Arquivo para Junho, 2009

Roux

28/06/2009

Muitas vezes temos preguiça de provar lugares novos. E com razão. De cada oito – indica a AlhoData – apenas um paga a pena.

Por isso a desconfiança se misturava com a curiosidade com que chegamos ao Roux, pertinho de casa. Chegamos, inclusive, cedo demais, e tivemos de fazer hora até o restaurante abrir.

Sentamos e recebemos o couvert. Manteiga temperada, azeite e três tipos de pão: um bolinho e uma trança adocicados e pão salgado. Bons, mas melhor foi a observação do garçom: os pães, as massas e os sorvetes são da casa. Depois ainda saberíamos que o couvert não é cobrado.

Alívios numa cidade em que trattoria que só serve massa seca ganha prêmio e onde pãozinho murcho e gelado com manteiga industrializada supostamente valem 10 ou 15 reais.

Pedimos a polenta com lagostim (uma entrada) para minha filha. Minha mulher preferiu o medalhão com molho de mostarda, batata com queijo no forno e legumes. Eu queria o ossobuco. Mas não tinha; então, fiquei com o lombo de leitão, acompanhado de torta de batata com alecrim, maçã caramelada e pimenta.

Não provamos o picci, massa que está presente em muitos itens do cardápio e que terá de esperar a próxima visita.

Os pratos, bastante fartos, vieram bem preparados e correspondiam à descrição do cardápio. Saborosos, com ingredientes de boa procedência e execução correta. Meu lombo levou o troféu de melhor prato da noite, embora o medalhão estivesse quase à sua altura.

A carta de vinho, com sobrepreço de 100-110% nos rótulos mais baratos, ofereceu um agradável cabernet sauvignon uruguaio, Cepas Nobles (72 na carta; 33 na importadora), que acompanhou bem nossos pratos.

O serviço é um pouco atrapalhado, mas educado e atencioso. O único deslize ficou por conta de não terem avisado que o prato de minha filha era apimentado – o que a levou a abandoná-lo. Na verdade, era o resultado mais fraco dentre o que provamos. Bom o ragu de lagostim, mas com polenta flocuda e fraca.

As sobremesas pedidas também não ficaram à altura dos pratos quentes. Os sorvetes, em que pese o voto de louvor por serem caseiros, eram medianos. Fraco, o de baunilha, embora feito de fava. Apenas razoável, o de chocolate branco. Bom, bom mesmo, estava o de cardamomo, que acompanhava e fez valer a pena a dacquoise de café, cujo pão de ló carecia de maciez.

Para fechar bem, café Illy, meu favorito. A conta ficou em honestos 218.

No teto, lustres bonitos sugeriam um estilo clássico atualizado. No conjunto, a decoração da casa segue a mesma linha e simboliza a comida do chef Arthur Sauer. Sem recorrer (com a graça do Altíssimo) a emulsões, esferificações e componentes sintéticos em profusão, pratica uma culinária de risco menor (mas nem por isso fácil) e bastante correta. Sabe ler e adequar receitas tradicionais, dá toques pessoais e mostra consistência. Promissor.

Ou seja, se seguirmos fielmente a proporção indicada pelo AlhoData, os próximos sete serão ruins… Tomara não.

Roux

Rua Ministro Rocha Azevedo, 1101 , Jardim Paulista, SP

Tel. 11  3062 3452

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Roux

Piscidade

22/06/2009

Minha mulher e eu estamos na meia-idade.

A expressão é feia e cafona, mas otimista: sugere que ainda viveremos o mesmo tanto que já vivemos. Pas mal.

Para alguns, meia-idade é a idade do réptil: você começa a enrugar e sente mais frio, principalmente nos extremos – daí ser também a idade da meia.

Para outros, é a idade do lobo ou da loba, cuja voracidade por carne jovem e tenra se acentua, às vezes no limite do ridículo.

Nós preferimos evitar a reptilização ou a lupanização. Meia dúzia de valores e alguns cuidados físicos ajudam.

No entanto, cada vez mais nos damos conta de que estamos na idade do peixe, piscidade.

