Kampai

26/10/2013

 

Este post é uma homenagem.

 

Homenagem e agradecimento, ambos necessários.

 

Porque os dias atuais, bem sabemos, são confusos. Inclusive no mundo das comidas e bebidas.

 

Durante muitos anos, minha bebida foi o vinho, quase exclusivamente. Depois, vieram umas decepções com gentes que o rodeiam e bateu a curiosidade de testar outras bebidas.

 

Cerveja, gim, whisky. E drinques, que vez ou outra ensaio fazer. É lúdico e é bom.

 

Mas o post não trata de nenhuma dessas; ele fala de sake.

 

Não entendo nada de sake. Bulhufas.

 

Para saber um pouco mais, duas ou três vezes visitei a Adega de Sake, na Liberdade, olhei, ouvi explicações do Alexandre Tatsuya Iida —vulgo Adegão—, comprei uma coisa ou outra.

 

Quando a Adega se transferiu para Moema, fui conhecer a nova loja. Alexandre, então, depois de explanações que foram uma verdadeira aula, apontou uma garrafa e me disse: “Este é o seu sake. Ele se parece com você.”

 

Em seguida, falou da origem da marca e explicou a bebida do seu jeito: com metáforas e analogias, com pequenas parábolas. Constrói uma situação imaginária, insere personagens nela. Em vez de se limitar a esquecíveis descrições organolépticas, ele narra; narrando, interpreta.

 

É assim que orienta os clientes; creio que é assim que  enxerga o mundo. Gosto de pensar —talvez seja clichê de quem não entende nada, mas, ainda assim, gosto de pensar— que é um modo muito oriental de olhar a vida: revestido de simplicidade, de afabilidade, só que denso de profundidade; intenso e melancólico, preciso e indireto.

 

Se não me engano, naquele dia, comprei uma garrafa de shochu e três de sake. Bebi um dos sakes, gostei muito. Bebi o shochu, também gostei.

 

Só ontem, porém, meses depois, abri a garrafa do “meu sake”. E um carrossel de aromas e sabores me entorpeceu. Foi uma das bebidas de que mais gostei na vida. Mas foi mais que isso: houve uma satisfação, um reconhecimento tão prazeroso e surpreendente quanto estranho e tocante.

 

Me dei conta de que o sujeito que me associou àquela bebida mal me conhece: sabe de mim por meia dúzia de visitas às suas lojas, pelo que lê no blog ou no twitter.

 

Foi aí que entendi: o jeito de olhar a vida, independentemente de ser ou não oriental, é em primeiro lugar um jeito de olhar, é a disposição de olhar o outro e de fato enxergá-lo.

 

Que coisa! Que diferença de quase tudo que nos cerca! Quão extraordinário é esse aprendizado do olhar —e ainda mais porque talvez inconsciente, intuitivo—, sobretudo num mundo tão autocentrado, de enjoativos egocentrismos à flor da pele, como é o das comidas e das bebidas.

 

Por isso, este post é uma homenagem e um agradecimento.

 

Por ensinar —junto com incontáveis coisas sobre shochus, whiskies japoneses e sakes— que ainda há quem se importe com o outro e seja capaz de enxergá-lo.

 

Obrigado, Adegão.

 

 

 

ps. o sake em questão é o Nakadori — Zaku Miyabino Tomo.

Adega de Sake

Alameda dos Nhambiquaras, 1089, Moema, São Paulo

tel. 11 4304 0025

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12 Respostas to “Kampai”


  1. Muito honrado e feliz pelo post, nobre cavalheiro. Estamos eu a Adegona bem eufóricos, e os Adeguinho sem entender nada (logico). Muito obrigado por me fazer valer a pena por esse trabalho, e ainda mais por reforçar ainda mais o nosso objetivo. Tratar as pessoas, como quer se tratado. Que venham muito “kampais”!!!

    De seu fã, Adegão.

  2. Olivian Moioli Says:

    <3 Emocionei…

  3. alhos Says:

    Adegão,
    muito obrigado por seu comentário.
    Seu trabalho vale muito a pena, tenha certeza disso. E a atenção e a qualidade sempre são percebidas.
    A honra é minha, por ser seu cliente.
    Abraços!

    Olivian,
    obrigado…
    Beijos!


  4. Belíssimo post!!! Como poder continuar a boa conversa…


  5. Queria um sake pra chamar de meu. Adegão é um craque mesmo. Lindo post!

  6. alhos Says:

    Adriana,
    obrigado!
    Abraços!

    Cris,
    obrigado.
    Ele é craque, sim.
    Na próxima visita a SP, vá até lá e o intime a definir o seu. rs
    Beijos!


  7. Sou cliente recente, ainda não tenho um saquê para chamar de meu…
    Bela elegia, merecida. Abraços.

  8. alhos Says:

    Wair,
    tudo bem?
    Obrigado.
    Ache logo o seu! Ou aproveite longamente a busca por ele, provando diversos rótulos…
    Abraços!

  9. Arthur Gruber Says:

    Esse é mesmo o meu amigo Adegão. Sempre achando um sake para cada personalidade.

  10. alhos Says:

    Arthur,
    o próprio: infalível.
    Abraços!

  11. Lucio Caramori Says:

    Sake é o Adegão engarrafado. <3

  12. alhos Says:

    Perfeito, Lucio!
    Abraços!


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