meio indignada): Só tem massa seca? Nenhuma fresca? Como assim? O Pasquale está fazendo escola!

B (preocupado): É…

A (um pouco mais indignada): Como pode ser “culinária regional” se não tem massa fresca?

B (um pouco mais preocupado): É…

A (um pouco mais tranqüila, após um bom gole do Primitivo di Manduria, da Masseria Trajone, com sobrepreço honesto): Você já resolveu o que vai pedir?

B (em dúvida): Não sei, pensei na pasta alla Norma, mas já comi uma no domingo, na Tappo. Não sei… Epa, mas o que um prato siciliano está fazendo no cardápio de um restaurante genovês?

A (duvidosa): E a lingüiça toscana?

B (meio indignado): E por que não tem troffie, que é da Liguria, onde fica Gênova?

A e B (espantados): Gozado…

Cena 2: O serviço

A (ainda inconformada, mas esperançosa): Vocês têm algum prato do dia?

C (categórico): Temos, sim, senhora. Nhoque e Ossobuco…

[A sorri ao ouvir "nhoque"; B saliva ao ouvir “ossobuco”]

C (continuando): ... mas nhoque, hoje, não tem. Nhoque é só na quinta.

[A fica novamente decepcionada]

B (ainda interessado): Acho que vou pedir o ossobuco.

C (esclarecendo): Não tem ossobuco…

B (sem entender nada):

C (arrematando): Ossobuco é só no sábado.

[A e B se olham um tanto aparvalhados e pedem a C mais tempo para escolher]

Cena 3: Hora de comer

[A finalmente pediu Fusilli com mollica (miolo de pão torrado, esfarelado e refogado com anchova, alho e pimenta), rúcula, azeite, sal grosso, e ervas;

B finalmente pediu “Bavette ao pesto genovese”: azeite, alho, manjericão, pinoli, manteiga, pecorino e parmesão.

Ambos esperam os pratos e conversam. Ficaram relativamente satisfeitos com a escolha. Pelo menos foi o mais próximo de algo genovês que havia no cardápio. Enquanto esperam, bebem o vinho e comem o pão italiano do couvert, com sardela agradável, mas muito líqüida, e manteiga carregada de alho. Chegam os pratos]

A (sentindo-se segura): De vampiros, estamos protegidos. Dá para sentir o cheiro do alho do meu prato?

B (sentindo-se seguro): Dá. Do seu e do meu. E do da mesa vizinha.

[A e B começam a comer com a sensação de que estão envoltos numa nuvem de vapor de alho]

B: Forte para cachorro, o meu. Mas saboroso.

A: O meu também. Mas a mollica é boa.

[Passam-se alguns minutos]

A: É, está bem feito. Massa no ponto. Mas acho que não chego ao fim. Está muito forte.

B: Pois é, o meu também.

[Passam-se mais alguns minutos]

A (exausta): Nossa, vou parar. Por que tanto molho, meu Deus? E tão forte…

B (guloso, já sem massa no prato, mas com uma grande quantidade de molho): Vou comer um pouco desse molho com pão…

[Ambos finalmente param de comer. B, mais guloso (ele ainda não sabe que depois se arrependerá disso), come todo o molho restante, com pão. A e B decidem provar o pudim de pão, como sobremesa. Acham o pudim gostoso, embora excessivamente doce. Dão um sorriso. Até esqueceram que foram jantar no Jun e o Jun não foi. Pagam a conta de 180 reais e acham que o jantar foi razoável, mas o preço é um pouco mais alto do que deveria. Saem, pegam o táxi de volta para casa]

Cena 4: Nel letto

[Caro leitor, se você se empolgou com o título porque imaginou que ele antecipava descrições detalhadas de safadeza, está redondamente enganado. São 4 da manhã no apartamento de A e B. A, que é um anjo e sabe a hora de parar de comer um prato exagerado no tempero, dorme o sono dos anjos. B, que foi guloso, não consegue esquecer do molho, que ele teve a ousadia de comer até o fim. Percebe que o jantar não foi ruim, mas que ele cometeu um erro grave e que o molho não lhe sairá do estômago se não se levantar. Levanta-se, sai do quarto, encosta a porta e, cabisbaixo, vai para o escritório, onde se senta à frente do computador e começa a trabalhar umas quatro horas antes do que pretendia. Antes de abrir o Word, ainda se pergunta, baixinho: ]

B (indagativo): Por que o Jun não foi? Por que a cantina se chama Genova? E por que eu tinha que comer aquele molho até o fim???