Não, não melhoramos em natação, nem passamos a soltar bolhas. E tomamos o cuidado de observar se andam brotando guelras e escamas pelo corpo.

Também na nossa filha, que está na primeira idade, embora acredite estar na segunda.

Porque cada vez mais comemos peixes e outros animais marinhos.

Nessa semana mesmo, fizemos seis refeições seguidas com esses animais.

A melhor delas foi a do domingo, dia em que completamos onze anos de casados (sim, casamos tarde para os padrões brasileiros) e, para comemorar, fomos comer… bichos do mar!

Num dos melhores, talvez o melhor restaurante de pescados de São Paulo. Com uma chef muito talentosa: Bella Masano.

Amadeus.

Ele não aparece tanto na mídia quanto deveria, nem é muito lembrado quando se fazem as listas do que temos de melhor por aqui. Vez ou outra ganha um prêmio – como o da Vejinha, no ano passado. Menos, porém, do que merecia.

Primeiro, o couvert gostoso, com pães, manteiga, creme de abóbora, beterraba, trouxinha de polvo e pastel de camarão.

Minha filha enlouqueceu com o pastel e pediu mais um ao garçom. Gentil, ele trouxe outros três; ela, sem titubear, deu cabo deles. Depois ainda enfrentou os dois saborosíssimos filés de truta com palmito pupunha grelhado e abobrinha em cubos e crisps.

Minha mulher e eu optamos pela “sinfonia de camarões”, uma degustação do crustáceo que quase provoca uma overdose das boas: camarão grande com fundo de alcachofra (puxada demais no limão, ficou com o sabor encoberto); o incomparável cuscus de camarão de lá (do qual andava com uma saudade brutal), com folhas verdes; sorvete de tangerina como tira-gosto; camarão rosa na grelha com shitake, acompanhado de azeite de alho com raspas crocantes de alho; camarão gratinado com ervilhas (frescas) e palmito; camarão grande com molho de tomate, azeitonas pretas e manjericão, acompanhado de arroz de azeitonas pretas.

O sabor do bicho era, em todos os pratos, intenso: camarão de primeira, com preparo cuidadoso e deixado no ponto de cocção exato, sem enrijecimento ou perda daquela maciez e textura de semi-cru. Meu preferido foi o grelhado com shitake e alho. Dispensaria o molho e acompanhamento do último prato (bem feitos e saborosos; o problema é comigo: não sou fã de azeitona preta).

O Muscadet de Sèvre et Maine sur Lie funcionou bem com os pratos e tinha preço razoável em meio à caríssima carta, que me impediu de pedir o Riesling em que fui pensando. Talvez valha mais a pena recorrer à opção de vinho em taça, extraído das máquinas.

A sobremesa de nossa degustação era um straciatelli (com frutas secas, castanha, mel e sorvete sem-graça de creme) crocante e com doçura na medida. Minha filha preferiu o ótimo prato de morangos flambados com nêspera e sorvete.

Para fechar, Nespresso acompanhado de uvas cobertas de chocolate, telha e chantilly. Tudo muito bom.

O serviço, de resto, deve ser dos melhores de São Paulo: desde a gentileza de quem atende o telefone para a reserva até o cuidado de quem orienta o cliente ao estacionamento (gratuito, diga-se de passagem) e a atenção curiosa de colocarem um saquinho de lixo no carro. Sem contar que, pela primeira vez na minha vida, ouvi um garçom oferecer a nota paulista.

Chegamos em casa e corri para o espelho. Será que, além de guelras, escamas, não estavam surgindo em meu rosto longos bigodes e olhos protuberantes?

Será que uma casca rosada se formava ao redor do meu corpo, decretando minha definitiva metamorfose em animal marinho?

Não notei nada de diferente. Até agora, continuo humano, demasiadamente humano. Meia-idade, humanidade integral. Mesmo assim, preferi escrever e publicar o comentário logo. Para dizer como é bom, como é muito bom, como é ótimo, o Amadeus.

A única coisa que não entendo é por que estou sentindo uma vontade imensa de imergir.

