Arquivo para setembro, 2009

Kidoairaku

25/09/2009

 

O Kidoairaku ainda não nos arrebatou, como fez com tantos e tão confiáveis amigos. Mas reconheço: apesar de um ou outro percalço, caminha para isso.

Reservamos para as 20h30 de uma sexta e chegamos dez minutos antes. Tudo tranqüilo: a reserva era desnecessária. Obviamente éramos os únicos a falar português por lá. Cumprimentamos niponicamente o pessoal e sentamos.

De saída, pedimos duas porções de komoti shishamo, peixinho cheio de ovas que impressionou o Luiz Horta. Desde que lemos sobre o komoti, minha filha não falava de outra coisa. Dos quatro que vieram à mesa, ela deu cabo de dois: cabeça, tronco e rabo. Gostosos, mas não chegaram a empolgar.

A anchova estava no ponto preciso e muito saborosa, mas o pedaço era pequeno e oferecia pouca carne. O otoro também decepcionou, rijo e em cortes irregulares. A terceira decepção ficou por conta do karasumi, salgadíssimo e ressecado.

O serviço, claro, foi péssimo: o garoto nos atendeu com uma mão enquanto segurava o celular com a outra. De vez em quando (bem de vez em quando, porque era raro ele passar perto da mesa e ainda mais raro nos ouvir) éramos forçados a pedir sua atenção e lastimávamos atrapalhar suas ligações. Mas, bem humorados, colocamos o episódio na conta do folclore.

Agora, problemas a parte, o uni e o peixe prego… Meus caros! Provavelmente o melhor uni que já comi em São Paulo: fresco, farto, delicioso. Todo mar. E o peixe prego chegou macio, untuoso e intenso no sabor. Foram as duas delícias da noite, que nos aproximaram mais desse endereço meio escondido e que está sendo cada vez mais revelado.

No final, com uma cerveja e águas, a conta ficou em 152 reais – que não é caro, nem barato.

Voltaremos, voltaremos. Quem sabe na próxima não consigamos mais sair de lá?

Kidoairaku

Rua São Joaquim, 394, Liberdade, São Paulo, SP

Tel.  11  3207 8569

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Kidoairaku


Entre estantes e panelas – o texto

16/09/2009

O texto abaixo foi enviado para o debate de blogs do ciclo Entre estantes e panelas e distribuído ao público que foi assistir ao evento. É uma espécie de autopsicografia (desculpe-me, Fernando Pessoa) bloguística… Meio longo, mas vá lá.

Primeiro, preciso confessar uma coisa: nem gosto tanto assim de alhos, embora já haja gente por aí que me chame dessa forma. Nesta mesa, inclusive.

Pronto, desabafei. Passemos, então, ao mais importante: agradeço ao Carlos Dória, que me convidou e que, diante de minha primeira recusa, sugeriu enviar o texto para ser lido. Grazie tanti, professore!

Vejam: alho cai bem se for usado com parcimônia e, claro, desde que o cozinheiro não deixe soltar o óleo. Se isso acontecer, ele se torna indigesto – e uma pessoa ou um blog com esse apelido também podem provocar indigestão.

Não quero. Criei o blog numa hora de irritação com um restaurante que até já fechou, mas não acho que seja função de blogs gastronômicos espinafrar o que lhes passa pela frente. Questão número um: blog não é instrumento de vingança. Se quer mesmo se vingar, use uma faca. Se não for Ginzu, tanto melhor.

Alhos, Passas e Maçãs nasceu logo depois de um dia dos pais. Fomos comemorar a data numa casa recém-aberta, que havia sido destaque da Veja SP e do Guia do Estado. Foi horrível. Saímos de lá indignados. Cheguei em casa, sentei-me ao computador e sapequei uma carta para os dois periódicos.

A surpresa foi receber, no dia seguinte, telefonemas dos respectivos editores. Sim, meus caros. Tocou o telefone na minha casa e era o Arnaldo Lorençato, pedindo mais detalhes. Desliguei, tocou de novo e era o Ilan Kow, na mesma toada.

Percebi que não só havia vida inteligente na crítica gastronômica paulistana, como também havia honestidade e seriedade numa proporção que tenho dificuldade de localizar na minha distante área de atuação.

