Arquivo para outubro, 2009

Mais doces

29/10/2009

 

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Três bons doces do Arturito

O brioche com Cointreau talvez não vencesse uma disputa pelo melhor pain perdu ou similar da cidade, mas não faria feio. Ele traz açúcar queimado (ou “dourado”) por cima e vem acompanhado de um bom mascarpone e de pêssegos (deliciosos, diga-se de passagem) em conserva.

A mousse de chocolate Valrhona é suave e tem sabor intenso. Os biscoitinhos circulares que a acompanham (“shortbreads”) são delicados e levam uma pitada de Maldon. Muito bom, embora eu tenha que confessar que preferiria um chocolate um pouco mais amargo.

A pêra caramelizada de Amaretto é outro caso sério… Ela chega sobre saboroso creme de baunilha e massa circular crocante de sementes.

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Simplicidade devia ser regra. Até porque ela costuma desembocar em bons resultados.

No cardápio do Zucco, me chamou atenção o cesto de massa doce com figos flambados no balsâmico. Pedi, claro.

A massa era inexpressiva, mas a grande decepção ficou por conta da desnecessária presença de creme e de sorvete no prato. Os sabores do figo e do balsâmico foram abafados e o doce ficou pesado.

Fizessem simplesmente uma cestinha de massa com figos flambados no balsâmico, como prometia o cardápio, e poderia dar numa ótima e suave sobremesa.

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Dois ótimos doces do Così

O tiramisù de frutas vermelhas já é um clássico do cardápio, mas o queijo agora está mais balanceado, combinando com as muitas e variadas frutas, sem se impor a elas.

E o “pêssego afogado” vem inteiro e com a boa doçura natural da fruta. Chega mergulhado na calda de vinho branco e acompanhado de sorvete de manjericão. Muito, muito bom.

Doces & peixes

21/10/2009

 

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Nunca tinha comido o camarão glaceado com tagliatelle de pupunha e manteiga de coral do D.O.M.. Provei e, claro, adorei o camarão e a presença ativa da manteiga. Mas o sabor do pupunha fica bastante encoberto pelo molho e pelo camarão. Muito gostoso, mas com um sabor a menos.

Para compensar, o ravioli de banana com maracujá e sorbet de tangerina (outro prato que nunca provara) mostrou uma sobremesa bem dosada e saborosa numa casa que tradicionalmente não tem, nos doces, a força que tem nas entradas e nos pratos principais. Mas está chegando lá.

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Nessa semana, voltei ao Tordesilhas. Sempre bom, claro. O filhote no molho de ervas e hortaliças com purê de banana da terra é um caso sério, seriíssimo. Dos melhores peixes de São Paulo.

E nenhuma novidade na sobremesa: pedi o habitual sorvete de cupuaçu com banana em calda, prato que me faz lembrar de meu pai e de muitas idas ao antigo endereço da rua Ouro Branco. Continua (é óbvio) delicioso.

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Ainda no capítulo dos doces, boa surpresa foi a lichia com calda de laranja e sorvete de gengibre do Huto. Fresca, agradável, harmoniosa.

Superior às outras duas sobremesas provadas: o gostoso tempurá de pêssego com calda de vinho e sorvete de lichia e o bom sorvete de maçã verde com gelatina de vinho branco e calda de framboesa — esta seria melhor se eu conseguisse não a comparar com o quase idêntico sorvete servido com gelatina de saquê no Jun (que é melhor).

De qualquer forma, a elegante casa de Moema acerta a mão nas sobremesas.

Por que voltar?

12/10/2009

Era domingo, minha mulher e eu sozinhos. Decidimos conhecer as novas instalações do Insalata. Impossível: casa lotada, espera de trinta minutos.

Subimos a Alameda Campinas de volta e entramos no Bola Preta, na esquina de casa. Nossa terceira vez por lá. Claro que a resenha simpática do Luiz Américo, dois dias antes no Guia do Estado, nos estimulou a voltar.

O couvert simples (4 reais) trazia abobrinha crua no azeite, azeitonas pretas, pão, manteiga e azeite. Pedimos dois bolinhos de bacalhau (3,5 cada), que confirmaram nossa impressão anterior de boa fritura (sequinhos, crocantes) e de pouco sabor.

Para principal, minha mulher escolheu o salmão com purê de mandioquinha (26); eu fiquei com o bacalhau à portuguesa (43). O salmão estava no ponto e era bom. Meu bacalhau e seus acompanhamentos careciam completamente de sal. Retemperei à mesa com sal e azeite e ficou razoável.

Nenhuma sobremesa empolgava e em casa tínhamos picolés Diletto: melhor caminhar vinte metros e pegar o elevador. Tomamos nossos cafés e fomos embora. Conta final de 110.

A casa tem diversos garçons, mas o serviço é desatento. Mais de uma vez, o senhor que estava na caixa percebeu nosso abandono e pediu que nos atendessem. Na hora de pagar a conta, após esperar e tentar em vão chamar a atenção da hostess (a cujos olhos éramos invisíveis), me levantei e fui direto ao caixa.