Amadeus

Rua Haddock Lobo, 807, Cerqueira César, SP

Tel. (11) 3061 2859

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Amadeus

Anita

18/06/2009

Foi um amigo que recomendou que eu voltasse ao Anita. Ele me disse que a instabilidade do começo já tinha passado e que a casa achara seu rumo.

Apesar das mal sucedidas visitas anteriores, fui.

Cheguei sem reserva para um almoço no meio da semana e encontrei o salão com meia ocupação. Nem lotado, nem às moscas. Bom sinal.

Pedi, para começar, uma morcilla. Boa e saborosa, bastante adocicada. Quase valia por uma sobremesa, mas funcionou muito bem para abrir o apetite (isso é forma de dizer, leitor: meu apetite está sempre aberto).

Como principal, um prato bem montado de frango com pesto, legumes e trouxinha de cabra. O pesto, corretamente separado num potinho, para que o dosássemos, estava bem saboroso e com consistência correta. No papel de legume, mini-cenouras muito bonitinhas, mas com sabor talvez suave demais.

O frango chegou em dois belos pedaços de peito, no ponto exato, macios e bem, bem úmidos. O único problema era o sabor, quase inexistente. Não se fazem mais frangos como antigamente: todos sabemos disso. Cada vez mais me convenço de que só quem tem um fornecedor 100% confiável é que devia correr o risco de servir frango.

O forte do prato estava na trouxinha, de massa fina e crocante, recheada de queijo macio e bastante saboroso de cabra. Um pequeno deslize, originado provavelmente na sincronização, apareceu na parte superior da trouxinha, que veio seca e torrada – na aparência e no sabor.

A sobremesa decepcionou. Escolhi o que parecia envolver mais conceito: uvas assadas no azeite de baunilha, com creme e telha de alecrim. Feitas com antecedência (o que foi fácil de notar: chegaram à mesa em menos de um minuto após o pedido), as uvas traziam o sabor desagradável de geladeira e o creme já ultrapassara sua consistência adequada. Salvou-se a bem pensada e gostosa telha de alecrim. Mas nem de longe valia os exagerados 14 reais.

No final, uma conta honesta de 59 reais (só água), por um almoço agradável, com serviço atencioso e simpático.

A má impressão que eu tinha da casa de fato se desfez. Mas Anita ainda não deixa saudades. Pequenos problemas aqui e ali impedem a decolagem.

A boa notícia é que o pior já passou. Meu amigo estava certo – aliás, como sempre: os maus dias do início foram felizmente deixados para trás. Mais alguns saltos e honrará uma rua que já teve um ótimo restaurante e tem outro.

Anita

Rua Mato Grosso, 154, Higienópolis, SP

tel. (11) 2628 3584

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Anita

O convite do Jun

15/06/2009

Não me escondo, nem me revelo. Gosto desse relativo anonimato.

De um ano e pouco para cá, quando comecei a levar mais a sério essa história de blog de comidas, nunca mais reservei restaurante em meu nome.

Ou melhor, reservei, sim. Uma vez, ganancioso, para aproveitar um desconto de aniversário. E, outra vez, fizeram uma reserva em meu nome. Só soube depois e lamentei.

Fora isso, gosto – repito – desse relativo anonimato. Relativo porque soube que duas ou três vezes me associaram ao blog. Fazer o quê? Não fico bem com aquelas perucas da Ruth Reichl.

E gosto porque assim não corro o risco de ter algum privilégio – prática anti-republicana que os brasileiros adoram.

Sem contar que sou tímido e fico constrangido com freqüência inadequada para minha idade.

Por isso levei um susto quando tocou o telefone aqui em casa e me chamaram pelo nome. Depois soube como descobriram, e não houve nenhuma pirotecnia.

Era do restaurante Jun Sakamoto, que pedia desculpas pelo dia em que fomos e ele, não (vide Lost in Lisbon). E nos convidava para jantar.

Minha mulher e eu confabulamos, analisamos se devíamos ou não. Aceitamos.

Mas que fique claro desde aqui, leitor, que dessa vez não houve anonimato e pode ter havido algum privilégio. Só que, se houve, não percebi. Os demais clientes do balcão foram servidos identicamente a nós.