Fecham- se as cortinas.


Genova

Rua Lisboa, 346, Pinheiros, SP

tel. 11 3064 3438

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Genova

Que coisa!

28/05/2009

Claro que compreendo que imprevistos acontecem.

Só queria que não acontecesse tanto.

Há mais ou menos um mês, resolvi jantar no Jun. Tinha uma grana a mais e fazia quase um ano que não ia lá.

Liguei para reservar e soube que naquele dia ele não iria.

Paciência.

Tentei de novo há coisa de duas semanas. E ele também não estaria naquele dia.

De novo? Azar.

Finalmente reservei para ontem. No ato da reserva, além dos esclarecimentos de praxe, confirmamos duas vezes o número de meu telefone.

Chegamos lá um pouco antes da hora, fomos conduzidos ao balcão e nos sentamos.

Para ouvir a explicação da hostess de que o Jun precisara se ausentar e não poderia preparar a degustação.

Outro chef a faria. Epa. Nada contra ele, claro. Não tenho dúvida de que seria bom.

Mas eu queria o Jun. Por isso reservei no balcão.

Por que não nos avisaram? Tentamos durante toda a tarde, disse a hostess.

E deve ser verdade. Só que (depois verificamos) a moça tinha anotado um número de telefone errado, apesar da dupla confirmação.

Por que só na tarde do próprio dia é que tentaram avisar?

Não sei. E não sei o motivo da ausência, nem me cabe avaliá-lo.

Sei que é chato, bem chato. Decepcionante.

Tentamos reagendar para hoje. Não deu. Fomos embora.

Quando tentarei de novo, não sei.

Afinal, foram três tentativas em cerca de um mês.

Que coisa.

Três italianos

24/05/2009

1. Luiz Américo Camargo falou do Picchi no blog e deixou um rastro de tremenda inveja: cacio e pepe e prime rib suíno…

2. Arnaldo Lorençato falou do Così na Veja SP de ontem. E deu vontade de voltar lá…

3. Mais perto de casa (e aberta no domingo), voltei à Tappo, em ritmo solo – algo que não fazia há tempos. A pasta alla Norma estava correta, embora eu a prefira um pouco mais apimentada e com uma ricota mais expressiva. Mas as duas pontas do almoço foram de deixar saudade. O cheesecake caprino com calda de amora (e uma tacinha de vinsanto no acompanhamento) estava maravilhoso: textura, sabor, teor de doçura. Tudo. Mas o auge do almoço foi a entrada: moela e fígado acebolados, com uva na cachaça. Não comia um fegato tão bom desde que a antiga Venitucci fechou as portas. Para acompanhar, o Pasodoble, do ramo argentino da Masi. Agora, soneca. Boa noite, digo, boa tarde.

Difícil é comparar

20/05/2009

Difícil é comparar

Por coincidência, comi recentemente em duas das chamadas cantinas paulistanas.

Numa delas não entrava há anos – uns dez.

Na última vez que fora lá, encontramos uma grande quantidade de cabelos no prato de minha mulher. Avisamos o garçom.

Ele olhou com ar de perito, analisou e, categórico, constatou: “É loiro. Na cozinha, são todos morenos.” Deu as costas e foi embora, deixando o mistério no ar.

Minha mulher e eu ficamos furiosos. Pagamos a conta (integral) e, na saída, paramos para conversar com o dono do restaurante, figura famosa. Relatamos o episódio e ouvimos explicação ainda mais contundente: “Isso é normal. Pode acontecer em todo lugar. Quem não quer que isso aconteça, vai ao Fasano.”

Não queríamos que acontecesse; então, não voltamos mais lá. Mas tínhamos absoluta certeza de que muitas casas (além do Fasano) serviam pratos calvos.

Pois é. Até que, três ou quatro semanas atrás, um amigo me convidou para jantar lá e era irrecusável (pelo amigo). Fui, recebi uma massa no ponto e não encontrei nada no prato – fora o que devia estar lá. Menos mal.