O episódio me estimulou a contar casos de idas a restaurantes. Ensaiei um blog no Uol (ainda está lá, com apenas mil acessos), logo abandonei. Um pouco depois, e por motivos que não contarei, retomei, dessa vez no WordPress. Surpreendentemente – e não tenho idéia do motivo – ele começou a receber muitos visitantes por dia.

Disse que não sei o motivo do aumento do número de leitores? Disse. Mas não é totalmente verdade. Tenho um palpite. E ele não se limita ao reconhecimento do óbvio: a gastronomia está na moda – para o bem e para o mal – e o interesse por textos relativos a comidas aumentou sensivelmente nos últimos tempos.

Não endosso a idéia corrente de que os blogs representariam uma alternativa à critica profissional, exposta regularmente nos periódicos. Podemos reclamar de um ou outro crítico, mas temos atualmente, pelo menos aqui em São Paulo, três ou quatro críticos bastante bons. Quando tivemos isso?

Acho que os blogs são mais um espaço de análise, e não apenas outro espaço. Nos blogs, por exemplo, é mais fácil localizar a critica sobre um restaurante do que nos arquivos de um jornal. Vou sair de casa para visitar algum lugar? Passo os olhos num blog. Voltei do jantar, satisfeito ou não? Dou uma olhadinha e cotejo minhas impressões com as expressas no blog x ou y.

Ou seja, há um dialogo do comensal com estes textos – e isso se explicita principalmente no grande número de comentários feitos por leitores.

E este dialogo tem uma característica importante – e minha hipótese do interesse por blogs gastronômicos se baseia nela. Os blogs representam uma diversificação das opiniões. Eles dão mais espaço para o dissenso. E, apesar do Brasil ser um país que tem dificuldades sérias para lidar com o dissenso, a chance de discordar e a oportunidade de contrastar opiniões são características atraentes.

Dou um exemplo. Adoro, absolutamente adoro, quando meus queridos amigos do Bicho – um de meus blogs preferidos – elogiam o Pasquale. Porque eu detesto. Fiz algumas (sim, no plural) das piores refeições de minha vida lá. Mas cada vez que eles elogiam e eu critico, estamos ambos apresentando ao leitor o contraste que a imprensa regular tem dificuldade para oferecer – e, repito, não por incompetência, mas pelos limites normais das edições. A Anna e o Demian podem colocar meia dúzia de posts elogiando o Pasquale; eu posso criticá-lo em outra meia dúzia. Que jornal ou revista poderia comentar diversas vezes um mesmo restaurante? Nenhum, obviamente. Creio que, entre tantos outros motivos, é essa diversidade que motiva a procura dos blogs.

E por que escrevo o blog? Ora, para contar histórias. O que é melhor do que contar ou ouvir histórias? Esta, a questão número dois: só escrevo quando a história é boa. Por exemplo, um dos meus melhores jantares nesse ano foi no dia 21 de julho, no Parigi. Até agora não achei um jeito de relatar. Faz sentido para mim e para minha mulher, que aproveitamos a noite. Se um dia descobrir que pode fazer sentido para outros, conto. Caso contrário, fica guardado no baú das recordações pessoais. Daí a questão três: blog não é espaço de exibicionismo. Para isso existem os shoppings, as colunas sociais e, por que não?, muitos restaurantes.

Sejamos cartesianos: a conclusão é simples. Não concebo um blog – gastronômico ou não – como espaço de opinionismo desvairado, vicio brasileiro que faz com que qualquer tema seja perguntado a qualquer um e, pior, respondido. Caetano Veloso, Kaká ou a Dona Zica, da Mangueira, não são, por exemplo, as melhores pessoas para falar publicamente de política…

No espaço privado, falamos do que queremos e como queremos. Publicamente, responsabilidade e um bom caldo de peixe são fundamentais. Isso implica certas regras de conduta – o nome correto seria ética, mas o termo anda desgastado. E o nome correto desse espaço público e do respeito a ele seria república, mas não vamos complicar as coisas, porque falar em república no Brasil é dissertar sobre algo abstrato.

Pois bem, uma das regras que adoto – e não a principal, embora talvez seja a mais notável – me obriga a lhes pedir desculpas por não ter vindo. Mas é também, creio, o que justifica que, representado, eu esteja aqui. O anonimato.