No dia certo, descemos do táxi e atravessamos a rua, meio ressabiados. A porta nos foi aberta e minha mulher e eu fomos tratados pelo nome. Mais estranheza.

Sentamos no balcão e, enquanto esperávamos a entrada do Jun, nos foi servido um meca com creme de mandioquinha e aspargos. Uma delícia, que combinou com o Veuve Cliquot que havíamos escolhido para acompanhar os sushis.

Então Jun entrou, cumprimentou os sete clientes que estavam à sua frente e empunhou uma das facas. Começou a fatiar os animais que estavam na vitrine, na ordem exata em que estavam posicionados. E eram maravilhosos.

A seqüência foi a seguinte: atum, toro, salmão (com limão siciliano), olho de boi, meca, robalo (com shissô), linguado (com limão japonês), pargo (com shissô), arenque (também com shissô), cavalinha marinada, lula (daquela arredondada, mais espessa, com sal negro do Havaí e limão), vieiras (com sal trufado), enguia (com tarê), camarõezinhos (com limão e sal), uni (com limão e sal) e ovas de salmão.

Ufa…

Movimentos obviamente exatos. Apresentação impecável dos dezesseis sushis. Coreografia precisa com o auxiliar que fazia a finalização. Poucas palavras. Apenas um esclarecimento sobre a lula e outro sobre o quadro com malaquitas na parede.

Sabores intensos, maravilhosos, às vezes incomparáveis. Meus favoritos foram o arenque, a cavalinha e a lula. Mas o que dizer do uni ou do toro, que se desfez na boca? E dos demais? Peixe, afinal, é peixe e, quando é bom, vira um sonho.

Jun saiu de cena e nos serviram ainda um tartare de atum com foie e ovas (muito bom, mas, infelizmente, não senti o foie) e um par de ostras (carnudas e com sapore di mare, como as boas ostras sabem ser e ter) num caldo de saquê. Para minha sorte, minha mulher não gosta de ostra e só comeu uma; logo, fiquei com três. Mas comeria mais três dúzias com tranqüilidade.

Para fechar, o sorvete de maçã verde com gelatina de saquê, que é das melhores sobremesas de São Paulo – inclusive pela simplicidade.

Na hora da conta, novo pedido de desculpas e a oferta do jantar. Pagamos apenas o champagne e o serviço. Correto, profissional, gentil.

Saímos para a rua certos de que às vezes podemos abrir do anonimato. Desde que isso fique claro para quem ler o blog.

E que Jun continua a ser o melhor sushiman de São Paulo. De longe.

Jun Sakamoto

Rua Lisboa, 55, Pinheiros, SP
tel.  11  3083 0510

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Jun Sakamoto

Pura teimosia

12/06/2009

Só para provar que sou um sujeito teimoso, resolvi tomar café da manhã na Deli Paris, na segunda-feira passada.

Mesmo depois de um sem-número de insucessos.

E adivinhe? Fora o clássico atendimento péssimo, iniciado por um “O que qué?”, recebi um croissant massudo e parcialmente cru no interior. E a habitual enxurrada de canela no cappuccino.

Será que foi a última vez ou reincidirei no erro?

Pato & Caipirinha

10/06/2009

Não sei se é falha genética ou de caráter. O fato é que não gosto de cachaça.

Nem do cheiro, que me parece excessivo, invasivo. Que parece que vai me imergir num mar de doçura meio pegajosa.

Por isso, fujo de caipirinhas e similares como o diabo da cruz. E não adianta minha irmã e meu cunhado insistirem que boa cachaça é boa e que caipirinha bem feita, também.

Só que tudo – até minha ojeriza à cachaça – tem um “até que”.

Até que… eu comentasse, de passagem, com minha irmã, que as caipirinhas do Sinhá eram elogiadas. Daí para frente, ela queria, de qualquer jeito, ir lá. Inclusive porque sabia que estava fora de cogitação irmos a um bar para tomar caipirinha. Num restaurante, pelo menos (eu pensava e ela entendia), dava para encobrir logo o gosto da cachaça.

Demorou algumas semanas para que conciliássemos nossos horários de todos. Fomos, finalmente, no domingo passado.