A outra cantina que visitei recentemente é bem melhor. Uma das melhores de São Paulo. Tem massa própria, algumas boas idéias no cardápio, um ambiente sem camisa no teto e maus cantores esgoelando, num italiano precário, ao lado da mesa.

Fui lá no Dia das Mães com minha mãe, irmã, cunhado e sobrinhos. Almoçamos massas corretas.

Nos dois casos, contas baixas, se comparadas às dos restaurantes que normalmente freqüentamos: uns setenta reais por pessoa (só água).

Mas se o preço conta, outras coisas também contam. A qualidade dos ingredientes. O sabor – ah, o sabor, que não pode ser banal. O serviço, minimamente atento. A execução, que não demonstre sua pressa e ocasional desleixo na textura da comida. A aparência, que não traga indícios de visita ao microondas para compensar algum problema na sincronização. A sobremesa, que seja diferente do pavoroso pavê de chocolate que comi numa delas. O café, expresso e não aguado. A carta de vinhos, que tenha… vinhos.

Tudo aquilo que diferencia um bom restaurante de um restaurante dispensável.

Ao sair de lá, pensei que havia visitado, nos dias imediatamente anteriores, o Picchi, o Maní e o Marcel.

Como não comparar?

Sim, sei que a proposta é outra, que são universos culinários distintos.

Mas a inevitável comparação torna cada vez mais difícil ir a casas que, por cinqüenta reais a menos, não oferecem boa comida.

Pato na Tappo

16/05/2009

 

A primeira vontade de voltar ao Tappo aconteceu quando o Júlio Bernardo recomendou, no Twitter, o pato de lá.

A segunda foi hoje cedo.

Fazia uma semana que só comia salada. Adoro salada, mas temi enlouquecer. Ou pior: virar vegetariano.

Acordei, tomei banho e fui à escola da minha filha. Ótimo sábado literário, com direito a um lindo sarau de lindos poemas. No meio da confusão de gentes e livros, vi de longe o Benny Novak, cujos filhos também estudam lá.

Troquei olhares cúmplices com minha mulher e decidimos silenciosamente onde iríamos almoçar.

A Tappo foi aberta há uns dois anos e, no início, oscilou um pouco. Depois se consolidou, com massas de primeira e um dos mais agradáveis ambientes de São Paulo: simples, aconchegante, charmoso.

Mais barata do que o Ici, outra casa de Novak, a Tappo não é uma trattoria lá muito ortodoxa. Começa com a mezuzá na porta e prossegue com os toques peculiares de alguns pratos.

O couvert, no entanto, é 100% italiano. Pão, azeite e sal. Não precisa mais se o trio for bom. E, no caso, é. Ainda mais para quem estava de regime…

Outra das coisas boas da Tappo é a lista de vinhos da casa, sempre bons e em doses variáveis. Ia tomar sozinho: fiquei com 250 ml do pinot noir da Viña Carmen.

Depois, uma boa massa com sardinha para minha filha e o magret de pato com risoto de feijão verde para minha mulher.

O molho de tomate estava mais picante do que o paladar da Lia suporta; então ela avançou no prato da mãe. Mãe – sabe-se disso – é mãe. Se considerarmos que também roubei umas fatiazinhas do magret, podemos dizer que esposa é esposa…

Risoto como poucos de São Paulo: granudo sem ser pesado. Arroz exato. E ótimo, o pato.

Quase pedi minha massa favorita: a pasta alla Norma – que, boa, é rara em São Paulo. Mas ando numa fase suína (exceto no que tange a assuntos futebolísticos, é óbvio); por isso, fui no carré de porco com repolho roxo e maçã. À parte, couve-flor gratinada com curry.

O molho do porco é ótimo e só perde para o próprio porco, fabuloso. Para meu gosto, um dos dois melhores de São Paulo. O repolho e a maçã, ótimos.

A couve-flor é boa e o curry é presente, mas não tão forte. Só que eu dispensaria. Acho que o prato já se completa sem o anexo.

De sobremesa, o óbvio: cannoli, para lembrar minha paixão siciliana. Massa fina, crocante, sequinha. Perfeito. Prefiro o recheio mais tradicional, sem o chocolate, mas não tenho como reclamar do que vem dentro dos três tubinhos por pessoa servidos na Tappo.