Aprendi com minha musa Ruth Reichl, cujas perucas até tentei, sem sucesso, imitar. Aprendi comigo mesmo, numa experiência de vida já quase provecta, que me ensinou que sou tímido e a lidar com isso. Aprendi ao olhar como há de fato tratamento diferenciado em muitos restaurantes. E não me refiro a um agrado do chef, que manda uma entrada ou sobremesa. Não há mal nisso. Me refiro a algo que, pensado a seco, é simplesmente mesquinho: você demorar vinte minutos para obter uma garrafa de água enquanto a mesa ao lado é cercada de atenções. Este, diga-se de passagem, não é um exemplo abstrato.

Defender o anonimato pode parecer meio anacrônico tanto tempo depois do Apicius e num momento em que o próprio New York Times o desqualificou duplamente: no presente, ao divulgar nome e foto do novo crítico, e no passado, ao minimizar os esforços de Ruth Reichl e Frank Bruni.

Anonimato relativo, porque não me revelo, mas tampouco me escondo. Está tudo lá no blog. Curiosamente – o que mostra como as pessoas lêem pouco ou não prestam atenção ao que lêem – nem minha família, creiam, sabe do blog. Sem contar que em 80% das visitas vou acompanhado de minha mulher e de minha filha, e crianças em alguns restaurantes paulistanos podem não ser tão raras quanto nos de Nova York, mas não são tão comuns assim.

Sei, por exemplo, que nos identificaram em três restaurantes. Não por acaso, são dos que mais freqüentamos. Dia desses, outro descobre. Paciência. Já disse: peruca não me cai bem. Mas ainda restam milhares de casas por aí. Muitas delas não reparam que seria mais razoável tratar as pessoas com isonomia. Epa, de novo, a expressão adequada é: de forma republicana. Porque comer não é só comer; há todo um entorno, há todo um contexto que envolve o fulano que sai para jantar três vezes por semana e aquele que economiza para uma, só uma, celebração anual. Não é óbvio que ambos merecem o mesmo respeito e tratamento?

Sem contar que em todos esses restaurante em que não sabem quem sou posso entrar com tranqüilidade, pedir um bom prato, comer com prazer e, enquanto isso, conversar com minha mulher e minha filha, meninas tão lindas, cujas opiniões interferem decisivamente nos comentários que escrevo.

Porque, no fim das contas, e mesmo pagando contas altas demais para meus parcos ganhos de assalariado, o blog não é o motivo de irmos a restaurantes. É o efeito de gostarmos de comer bem e de experimentar. Por isso, Alhos, Passas e Maçãs é um blog comilão.

É isso. Agradeço a tolerância de me ouvirem à distância. E nem conto que, enquanto estão aqui, estou comendo um tremendo pato num restaurante bem perto. Não, não sejam vingativos: não torçam por minha indigestão. Nessa casa, o chef sabe o tempo do alho.

E peço novamente desculpas pela ausência. Espero que a tenham compreendido. Dia desses, nos cruzamos num restaurante.


Entre estantes e panelas: blogs

12/09/2009

Um debate de blogs gastronômicos acontecerá na próxima segunda-feira, 14 de setembro, às 18 horas, no teatro da Livraria Cultura.

É parte do ciclo Entre estantes e panelas, coordenado por Carlos Dória e Janaína Fidalgo, e contará com participações reais e virtuais: o próprio Dória, Luiz Américo Camargo, o Bicho, Luiz Horta, Neide Rigo, Joyce Galvão, Cristiana Couto, Eduardo Girão, Alhos.

A coordenação será de Paula Pinto e Silva.

SPRW: AK

12/09/2009

 

De bourguignon a bourguignon: esta foi nossa trajetória na Restaurant Week de inverno. Começamos com o bourguignon clássico de Erick Jacquin e encerramos com o bourguignon de cordeiro de Andrea Kaufmann.

Confesso que não me espantou que o segundo fosse muitíssimo superior ao primeiro. E que a refeição no AK superasse de longe a da Brasserie. Questão de estilo e compromisso.

Fizemos nossa despedida da RW no AK Delicatessen.

Um amuse-bouche de torradinha com coalhada e berinjela picante abriu a refeição. Simpático, embora uma das torradinhas chegasse murcha à mesa.

Provamos as três entradas. Minha filha pediu o gravlax de salmão: fatias finas de salmão marinado com ervas, acompanhado de salada aquecida de batata e folhas verdes. O dill dava um toque de frescor especial à batata e o peixe era simultaneamente intenso e delicado.

