Arquivo para fevereiro, 2011

Com plim

23/02/2011

 

Ouro Preto não foi gentil com nossa fome.

Chegamos lá após dias culinariamente (e não só) muito felizes em Tiradentes. Expectativa, claro, lá no alto.

Andamos ladeira acima, ladeira abaixo, visitamos alguns dos lugares mais lindos do Brasil — o que, neste país, é mais bonito do que Ouro Preto?

Mas comer… Tentamos em vários restaurantes e o resultado era sempre o abandono de pratos pelo meio e respostas constrangidas quando os garçons perguntavam se estávamos satisfeitos.

Dizíamos que sim. Mentira.

Havia, porém, uma esperança — não no fim do túnel, mas no fim da estadia: Senhora do Rosário, que o Guia 4 Rodas indica em primeiro lugar na lista de restaurantes da cidade. Fica no hotel de mesmo nome, pertinho de onde estávamos hospedados.

Seria, combináramos, o fechamento de uma viagem deliciosa pelo interior de Minas Gerais.

Lugar arrumadinho, sem charme, mas agradável. Maître acolhedor. Cardápio que mistura referências de cozinha internacional com alguns ingredientes locais.

Minha mulher e eu dividimos, como primeiro prato, um risoto de abobrinhas caipiras, tomate cereja e camarões. Minha filha escolheu o ravioli de vitelo com cogumelos.

Ambos chegaram numa velocidade estonteante e preocupante: oito minutos. É possível servir um risoto nesse tempo? Não era, claro.

Tanto que, ao ver o garçom se aproximando, minha mulher comentou: “Bem que eu ouvi um ‘plim’ vindo da cozinha…”

Achei que ela estava brincando. Não estava. Tinha ouvido mesmo o som do malfadado aparelho e o resultado estava na nossa frente: risoto empapado, massa molenga no meio e ressecada nas bordas.

Os segundos pratos estavam melhores: ‘mignon de carne de sol’ com melaço, bacalhau à lagareira.

Bacalhau gostoso, embora além do ponto — obviamente. Mas se contam nos dedos de uma mão os restaurantes que sabem preparar bacalhau no Brasil. Saborosa carne de sol com melaço.

Conta exagerada de quase 400 reais (sem sobremesa, com vinho de 100 e águas).

É, Ouro Preto não foi gentil com nossa fome.

E desde então estou matutando como o Senhora do Rosário pôde receber recomendação do Guia 4 Rodas.

De volta a São Paulo, reclamei da comida em Ouro Preto pelo twitter e recebi várias dicas de lugares bacanas. Bem feito, quem mandou não pedir antes?


Senhora do Rosário

Rua Getúlio Vargas, 270,
Ouro Preto, Minas Gerais

tel.  31  3551 4200


ps. uma primeira versão deste post saiu com erro. Eu afirmava que o Senhora do Rosário tinha uma estrela do Guia 4 Rodas. Não tinha. Uma lembrança equivocada minha provocou o engano, pelo qual me desculpo. E agradeço ao Que bicho – que me alertou para o erro pelo twitter – e ao Ricardo Castanho, editor de gastronomia do Guia, que também me corrigiu nos comentários.


Ah, o Mané…

14/02/2011

Muitos dias depois, diante do panelão de comida, eu tinha de recordar aquela tarde remota em que Roberta Malta me passou a dica. Tiradentes era, então, apenas uma miragem de minhas férias, com hotel reservado, piscina à espera e feliz possibilidade de passeios e leituras. Tudo soava, porém, tão longínquo e eu estava tão cansado que nem conseguia imaginar o dia em que chegaria por lá.

 

Sabia, no entanto, que Tiradentes tinha outras belezas, além da arquitetura colonial, das igrejas, imagens de santos e oratórios. A comida, por exemplo. E sabia, também, que Roberta estivera por lá no festival gastronômico do ano passado. Escrevi a ela. Minutos depois, a resposta: se eu podia esperá-la consultar suas anotações. Podia, claro.

 

Dia seguinte, a mensagem chegou, cheia de sugestões. O Chico Doceiro e seus canudos de doce de leite, imperdíveis. Pasteis de angu. Três restaurantes.

 

O destaque, porém, era a Estalagem do Sabor e a descrição do melhor prato, inquietante: “um mexidão incrível com banana, folhas de couve, lombo.”

 

Confesso: se não confiasse em seu paladar, esqueceria. Só que confio.

 

No dia 5 de janeiro, já instalados numa Tiradentes chuvosa e muito mais linda do que a supúnhamos, minha mulher, minha filha e eu fomos almoçar lá.

 

Lugar simples e agradável, discreto e arejado (sim, apesar da chuva, fazia calor mercuriano), atendimento simpático.

 

Cardápio relativamente breve, com opções sempre disponíveis e outras que dependiam de encomenda. Bati o olho e descobri que o tal mexidão se chamava “Mané sem jaleco”.

 

Dava para três? Dava, confirmou o garçom.

 

De qualquer modo, engrossamos o pedido com uma porção de mandioca frita — crocante por fora, macia por dentro, saborosíssima.

 

E recebemos, para início, um couvert bonito, interessante e gostoso, disposto em prato de metal escurecido, imitando um galho: folhas de couve, quatro rodelas de queijo. Cada queijo com complemento diverso: pesto, orégano, mostarda, mix de especiarias.

 

Mas o Mané sem jaleco… De fato, um mexido de arroz, feijões, couve rasgada, bacon, lombo, banana e cebola. Comemos feito leões (diria meu avô) e não conseguimos dar conta do panelão.

 

Exaustos e satisfeitos, felizes como só as boas comidas conseguem nos deixar, respiramos fundo: foi nesse momento que lembrei daquela tarde remota e agradeci à Roberta. Tiradentes agora tinha concretude e, com o perdão do trocadilho, mais sabor.

 

Voltamos à Estalagem na véspera de nos despedirmos da cidade. Comemos bons torresmos e uma costelinha suína com ora-pro-nobis, arroz e angu. Não empolgou tanto quanto o querido Mané, mas estava bem boa.

 

Preços? Entre 60 e 70 reais, para pratos que servem três pessoas com folga.

 

Nossa próxima viagem para Tiradentes — onde, espero, ainda morarei — já está marcada. Voltaremos, óbvio, à Estalagem do Sabor.

 

Será assim tão bom? Difícil dizer. Toda experiência é irrepetível desde sempre e para sempre. Mas quem recebe boas dicas está deliciosamente condenado a centenas de refeições inesquecíveis.

 

 

Estalagem do Sabor

Rua Ministro Gabriel Passos, 280, Tiradentes, Minas Gerais

tel.  32  3355 1144

 

 

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