Para fechar, o Nespresso bem tirado curto e uma conta justa de 220.

São Paulo tem poucos restaurantes italianos bons e não caríssimos – já falei isso aqui no blog. Mas eles são bem bons.

Comer um pato na Tappo, além da sonoridade meio trocadilhesca, é uma boa pedida. Se vier com massa, porco e cannoli, nem se fala.

Amanhã ainda tenho um almoço decente. Depois, toca voltar para a salada…

Tappo Trattoria

Rua da Consolação, 2967, Cerqueira César, SP

tel. 11  3063 4864

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Tappo

A vida é…

15/05/2009

… um combate com o demônio nas grutas e cavernas do cérebro. (Ibsen)

Às vezes, só uma manzanilla ajuda.


Perfeito

07/05/2009

 

A Gael Green diz que é o melhor restaurante de Nova York. O Anthony Bourdain, também.

As quatro estrelas dadas pelo New York Times confirmam – uma delas, nos tempos da Ruth Reichl. Aliás, é o único restaurante que recebeu as quatro estrelas três vezes.

Le Bernardin, claro.

Nos despedimos da cidade, em janeiro, com um almoço lá.

O Bernardin é dedicado aos frutos do mar e o chef, Eric Ripert, um dos mais respeitados da cidade.

Salão bonito, discreto, florido e elegante. Louça, cristais e talheres excelentes.

Uns três sommeliers circulando entre as mesas. Atendimento de dois garçons por mesa: atentos e precisos, sem o desagradável estilo pegajoso e bajulador de alguns restaurantes chiques de São Paulo.

A casa propõe preço fechados por pessoa, com direito a escolher, dentre as opções do cardápio, uma entrada, um prato principal e uma sobremesa. No almoço, 68 dólares; no jantar, 109. Algumas das escolhas implicam acréscimos (por exemplo, se você quiser acompanhamento de caviar iraniano…).

Compare com os preços dos melhores restaurantes de São Paulo e tire suas conclusões.

O couvert trouxe manteiga, variedade de pães (da casa, obviamente) e torradas e um tartare de salmão sem equivalente. Pensei até em perguntar se preparariam um container para que eu trouxesse para o Brasil.

A entrada que minha filha escolheu tinha salmão orgânico defumado, agrião, aipo e maçã, acompanhados por uma emulsão de jalapeño, que atenuava o picante sem eliminá-lo. Ótima.

Minha mulher pediu um atum sobre torrada com um filete de foie. O peixe e o fígado, diversamente gordos e de sabor intenso, combinavam maravilhosamente.

Mas – modéstia de lado – a melhor entrada foi a minha: um conjunto de seis ostras, com variação de tempero e de picante. Cada uma delas era um caso de polícia de tão fresca e gostosa. Tem algum adjetivo acima de maravilhoso? Se lembrarem, por favor, encaixem nesse espaço __________.

E os pratos principais?

Minha filha pediu a arraia com noodle e cogumelos secos, no molho de broto de bambu. Muito gostosa, mas picante demais para um paladar de nove anos: o prato ficou com minha mulher.

E ela então cedeu seu robalo com lagostim (ligeiramente assado), confit de tomate, consommé de bouillabaisse e emulsão (suave) de curry. Você consegue imaginar, leitor, o que é esse prato? Digo-lhe apenas que cedê-lo à filha comprova uma velha máxima: mãe é mãe.

Eu fiquei com o tamboril na panela, com tabule de cuscus israelense, alho negro e molho de lima da Pérsia. O prato valeria a pena só pelo conjunto de aromas que soltava. A lima, o peixe e o alho levam os aromas da acidez da fruta (sim, sei que acidez é sabor, não aroma, mas você sabe do que estou falando) ao discreto cheiro de cogumelo provocado pelo alho e à maresia do peixe.

Meu Deus… Na boca, o alho adoça o paladar e dialoga com a acidez (agora, sim) da lima. O preparo na panela concentra mais o sabor suave do tamboril, cuja textura firme faz subir o tom e deixa a síntese de sabores para as bolinhas de cuscus. Well…

E ainda tinha a sobremesa. Sorvete simples de baunilha para Lia. Gi preferiu a pannacotta à base de iogurte, com sorbet de romã, sorvete de limão, hortelã, raspas de laranja e bolinhas de romã. Dá certo. Muito certo. Minha sobremesa também parecia, pelo cardápio, um pouco rocambolesca. Mas era maravilhosa: tortinha de chocolate amargo, amendoim e caramelo, acompanhada de sorbet de limão com crocante de amendoim e purê de limão-meyer.

