Arquivo para abril, 2011

A nhanha

27/04/2011

Ela calculou que devia deixar a taça mais para a direita, linha reta com o braço apoiado. Ele nem percebeu. Olhava mais para o alto, buscava alguma coisa no rosto dela, talvez a boca — não, ele não escapava do clichê.

No centro da mesa, um mar de objetos: azeite, vela, pães, telefones, tudo mais ou menos abandonado, só para atrapalhar a circulação das mãos.

Então ela deslocou ligeiramente o corpo para frente e ele segurou mais forte o cabo da taça, tinha que tocar em algo, firmar. Só não via o movimento da perna, dela, sobre salto, quinze, sob a mesa, ainda distante da dele. Ficava assim meio marujo, na maré baixa.

Ela, terrena. Mas faltava jogar o dado, tentar regrar o acaso. A escassez no gesto era compensada por algo excessivo em ambos: o queixo dela, a gravata dele.

Vieram os pratos, massa, e o vinho ia — também a garrafa, na sua coerência literal, contribuía para o engarrafamento na mesa.

Havia (obviamente) risos. E alguma dança, feita com os pulsos.

Pensei que o pessoal do Animal Planet faria um ótimo programa sobre o peculiar ritual de acasalamento que começava: típico de Homo sapiens, subespécie classe média alta, subsubespécie freqüentador de restaurante da moda.

Daí foi a vez dele — cabe ao homem, afinal? — tentar abrir espaço. Deslocou uma taça, contornou outra, derrubou planejadamente a rolha, rasgou o sorriso tímido, procurou algo e encontrou o azeite. Só mesmo na imaginação do narrador vizinho o objetivo era a mão dela.

Ainda não, na realidade. Demoraria minutos, horas, meses, talvez nunca, para que algo ali se completasse. Talvez por isso, ela preferiu acomodar as costas na cadeira, avançar a perna para o lado, abdicar do contato direto em favor da mastigação.

Devia estar boa a massa deles, tanto que adiava o desfecho do começo, empacava o ritual — veja só, pessoal do Animal Planet, isso não acontece com lontras.

Só que meu prato estava ruim e, mesmo consciente do prejuízo para a narrativa, pedi a conta e fui embora.

Tudo blue no Blú

06/04/2011

 

Poucas coisas são mais agradáveis, no tantas vezes superestimado mundo das comidas, do que fazer um inesperado e descontraído bom jantar.

Numa noite de chuva, minha mulher e eu devíamos comer algo em Perdizes, enquanto esperávamos para buscar nossa filha, que brincava na casa de uma amiga.

Previmos: às 8 e pouco chegamos ao Zé do Hambúrguer (a que nunca fomos), comemos um lanche rápido; às 9 pegamos nossa filhota.

Acontece que no Zé do Hambúrguer havia mais de quarenta minutos de espera.

Espera, a grande paixão paulistana — de que nem longinquamente compartilhamos.

Porque espera — vale lembrar — só vale a pena se não ultrapassar cinco minutos e reservar a expectativa de uma grande refeição.

Não era, nem de longe, o caso.

Eis que, de repente, não mais que de repente, nos demos conta de que estávamos ao lado do Blú Bistrô. Andamos vinte metros e desanimamos: a casa participava da Restaurant Week; logo, deveria estar cheia.

Nem tanto. Bastava aguardar que limpassem uma mesa e poderíamos sentar.

O menu da RW não empolgava; então, seguimos o cardápio regular. Para minha mulher, escalopes Paris, recheados de cogumelos e gorgonzola, no molho de vinho tinto e acompanhados de batatas rústicas. Para mim, confit de pato au poivre com purê de cará e pera glaceada. Para nós dois, de entrada, croquetes de pato.

Sim, pato e, depois, pato. É meu termômetro bistrotière. Bistrô que não passa no teste do pato não mais me empata (perdão, leitor, não resisti ao trocadilho…)

Os croquetes estavam agradáveis, sequinhos, com recheio cremoso (gruyère), mas quase sem gosto da ave. Instalou-se uma tensão no ar…

Tensão que, por sinal, cresceu quando começou a chover — nossa mesa era quase ao ar livre.

A tensão começou a se desfazer com a iniciativa pronta e simpática do serviço que, com a casa cheia e em meio à confusão da Restaurant Week, deu um jeito de nos transferir, juntamente com o casal da mesa vizinha, para a área interna do restaurante.

E se dissolveu quando recebi meu bom e macio pato, 7,5 graus na escala PatAlhos. O purê de cará incluía batata na composição e as peras vinham firmes e saborosas.

Também os escalopes servidos à minha mulher eram bem preparados e gostosos.

Nos dois pratos, os molhos e temperos pesavam um pouco mais do que deviam, encobrindo parcialmente outros sabores, mas sem chegar a comprometer o conjunto.

Uma entrada, dois principais, um café, águas. Sem sobremesa, couvert ou vinho. 70 reais por pessoa. Não é barato, mas é proporcionalmente baixo para os atuais padrões paulistanos.

O Blú Bistrô pode entrar na lista dos dez ou vinte melhores restaurantes de São Paulo? Obviamente não. E nem esta parece ser a intenção da casa. Mas é um tipo de restaurante essencial: aquele em que se pode fazer, a custo razoável, uma refeição boa, agradável, descompromissada e com atendimento gentil.

Se o jantar, além disso, ainda for inesperado, tanto melhor.


Blú Bistrô

Rua Monte Alegre, 591, Perdizes, São Paulo

tel. 11 3871 9296

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Blú Bistrô

 


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