O consonmé de carne e frango com uma bolota de matzá, escolha de minha mulher, aqueceu agradavelmente a noite que esfriava.

Mas minha “berinjela singela”… Ah, minha berinjela singela! Assada na boca do forno, trazia o amargo delicioso da casca, associado ao tahine, mel de romã, raspas de limão e saladinha de tomate com hortelã. De longe, a melhor entrada da RW. Queria mais uma dúzia delas para trazer para casa e cruzar a noite comendo.

Dentre os principais, minha filha ficou com o spaguettini com molho de cogumelos variados, limão, dill e farofinha de funghi porcini. Cremoso e saboroso.

Minha mulher e eu ficamos com o bourguignon de cordeiro, macio, farto e forte, preparado no vinho e acompanhado de spetzel, cebola frita e coalhada. Salvei algumas cebolas da voracidade de minha filha e vi que estavam ótimas. A coalhada e o spetzel atenuavam com estilo a força da carne e combinavam para compor um prato harmonioso, intenso e bastante saboroso.

Pedimos, os três, a mesma sobremesa: merengue de morango (a outra opção envolvia nutela e tenho implicância com doces de restaurante que levam nutela). Gostoso, embora não revelasse a importância da doceria da casa (o pain perdu, o philó strudel, a crème brulée de mel e figo… Ai, ai).

Café, águas e uma taça de vinho da lista de bebidas alcoólicas com preços reduzidos para o evento completaram o jantar.

Assim o AK fechou maravilhosamente essas duas semanas de RW. Cada vez mais gostamos da casa: o trabalho de Andrea Kaufmann nos conquistou aos poucos, tão saudosos que éramos da Cecilia, mas irreversivelmente.

E por que não me surpreendeu que o bourguignon do AK fosse superior ao da Brasserie? Por dois motivos: conheço a Brasserie e conheço o AK.

Para bom entendedor, acho que a explicação basta.


AK Delicatessen

Rua Mato Grosso, 450, Higienópolis, SP

Tel.  11  3231 4497

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): AK Delicatessen


SPRW: Marcel

11/09/2009

 

O Marcel é o Marcel. Inclusive na Restaurante Week.

O atendimento é gentil, o ritmo da refeição é tranqüilo, as porções são suficientemente fartas e o menu é coerente com a proposta da casa: cozinha francesa temperada com a inventividade do chef Raphael Despirite.

Chegamos por volta das 19h30 para não ter que esperar. Havia apenas uma mesa ocupada. Pedimos água e vinho, descartamos o couvert e fizemos nossas escolhas.

Nós três optamos pela sopa de tomate, cenoura, croûtons e pó de azeitona. Agradável e saborosa (mesmo para quem, como eu, não é exatamente fanático por sopas), com um toque curiosamente adocicado dado pela azeitona madura.

Minha mulher e minha filha preferiram a bela posta de salmão como prato principal, acompanhada de molho de cogumelos. O peixe veio obviamente no ponto e os cogumelos estavam saborosíssimos.

Meu medalhão de filé tinha a mais bela apresentação da noite. A carne, também inevitavelmente no ponto, ganhava força na redução de vinho tinto e as batatas rústicas dialogavam bem – pelo menos as que consegui salvar depois do vigoroso ataque de minha filha a elas.

A única sobremesa era composta por um par de profiteroles, recheadas de sorvete e com calda de chocolate amargo. Prefiro quando as profiteroles vêm com crème patissière, mas estavam ótimas.

A refeição durou, com o café final, duas horas. Às 21h30, a casa estava lotada e umas dez pessoas esperavam no bar.

Mesmo na RW, o serviço manteve, entre um prato e outro, aquele saudável tempo que faz toda a diferença num jantar. Em parte porque nenhum dos pratos – com a óbvia exceção da entrada – estava preparado com antecedência. Todos mantinham o frescor da comida recém-feita ou montada na hora – as profiteroles, por exemplo, chegaram à mesa crocantes.

Ritmo, diriam alguns, é tudo. O sistema Usain Bolt de expedição e serviço – aplicado na Week por restaurantes como a Brasserie de Jacquin e o Antiquarius – destroi o prazer de comer. Food tem que ser slow.

Saímos de lá convictos de que a Restaurant Week de São Paulo vale a pena.

Basta você saber escolher – o que nem sempre é fácil.