A idéia, claro, era começar pela caipirinha. Ainda oscilei, aventei pedir com vodka, mas sucumbi. Propus à minha mulher que dividíssemos e pedi uma caipirinha de lima da Pérsia. Com cachaça.

A garçonete me perguntou com qual cachaça queria. Não tinha a menor idéia. Me vieram à mente alguns produtores de vinho e algumas marcas de whisky. De cachaça, bulhufas. Meu cunhado veio em meu socorro e foi categórico: Selecta. Ok, Selecta.

Minha irmã preferiu a de tangerina com pimenta rosa.

E, les voilà, chegaram os copos altos, bonitos e coloridos, com quantidade imensa de frutas. Menos mal. Em último caso, secaria cuidadosamente as fatias de lima e chuparia.

A surpresa é que estava boa, muito boa. A cachaça, suave, teve a boa idéia de apagar aos poucos seu aroma e manter sua presença discreta no paladar. A da minha irmã, ainda melhor, combinava a fruta com a especiaria e contrastava ambas com o sabor da cachaça. Claro que ela não ficou numa só.

Eu fiquei. Mas gostei. Claro que devo demorar para repetir (literalmente) a dose. Afinal, por melhor que possa ser uma caipirinha, continuo preferindo um vinho ou, ocasionalmente, whisky. Mas é uma opção. E considerá-la já é um grande passo – ainda mais para alguém que (por falha genética, de caráter, ambas, ou seja o que for) prefere uma certa distância daquele cheiro.

As surpresas do almoço, porém, não haviam acabado.

O bufê estava muito bom, como sempre, e o serviço muito atencioso. É difícil – exceto pela Tenda do Nilo – imaginar uma melhor refeição em São Paulo a esse preço (30 por pessoa; minha filha: 15). Queria o Sinhá perto da minha casa. Queria não ter que enfrentar, ao ir lá, a angústia de estar nas imediações da Rebouças 2659 (e não vou, claro, explicar porque esse lugar me angustia: exposição da privacidade tem limite).

Não, não foi a qualidade que me surpreendeu, nem foram os chips de abobrinha, que minha filha devora, nem os legumes crocantes, no ponto, ou o escondidinho e os grelhados bem feitos. Nem o ovo pochê, a costela macia ou o pãozinho de tapioca com chutney de abacaxi.

Foi o arroz com pato. E toca de novo a lidar com a memória, agora das inúmeras vezes em que comi o fabuloso arroz com pato que meu pai preparava – talvez a origem mais explícita de minha adoração definitiva por carne de pato.

O do Sinhá não tinha o gengibre, nem as raspas de casca de laranja que meu pai usava na receita dele, mas vinha úmido na dose certa, com o sabor do pato prevalecendo e dialogando com o restante. Muito bom.

Depois, pelo Twitter, Julio Bernardo, o chef, esclareceu que a receita do arroz de pato é da Talitha Barros, cuja comida só experimentei uma vez, no Boa Bistrô, há tempos. Bom saber.

Num almoço só, descobri que caipirinha é bebível e comi um arroz de pato muito bom. Até dispensaria o tiramisù de rapadura. Claro que não dispensei.

Na saída, o álcool da cachaça potencializava uma certa turbulência na memória – arroz de pato, avenida Rebouças. Mas eu estava feliz.

Tudo certo, afinal, na prova dos nove do sorriso pós-refeição.

Sinhá

Rua Antonio Bicudo, 25, Pinheiros, São Paulo

Tel.  11  3081 4627

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Sinhá

Llaneza

06/06/2009

Há, no espanhol, uma palavra de tradução muito difícil: llaneza.

Se você olhar o Houaiss, descobrirá que até existe um correlato direto no português: lhaneza.

Mas você já ouviu alguém falando em lhaneza por aí? Nem eu.

Llaneza, inclusive, é título de um dos mais belos poemas de Borges; poema que ele mesmo – tão autocrítico – elogiava.

O poema fala de lugares que não precisamos nos esforçar para reconhecer porque seu conhecimento é íntimo e imediato; que dispensa o restante, dispensa o resíduo. O espaço que fica da cerca do jardim para dentro, por exemplo. As relações pessoais que já estão claras e definidas – outro exemplo.

