Arquivo para fevereiro, 2012

La Mar

26/02/2012

 

Hesitei muito, muito mesmo, antes de escrever sobre La Mar Cebichería. Não por gostar ou não do lugar, mas por minha pura e simples ignorância: tenho dificuldade para entender a comida peruana, foco da casa.

 

Sei que há uma vasta e consolidada tradição brasileira de falar sobre tudo e especialmente sobre aquilo de que não se entende e eu mesmo a pratico de vez em quando. Mas a leviandade de alguns comentários —e, nesse mundo das comidas, é uma festa— me incomoda cada vez mais.

 

Na verdade, escrevo cada vez menos para o blog porque me desconforta comentar algum prato ou restaurante com uma ou duas visitas apenas. E minhas refeições em restaurantes são financiadas por meu salário de assalariado —ganho, diga-se de passagem, com bastante custo—, logo…

 

Por motivos mais ou menos óbvios —tradições consolidadas, hábitos alimentares, etc.—, é muito mais fácil decifrar a dinâmica de um jantar francês ou italiano. Quando ceviches e causas chegam à mesa, no entanto, que repertório acionar para compreender a —lamento se acharem que teorizo, mas a palavra é exatamente esta:— semântica daquela cozinha, seus significados, seus sentidos, as interpretações possíveis de um sistema que só conheço desde muito longe?

 

Porque não importa que a comida peruana esteja na moda pelo mundo afora e que o próprio La Mar tenha filiais em meia dúzia de países ou cidades: interpretar sua comida à luz de paladares treinados por outras comidas é reducionismo, é banalização.

 

Daí tanta hesitação. Finalmente, porém, venci o pudor e resolvi escrever. Não analisarei, nem avaliarei. Apenas constatarei. Serei superficial e provavelmente banal. Não importa.

 

A casa é séria, seu trabalho é interessante. O serviço, de uma gentileza e de um didatismo impressionantes, sem incorrer no insuportável exagero de algumas casas com sua prática de declamar cardápios e, vez ou outra, receitas. Não, a garçonete de forte sotaque peruano que nos atendeu na última visita explicou com cuidado o que desconhecíamos, preocupou-se com nossas escolhas, recomendou corretamente.

 

Num sábado à noite, com o agradável salão lotado, pedimos uma “barca de causas” e uma degustação de ceviches.

 

As causas são purês de batata, em versões pequenas, com pimentas, recheios e coberturas. Das cinco provadas, a melhor era a “antigua”: peixe empanado, cebola, aji amarelo, dedo de moça, coentro, molho tártaro.

 

Dos quatro ceviches que compunham a degustação, preferimos o “clássico”, preparado com peixe, cebola roxa, dedo de moça e coentro e imerso no indefectível leite de tigre. O “nikei” —cubos de atum em molho adocicado— também agradou bastante.

De sobremesa, os picarones (rodelas de massa frita com melado e especiarias) estavam bons e a “crema volteada” —com maçãs assadas e chantilly de capim limão—, deliciosa.

 

Como interpretar, não sei. Mas comemos bem e nos divertimos durante a refeição, imaginando a sintonia fina que tem que ser empregada na combinação e na gradação do uso das pimentas, no recurso a um ou outro pescado, nas combinações só aparentemente fáceis dos diversos ingredientes.

 

Talvez por isso, dessa vez, ultrapassei a hesitação e decidi escrever sobre o La Mar. Porque, no fim das contas, é importante compreender a semântica de uma cozinha —e, de forma mais geral e muito mais importante, do mundo que nos cerca—, mas a verdade profunda de um jantar é simplesmente comer bem.

 

 

La Mar Cebichería

Rua Tabapuã, 1410, Itaim, São Paulo

Tel.  11 m3073 1213

 

De bom humor

19/02/2012

 

Ultimamente as hamburguerias —nome estranho, convenhamos— proliferam por São Paulo. Boas ou ruins, sofisticadas ou banais.

 

E eu gosto de hambúrguer. Tanto o bacana, com carne especial e cheio de bossa, quanto o mais óbvio, na chapa, com alface e tomate. Só imponho uma condição: que seja bom e valha o que custa. Dos nove aos quarenta reais, tem que valer.

 

Dos da chapa, no velho estilo, meu favorito é o do Hobby da Cardoso de Almeida. Para os mais elaborados, recorro a três lugares, exatamente nessa ordem: 210 Diner, St. Louis e Ritz. Experiências em outras partes nem sempre foram bem sucedidas.

