É uma sensação indefinível dar-se conta de que sempre sentimos falta de algo e sequer sabíamos disso. Um tipo de nostalgia cifrada, quebra-cabeça íntimo, futuro que ilumina o passado.
Só assim explico o efeito que o 210 Diner provocou no meu quotidiano.
Jamais imaginaria, antes que a casa surgisse, que eu precisava, e muito, de um lugar como esse. Nem sou lá muito filo-americano; sempre fui mais das Oropa, como dizia meu tio.
Mas eis que apareceu o Diner. Não bastasse isso, bem no meu caminho rotineiro — passo ao lado pelo menos quatro vezes por dia.
Fazia mais ou menos uma semana que a casa funcionava quando fomos lá pela primeira vez. Poucos dias depois, pela segunda e, assim por diante, até perder a conta.
Tanto que nem faz sentido comentar um ou outro prato — acho que provei quase tudo do longo cardápio.
Nem as situações, diferentes, em que me refugiei no hibridismo de sua proposta, que mistura café da manhã, almoço e jantar, bar, lanchonete e restaurante, artifício e aconchego. Um diner, enfim: coisa incomum em São Paulo.
Sei que já aproveitei, numa noite de muita tristeza, uma reestruturadora dose de Macallan. E que tomei, como aperitivo ou acompanhamento, meia dúzia de excelentes negroni — tanto que viciei nisso.
Sei que nenhum bacon da cidade chega aos pés do de lá — e olhe que nem de longe sou bacon-adicto; ao contrário, me incomoda seu uso excessivo e muitas vezes acessório.
Sei que o french e o piggie burger sempre me chegaram no ponto certo e com muito gosto.
E que o sanduíche de rosbife e o philli steak acabaram por se tornar meus favoritos. Que as onion rings, os tomates verdes fritos, aspargos grelhados e quiabos fritos me fazem falta quando passo muito tempo sem comê-los. Que os dolar fries recuperaram meu apreço pelo cheddar.
Que o carré de cordeiro e as baby back ribs, além de virem em porção farta, são saborosíssimos, dentre os melhores da cidade.
Pois assim a comida americana foi se infiltrando no meu dia a dia. Tomo o cuidado óbvio de não exagerar nas visitas — máximo de uma vez por semana é a regra, ultimamente atrapalhada pelo cardápio mais barato no almoço. Mas me esforço, me esforço: comprometo-me comigo mesmo.
E tento entender como nunca antes na história da minha alimentação eu sentira falta de um diner para chamar de meu. Mas sentia.
Rua Pará, 210, Higienópolis, SP
tel. 11 3661 1219
Como chegar lá (Guia 4 Cantos): 210 Diner