Arquivo para agosto, 2011

Meus vinte, hoje

30/08/2011

 

Começou como um desabafo, ao sair de um jantar inexpressivo: ‘Não há, em São Paulo, mais de vinte restaurantes que de fato valham a pena’ — escrevi no twitter.

A cifra é arbitrária. O comentário, idiossincrático. Mesmo assim o repeti mais de uma vez.

Então passaram a me cobrar que fizesse a lista.

Não foi fácil, claro. E ela não representa necessariamente os melhores restaurantes de São Paulo. Três das principais casas da cidade estão ausentes — D.O.M., Maní e La Brasserie de Erick Jacquin — e gosto das três. Apenas não acho que tenham a necessária regularidade, o que muitas vezes torna ruim a relação custo-benefício.

Claro que posso ter esquecido de algum lugar. Assim que lembrar, acrescento. Obviamente, ela está em ordem alfabética. E tem 21 nomes, não vinte.

Finalmente: não custa lembrar que a lista se refere a… hoje. Amanhã pode ser outra.

 

AK Vila

Amadeus

Brasil a Gosto

Chef Rouge

Così

Dalva & Dito

210 Diner

Emiliano

Epice

Fasano

Gero

Ici

Jun Sakamoto

Marcel

Mocotó

Parigi

Picchi

Sal Gastronomia

Tappo

Tordesilhas

Zena Caffè

 

De tapas e modas

22/08/2011

 

O Brasil é um país curioso. No mundo das comidas, inclusive.

Uma das novidades recentes (‘recentes’ já de uns bons anos, diga-se de passagem) é a crescente hispanofilia.

Claro que ela não é só nossa. Do sucesso — sobretudo midiático — do Bulli à recorrência das tapas nos cardápios, uma parte significativa do Ocidente passou a flertar com a Espanha.

Aqui, porém, essa paixão culinária ganhou contornos peculiares. Trata-se, afinal, de um país apaixonado por modas, capaz de incorporar quase tudo sem mudar quase nada no panorama interno.

As tapas estão na crista da onda? Vamos servi-las! Sem, no entanto, alterar os rituais chiques dos restaurantes. Que sejam levadas à mesa por garçons que chamam os clientes de ‘doutor’ e que repetem o ritual rigoroso do serviço à francesa. Que custem o preço de um prato normal ou componham longas, cerimoniosas e caras degustações.

O paradoxo é visível, sobretudo, num restaurante do porte do Arola 23.

Lugar bonito, com vista linda, embora o desenho da São Paulo noturna não seja tão acessível quando se está sentado: a distância da janela, as colunas e barreiras entre mesas limitam o olhar do comensal.

A degustação começou com um bom presunto cru, uma delicada e agradável salada Cesar e um ‘duo’ de foie — bombom com gelatina dura demais e mousse com redução de Porto.

Em seguida, boas batatas bravas com aioli, pupunha com molho de castanhas e tomates e bolinhos de bacalhau. As batatas reapareceram, pouco depois, como acompanhamento do polvo.

O lombo de bacalhau na cama de espinafre chegou macio, no ponto, mas abafado pelo sabor forte, exagerado, da cebola roxa que o ladeava. O purê de cogumelos que acompanhava o Kobe beef também se impunha, deixando a carne e a cebola glaceada em segundo plano. Nos dois casos, faltava equilíbrio ao prato.

Boas sobremesas: sorbet de morango e suflê de chocolate com sorvete de coco.

Tomamos um espumante da cara carta de vinhos e água — talvez duas ou três garrafinhas; certamente não as seis que foram cobradas na conta final.

Para fechar a refeição, outra nota estapafúrdia. Minha mulher aceitou o chá de hortelã que lhe foi oferecido. Para nossa surpresa, veio à mesa um saquinho de Mate Leão. Não foi tocado, claro. Ninguém perguntou o motivo e a cobrança (dez reais) apareceu normalmente na conta.

Jantar ruim? Não. Alternou pratos bons e medianos. Só que nem de longe valeu o preço (cerca de 850 reais, duas pessoas, com vinho de aproximadamente 150).

Descemos o elevador nos entreolhando, certos de que havíamos jantado num restaurante espanhol tipicamente brasileiro. Que a Espanha manifestara, mais uma vez, sua forte presença no imaginário gastronômico nacional. Que nosso país confirmava, como sempre, sua capacidade de tropicalizar o que lhe aparecesse na frente.

E isso não é exatamente um elogio.

Arola 23

Alameda Santos, 1437, Jardim Paulista, SP

tel. 11 3146 5923


Almoço executivo

11/08/2011

 

 

Tenho que reconhecer: a sugestão indireta desse texto veio de um amigo — iniciais A.B. Obrigado!

Um belo dia, em meio a conversações tuiteiras, ele arrematou: ‘Quer conhecer a cozinha do restaurante sem pagar muito? Coma o almoço executivo.’

Na hora em que li não tive propriamente a ideia de fazer uma ronda de almoços executivos. Poucas semanas depois, no entanto, os acasos da sorte me levaram a ela.

Não sei bem a quantos restaurantes fui. Muitos. Algumas anotações perdi, outras preferiria ter perdido.

Ao final de tantos almoços, concluí que A.B. tinha razão. Quase sempre é possível ter uma boa noção do trabalho feito na casa a partir do exemplo que o almoço executivo dá. Mais: dá para perceber com facilidade que restaurantes de fato o valorizam e quais o depreciam.

