Quase no final de “Manhattan”, Isaac —o personagem de Woody Allen— deita-se no sofá e, gravador em punho, começa a listar as coisas pelas quais a vida merece ser vivida.
A cena parece ser simples, mas não é. Tampouco é fácil montar a lista, embora alguns dos itens soem prosaicos, quase banais.
E assim a tensão entre a simplicidade da resposta e a complexidade da pergunta —o dilema existencial por excelência— transforma o rápido monólogo em uma das passagens mais líricas do cinema.
É provável que você, leitor, já tenha se feito a mesma pergunta. Eu me fiz, claro. Várias vezes. E como ainda espero viver muito —no mínimo, o dobro do que já vivi—, sei que ainda a refarei. O próprio filme de Woody Allen, aliás, é item fixo da minha lista.
Pois desde a semana passada uma refeição passou a fazer parte dos motivos que justificam meus 47 anos —no geral, felizes, mas, humano entre humanos, também marcados, aqui e ali, por horas difíceis.
Os primeiros indícios de uma noite linda vieram com o pão crocante, a manteiga, o mandiopã, o salaminho artesanal do Sul, as gougères de Gruyère: petiscos que antecediam o menu de nove tempos do restaurante de Roberta Sudbrack.
Durante cerca de três horas e meia, comi a incrível canjiquinha de milho com ovas, o aspargo branco e seu caramelo, o delicado tataki de atum, o preciso ravioli de abóbora, a crocante pele de milho com foie gras ralado e semente de figo, o afinado trio queijo-kinkan-broa de milho, o delicado sorbet de goiaba.
Um vermelho —com lentilhas e azeite— que me deixou azul de alegria. O melhor cordeiro que me lembro de ter provado. O melhor mil folhas, dentre as centenas que já comi.
Tudo simples e tudo complexo.
Simplicidade, afinal, inclui gesto amplo, lentidão. Transforma o banal em profundo.
Simplicidade, afinal, é sempre sofisticada, nunca imediata ou grosseira.
Por tudo isso e muito mais, jantar assim é uma das coisas pelas quais a vida merece ser vivida.
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