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Vida

29/05/2012

 

Era dia da última ultrassonografia, aquela que avalia peso e tamanho e calcula, com alguma precisão, em que dia o bebê vai nascer. Pelas contas, faltavam quinze dias, mas era bom confirmar.

 

Entramos no laboratório contentes, plena expectativa. Eis que, depois de uns minutos de exame, o médico pede licença para chamar um colega, que chama outro colega, e ninguém nos diz nada. Inquietos, perguntamos o que havia. Após muitos rodeios, descobrimos que havia um problema com o bebê, nossa primeira e única filha.

 

Saímos dali atordoados, telefonamos para o ginecologista, seguimos para outro laboratório. Refeito o exame, a mesma constatação: ela tinha um problema, não se sabia qual.

 

Foram quinze dias de vertigem, entre ginecologista, cirurgião neonatal, futuro pediatra. Montou-se uma equipe para acompanhar o parto, dia e hora marcada. Havia três possibilidades, concluíam, em três níveis ascendentes de gravidade.

 

Até que a bolsa rompeu, um dia antes do previsto. Maternidade, telefonemas de madrugada, todos a postos. Assim que ela surgisse —e tinha que vir muito bem— seria avaliada.

 

Às 8 e 26 minha menina nasceu. Dos três problemas possíveis, ela tinha dois, os mais sérios. O dia transcorreu fora do ar. No final da tarde começou a cirurgia, que durou, não sei bem, umas três, quatro horas. Daí tocou o telefone do quarto e o cirurgião, direto da Uti, nos chamava para vê-la e, exultante, afirmava que tudo tinha corrido melhor do que ele esperava.

 

Oito dias e oito noites de Uti depois, mais dois dias na maternidade e, afinal, a casa. Nesse tempo, não faltou quem fizesse previsões trágicas de várias ordens: a estultice humana não tem fim.

 

Quando ela conheceu seu quarto, preparado há meses para recebê-la, restava uma cicatriz no abdome, dois pais que haviam envelhecido dez anos em três semanas e a vida inteira pela frente.

 

Todos aprendemos a pesar melhor as coisas do mundo, a valorizar o que de fato importa. Minha filha aprendeu que vida é algo pelo que se deve brigar —tanto que brigou e venceu.

 

Sábado que vem, 2 de junho, faz treze anos que tudo aconteceu: que ela nasceu e, horas depois, renasceu. Domingo, dia seguinte, pela primeira vez na vida, viaja sozinha para o exterior. Assim são as coisas: num dia se nasce, em outro se voa.

 

Tudo o que houve, tão distante, parece pertencer a outras pessoas, a outro mundo, a um tempo meio mítico e imemorial. Estamos todos vivos. Minha filha é uma menina bonita, de alegria imensa.

 

Naquele dia e em todos que vieram e virão descobrimos o amor infinito e incondicional e soubemos que —não importa que digam o contrário— a vida vale muito a pena ser vivida.

 

 

Abecedário

08/03/2012

 

Note bem, leitor: não se trata de gosto ou preferência.

 

Um e outra transparecem inevitavelmente aqui e ali nos textos que (ir)regularmente publico.

 

Também não se trata de guia. Se quiser um guia, consulte o Comer & Beber da Veja São Paulo: para esta cidade, melhor não há.

 

Tudo começou quando eu tentava fazer reserva num restaurante e ouvia respostas estapafúrdias do outro lado da linha. Parei um pouco para pensar se devia mesmo insistir —não era a primeira, nem a segunda e nem a terceira tentativa— e achei que devia fazer um balanço do que vale a pena em São Paulo em termos de comida.

 

Não do que vale muito a pena —até porque essa lista já apareceu aqui no blog.

 

Do que vale a pena. Aqueles lugares em que, pelo menos duas vezes, os aspectos positivos superaram os negativos. Percebeu? Foi este o vago critério: duas experiências agradáveis. Só duas e, pronto, entrou na lista.

 

Por isso ficou tão grande. Precisei colocar em ordem alfabética, um abecedário.

 

Talvez seja um surto da tal paixão por listas. Não importa.

 

Importa que, para mim, esses lugares sugerem alguma garantia.

 

Há basicamente restaurantes. Vou pouco a bares —coisa que, inclusive, lamento. Um ou outro não-restaurante, porém, dá o ar da graça.

 

Muitos dos lugares citados já foram resenhados pelo blog e, se quiser testar, clique aí do lado, na longa relação de restaurantes.

 

Finalmente: não hesite em discordar da lista. Provavelmente daqui a pouco também discordarei.

