Arquivo para junho, 2010

Número 1

26/06/2010

 

Foi num sábado, dois dias antes do 21 de junho, aniversário de casamento, 12 anos.

Fasano, claro.

Depois dos grissini e bons pãezinhos com manteiga do couvert, dividimos o raviolini de pato com molho de laranja.

Minha mulher pediu o bacalhau com molho de tomate, passas e pinoli e eu, o lombo de coelho recheado com funghi porcini e nhoque de azeitona

De sobremesa, suflê de chocolate.

Nada que não pudesse ser considerado excelente.

E ponto final. Porque o Fasano dispensa adjetivos ou comentários.

Estou de acordo com Alex Atala, que já disse em entrevista que, se houvesse Guia Michelin no Brasil, Fasano seria o único três estrelas. E também concordo com François Simon que, ao visitar a cidade no ano passado, constatou que lá fizera sua melhor refeição do ano.

Basta concluir, sem rodeios: é o número 1 de São Paulo, talvez do Brasil, um dos melhores restaurantes em que já comi no mundo.

Fasano

Rua Vittorio Fasano, 88, Jardim Paulista

tel.  11  3062 4000

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Fasano


Carlota em dois tempos

19/06/2010

 

Alguns restaurantes têm seu tempo, outros conseguem transcendê-lo.

Quando o Carlota abriu, uns quinze anos atrás, virou uma febre. Tudo ali parecia novidade. A tal da culinária contemporânea mostrava sua cara, embora ninguém soubesse exatamente a que a etiqueta se referia.

Havia, porém, certeza quanto ao talento e à técnica de Carla Pernambuco, ao acerto das combinações e fusões de sabores, procedimentos e ingredientes.

Mudaram-se os tempos, mudaram-se as vontades.

De uns anos para cá, as críticas ao Carlota só cresceram nos meios gastronômicos. Explicações de toda ordem para o declínio da casa foram formuladas.

Parecia que o tempo do restaurante havia se encerrado. Só quem não sabia disso era o público, que continuava a ocupar regularmente os salões, agora mais amplos, da casa da rua Sergipe.

Apesar de nunca ter escrito sobre o Carlota, confesso que compartilhei silenciosamente muitas críticas: fui lá três vezes nos últimos dois anos e, em todas, saí decepcionado.

Ontem minha mulher e eu resolvemos voltar.

Cautelosamente, pedimos uma porção de bolinhos de mandioca com camarão de entrada. Sequinha, crocante, recheio cremoso, pimentinha interessante ao lado. A mandioca, agradabilíssima. O camarão, sem gosto.

Os pescados prevalecem no cardápio; fora eles, há apenas seis opções de carnes, sendo cinco de boi. Achamos melhor ficar com os peixes.

Por isso, nossos principais foram um linguado ao molho de “queijo de cabra dourado” acompanhado de fettuccine de pupunha e cogumelos, e lulas grelhadas com riso de camarão e brie.

O sabor de queijo de cabra era quase imperceptível na cobertura do linguado e as lulas chegaram à mesa um pouco mais rijas do que deveriam.

Os acompanhamentos dos dois pratos estavam, no geral, superiores: bom fettuccine de pupunha, ótimo riso de camarão e brie (o camarão, nesse caso, era bastante saboroso).

Para a sobremesa, pudim de fruta do conde. Apresentação feia, de cores apagadas, mas gostoso e leve.

Conclusão? Creio que o Carlota não acabou, nem transcendeu seu tempo. Talvez a fórmula surpreendente de quinze anos atrás tenha sido decifrada e a concorrência melhorado significativamente.

Hoje é uma casa que consolidou seu lugar e onde se pode comer razoavelmente bem. Não empolga, nem se compara ao que São Paulo tem de melhor em gastronomia. Mas tampouco pode ser jogado — seja por seu passado, seja por seu presente — na vala comum da restauração ultrapassada.

Carlota

Rua Sergipe, 753, Higienópolis, São Paulo

Tel. 11 3661 8670

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Carlota



Errâncias

13/06/2010

Comecei a escrever este texto na quarta cedo, daí li o do Luiz Américo — na mesma linha e que dizia tudo — e o abandonei.

Sei lá por quê, hoje quis escrever de novo.

Terça à noite, saí cedo do trabalho e quis jantar em algum lugar. Pensei em um ou dois endereços em Higienópolis, mas preferi ficar nos arredores de casa.