Basta evitar as casas que, ridiculamente, desprezam o cliente do evento e o tratam diferentemente de sua clientela habitual. Falemos português claro: basta evitar os restaurantes que, pelo pedantismo ou por arcaica crença na supremacia das classes ricas, destratam o cliente que supõem que não voltará em dias normais.

Basta optar por aqueles que nos respeitam e se respeitam. Que, na hora h, mostram o que são.

Por isso, Marcel. Que é o Marcel, inclusive na Restaurant Week.

Marcel

Rua da Consolação, 3555, Cerqueira César, SP

Tel. 11  3064 3089

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Marcel


SPRW: Picchi

07/09/2009

 

Nem pretendia ir ao Picchi na RW. O menu não tinha me atraído.

E hoje tampouco pretendia comer fora. No máximo, arriscaria o Marcel, assim que abrisse, para evitar fila.

Mas uma mudança de planos domésticos me deixou sozinho para o almoço, às 13h15 do feriado. Tarde demais para o Marcel. Pensei no Picchi e alterei o caminho para passar defronte: se não tivesse espera, pararia. Caso contrário, comeria em casa.

Com só um terço das mesas ocupado, entrei e sentei.

Aceitei o couvert – que é dos poucos que de fato valem a pena. Mas não valeu. Nem o pão nem o bolinho salgado, normalmente excelentes, estavam frescos. Fiquei ressabiado. E a desconfiança aumentou quando reparei que o chef estava sentado no bar. Atento ao movimento, mas fora da cozinha.

Pedi uma cerveja e, de entrada, a polenta com roquefort. Então, as coisas começaram a mudar. Polenta saborosa, com roquefort diluído em creme,  mas ainda assim marcante. A pimenta seca não deixava o prato picante, mas dialogava bem com o queijo.

De principal, fiquei com o raviolini recheado com carne e legumes ao burro e sálvia. E lá estava a boa massa que é marca da casa e que tem raros equivalentes na cidade – nenhum no bairro. A sálvia dava frescor e adocicava suavemente o prato.

Na hora da sobremesa, o garçom me ofereceu uma terceira opção – além das duas indicadas no menu da semana: crostata de maçã. Valeu a pena escolhê-la: crocante e saborosa.

A flexibilidade, aliás, é algo que, aparentemente, só oferece quem leva a RW a sério. Na mesa ao lado, uma senhora pediu para trocar o molho que acompanhava o penne e o maitre não titubeou: assentiu sem mais delongas.

Enquanto almoçava, aumentou a clientela, que atingiu ¾ das mesas. Tomei o café e saí de lá satisfeito. Na porta, o chef, ainda no bar, agradeceu a visita e eu fiquei com vontade de perguntar a ele por que o Picchi não fica lotado o tempo todo. A qualidade da casa e a consistência da cozinha mereciam mais atenção de uma cidade que, ao menos em tese, preza a comida italiana.

Claro que não perguntei. Ele não saberia a resposta. Nem eu sei decifrar os maus mistérios de São Paulo.

Picchi

Rua Jerônimo da Veiga, 36, Itaim, São Paulo

Tel.  11  3078 9119

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Picchi


SPRW: Julia

06/09/2009

 

Há certos restaurantes que coloco na categoria “de segurança”. São aqueles aonde vou quando quero ter certeza de uma refeição prazerosa.

Alguns deles são muito bons e muito caros. Outros são muitos bons e com preços razoáveis. E outros dificilmente apareceriam nas listas dos melhores de São Paulo, mas sei que sairei de lá satisfeito.

Nem tinha pensado que o Julia era um destes quando fiz a reserva para provar o menu que ofereciam na RW. Muito menos supunha que enfrentaria três decepções completas ou relativas antes de ir lá.

E foi com as barbas de molho que saímos, ontem à noite, a caminho do Itaim.

Chegamos às 19h50 e a casa estava vazia. Por dois ou três minutos. Imediatamente chegaram diversas outras mesas, todas prováveis reservas para as 20. Numa delas, deficientes auditivos. Em outra, quatro casais que já haviam passado dos 70. O salão não lotou, mas ficou bem tomado.