Nada a dizer, fora o fato de que tínhamos acabado de fazer uma das melhores refeições da nossa vida.

Ripert circulou pelo salão, trocou meia-dúzia de palavras com cada comensal, confirmou sua boa fama.

Tomamos um expresso e saímos à rua deliciados, após pagar a conta de 238 dólares (só água e, claro, suco de cranberry para Lia), acrescidos da habitual gorjetinha novaiorquina: mais 42.

Caro, é claro. Porém não para os padrões da cidade e, a bem da verdade, nem para os paulistanos, se considerarmos a qualidade de tudo: dos ingredientes ao serviço, da louça ao conceito, da execução ao respeito absoluto ao cliente.

Não tenho gabarito para dizer, nem conhecimento suficiente (há centenas de restaurantes novaiorquinos a que obviamente nunca fui e, entre eles, o Per Se e o Masa), mas acho que Gael Greene, Anthony Bourdain e Ruth Reichl têm razão.

Novelho novo

03/05/2009

 

Há lugares, livros e telas sobre os quais é fácil falar. De outros, não sabemos direito o que dizer.

O mesmo ocorre com restaurantes.

Penso nisso enquanto entro no Maní, e os motivos pelos quais nunca escrevi sobre as visitas a ele.

Concluo, talvez precariamente, que não escrevi porque não cheguei a uma conclusão. Ou que, se cheguei, ela é ambígua.

Explico.

A casa oferece comida muito boa? Oferece. Ingredientes de qualidade e execução precisa? Claro. Seus chefs Helena Rizzo e Daniel Redondo são bons e criativos? São. Os preços são corretos? Dentro dos valores praticados em São Paulo, sim. O lugar é bonito e agradável? Muito.

Prova disso é o Bobó do Maní que minha mulher come, diante de mim. Relido, dentro da disposição inovadora da casa, traz o crustáceo no ponto. Troca, com sucesso e felicidade, a mandioca pela mandioquinha. Redefine o lugar do leite-de-coco e ainda acrescenta cogumelos saborosos. Tudo se combina bem e o resultado geral é excelente.

Outra prova, embora mais simples, é a coalhada seca do couvert. Ou seus pães – um deles, parecido com mandiopã. Ótimos.

Terceira (e decisiva) prova de que estamos num excelente restaurante são algumas das sobremesas, como a fresca, inventiva e saborosa salada de abacaxi e rosas, que traz bom sorvete de bacuri, coco ralado e gelatina de Sauterne. Ou o flan de chocolate amargo aromatizado de laranja e canela (pouca, com a graça do Altíssimo) que, além de bom, é lúdico, em seu potinho que parece de papinha de nenê. Ambos fecham honrosamente uma refeição, antes do Nespresso ristretto, bem tirado (curto) e a preço mais baixo do que na Livraria Cultura.

Quer mais uma prova de que o restaurante é de primeira? A maravilhosa posta de robalo, diante de mim, coberta com uma farofa de migalhas, sequíssimas, que contrastam com a espuma de tucupi e banana verde (e alguns micropedacinhos de banana). O peixe, preparado à baixa temperatura, ganhou, e com mérito, o prêmio laboratório do caderno Paladar.

No entanto, no cardápio não vem especificado que o tucupi e a banana chegam sob forma de espuma. Em muitos dos outros itens, espumas e emulsões proliferam; neste, não há menção, nem a atendente explica.

E o cardápio, já lembrou o Luiz Américo Camargo outro dia em seu blog, é o contrato que firmamos com a casa. Nem que seja com letra miúda, ele deve explicar o que vamos comer.

Também por isso, ele deveria conter todos os pratos que a casa serve. Não contém e, assim, acaba por favorecer os conhecidos, em detrimento do cliente comum, que não sabe que há mais coisas entre a cozinha e o salão do que supõe nossa filosofia.

