O texto abaixo foi enviado para o debate de blogs do ciclo Entre estantes e panelas e distribuído ao público que foi assistir ao evento. É uma espécie de autopsicografia (desculpe-me, Fernando Pessoa) bloguística… Meio longo, mas vá lá.
Primeiro, preciso confessar uma coisa: nem gosto tanto assim de alhos, embora já haja gente por aí que me chame dessa forma. Nesta mesa, inclusive.
Pronto, desabafei. Passemos, então, ao mais importante: agradeço ao Carlos Dória, que me convidou e que, diante de minha primeira recusa, sugeriu enviar o texto para ser lido. Grazie tanti, professore!
Vejam: alho cai bem se for usado com parcimônia e, claro, desde que o cozinheiro não deixe soltar o óleo. Se isso acontecer, ele se torna indigesto – e uma pessoa ou um blog com esse apelido também podem provocar indigestão.
Não quero. Criei o blog numa hora de irritação com um restaurante que até já fechou, mas não acho que seja função de blogs gastronômicos espinafrar o que lhes passa pela frente. Questão número um: blog não é instrumento de vingança. Se quer mesmo se vingar, use uma faca. Se não for Ginzu, tanto melhor.
Alhos, Passas e Maçãs nasceu logo depois de um dia dos pais. Fomos comemorar a data numa casa recém-aberta, que havia sido destaque da Veja SP e do Guia do Estado. Foi horrível. Saímos de lá indignados. Cheguei em casa, sentei-me ao computador e sapequei uma carta para os dois periódicos.
A surpresa foi receber, no dia seguinte, telefonemas dos respectivos editores. Sim, meus caros. Tocou o telefone na minha casa e era o Arnaldo Lorençato, pedindo mais detalhes. Desliguei, tocou de novo e era o Ilan Kow, na mesma toada.
Percebi que não só havia vida inteligente na crítica gastronômica paulistana, como também havia honestidade e seriedade numa proporção que tenho dificuldade de localizar na minha distante área de atuação.
O episódio me estimulou a contar casos de idas a restaurantes. Ensaiei um blog no Uol (ainda está lá, com apenas mil acessos), logo abandonei. Um pouco depois, e por motivos que não contarei, retomei, dessa vez no WordPress. Surpreendentemente – e não tenho idéia do motivo – ele começou a receber muitos visitantes por dia.
Disse que não sei o motivo do aumento do número de leitores? Disse. Mas não é totalmente verdade. Tenho um palpite. E ele não se limita ao reconhecimento do óbvio: a gastronomia está na moda – para o bem e para o mal – e o interesse por textos relativos a comidas aumentou sensivelmente nos últimos tempos.
Não endosso a idéia corrente de que os blogs representariam uma alternativa à critica profissional, exposta regularmente nos periódicos. Podemos reclamar de um ou outro crítico, mas temos atualmente, pelo menos aqui em São Paulo, três ou quatro críticos bastante bons. Quando tivemos isso?
Acho que os blogs são mais um espaço de análise, e não apenas outro espaço. Nos blogs, por exemplo, é mais fácil localizar a critica sobre um restaurante do que nos arquivos de um jornal. Vou sair de casa para visitar algum lugar? Passo os olhos num blog. Voltei do jantar, satisfeito ou não? Dou uma olhadinha e cotejo minhas impressões com as expressas no blog x ou y.
Ou seja, há um dialogo do comensal com estes textos – e isso se explicita principalmente no grande número de comentários feitos por leitores.
E este dialogo tem uma característica importante – e minha hipótese do interesse por blogs gastronômicos se baseia nela. Os blogs representam uma diversificação das opiniões. Eles dão mais espaço para o dissenso. E, apesar do Brasil ser um país que tem dificuldades sérias para lidar com o dissenso, a chance de discordar e a oportunidade de contrastar opiniões são características atraentes.
Dou um exemplo. Adoro, absolutamente adoro, quando meus queridos amigos do Bicho – um de meus blogs preferidos – elogiam o Pasquale. Porque eu detesto. Fiz algumas (sim, no plural) das piores refeições de minha vida lá. Mas cada vez que eles elogiam e eu critico, estamos ambos apresentando ao leitor o contraste que a imprensa regular tem dificuldade para oferecer – e, repito, não por incompetência, mas pelos limites normais das edições. A Anna e o Demian podem colocar meia dúzia de posts elogiando o Pasquale; eu posso criticá-lo em outra meia dúzia. Que jornal ou revista poderia comentar diversas vezes um mesmo restaurante? Nenhum, obviamente. Creio que, entre tantos outros motivos, é essa diversidade que motiva a procura dos blogs.