É mais ou menos óbvio que alguém que opta por um almoço executivo não pretende demorar muito, nem gastar demais. Também é óbvio que, para o restaurante, o almoço executivo pode ser uma forma de atrair novos clientes, expor a qualidade do próprio trabalho ou apenas um recurso ágil para aumentar seus ganhos.

Por tudo isso, a questão dos preços é séria. Para não ter surpresa na hora da conta e pagar quase o dobro do que pretendia, o comensal deve ficar atento a alguns detalhes.

O couvert, por exemplo. Ele está incluído no preço? Se a informação não constar do cardápio, pergunte. Raros garçons têm o bom hábito de informar voluntariamente. Se não for parte do cardápio executivo, a sugestão é simples: recuse. Mesmo quando bons, aqueles pãezinhos podem representar um acréscimo significativo na conta.

E as bebidas? Num almoço que custa trinta e poucos reais, faz sentido pagar quase dez por uma cerveja ou oito por um suco? Parece-me que não, mas a decisão, sempre, é do cliente. Importante é que ele saiba o quanto está pagando por aquela bebida aparentemente inocente e que fique atento porque, em algumas casas, os garçons esvaziam rapidamente as garrafas de água e trazem logo outras para a mesa.

As anotações abaixo se referem a cinco exemplos típicos. Eles estão em ordem alfabética. Um é sensacional, outro é bastante bom e generoso. E três deles não deixaram saudade.

Por fim, duas observações. Os preços indicados correspondem ao gasto de duas pessoas. Todas as refeições foram acompanhadas com água.

 

 

* O almoço executivo do Antiquarius ilustra bem o estilo da comida da casa.

Abriu com um couvert simplificado, agradável e incluído no preço.

Entre as opções de entrada, ficamos com a cremosíssima (e pesadíssima) tigelinha de bacalhau. Um erro.

Dos principais, arroz de polvo e arroz de pato. Porções grandes e, sobretudo, pesadas. Difícil ultrapassar a metade de ambos.

De sobremesa, um dos doces da casa — a maioria é de origem conventual e com presença marcante de açúcar.

Conta: 168

 

* O almoço executivo do Arturito decepcionou.

Um agradável couvert — pães quentinhos e azeite com azeitonas, alecrim, pimenta e parmesão — deu a boa largada. Só depois soubemos que era cobrado à parte.

Depois, a salada de verdes, feitos na lenha, trouxe ótima abóbora. O prato, porém, era minúsculo.

Os principais desafinaram totalmente: a barriga de porco braseada estava irregular: um lado macio, o outro extremamente rijo. O frango no forno a lenha era insosso, o alecrim prevalecia claramente e encobria os demais sabores.

De sobremesa, bom crepe brûlé com toque de laranja, recheado de doce de leite queimado e muito (muito!) doce, acompanhado de chantilly.

Conta: 130

 

* O almoço executivo do Boa também ficou aquém do que esperávamos.

O creme de inhame e castanha do Pará estava insosso.

A outra entrada — cuscuz marroquino com manga, pimenta rosa, redução de vinho e raspas de limão — era interessante, mas o limão se impunha de forma contundente aos demais sabores.

A mesma falta de gosto do creme de inhame se manifestou nos dois pratos principais: grão de bico com calabresa, lentilhas, costelinha defumada e aioli; wok de peixe, gengibre e leite de coco. Por escrito, ambos os pratos prometiam sabores intensos. Na prática, eram inexpressivos.

As sobremesas não mudaram o rumo da refeição. Banana assada correta com calda de chocolate, laranja com espuma de chá.

Conta: 88

 

* Se algum almoço executivo merece ser celebrado pela combinação entre alta qualidade e grande quantidade é o do Dalva & Dito.

Começou com uma agradável salada de folhas verdes, tomate, cenoura e palmito.

Em seguida, foram dispostos potinhos de acompanhamentos: arroz branco, feijões (roxinho e preto), couve, farofa, batatas.

E chegaram quatro carnes: galeto, mignon, pernil e costelinha de porco.

A princípio, achamos que devíamos escolher uma delas. Não. As quatro vêm sempre à mesa — se você quiser (e conseguir).

Curiosamente a melhor delas era o mignon. Todas, no entanto, estavam bem preparadas e foi necessário, óbvio, recusar parte do que esperavam que comêssemos.

Conta: 140

 

* O almoço executivo do Epice… Ah, o almoço executivo do Epice.

O couvert, incluído no preço, traz ótimos pães, manteiga, azeite e sal. Também a água, ressalte-se, não é cobrada à parte — nem tem aquele gosto forte de cloro de algumas águas oferecidas gratuitamente por restaurantes.

Entradas, principais e sobremesas ofereceram um painel preciso da proposta da casa e da inventividade do chef.

Começamos com salmão curado com aspargos e salada verde e mexilhão com salada de beterraba e agrião.

Prosseguimos com o pargo acompanhado de purê de limão, alho porró e cuscuz marroquino e com a barriga de porco com purê de batata e cenoura.

As sobremesas: morango com sorbet de morango e creme inglês e

sorbet de pêra.

Impossível destacar qualquer um dos pratos. Todos estavam excelentes. De longe, o melhor executivo que provamos. De longe.

Conta: 93

 

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