Saímos de lá com a mesma impressão das outras vezes. Não é ruim, não é bom. Dá vontade de voltar? Não. Por mais que passemos meia-dúzia de vezes, todos os dias, na porta.

E, mais do que o almoço, foi essa questão que ficou: o que faz um cliente voltar a um restaurante? Não vale dizer que é a boa comida e o bom atendimento. Primeiro, porque é óbvio. Segundo, porque nem sempre é assim que funciona.

Rapidamente repassei a lista de que restaurantes a que sempre quero voltar. Aqueles a que tenho vontade de ir toda semana. Depois, os que cogito ir mais ou menos uma vez por mês. Em seguida, os que me empolgam, digamos, a cada dois ou três meses, talvez seis meses. E aqueles que ficam meio esquecidos e aonde só volto por obrigação ou porque bate a curiosidade de ver como andam as coisas.

Dia desses, conto quais são. Uma pena que o Bola Preta, vizinhíssimo, não entre (ainda?) em qualquer dessas listas.

Bola Preta

Alameda Campinas, 1021, Jardim Paulista, SP

Tel.  11  2649 4840

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Bola Preta

De Gênova

10/10/2009

Pode parecer incrível, mas é difícil comer boa massa em São Paulo.

Fora os grandes (e caros) restaurantes italianos, conto três ou quatro casas que nunca me decepcionaram no ponto da massa, no molho ou, mais comum, em ambos.

Uma delas é o Zena Caffè, que homenageia a cidade de Gênova no nome e que já teve uma ótima trofie, massa típica da Ligúria. Tiraram do cardápio e, cada vez que vou lá, sonho reencontrá-la. Ainda não consegui.

Enquanto isso, fico com a salada de folhas verdes, frutas e flores, que recebe molho bem dosado de balsâmico, azeite, mel e pimenta rosa e varia os ingredientes conforme a estação. Na última vez, tinha alface, rúcula, rúcula italiana e endívia, manga, morango, kiwi e figo. Bolinhas de queijo de cabra e chips de presunto cru acompanhavam e davam um toque agradável de sal.

As foccaccie e as bruschette são boas e a única decepção fica por conta dos arancini com mix de cogumelos, uma boa idéia que resulta numa porção simpática de mini-bolinhos, mas de sabor inexpressivo.

Mas voltemos às massas porque são elas que importam. Principalmente se for o prato de trenette ao pesto. Mais lígure, impossível. E precisa no ponto da massa e no equilíbrio do molho. Os pinoli e o manjericão (cultivado em vasos à vista do cliente) têm aquele sabor que nos lembra por que a culinária italiana é inesquecível, por que tem a solidez de séculos. Solidez que nenhum espanhol metido a cientista vai abalar.

De sobremesa, a focaccia doce com pêssego é agradável, mas não empolga. Deliciosa é a sacripantina: pão-de-ló embebido em café e licor, com creme de mascarpone.

A única coisa que falta, no Zenna (além, claro, da volta da trofie), é uma oferta mais diversificada de vinho em taça (os três ou quatro rótulos normalmente oferecidos não empolgam) – inclusive italianos e de sobremesa. No site constam rótulos de vinsanto e de passito di panteleria, mas não havia em nenhuma das visitas.

O serviço é bastante gentil e simpático, apesar de inexperiente, e o ambiente, que combina o visual de restaurante com o de empório (felizmente sem afetação), é agradável, tanto na parte externa quanto na interna.

Sobretudo: ajuda a aumentar a limitada lista das casas que servem boa massa (e, no geral, boa comida italiana) a preço não-astronômico. O que não é pouco e nos faz pensar que, afinal de contas, é possível comer massa de qualidade relativamente em conta numa cidade que tem dezenas de restaurantes italianos, mas pouquíssimos que prestam.

Zena Caffè

Rua Peixoto Gomide, 1901, Jardim Paulista, SP

Tel.  11  3081 2158

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Zena Caffè

Sobre chefs e pianistas

04/10/2009

Na coluna Sinopse do Estado de hoje, Daniel Piza conta uma história instrutiva:

“Consta que o pianista Wilhelm Kempff foi visitar Sibelius nos últimos anos de vida deste, que lhe pediu para tocar a sonata Hammerklavier, de Beethoven. Kempff tocou. Ao final dos quatro movimentos, Sibelius agradeceu: ‘Você não tocou como um pianista, tocou como um ser humano.’” (Daniel Piza, Contrapontos, OESP, 4.10.2009).

Música e gastronomia são mundos diferentes, claro, e a associação é perigosa. Inevitável, porém, fazer a analogia.

Pois, quando vou a um restaurante, cada vez mais quero cozinheiros que cozinhem como seres humanos – e não como técnicos, cientistas ou artistas.


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