O Antiquarius é um dos restaurantes de clientela mais homogênea em São Paulo. Homogênea na faixa etária, na posição social, no estilo e até no vestuário. No almoço ou no jantar, o panorama se repete quase desde a fundação.
Por isso, o mais interessante da visita à casa nesta SPRW foi ver a incrível variação do público.
Enquanto esperávamos, ouvimos dois casais jovens conversarem sobre a formalidade do serviço. Temiam não saber como se comportar.
Numa mesa atrás de nós, quatro moças bebiam muito (muito!), falavam alto e uma delas, meio trôpega, chegou a quebrar uma taça. Uma hora ela se levantou, passou ao lado do garçom e sussurrou-lhe que gostaria de mais um pouco de vinho. Repreendida pela amiga, reagiu vigorosamente, ameaçando revelar como esta era “de verdade”.
À minha esquerda, três moços de camiseta, todos no início dos trinta, comiam os mesmos pratos e falavam de futebol, num ritmo de informalidade que contrastava com o ar sisudo do lugar.
À direita, quatro garotos – bandas de rock na camiseta larga e menos de vinte anos – discutiam e riam em meio a uma quantidade imensa de latas de Coca-Cola e Guaraná.
Minha mulher e eu almoçamos ouvindo vozes e notando personagens que, provavelmente, jamais cogitaram ir àquele restaurante e estavam aproveitando os preços baixos da RW.
No ambiente tradicional, soturno e carregado do Antiquarius, havia vida – porque vida é variação, é diferenciação. Pessoas de verdade, daquelas que encontramos na rua. Daquelas para quem uma visita a um restaurante famoso é evento para ser lembrado por muito tempo. Gente de todos os estilos, roupas e idades.
Entendemos, naquele instante, o significado de uma Restaurante Week. Descobrimos também como existe gente disposta a freqüentar restaurantes, bastando, para isso, que os preços sejam acessíveis.
Este, o lado feliz de nosso almoço no Antiquarius.
Nota ao leitor
Havia duas possibilidades para comentar nossa visita: mostrar o lado feliz por meio de uma perspectiva, digamos, etnográfica ou falar da refeição em si. Preferi a primeira.
Se tivesse optado pela segunda, reclamaria de algumas coisas:
- da rispidez da encarregada da reserva;
- do desrespeito à reserva (reserva-se para chegar e sentar, não para ter direito “à próxima mesa de dois que liberar” – o que aconteceria em 25 minutos);
- da estapafúrdia sugestão (que está sendo colocada em prática) de reunir grupos diferentes numa mesma mesa para “agilizar a espera” (fiquei pensando se proporiam isto à clientela regular da casa);
- da temperatura (bem fria) e da consistência (puxa-puxa) da tigelinha de bacalhau da entrada;
- do arroz quase empapado com cordeiro cozido muito além do ponto do “arroz de cordeiro”;
- da batata-palha amolecida do “bacalhau Antiquarius”, do bacalhau seco, rijo e aparentemente bem distinto do que é normalmente servido na casa;
- da taça grosseira de vidro em que serviram meu vinho (minha mulher ficou lisonjeada por receber uma de cristal);
- do garçom destacar que a taça de vinho era “dez real” (sic);
- da taça de vinho servida não ultrapassar 100 ml;
- do café mal tirado, com borda queimada;
- da ausência de açúcar para o café (ok, minha mulher e eu não adoçamos o café, mas como eles sabiam disso?);
- dos muitos cacos de vidro que ficaram no chão (lembram-se que a moça quebrou a taça?), sobre os quais a cliente da mesa ao lado teve que passar, com cuidado;
- de alguns cacos de vidro, nada pequenos, que continuaram no chão depois que o maître determinou a limpeza do lugar.
Para evitar ter que falar de tudo isso, preferi falar do público.
Alameda Lorena, 1884, Jardim Paulista, SP
Tel. 11 3082 3015
Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Antiquarius