 

No meio de tanto hambúrguer e de tanta hamburgueria —sim, o nome é estranho, por mais que tenha virado moda o uso desse sufixo para tudo—, resolvi finalmente conhecer uma que não é nova, mas aonde, sei lá por quê, nunca tinha ido: a Hamburgueria Nacional.

 

Oito e meia da noite de um sábado e um dos dois amplos salões já estava quase todo ocupado. Meia hora depois, o outro também ficaria cheio.

 

Sobre a mesa, um aviso anunciava que o sanduíche de lá havia sido considerado o quarto melhor do mundo. Minha mulher e eu estávamos de bom humor e, por isso, ignoramos a insólita peça publicitária. Não importa que periódico tenha feito a eleição; qualquer pessoa consegue facilmente imaginar que é impossível comparar hambúrgueres do mundo inteiro —um ranking mundial, portanto, soa estapafúrdio.

 

A estrutura do cardápio leva o cliente a montar seu próprio hambúrguer. Parte-se da carne —tipo e tamanho preferidos— e acrescentam-se os complementos: queijos, molhos, etc. Novamente o bom humor nos salvou. Não ligamos para o fato de que não havia, na prática, uma proposta da casa para o sanduíche e compusemos os nossos.

 

Pedi com queijo de Minas; minha mulher, com queijo suíço. Para provar: maionese de wasabi e barbecue. Acompanhamento: uma porção de mandioca frita.

 

Chegaram os lanches e o bom humor teve que resistir à carne além do ponto e de sabor inexpressivo. A fortíssima maionese de wasabi e o concentrado barbecue encobriam qualquer outro sabor do qual se aproximassem; abandonamos os dois. No outro extremo, o queijo de Minas não revelava qualquer gosto.

 

Diferente era a mandioca frita, que era puro bacon: no sabor e no cheiro. Perguntamos à garçonete por que ela não avisara que o acompanhamento era preparado com bacon e, para nossa surpresa, ela respondeu que não era. Gentil, ofereceu uma resposta ao nosso espanto: “devem ter usado a mesma fritadeira em que fritaram bacon e daí fica o gosto”.

 

Ah, bom… Mas o humor resistiu: como reclamar diante de explicação tão prosaica e sincera?

 

O serviço, de fato, era a única coisa que escapava na experiência mal sucedida. Gentil, atenciosa, a garçonete ainda nos recomendou o sorvete, artesanal e terceirizado, de que “nunca ninguém reclamou”.

 

Claro que não seríamos os primeiros a reclamar, embora os dois sabores que pedimos —morango e chocolate— estivessem ruins. A moça também não reclamou do fato de termos deixado os sorvetes quase inteiros e assim ficamos quites.

 

Ligeiramente desconcertados com todos os problemas que cercavam o hambúrguer eleito por alguém como o quarto melhor do mundo, pegamos o carro e fomos embora. Por incrível que pareça, de bom humor.

 

 

Hamburgueria Nacional

Rua Leopoldo Couto Magalhães Junior, 822, Itaim, São Paulo

tel.  11  3073 0428

 

 

Tiradentes

03/02/2012

Tiradentes se tornou, desde o ano passado, meu lugar favorito. É pequena, delicada (de quantas cidades no mundo se pode dizer que é delicada? Pois então, Tiradentes é), bonita, tem comidas boas, ruas de pedra, silêncio, pouca coisa para fazer, além de andar e ler, ler, ler. Enfim, um lugar ideal.

Fui lá pela primeira vez, no início de 2011; voltei no fim do ano, vi nascer 2012 na praça central. Onze dias. Pouco, quase nada. Mas tão bom.

Poderia falar, aqui, do lindo concerto de Elisa Freixo, no órgão da Matriz de Santo Antônio, ou da quantidade de anjos que há em cada altar dessa igreja maravilhosa —minha filha e eu nos divertimos contando, numa das várias visitas.

Poderia falar que finalmente comprei o oratório que tanto queria e que agora está aqui, na mesa do meu escritório, com imagens em madeira, muito bem talhadas, de Santo Antônio e São Francisco de Assis, a me espreitar e proteger.

Poderia também esclarecer que, não, não sou um sujeito religioso, mas adoro ficar dentro de igrejas —as que valem a pena, claro— e adoro imagens de santos.

Poderia, ainda, dizer que queria mesmo era mudar para lá e só andar a pé.

Poderia, afinal, dizer que sim, tem um monte de cachaças bacanas por lá, mas não, não bebo cachaça, não entendo de cachaça e até experimentei uma ou outra, cheguei a gostar, mas continuo mais amigo do vinho, do whisky e, de um ano e pouco para cá, do gim.