 

E um post scriptum, o mundialmente famoso p.s.: não resisti e coloquei uns nomes em negrito.

 

 

A — A Bela Sintra; A Figueira Rubaiyat; Acrópoles; Adega do Sakê; Adega Santiago; Aizomê; AK Vila; Amadeus; Amazônia; Amici

 

B — Bacalhoeiro; Bar da Dona Onça; BottaGallo; Brasil a Gosto; Bráz; Buttina

 

C — Camelo; Casa da Li; Casa Garabed; Chef Rouge; Chou; Clandestino; Clos de Tapas; Così

 

DDalva e Dito; De La Paix; Divina Itália; Dr. Tchê; D.O.M.; 210 Diner; Dui

 

E — El Tranvía; Emiliano; Eñe; Epice; Estación Sur

 

FFasano; Flavio Federico Dolci; Fogo de Chão

 

GGero

 

H — Hamatyo; Hinodê

 

IIci; Insalata

 

JJulice Boulangère; Jun Sakamoto

 

K — Kidoairaku

 

LLa Brasserie; La Casserole; Lamen Kazu; Le Vin

 

M — Maní; Marcel; Marina di Vietri; Maripili; Mocotó; Moinho de Pedra; Moraes

 

N — Nonno Ruggero; North Grill

 

O — O Pote do Rei; Osório; Osteria del Pettirosso

 

PParigi; Parilla Argentina; Pie in the Sky; Piselli; Pobre Juan; Pomodori

 

Q — Quintal do Bráz

 

R — Ráscal; Ritto; Ritz; Rosmarino

 

S — Saj; Sal Gastronomia; Santo Colomba; Shin-Zushi; Spadaccino; Speranza; Spot; St. Louis; Stuzzi

 

TTappo; Tasca da Esquina; Templo da Carne Marcos Bassi; Tenda do Nilo;  Tordesilhas; Trattoria Picchi; Twelve

 

V — Varanda; Vecchio Torino; Vento Haragano; Veridiana

 

Z — Zena Caffè

 

 

Meus vinte, hoje

30/08/2011

 

Começou como um desabafo, ao sair de um jantar inexpressivo: ‘Não há, em São Paulo, mais de vinte restaurantes que de fato valham a pena’ — escrevi no twitter.

A cifra é arbitrária. O comentário, idiossincrático. Mesmo assim o repeti mais de uma vez.

Então passaram a me cobrar que fizesse a lista.

Não foi fácil, claro. E ela não representa necessariamente os melhores restaurantes de São Paulo. Três das principais casas da cidade estão ausentes — D.O.M., Maní e La Brasserie de Erick Jacquin — e gosto das três. Apenas não acho que tenham a necessária regularidade, o que muitas vezes torna ruim a relação custo-benefício.

Claro que posso ter esquecido de algum lugar. Assim que lembrar, acrescento. Obviamente, ela está em ordem alfabética. E tem 21 nomes, não vinte.

Finalmente: não custa lembrar que a lista se refere a… hoje. Amanhã pode ser outra.

 

AK Vila

Amadeus

Brasil a Gosto

Chef Rouge

Così

Dalva & Dito

210 Diner

Emiliano

Epice

Fasano

Gero

Ici

Jun Sakamoto

Marcel

Mocotó

Parigi

Picchi

Sal Gastronomia

Tappo

Tordesilhas

Zena Caffè

 

Da sismografia da vida

10/07/2011

 

Em certos momentos, mais do que em outros, é preciso cuidar de si, olhar para dentro como se olha para fora, consultar, e talvez calibrar, o sismógrafo da vida.

 

Nessa semana, vivi um desses tempos — e não se preocupe, leitor: não entrarei em detalhes.

 

Importante, em tais horas, é se cercar de pequenos prazeres: garantia breve e incerta, mas sempre viva, que assegura alguma estabilidade enquanto tudo se revolve.

 

Isso inclui a escolha cuidadosa dos lugares onde se vai comer e beber, claro.

 

Não por acaso, só fui àqueles em que me sinto em casa, ou quase. Almocei no Ici, jantei no Marcel, tomei dois cafés da manhã na Julice, almocei no Zena, comi cannoli no Flavio Federico Dolci, almocei no AK Vila.

 

Por duas noites fui ao Astor e, numa delas, conversei horas a fio com pessoas que cada vez ficam mais queridas.

 

Em outra, conheci o bom Butcher’s Market, acompanhado deliciosamente por dois casais lindos.