Dispensamos o couvert e pedimos uma porção dos pasteis assados no forno a lenha: dois de pato com shimeji, um de galinha d’angola e outro de berinjela (em visitas anteriores, a berinjela vinha junto com queijo de cabra – e, apesar de eu adorar caprinos em geral, a combinação não funcionava). Todos bons e com aquele cheirinho de lenha que ajuda a temperar um petisco.

Perguntamos ao garçom sobre o molho de tomate picante que acompanhava a lula com polenta da entrada e ele se prontificou a mudá-lo para que minha filha pudesse comer o prato. E as lulas (que também comi, mas na versão original, picante) chegaram macias e saborosas. A polenta, ligeiramente grelhada, combinava bem. Uma delícia.

Minha mulher preferiu o pupunha na brasa com cogumelos, que estava igualmente bem preparado.

A dona e três garçons circulavam entre as mesas e atendiam com presteza. Na mesa dos velhinhos (ops, idosos), uma garçonete os chamava, com atenção e sem afetação, de “meninas” e “meninos” e cuidava para que não faltasse nada.

Minha mulher e filha preferiram, como principal, a tainha com crosta de ervas e legumes. O peixe, embora saboroso, estava mais passado do que deveria e havia excesso de pimentão entre os legumes. Mas nada que desqualificasse o prato.

Meu pernil cordeiro na lenha estava ótimo, acompanhado de purê de batata – não homogeneizado – com alho-porró.

Além das águas, bebemos um Le loup dans la bergerie, por honestíssimos 65 reais (10 a mais do que na importadora). A carta de vinhos, pequena, mas variada, merece destaque.

Dentre as sobremesas, a tortinha de cupuaçu com boursin era crocante e destacava o gosto da fruta (esse doce também já foi preparado com queijo de cabra, mas a cabra vencia o cupuaçu, desequilibrando). A torta de frutas era boa, y no más.

Fechamos com o bom café pessegueiro, num curto bem tirado.

Em bom português, Julia salvou a lavoura da nossa RW.

Não havia filas, sistema de reservas atrapalhado, gente alucinada para provar a comida.

Havia bons ingredientes, preparo cuidadoso, serviço gentil e disponível. E comida muito boa pelos preços reduzidos da RW.

Havia seriedade, honestidade e inteligência.

Julia

Rua Araçari, 200, Itaim, SP

Tel.  11  3071 1377

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Julia


SPRW: Porto Rubaiyat

04/09/2009

 

Alguém aqui não está entendendo direito o espírito da RW, e acho que sou eu.

Basta ver que me empolguei quando li a presença do Porto Rubaiyat na lista de restaurantes que participariam do evento, e com a proposta de oferecer seu bufê.

Liguei correndo e reservei: para as 19 de ontem.

No decorrer da semana, conversei com algumas pessoas e elogiei a idéia: me parecia uma valorização da semana e uma tremenda jogada de marketing. Diminuir a margem de lucro para conquistar maior público para seus pescados de primeira. Mostrar que a menor das casas Rubaiyat é um lugar agradável e que pode ser acessível.

A coisa começou a azedar quando estacionei o carro na porta, às 18h53, sete minutos antes do horário da reserva, debaixo de chuva e com a calçada parcialmente alagada. A casa já estava aberta, o porteiro confirmou. Mas não havia manobrista. Nem guarda-chuva. Nem boa vontade do porteiro de abrir a porta para minha mulher e minha filha descerem.

Esperamos cinco minutos no carro e ninguém apareceu. Manobrei, subi parcialmente na calçada para que elas descessem sem ter que pisar no aguaceiro (o porteiro prosseguia imóvel).

Minha mulher desceu, abriu a porta para minha filha (o porteiro, homem prudente, evidentemente não podia se molhar) e as duas entraram na casa.

Dei ré, engatei a primeira e segui em frente, em busca de lugar para estacionar. Vi um estacionamento e entrei. O rapaz me disse que não aceitava carros do restaurante e me orientou a deixar com o manobrista. Expliquei que não havia manobrista na porta. Ele então recomendou que eu fosse até o estacionamento do restaurante e deixasse o carro lá. Fui e estacionei no terreno amplo, onde não havia viv’alma. Junto com mais dois casais, contornei a rua, na chuva, até a porta da casa.

Quando cheguei, tentei explicar ao porteiro que havia deixado o carro no estacionamento. Ele se dirigiu ao manobrista, que chegava calmamente, e contou.