Já ouvi várias explicações sobre a ausência, no cardápio do Maní, das lichias recheadas de foie. Soube de sua existência pelo blog do Bicho e sempre me recusei a pedi-las. Republicano convicto e talvez excessivo, acho que qualquer privilégio é inaceitável – dos outros ou meu. Que é no varejo que temos de praticar a igualdade; não apenas cobrá-la dos governantes.

Mas dessa vez não resisto. Com o cuidado de antes perguntar o preço (para que o privilégio não se converta em punição), peço. E me decepciono. Ninguém me disse que era uma terrine que recheava as lichias. Também não me contaram que eram apenas três lichias que vinham, divididas ao meio, e que seu sabor se impunha com facilidade ao da terrine de foie. Calculo o custo de preparação e percebo que os 44 reais cobrados são excessivos.

Mas minha dificuldade de escrever sobre o Maní não vem do preço da lichia – que eu soube qual era e aceitei pagar (até porque quem é louco por foie, e eu sou, sabe que sempre vai gastar um pouco mais).

E, a bem da verdade, não vem nem do cardápio incompleto.

Vem do que me parece – e note, leitor, que sou um comilão amador, não um crítico profissional – uma renovação em sentido único.

Ok, explico, explico.

E antes esclareço – para o provável horror de alguns – que estou longe de ser fanático por espumas, perfumes, ares e fumaças. Que acho interessante o experimentalismo de texturas e de variação de estado. Que sei das fabulosas inovações de Adrià e de alguns de seus seguidores. Que sei, também, que ele se cansou das espumas e, antes dele, parte de seus súditos.

Acho, porém, que mesmo que fosse entusiasmado por emulsões em geral e similares, ainda assim acharia que Rizzo e Redondo poderiam aproveitar seu incrível talento de maneira mais plural – mantendo o foco, mas sem basear mais da metade de seu cardápio em procedimentos técnicos correlatos ou pertencentes a uma mesma lógica.

Repito: apesar de escrever tanto, não sei o que dizer do Maní. Gosto muito de lá e voltarei tantas vezes quanto puder e meu orçamento permitir – a conta final de 257 reais (só água) é honesta e facilita.

No entanto, fico com a impressão de talento desperdiçado ou excessivamente marcado por uma tendência que, em breve, se apagará, deixando certas marcas e, talvez, algumas piadas.

Lembro-me de um escritor da vanguarda peruana do início do século XX que, após experimentar na ficção tudo que poderia experimentar, olhou para seus colegas que insistiam em se dizer inovadores e repetir as mesmas inovações por anos a fio e constatou: Os termos que falam do novo envelheceram.

É por isso, acho, que demorei tanto a falar do Maní e o faço agora com todo o cuidado do mundo. Não queria, sinceramente, que a fabulosa culinária de Rizzo e Redondo, tão inovadora, envelhecesse rápido.

Maní

Rua Joaquim Antunes, 210, Jardim Paulistano, SP

Tel.  11  3085 4148

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Maní

Duas cenas

03/05/2009

A curiosa

No final de um jantar no Maní, peço a Nota Paulista.

A moça demora; noto que luta contra o computador.

Finalmente, chega à mesa e conta que houve um problema no sistema e não pôde emiti-la. Emitiu a normal, sem CPF.

Mas garante: a nota da próxima conta de mesmo valor que for paga na casa será emitida com meu CPF.

Sem saber o que dizer, agradeço e saio.

A exemplar

Chego para jantar no Picchi. Na porta da casa, duas vagas.

Nem cogito usá-las. Não quero estragar o jantar com um bate-boca prévio com o manobrista sobre o direito de parar na rua.

Apenas desço do carro, abro a porta para minha filha, enquanto o manobrista abre a de minha mulher.

Agradeço e entrego a chave.

Ele me sugere: O Senhor não quer estacionar aqui mesmo?

Surpreso, aceito e completo: Preciso, então, acertar o carro.

E o manobrista arremata: Se esperar um pouco, arrumo e o senhor já pode levar a chave.

Espero 30 segundos enquanto ele estaciona corretamente meu carro, me devolve a chave e deseja um bom jantar.

Não tenho coragem de falar que, com a atitude dele (que devia ser comum, mas é rara), o jantar já começou bem.

Sem saber o que dizer, agradeço e entro.

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