Nas duas últimas semanas, fui incontáveis vezes a dois tipos opostos de restaurante. Convites coincidentes de amigos me levaram a churrascarias-rodízio; a visita a São Paulo de uma cunhada vegetariana, a restaurantes naturais.
Impossível pensar em propostas mais diferentes. E os públicos, então, são radicalmente distintos. Enquanto a diversidade prevalece nas churrascarias, a clientela dos restaurantes naturais é, no geral, homogênea. Mais homogênea do que, por exemplo, a do Café de la Musique ou do Maní, embora, é claro, com outro estilo.
Nas casas que ficam no eixo Pinheiros-Vila Madalena-Pompéia, o tom é dado pelo jeito Vila Madalena de ser, e derivados. Saias longas, blusas largas, tecidos crus e cabelos modernos, calculadamente despenteados. Estilo relaxado – no bom e no mau sentido. Alguém poderia dizer “alternativo”, embora a alternativa já tenha se tornado padrão em muitos espaços. No centro ou nos Jardins, predomina o público que trabalha nos arredores. Sempre, no entanto, há muitas pessoas sozinhas e raríssimos risos. Nenhuma criança (fora, é claro, minha filha). Feições mais contraídas e aparência de seriedade, quase sisudez. Homogeneidade.
Nos rodízios é o oposto. Risos, vozes mais altas, trios, quartetos, famílias, enormes grupos de amigos. De tudo. Na visita a uma delas, esperei por um amigo por meia hora, sentado na entrada da casa. Observei atentamente os clientes que chegavam e não consegui discernir qualquer padrão. Gente carregando mala, policiais militares, cinco homens de aparência para lá de suspeita (ficaram longe dos policiais), casais comuns e exóticos, pessoas idosas acompanhadas de netos, mulheres sozinhas de meia-idade. Funcionários e burgueses, donas de casa e aposentados, jovens, adultos e crianças. Absolutamente tudo. Heterogeneidade na potência máxima.
No entanto, tanta diferença nas propostas das casas e em seus comensais acaba quando lembramos que o ponto de inflexão de ambas é o mesmo: a carne – que umas idolatram e outras repudiam. É em relação a ela, essencialmente, que definem e afirmam sua identidade. Difícil imaginar maior valorização das carnes do que nesses restaurantes.
Também a possibilidade de variação parece limitada. Claro que o bufê de saladas dos rodízios de primeira é impressionante. Poderia passar meses comendo só da mesa de frios dos melhores rodízios, por exemplo. E sempre aparece uma novidade no mundo dos cortes de carne. Do outro lado, é interessante ver algumas experiências de incorporação de traços da culinária árabe ou de aproveitamento de raízes e de frutas nos pratos salgados das casas naturais.
Mas ambos preferem, explícita e intencionalmente, se limitar. Uns para não tirar a atenção dos comensais em relação às carnes. Outros para não perder o apelo da comida saudável.
O efeito, para quem apenas gosta de comer, é que enjoa. Alguns bufês naturais oferecem quinze, vinte alternativas, mas, quando você come, só encontra dois ou três sabores diferentes porque os ingredientes se repetem ou são sufocados pelo predomínio de massas e da indefectível (e, convenhamos, bastante nociva para o ambiente) soja.
Algumas churrascarias servem o rodízio em ritmo tão frenético que, se você esquecer de, a cada serviço, mudar o cartãozinho para “não quero”, rapidamente acumula três ou quatro bichos diferentes em seu prato, igualados pelo sabor da mesma grelha, pela sobreposição das fatias e pelos caldos que restam e se misturam. Muitos naturais adotam o estilo galpão e valorizam a precariedade das condições como se fosse algo positivo. O serviço, na maioria deles, também é atrapalhadíssimo. Pouca gente, sempre correndo e trombando. Dificilmente seu suco chega antes da metade da refeição. Às vezes, você nem consegue pedi-lo.
Nos dois casos, há uma espécie de ostentação da autenticidade – no espaço, nos trajes de funcionários e clientes, na postura dos comensais. Para uns, a autenticidade do assador, estágio anterior ao do cozinheiro; para outros, a convicção de que quem evita carnes vive melhor do que quem as devora. Tudo, porém, resvala no artificialismo.
Cansa, simplesmente cansa. Por isso, depois de duas ou três visitas a essas casas, o interesse e o paladar de comilão são superados por um olhar de etnólogo e você passa a se interessar mais pelo ambiente, pelas pessoas e pelos rituais sociais que cada uma dessas casas engendra do que pela comida em si.
Longe de mim formular qualquer hipótese antropológica ou rejeitar mais um almoço nas boas casas dos dois tipos (poucas, bem poucas: contei duas de cada a que voltaria). Nem pretendo caricaturar uma ou outra clientela. Apenas continuo achando que come melhor quem varia o que come. E quem evita preconceitos ou idéias fixas.