Pão e esperança

17/07/2014

 

Pão é assunto sério.

 

Pão, no fundo, é tudo: está naquela lista dos alimentos vitais. Está no café da manhã, com manteiga e geleia, e está no fim de tarde, com a taça de vinho, o copo de whisky ou o drinque. Está no almoço ou no jantar, acompanhado de azeite e, conforme o caso, um tiquinho de sal. Ou —sem mais delongas— puro.

 

Porque pão, no fundo, não tem hora ou lugar: está no princípio, no meio, no fim. Resgata alguma sensação atávica de fome sentida e saciada, alguma memória involuntária de dias bem vividos.

 

Uma mordida e tudo se aquece: corpo, alma e arredores.

 

Desde que seja pão bom, claro.

 

E pão bom de verdade, em terras tupiniquins, é raro.

 

No meu aniversário, em maio, ganhei um ótimo pão, preparado por um amigo cultor e fazedor de pães de primeira. Durou três dias e, na última fatia, pensei comigo mesmo, enquanto uma lágrima corria pelo rosto: nesse ano não comerei pão igual ou melhor. Claro que o lamento foi menos importante do que a sensação de conforto e prazer ao mastigar aquele bocado.

 

Eis que um dia me deparei, no instagram, com certas fotos de pães.

 

Ok, leitor, eu também não acredito no instagram, nem na maioria das fotos de comidas que circulam por lá. Umas são horrorosas, outras são falsas. Umas são ostentação tonta; outras são deslumbre baldio. A maioria —também sei disso— é marketing mascarado e descarado.

 

Mas preferi acreditar naquelas fotos de pães. E procurei a padeira, uma moça chamada Flávia D’Angelo Maculan. Descobri como encomendá-los e consegui um: semolina e gergelim.

 

Extraordinário.

 

Troquei confidências com um amigo, que no mesmo dia experimentara um com nozes, e concordamos: aqueles pães eram a melhor notícia do mundo das comidas nos últimos tempos. Representavam um pouco de fôlego, o oxigênio na hora em que tudo parece irreversivelmente perdido.

 

Eram a simplicidade e a profundidade de que precisamos para viver. Eram o antônimo da afetação e da falsidade.

 

Rapidamente encomendei outros, igualmente sensacionais: nozes, multigrãos, azeitonas e o absurdamente bom, talvez imbatível, pão com polenta bramata, sementes de abóbora e alecrim.

 

Virou hábito regular e agora cogito requisitar um fornecimento vitalício.

 

Voltei, inclusive, a acreditar que o mundo talvez tenha salvação e o coração dos homens não esteja tão embrenhado nas trevas.

 

Esperança, enfim. Esperança com cheiro e sabor de pão.

 

 

 

 

ps. fundamental: Flávia Maculan (@fdmaculan no instagram ou fdmaculan@me.com) prepara os melhores pães de São Paulo —quiçá do hemisfério Sul e de boa parte do hemisfério Norte— na própria casa, em forno comum.

 

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13 Respostas to “Pão e esperança”

  1. Roberto Says:

    caro, para encomendar tem que ser pelo instagram?

  2. Flavio Says:

    Alhos , só uma pequena correção . O instagram é fdmaculan. abs , makamello .

  3. alhos Says:

    Roberto,
    tudo bem?
    Vou ver se ela autoriza a divulgação do email (é esse o caminho que uso) e, em caso positivo, coloco aqui.
    Abraços!
    [complemento posterior: Roberto, com aval dela, acabei de inserir o email no final do post]

    Flavio,
    obrigado: correção feita.
    Abraços!

  4. Bronza Says:

    São realmente extraordinários os pães da Flávia. O talento dela merece todos os reconhecimentos possíveis — e textos tão bons quanto este.

  5. alhos Says:

    Bronza,
    quanto aos pães, de acordo.
    Obrigado e abraços!

  6. mdv Says:

    Obrigado, Alhos! abração Marcelo

  7. Alessandra Says:

    Concordo, alhos!!! Sou uma eterna agradecida aos pães da Flávia pois me fizeram voltar a amar carboidratos, na sua melhor forma…

  8. alhos Says:

    Marcelo,
    eu é que agradeço a leitura, ora.
    Abraços!

    Alessandra,
    é isso. E sabor na sua melhor forma. rs
    Abraços!


  9. Querido Alhos, em cada linha sua identifico o que eu mesma penso e sinto a respeito desse alimento tão fundamental. Acredite: esperança também foi o que senti ao descobrir as fotos dos pães da Flávia. E olhe que ainda não os experimentei. É bom haver no mundo gente como você e a Flávia pra nos alimentar, cada um a seu modo.

  10. Roberto Says:

    Meu caro alhos, obrigado por fazer a ponte para a flavia. Vou tentar encomendar.
    Abraco.

  11. alhos Says:

    Constance,
    obrigado. Felizmente também existe você. E existe esperança.
    Beijos!

  12. Maria Angélica Gonçalez Says:

    Muito obrigada por vc fazer parte de um mundo onde pessoas que adoram pães feitos com amor e dedicação encontram seu espaço e também por me apresentar a Fávia.Busquei ontem meu pão de polenta e outro com avelãs.Estavam quentes,perfumados,divinos .beijos

  13. alhos Says:

    Maria Angélica,
    tudo bem?
    Que bom que deu certo. Os pães da Flávia são mesmo excelentes e merecem todos os elogios.
    Abraços!


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