É essa llaneza que sinto quando vou a alguns restaurantes.

Às vezes, luto contra, temeroso de me acostumar demais a ela, a eles, e desistir de experimentar outros.

Outras vezes, deixo ficar, me quedo, e aproveito um tantinho a llaneza, antes de me desafiar e ir a outras partes.

Foi assim na sexta. Minha filha quis comemorar o aniversário no Sal. Restaurante já decifrado; mulher e filhas já decifradas – sempre no bom sentido, claro. Porque lugares e pessoas que importam sempre guardam algum segredo, aquele outro pedaço que continua a atrair pelo mistério, não só pela llaneza.

Fomos lá, comemos tartare de salmão, atum mi-cuit com arroz preto e pupunha – pratos já citados mais de uma vez aqui no blog – e, para ter algo de diferente, risoto de aspargos com presunto cru e brie, escolha da aniversariante.

Não tinha crisps de alho-porró no couvert. Só que, de repente, apareceu um potinho (hoje descobrimos como) e Lia o comeu vorazmente.

Outra coisa de diferente foi encontrar, na mesa ao lado, C. e F., que só conhecíamos virtualmente. Ao vivo, rendeu um bom papo. Pessoas bacanas.

Prevaleceu o clima de llaneza nas brincadeiras, trocas de adivinhas e até no sono que capturou a Lia antes da sobremesa, fechando uma semana de muita festa e brincadeira. É assim quando é llano.

Sempre bom o Sal, sempre bom estar com as pessoas que nos mostram que a vida vale a pena ser vivida. Sempre bom olhar para minha menina, que tão rapidamente chegou aos dez anos.

Llaneza: eu não conseguiria traduzir. Não encontro no português algo que indique o misto de franqueza e amabilidade que a palavra tem em espanhol.

Mas na prática, na vida vivida, entendo muito bem o que quer dizer.

Por que ir a restaurante? (parte II)

05/06/2009

Fim de maio: já estava na hora de encerrar as comemorações do meu aniversário.

Para cumprir a promessa feita no início do mês, voltamos ao Marcel, agora para a degustação.

Começamos com o habitual foie com uva na cachaça e broto de beterraba. Pequeno: só a ponta mais saborosa da peça – bem saborosa.

A segunda entrada era uma novidade para nós: gema de ovo caipira com farofa de cogumelos (batidos e rebatidos no liquidificador) e cogumelos laminados, acompanhados de brotinhos – um deles, de jambu, para encerrar o prato com uma sensação tátil diferente.

Antes do primeiro prato principal, o chef mandou um prato de cogumelos fresquíssimos, recém-chegados do Rio Grande do Sul, levemente salteados, com pinoli e emulsão de alho. O mérito do prato, no caso, foi não mexer no que já tem sabor por si mesmo. Deliciosos cogumelos.

Os pratos principais foram bacalhau e cordeiro.

O bacalhau, na textura e no ponto exato, vinha com o acompanhamento de três nhoques fritos, tomate confitado, azeite e um bolinho de batata. Para lembrar que bacalhau é um tremendo peixe, apesar de tão maltratado em restaurantes e casas de família (as nossas, por exemplo).

O cordeiro tinha um molho puxado no curry e trazia, junto, um maravilhoso folheado de raízes: mandioquinha, cará e inhame. O cordeiro estava ótimo; o folheado, melhor.

Depois, o fechamento clássico: queijo de coalho com melaço e grana padano, manga com aparência de fios de ovos e suflê de cupuaçu.

Durante a refeição toda, uma miríade de brotinhos de todo tipo passearam pelos pratos e os refrescaram, variando e combinando sabores. Que eles cresçam e se multipliquem…

Acompanhamos tudo com um Tondonia Reserva 99, de López Heredia, que ainda agüentaria com tranqüilidade uns 30 anos, mas já estava muito bom.

Conta de 280 reais; aumentamos o serviço e corrigimos o total para 300 para compensar a não-cobrança de rolha.

Maio encerrava com glória. Já tínhamos absoluta certeza de que valia muito a pena ir a restaurantes.