Mas vou falar mesmo que nenhum restaurante que conheci dessa vez chegou aos pés dos meus dois lugares favoritos, escolhidos no início de 2011 e revisitados mais de uma vez agora: a Estalagem do Sabor e o Conto de réis —bar que eu queria do lado da minha casa. Falarei deles em outro texto, juntamente com o curioso Casa Azul, “bistrô latino”.

Vou também contar que não voltei ao caríssimo e ligeiramente decepcionante Theatro da Villa, que me assustou com a conta no ano passado. E que ainda não foi dessa vez que conheci o controverso Santíssima Gula, que uns amam e outros odeiam.

Vou dizer apenas que o Pau de Angu, tão celebrado, é um lugar lindo de morrer, numa fazenda gostosa com vista para a serra, mas sua comida… Bem, se não chega a decepcionar, tampouco empolga. O torresmo e a mandioca frita eram corretos; a costelinha, agradável; o lombo, bom.

Os acompanhamentos, no entanto, derrapavam —exceção feita à couve: batatas (com alecrim) e tutu inexpressivos, feijão tropeiro à beira do azedume (avisamos a garçonete, que não deu retorno). Valeu a pena pelo lugar, deixou dívida e dúvidas quanto à comida.

Já o Via Destra, italiano, decepcionou nos pratos de… massa. O ravióli de bacalhau (molho de azeite, alho e ervas) trazia recheio denso e compacto demais, continha desnecessária farinha. Melhor o torteloni de mussarela e manjericão no molho de azeite e sálvia. Os dois pratos eram exceções no cardápio compostos basicamente por massas secas —Barilla, informou o garçom. O penne trazia molho branco bastante pesado com funghi porcini. Os preços —entre 50 e 60 e poucos— são obviamente exagerados.

Estávamos prontos para ir embora, dispensando a sobremesa, quando o garçom insistiu para que provássemos a pannacotta. Trocamos olhares ressabiados, mas aceitamos a sugestão. E ocorreu a improvável surpresa de comer uma das melhores já provadas ao sul do Equador. Consistência perfeita, saborosa, suave e leve. Incrível.

O que deveria ser o melhor jantar da viagem aconteceu no Tragaluz. Aniversário de minha mulher, expectativa por um dos restaurantes mais elogiados da cidade. Salão bonito, inteligentemente organizado, recheado de referências religiosas que não entendi muito bem —uma religiosidade difusa, expressa em incontáveis crucifixos e talvez significada no próprio nome da casa. Cardápio cheio de bossa, casos e histórias, que o cliente, se quiser, pode até comprar.

O “lombo crocante” —filé de porco envolto em crosta de parmesão e alecrim— veio acompanhado pelo melhor da noite: um purê de abóbora homogêneo e saboroso. Além do purê, abacaxi grelhado e espetinho de quiabo. A “pintada tragaluz”, especialidade da casa, é uma galinha d’angola em molho amadeirado, com ravióli de abóbora.

Nos dois casos, bons ingredientes e boas ideias traduzidos em execuções que exageravam nos temperos e encobriam parte dos sabores que os pratos podiam oferecer. A crosta do lombo, com imensa quantidade de alecrim, se sobrepunha a todo o resto. O molho da galinha, igualmente fortíssimo, deixava o gosto da ave bem longe do paladar. Comida ruim? Nem de longe, mas inferior ao que poderia ser se a cozinha se contivesse um pouco.

Fora isso, comemos em alguns lugares esquecíveis e já quase esquecidos. Melhor deixar para lá, por exemplo, o péssimo bife a cavalo do Mandalun: carne rija com forte gosto de sangue, ovos esturricados. Mais de 80% deixados no prato sem que ninguém tivesse a curiosidade de saber o motivo.

No fim das contas, a verdade é que Tiradentes não é lugar só para comer; é cidade para se visitar e —quem sabe um dia?— morar. Nesse dia, inclusive, talvez o tempo ande mais lento, os dias corram menos apressados e nunca mais eu passe quase dois meses sem atualizar o blog…

Pau de Angu

Estrada Real Tiradentes-Bichinho, marco 3, Tiradentes, MG

tel.  32  9948 1692

Via Destra

Rua Direita, 45, Tiradentes, MG

tel.  32  3355 1906

Tragaluz

Rua Direita, 52, Tiradentes, MG

tel.  32  3355 1424

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