Girei uns quarenta minutos, meio sem rumo.

Desisti do primeiro porque o trânsito do quarteirão era tanto, mas tanto, que nem deu vontade de virar a esquina.

Desisti do segundo quando passei devagar diante da casa e ela estava vazia. O que menos queria era ser o alvo das atenções de todos.

No terceiro resolvi parar. Encostei o carro e esperei por cinco minutos, dentro dele, enquanto o manobrista solitário cuidava de outros dois carros. Quando chegou minha vez, recebi o tíquete e entrei no restaurante.

Havia duas mesas vazias na parte externa e uma, na interna. Fazia frio e eu quis sentar na área protegida. Me espremi, sentei, relaxei.

Então o rapaz veio dizer que tinha se enganado: pedia desculpas, mas a mesa estava reservada e eu teria de levantar. Sabe quando bate aquele desânimo que vem do fundo da alma? Pois é, bateu.

Levantei, peguei minhas coisas, confirmei que não queria sentar na parte externa e saí.

Enquanto esperava o carro de volta, o rapaz reiterou as desculpas e insistiu que eu ficasse, avisando que uma mesa seria logo liberada na área de dentro.

Agradeci: ele estava de fato constrangido e queria mesmo resolver. Mas algo tinha se quebrado na minha vontade de ficar e o jantar dificilmente seria prazeroso.

De volta ao volante, fiz três curvas, diminuí a velocidade e ainda olhei para dentro de um quarto restaurante. Totalmente vazio.

Acelerei e segui para um endereço certo: minha casa.

São essas errâncias e os pequenos detalhes, as tais miudezas, que, tantas vezes, desanimam.



Cardápio incompleto

09/06/2010

 

Na quarta-feira passada, minha filha fez onze anos. Trocamos a festa por um passeio; então, só restou um jantar aqui em casa, com os avós e duas amigas.

No lugar do bolo, ela quis seu doce preferido na versão favorita: o Mogador da Douce France, que é, na prática, uma combinação de pão-de-ló, mousse de chocolate e geleia de framboesa.

Três dias antes, domingo, fui até lá e fiz a encomenda, para dez pessoas, pagamento antecipado (109 reais). Doce caro, claro, mas que valeria a alegria da filha e o prazer da boa pâtisserie.

E às 18h45 da quarta o retirei, levei para casa e deixei na geladeira até as 21h30, final do jantar, quando cantamos parabéns e o cortamos.

Surpresa: mousse congelada, pão-de-ló ressecado, geleia gosmenta.

Minha mulher e eu nos entreolhamos; minha filha deixou mais da metade da fatia no prato; os convidados, elegantes, comeram até o fim o que lhes fora servido.

Dia seguinte, fomos passear e chegamos tarde em casa. Na sexta de manhã minha mulher ligou para a Douce France e falou com Odilon, o gerente.

Desconfiado, ele argumentou ser impossível que o doce estivesse nesse estado. Lembramos a ele que somos clientes desde a abertura da loja (morávamos praticamente do lado), que minha filha ia lá ainda bebê, que acompanhamos a gravidez da mulher do pâtissier…

O gerente então nos assegurou que verificaria com o chef o que podia ter acontecido e daria uma resposta no dia seguinte, sábado.

E assim passaram os dias até ontem, terça, quando minha mulher voltou a telefonar. Soube que o gerente não podia atendê-la e, por isso, deixou-lhe um recado, pedindo retorno.

Esvaiu-se a terça inteira e quase toda a manhã da quarta sem notícias. Foi quando cheguei à conclusão de que atenção ao cliente não era prioridade da Douce France e decidi relatar o episódio no blog — arcando com mais um custo, o da exposição de quem prefere ser anônimo. É que com aniversário de filha não se brinca.

Agora resta tristeza, sensação de desrespeito, desatenção. Desconsolo diante de uma casa que já foi boa, tornou-se irregular e chega agora, perante nós, a tal desfecho.

Disse uma vez e repito: blog não é instrumento de vingança. E tampouco é vingança o que quero. Na verdade, ao reclamarmos com o gerente, nem mesmo pretendíamos compensação financeira ou reposição.

Queríamos só alertar para o erro, desabafar, receber atenção e um pedido de desculpas. Mas este, ao que parece, não consta do cardápio da Douce France.


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