Quando entramos pela primeira vez no Theatro da Villa, de Tiradentes, nos surpreendemos.
O cardápio continha apenas a informação de que serviam degustação a 140 reais por pessoa, e não era isso que esperávamos.
Explicamos ao garçom que a noite, para nós, não era de degustação, e ele esclareceu que poderia, sim, servir apenas um prato — não seríamos, afinal, os únicos a preferir uma refeição mais simples.
Mesmo assim, achamos melhor voltar outro dia e fomos embora.
Dobramos a esquina, paramos numa casa de peixes e nos sentamos. A surpresa, então, foi maior: no menu, só bacalhau e salmão, a preços escorchantes.
Desistimos de novo e voltamos para o Theatro. Entramos lá pela segunda vez, agora para ficar.
Confirmamos a impressão anterior: tudo bonito e cheio de estilo. Muitos elementos visuais, mas articulados e obviamente relacionados ao universo teatral.
Havia três opções do dia. Cada um de nós ficou com uma.
Minha filha, com o ravioli de batata com molho de pecorino, azeite trufado e castanha de caju.
Minha mulher preferiu o magret de pato no molho de blueberry, acompanhado de risoto de pecorino e aspargos frescos.
Optei pelo mignon de cordeiro, cuscuz marroquino com passas, ‘pesto’ de hortelã e purê de damascos.
Enquanto esperávamos, o dono, bastante simpático, passou pela mesa, conversou um pouco, perguntou de onde éramos e avisou: ‘dizem que nossa comida não deve nada à dos melhores restaurantes de São Paulo’.
Aposta alta, expectativa ampliada.
E aposta paga. Os pratos chegaram e estavam exatos: técnica perfeita, precisão no conjunto (combinação de elementos, associação de sabores…) e no particular (qualidade dos ingredientes, ponto de cocção…).
Claro que o azeite trufado era dispensável — mas sempre achamos dispensável o azeite trufado.
Claro, também, que houve um prato superior aos outros, o destaque da noite: meu cordeiro, delicioso.
O orgulho do dono não era baldio: da decoração ao serviço e à comida salgada, o Theatro da Villa se equipara de fato a boas casas de São Paulo.
As sobremesas, porém, ficaram um ou dois degraus abaixo.
A terrine de chocolate amargo (‘70’) com calda de frutas vermelhas é agradável, mas comum. O ‘duo’ — sorvete de queijo de Minas com goiabada cascão amolecida e calda de goiaba — é mais interessante, mas tampouco chega a empolgar. Nos dois casos, porções pequenas demais.
Havia, porém, um detalhe de equivalência a São Paulo de que só nos demos conta no final e nos chocou: os preços. Lógico que foi um erro nosso não perguntar, logo na entrada, quanto custavam os pratos.
Até tinha feito uma estimativa a partir do preço da degustação e calculara um valor alto, em torno de 70 reais cada prato.
Errei longe. A conta indicou valores entre 85 e 90 para os principais e um total que bateu nos 500 (com um vinho de 120 e águas).
Caro demais. Pensei rapidamente e só me lembrei de três restaurantes em São Paulo que cobram nessa faixa — todos luxuosos, com chefs renomados, louças, cristais, atendimento e comida superiores à do Theatro da Villa.
Saímos de lá intrigados. Não havia dúvida de que havíamos feito uma ótima refeição. Mas que mercado é este que permite a manutenção, numa cidade pequena e de fluxo sazonal de turistas, de uma casa que cobra o que o Theatro da Villa cobra?
O restaurante existe há onze anos e eu não sei a resposta.
Rua Padre Toledo, 157, Tiradentes, Minas Gerais
tel. 32 3355 1275