Tanto que começamos a planejar as comemorações de junho – mês do aniversário da nossa filha…

Por que ir a restaurante? (parte I)

03/06/2009

Por que é bom ir a um restaurante?

A pergunta, claro, pode ter mil respostas e nenhuma delas é perfeita.

Vai-se a restaurante por motivos diversos: matar a fome, mudar de ares e temperos, esconder-se, ver e ser visto, divertir-se, ostentar, espairecer, experimentar.

A lista poderia prosseguir até a eternidade e incluir verbos que indicassem gestos e ações que, individualmente, podem nos espelhar ou indignar, mas que, no fundo, são lícitos.

Confesso que vou a restaurantes por quase todos esses motivos. Não gosto de ver e ser visto (porque sou tímido), nem ostentar (porque não tenho o quê). Fora isso, assinalo todas as alternativas acima.

Nem sempre, porém, dá certo. Mas quando dá certo, dá de verdade.

Pensei nisso duas ou três vezes em maio, mês de aniversário, que, também por isso, faz a gente sair mais de casa e olhar mais para dentro.

Mas acho que só me dei conta mesmo quando li um comentário do Luiz Horta, no Twitter. Ele dizia que, numa noite e num restaurante, recuperara seu gosto de comer fora.

Dias antes eu havia ido exatamente a esse restaurante; dias depois, voltaria lá. Marcel – de que já falei nesse blog algumas vezes.

Fui lá para uma primeira comemoração de aniversário, no início de maio. Nesse dia, comemos à la carte – na verdade, já fazia uns meses que sabia o que queria comer no aniversário.

Abri com dois belos pedaços de um foie fabuloso (não tem melhor em SP – também já disse isso), com uva na cachaça e broto de beterraba (do jardim do restaurante). A noite já teria valido a pena só com ele.

O único pensamento triste que passou pela cabeça foi a piedade das pobres almas que recusam foie e fazem campanha contra ele, convictas de que bom mesmo para o planeta são a soja e a criação hormonal de frangos e salmões sem gosto.

Por falar em salmão, minha filha devastou, de entrada, um carpaccio desse mesmo animal (com sabor), defumado. Também ótimo.

Dos principais, minha mulher preferiu o cherne em cama de rosti de pupunha grelhado com aspargos (frescos) e azeite. Que dizer? O aspargo tinha maciez incrível e o sabor do cherne – taí um peixe incrível – era exuberante.

Meu confit de pato com melaço e alecrim acompanhado de bolinhos de batata conseguiria um bom posto entre os top-five patos de SP (um dia ainda faço o ranking do pato paulista; é que ainda falta um ou dois para provar…). Para meu gosto, o alecrim excedia um pouco, mas nada que atrapalhasse o prato (e o pato).

Pedimos suflê de cupuaçu de sobremesa, mas Raphael Despirite, o chef, mandou antes um suflê de açaí para provarmos. Muito bom – mesmo para quem não coloca açaí entre os cem sabores mais agradáveis do mundo. Os de cupuaçu dispensam comentários: são conhecidos e sempre maravilhosos.

Para acompanhar tudo isso, minha filha ficou na água e minha mulher e eu dividimos o Montravel que havíamos levado (Cuvée 100 pour cent 04, do Château Moulin Caresse). O restaurante não cobra rolha.

A conta final de R$ 280 reais foi para lá de boa, embora não seja real: aproveitei a promoção para aniversariantes (50% de desconto nos pratos principais) e aumentei o valor do serviço (por conta do vinho levado).

Saí de lá com a certeza de que devia voltar logo – até porque acompanhei, com o rabo do olho, a degustação na mesa ao lado. De fato, voltamos no final do mês – mas isso é tema para o próximo comentário.

Saí de lá, sobretudo, com a sensação de que descobrira uma razão a mais para ir a restaurantes. Simples e tantas vezes esquecida: ficar feliz de um jeito diferente de como (e do quanto) sou feliz em casa. Por isso, Marcel.

Marcel

Rua da Consolação, 3555, Cerqueira César, SP

Tel. 11  3064 3089

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Marcel