São Paulo é feia.

08/10/2013

 

Você já ouviu essa frase hoje?

 

Provavelmente.

 

E ontem e anteontem e assim por diante até retrocedermos a 25 de janeiro de 1554. Um bandeirante e um jesuíta talvez tenham olhado o horizonte (na época, creia, era possível enxergar o horizonte desde o planalto) e constatado: São Paulo é feia.

 

Hoje, quatrocentos e cinquenta e tantos anos depois, virou mania dizer que São Paulo é feia. Assim, os paulistanos professam com louvor sua peculiar forma de destratar a cidade em que vivem.

 

Têm razões de sobra, é claro: umas quatrocentas e cinquenta e tantas logo me vêm à cabeça.

 

Sem falar que esse masoquismo urbano virou também uma manifestação cult: fica subentendido que o interlocutor conhece muitas outras cidades, todas naturalmente superiores a São Paulo e, em seu requinte de urbanista, sabe bem avaliá-las e compará-las.

 

E assim vemos elogios rasgados a lugares horríveis (não, não citarei cidades muito piores do que São Paulo), sempre vistos na perspectiva do turista, jamais do morador. São Paulo, afinal, é feia: basta constatar.

 

Acontece que, embora seja (conforme bem sabemos) feia, São Paulo tem coisas sensacionais.

 

Pense no Effendi.

 

Ande meio quarteirão para a direita e verá uma infinidade de lojas mal ajambradas, com vitrines idênticas e gosto duvidosíssimo.

 

Ande meio quarteirão à esquerda e estará no coração das trevas da Cracolândia.

 

Então não ande, fique sentado ao balcão e peça uma das melhores, talvez a melhor esfiha de São Paulo. Preparada na hora, massa saborosa, bem assada, cobertura deliciosa de carne, queijo, espinafre ou basturma.

 

Diante dos seus olhos (lembre-se: você não andou à direita, nem à esquerda e ainda está sentado ao balcão, esperando a esfiha ficar pronta), uma televisão exibe programas a que você jamais assistiria na sua casa. Acima e abaixo da tv, bebidas que você nem lembrava mais que existiam — e era melhor mesmo não lembrar.

 

Mas a esfiha está ali, incólume aos modismos e às frases feitas e artificiais de chefs que se divisam com publicitários.

 

Ela, a esfiha do Effendi.

 

Porque São Paulo é feia. Mas felizmente também é linda.

 

 

 

[ps. Vivi 48 anos e meio, dos meus 49, em São Paulo. Acho São Paulo feia e acho São Paulo linda. Hoje, depois de comer, às dez e meia da manhã, uma esfiha de queijo com basturma no balcão do Effendi, acho que São Paulo é muito mais linda do que feia.]

 

 

 

Effendi

Rua Dom Antônio de Melo, 77, Luz, São Paulo

tel. 11 3228 0295

 

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10 Respostas to “São Paulo é feia.”


  1. Concordo. Quando voltamos a morar em São Paulo este ano, muita gente criticou nossa decisão. São Paulo é feia, poluída, violenta, com trânsito caótico. Mas tem estas coisas lindas sem as quais a gente não vive direito ;-)

  2. Carolina Says:

    Grata surpresa encontrar o Effendi por aqui. A mais comovente esfiha de São Paulo está exatamente onde devia estar, vem cercada de azulejos floridos e tem recheio de espinafre com queijo.

  3. alhos Says:

    Luciana,
    tudo bem?
    Confesso que não reclamaria de morar na Sicília ou em Veneza. Mas São Paulo tem muitas coisas que valem a pena.
    Beijos!

    Carolina,
    tudo bem?
    Os azulejos, as mesas meio deformadas, o estilo do senhor que anota o pedido no balcão e corta os limões com tranquilidade…
    Abraços!

  4. Lucas Rodrigues Says:

    Alhos, eu, como bom paulistano, tenho uma relação de amor e ódio com a cidade. Tempos atrás, num sábado tedioso, no qual fiquei em casa e nem sequer me animei a abrir um vinho, ratifiquei: “detesto esta cidade!”. No dia seguinte, café da manhã na Marie Madeleine, sessão das 13:00 no cinema Gazeta pra assistir o tal documentário com os chefs franceses, almoço no Aconchego Carioca, a noite, peça de teatro no Procópio Ferreira e pra fechar o domingo, pizza. Com exceção do café da manhã, fiz tudo a pé. Ao fim do dia, pensei: “Amo São Paulo!”.
    Agora, preciso conhecer o Effendi, você não é o primeiro a recomendar.

  5. alhos Says:

    Lucas,
    tudo bem?
    Acho que essa contradição ininterrupta é uma característica dos paulistanos. O que não suporto mais é o do discurso do ódio, sem mediação e com afetação.
    Abraços!

  6. Byrd Says:

    Com algum bom no bolso, São Paulo pode ficar um bom passeio, até uma surpresa boa.

    Com a situação apertada, um verdadeiro inferno.

    Acredito que com a próxima inversão magnética, as coisas possam mudar. Mudar…

    Abraços!

  7. alhos Says:

    Byrd,
    tudo bem?
    Quem sabe…
    Abraços!

  8. Ernesto Says:

    Alhos
    Existe um ditado que acho pertinente ao seu texto.

    “QUEM AMA O FEIO, LINDO LHE PARECE”

    De fato, as vezes o paulistano, acha a cidade feia, creio que aí também entra o estado de espírito do momento, mas no final acaba se rendendo a beleza e nas maravilhas “ocultas” na cidade.

    Abraço

    Ernesto
    Campinas

  9. Priscila Mendes Says:

    Texto lindo

  10. alhos Says:

    Ernesto,
    verdade… Mas acho que, junto com a feiúra, tem mesmo coisas bonitas.
    Abraços!

    Priscila,
    obrigado!
    Abraços!


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