Ela calculou que devia deixar a taça mais para a direita, linha reta com o braço apoiado. Ele nem percebeu. Olhava mais para o alto, buscava alguma coisa no rosto dela, talvez a boca — não, ele não escapava do clichê.
No centro da mesa, um mar de objetos: azeite, vela, pães, telefones, tudo mais ou menos abandonado, só para atrapalhar a circulação das mãos.
Então ela deslocou ligeiramente o corpo para frente e ele segurou mais forte o cabo da taça, tinha que tocar em algo, firmar. Só não via o movimento da perna, dela, sobre salto, quinze, sob a mesa, ainda distante da dele. Ficava assim meio marujo, na maré baixa.
Ela, terrena. Mas faltava jogar o dado, tentar regrar o acaso. A escassez no gesto era compensada por algo excessivo em ambos: o queixo dela, a gravata dele.
Vieram os pratos, massa, e o vinho ia — também a garrafa, na sua coerência literal, contribuía para o engarrafamento na mesa.
Havia (obviamente) risos. E alguma dança, feita com os pulsos.
Pensei que o pessoal do Animal Planet faria um ótimo programa sobre o peculiar ritual de acasalamento que começava: típico de Homo sapiens, subespécie classe média alta, subsubespécie freqüentador de restaurante da moda.
Daí foi a vez dele — cabe ao homem, afinal? — tentar abrir espaço. Deslocou uma taça, contornou outra, derrubou planejadamente a rolha, rasgou o sorriso tímido, procurou algo e encontrou o azeite. Só mesmo na imaginação do narrador vizinho o objetivo era a mão dela.
Ainda não, na realidade. Demoraria minutos, horas, meses, talvez nunca, para que algo ali se completasse. Talvez por isso, ela preferiu acomodar as costas na cadeira, avançar a perna para o lado, abdicar do contato direto em favor da mastigação.
Devia estar boa a massa deles, tanto que adiava o desfecho do começo, empacava o ritual — veja só, pessoal do Animal Planet, isso não acontece com lontras.
Só que meu prato estava ruim e, mesmo consciente do prejuízo para a narrativa, pedi a conta e fui embora.