Então, meus caros, vi uma cena que nunca supus que veria nas casas de Don Belarmino. O manobrista abriu os braços e retrucou, irritado: “mas faltavam três para as 7, eu só começo a trabalhar às 7.”

O que você faria?

Na dúvida entre chorar ou brigar, preferi entrar no restaurante, relatar o ocorrido à recepcionista e reencontrar minha mulher e minha filha. Pedimos um Riesling e olhamos os peixes, bonitos, do aquário. Foi minha filha que me fez voltar a rir – como sempre faz.

Minutos depois, na mesa, e mais relaxado (após várias promessas e auto-promessas de que não estragaria mais uma refeição no dia), começamos a jantar.

A decepção, daí, foi ver que o bufê não era o que esperávamos, não era o que o Porto serve para seus clientes habituais (um deles, eu).

A mesa de frios era reduzida, mas oferecia alternativas. Não havia grelhados e a seção de pratos quentes era de chorar. Obviamente, nada de camarão ou similares. Uma paella (que já não é o forte da casa) claramente desfalcada de bichos. Um peixe (pescada?) num molho incerto (não arrisquei), umas lulinhas desamparadas (macias e insossas).

E não adiantava se guardar para a mesa de sobremesas porque esta também havia sido reduzida drasticamente. Algumas frutas, quindins (muito doces), brownie (ressecadas) e um crocante mil-folhas de doce de leite que foi a salvação da lavoura.

Saímos de lá levando, de lembrança, o sabor do vinho e a gentileza da recepcionista – que voltou a nos procurar durante a refeição e, ao final, insistiu que formalizássemos a reclamação.

Foi nossa terceira visita nesta RW.

Jacquin não foi Jacquin, mas serviu um peixe correto a preço correto. Antiquarius valeu pelo público e para nos lembrar que a casa gosta mesmo, e tão somente, de seus clientes cotidianos (a ex-prefeita, a apresentadora de TV & cia.).

O Porto Rubaiyat nos mostrou que estávamos entendendo erradamente o espírito da semana. O objetivo, ao que tudo indica, é aumentar o público, ampliar os lucros, mandar o padrão às favas (quem dera tivesse favas!) e corroer a própria imagem.

Acontece que sou um sujeito teimoso e irreversivelmente otimista. Irei a mais três restaurantes, antes do encerramento do evento. Ainda aposto na idéia. Apenas acho que escolhi errado. E o consolo é que os três que faltam são casas que estão na listinha dos meus dez restaurantes favoritos.

Como dizia uma antiga (e ufanista) campanha publicitária: tem que dar certo!

Porto Rubaiyat

Rua Leopoldo Couto Magalhães, 18, Itaim, SP

Tel.  11  3077 1111

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Porto Rubaiyat


SPRW: Antiquarius

03/09/2009

 

O Antiquarius é um dos restaurantes de clientela mais homogênea em São Paulo. Homogênea na faixa etária, na posição social, no estilo e até no vestuário. No almoço ou no jantar, o panorama se repete quase desde a fundação.

Por isso, o mais interessante da visita à casa nesta SPRW foi ver a incrível variação do público.

Enquanto esperávamos, ouvimos dois casais jovens conversarem sobre a formalidade do serviço. Temiam não saber como se comportar.

Numa mesa atrás de nós, quatro moças bebiam muito (muito!), falavam alto e uma delas, meio trôpega, chegou a quebrar uma taça. Uma hora ela se levantou, passou ao lado do garçom e sussurrou-lhe que gostaria de mais um pouco de vinho. Repreendida pela amiga, reagiu vigorosamente, ameaçando revelar como esta era “de verdade”.

À minha esquerda, três moços de camiseta, todos no início dos trinta, comiam os mesmos pratos e falavam de futebol, num ritmo de informalidade que contrastava com o ar sisudo do lugar.

À direita, quatro garotos – bandas de rock na camiseta larga e menos de vinte anos – discutiam e riam em meio a uma quantidade imensa de latas de Coca-Cola e Guaraná.

Minha mulher e eu almoçamos ouvindo vozes e notando personagens que, provavelmente, jamais cogitaram ir àquele restaurante e estavam aproveitando os preços baixos da RW.

No ambiente tradicional, soturno e carregado do Antiquarius, havia vida – porque vida é variação, é diferenciação. Pessoas de verdade, daquelas que encontramos na rua. Daquelas para quem uma visita a um restaurante famoso é evento para ser lembrado por muito tempo. Gente de todos os estilos, roupas e idades.