E por que escrevo o blog? Ora, para contar histórias. O que é melhor do que contar ou ouvir histórias? Esta, a questão número dois: só escrevo quando a história é boa. Por exemplo, um dos meus melhores jantares nesse ano foi no dia 21 de julho, no Parigi. Até agora não achei um jeito de relatar. Faz sentido para mim e para minha mulher, que aproveitamos a noite. Se um dia descobrir que pode fazer sentido para outros, conto. Caso contrário, fica guardado no baú das recordações pessoais. Daí a questão três: blog não é espaço de exibicionismo. Para isso existem os shoppings, as colunas sociais e, por que não?, muitos restaurantes.
Sejamos cartesianos: a conclusão é simples. Não concebo um blog – gastronômico ou não – como espaço de opinionismo desvairado, vicio brasileiro que faz com que qualquer tema seja perguntado a qualquer um e, pior, respondido. Caetano Veloso, Kaká ou a Dona Zica, da Mangueira, não são, por exemplo, as melhores pessoas para falar publicamente de política…
No espaço privado, falamos do que queremos e como queremos. Publicamente, responsabilidade e um bom caldo de peixe são fundamentais. Isso implica certas regras de conduta – o nome correto seria ética, mas o termo anda desgastado. E o nome correto desse espaço público e do respeito a ele seria república, mas não vamos complicar as coisas, porque falar em república no Brasil é dissertar sobre algo abstrato.
Pois bem, uma das regras que adoto – e não a principal, embora talvez seja a mais notável – me obriga a lhes pedir desculpas por não ter vindo. Mas é também, creio, o que justifica que, representado, eu esteja aqui. O anonimato.
Aprendi com minha musa Ruth Reichl, cujas perucas até tentei, sem sucesso, imitar. Aprendi comigo mesmo, numa experiência de vida já quase provecta, que me ensinou que sou tímido e a lidar com isso. Aprendi ao olhar como há de fato tratamento diferenciado em muitos restaurantes. E não me refiro a um agrado do chef, que manda uma entrada ou sobremesa. Não há mal nisso. Me refiro a algo que, pensado a seco, é simplesmente mesquinho: você demorar vinte minutos para obter uma garrafa de água enquanto a mesa ao lado é cercada de atenções. Este, diga-se de passagem, não é um exemplo abstrato.
Defender o anonimato pode parecer meio anacrônico tanto tempo depois do Apicius e num momento em que o próprio New York Times o desqualificou duplamente: no presente, ao divulgar nome e foto do novo crítico, e no passado, ao minimizar os esforços de Ruth Reichl e Frank Bruni.
Anonimato relativo, porque não me revelo, mas tampouco me escondo. Está tudo lá no blog. Curiosamente – o que mostra como as pessoas lêem pouco ou não prestam atenção ao que lêem – nem minha família, creiam, sabe do blog. Sem contar que em 80% das visitas vou acompanhado de minha mulher e de minha filha, e crianças em alguns restaurantes paulistanos podem não ser tão raras quanto nos de Nova York, mas não são tão comuns assim.
Sei, por exemplo, que nos identificaram em três restaurantes. Não por acaso, são dos que mais freqüentamos. Dia desses, outro descobre. Paciência. Já disse: peruca não me cai bem. Mas ainda restam milhares de casas por aí. Muitas delas não reparam que seria mais razoável tratar as pessoas com isonomia. Epa, de novo, a expressão adequada é: de forma republicana. Porque comer não é só comer; há todo um entorno, há todo um contexto que envolve o fulano que sai para jantar três vezes por semana e aquele que economiza para uma, só uma, celebração anual. Não é óbvio que ambos merecem o mesmo respeito e tratamento?
Sem contar que em todos esses restaurante em que não sabem quem sou posso entrar com tranqüilidade, pedir um bom prato, comer com prazer e, enquanto isso, conversar com minha mulher e minha filha, meninas tão lindas, cujas opiniões interferem decisivamente nos comentários que escrevo.
Porque, no fim das contas, e mesmo pagando contas altas demais para meus parcos ganhos de assalariado, o blog não é o motivo de irmos a restaurantes. É o efeito de gostarmos de comer bem e de experimentar. Por isso, Alhos, Passas e Maçãs é um blog comilão.
É isso. Agradeço a tolerância de me ouvirem à distância. E nem conto que, enquanto estão aqui, estou comendo um tremendo pato num restaurante bem perto. Não, não sejam vingativos: não torçam por minha indigestão. Nessa casa, o chef sabe o tempo do alho.
E peço novamente desculpas pela ausência. Espero que a tenham compreendido. Dia desses, nos cruzamos num restaurante.