Entendemos, naquele instante, o significado de uma Restaurante Week. Descobrimos também como existe gente disposta a freqüentar restaurantes, bastando, para isso, que os preços sejam acessíveis.

Este, o lado feliz de nosso almoço no Antiquarius.

Nota ao leitor

Havia duas possibilidades para comentar nossa visita: mostrar o lado feliz por meio de uma perspectiva, digamos, etnográfica ou falar da refeição em si. Preferi a primeira.

Se tivesse optado pela segunda, reclamaria de algumas coisas:

- da rispidez da encarregada da reserva;

- do desrespeito à reserva (reserva-se para chegar e sentar, não para ter direito “à próxima mesa de dois que liberar” – o que aconteceria em 25 minutos);

- da estapafúrdia sugestão (que está sendo colocada em prática) de reunir grupos diferentes numa mesma mesa para “agilizar a espera” (fiquei pensando se proporiam isto à clientela regular da casa);

- da temperatura (bem fria) e da consistência (puxa-puxa) da tigelinha de bacalhau da entrada;

- do arroz quase empapado com cordeiro cozido muito além do ponto do “arroz de cordeiro”;

- da batata-palha amolecida do “bacalhau Antiquarius”, do bacalhau seco, rijo e aparentemente bem distinto do que é normalmente servido na casa;

- da taça grosseira de vidro em que serviram meu vinho (minha mulher ficou lisonjeada por receber uma de cristal);

- do garçom destacar que a taça de vinho era “dez real” (sic);

- da taça de vinho servida não ultrapassar 100 ml;

- do café mal tirado, com borda queimada;

- da ausência de açúcar para o café (ok, minha mulher e eu não adoçamos o café, mas como eles sabiam disso?);

- dos muitos cacos de vidro que ficaram no chão (lembram-se que a moça quebrou a taça?), sobre os quais a cliente da mesa ao lado teve que passar, com cuidado;

- de alguns cacos de vidro, nada pequenos, que continuaram no chão depois que o maître determinou a limpeza do lugar.

Para evitar ter que falar de tudo isso, preferi falar do público.


Antiquarius

Alameda Lorena, 1884, Jardim Paulista, SP

Tel.  11  3082 3015

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Antiquarius


SPRW: La Brasserie, de Erick Jacquin

01/09/2009

 

Nenhuma dúvida de que a Restaurant Week começou bem para nós: o cardápio oferecido pela Brasserie, de Erick Jacquin, é honesto e correto.

Entrada (bisque de crustáceos) e sobremesa (crème brulée): deliciosas.

Dos pratos principais, o boeuf bourguignon estava carregado demais no vinho e no bacon, mas bem servido e saboroso.

O trio de peixes era composto por lâminas de salmão e linguado e um pedaço pequeno de robalo. Vinham na espuma de limão, acompanhados de legumes crocantes. Bons peixes – salmão e robalo, especialmente. O linguado passou um pouco e estava rijo. A espuma carecia da acidez esperada.

De qualquer forma, ambos valiam o que custavam.

A nota negativa ficou por conta do atrapalhadíssimo serviço (12% na nota). A brigada, talvez ampliada para o evento, corria meio desorientada pelo salão e se confundia. Os pratos chegavam expressamente e a refeição inteira, em três tempos, não demorou 40 minutos.

Dois errinhos bobos na cobrança da conta: pedi débito, fizeram crédito. Pedi nota paulista, o rapaz saiu correndo sem perguntar o cpf; falei com o maître, que anotou o número. Aguardamos mais um pouco e chegou a nota – sem o cpf.

Tudo é compreensível se considerarmos que se trata da primeira experiência da casa na RW e que a comida estava boa. Mas é estapafúrdio um atendimento assim num restaurante como a Brasserie.

Duas observações finais. O couvert (pão, manteiga, pasta de azeitona e muzzarela de búfala sobre tomate, por 10 reais) é agradável, mas não vale a pena. O café é Lavazza e, já por isso, não valeria a pena. Por seis reais, nem se fala.

Com couvert, café e duas águas, a conta fechou em 100 reais (duas pessoas).

La Brasserie de Erick Jacquin

Rua Bahia, 683, Higienópolis, SP

Tel.  11  3826 5409

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): La Brasserie


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