 

Na penúltima noite da semana, jantei na Tappo, e esse jantar sintetizou tudo. Teve fígado, moela e mexilhões, teve pasta alla Norma e spaghetti com vongoli, teve panna cotta e vin santo Badia a Coltibuono. Teve o atendimento liderado pelo Fabio, que considero, há tempos, o melhor da cidade. Teve uma longa caminhada de volta para casa, com a vida na alma.

 

Hoje acordei feliz, sereno, olhei para o sismógrafo e, entre altos e baixos, estava tudo certo. Quis escrever esse texto.

 

Sicília, terra natal

23/06/2011

No Paladar de hoje, texto meu sobre a Sicília — uma breve declaração de amor….

Só uma ressalva: a edição saiu cortada e com erro.

Na última frase do penúltimo parágrafo, onde se lê:

‘que se deve confundir parmigiana verdadeira … com a fictícia que cobre filés em terras tupiniquins’,

leia-se, obviamente: ‘que não se deve…’

Para ler a versão publicada no Estado, clique aqui.

Abaixo, a versão completa e correta.

Esperei quarenta e cinco anos para conhecer minha terra natal, a Sicília. Nesse tempo, li muita literatura siciliana, bebi muito vinho siciliano. Pelos livros, mergulhei nos três mares que cercam a ilha, subi e desci montanhas, pastoreei cabras. Pelos vinhos, entendi melhor a elegância bruta, a suavidade vulcânica. Livros e vinhos me ensinaram que a Sicília é terra única, terra de todos. Por lá passaram gregos e troianos, árabes e judeus, peninsulares e ilhéus. Virou o contraste do contraste do contraste. Claro que me apaixonei.

Nos últimos dias de 2009, meu avião pousou em Palermo. Sem nenhuma mala (elas não chegariam até que eu as reencontrasse em São Paulo), entrei num carro e parti em direção ao mar Jônio. Duas horas e meia depois, já noite e já em Catânia, procurei onde comer. Onde. Porque o quê, eu já sabia: pasta alla Norma.

Não vou discutir aqui a origem do prato ou do nome — provável referência à ópera do catanês Bellini. Prefiro falar de uma obsessão, iniciada quase dez anos antes num pequeno restaurante em Milão e, daí para a frente, alimentada cotidianamente em restaurantes ou em casa. Qual a pasta alla Norma que pediria minutos antes de enfrentar o pelotão de fuzilamento?

Essa que comi na primeira noite siciliana, confesso, não foi das melhores. Estava lá a ricota caprina, o manjericão, a massa, tomates de verdade e, estrela maior, a berinjela. Outras noites, outros dias se passaram e perdi a conta de quantas vezes repeti o prato nos brevíssimos quinze dias que vivi na minha terra natal.

Mas não podia me limitar à Norma. De bar em bar, trattoria em trattoria, comi outras, e sempre deliciosas, berinjelas. Quase todo almoço, uma parmigiana diferente — e nem vou contar aqui o óbvio: que não se deve confundir parmigiana verdadeira (azeite, tomate, manjericão, queijo, sal, pimenta e… berinjela) com a fictícia parmegiana que cobre filés em terras tupiniquins.

Berinjela. Em italiano, melanzana. Em siciliano, milinciana. As más línguas dizem que não é nativa da Sicília. E (como costuma acontecer) elas estão certas. Também não são nativos da Sicília o lumiuni, a partuàllu e o ficu d’Innia. Não entendeu? Como assim, seu siciliano não é fluente? Vá lá, traduzo: limão, laranja, figo da Índia. Frutos que vieram da Malásia, da Arábia, da Índia… Não importa, até porque ninguém sabe direito. Importa o fato de que, na Sicília, se fixaram, cresceram e proliferaram, tornaram-se onipresentes na paisagem e na culinária.

Tanto que o limão virou “limão siciliano”, a laranja é a “rossa della Sicilia” e o figo da Índia parece que só veio à luz para embelezar (ainda mais) a encosta do Etna. Por isso os invejo. Queria ser milanzana, lumiuni, partuàllu ou ficu d’Innia. Porque terra natal de verdade é a que elegemos, não onde nascemos.

Hoje não vou falar de comida

02/06/2011

 

Hoje não vou falar de comida.

 

Não importam, afinal, o deslumbramento, o falso glamour e a verborragia que atualmente cercam o mundo das comidas. Comida continua a ser apenas alimento para o corpo e, se possível, para a alma. Alimento bom, mas nem de longe o principal.

 

O maior alimento da alma está em outro lugar: no quotidiano, nas relações pessoais, no amor que consigamos ter e manter.

 

Se hoje me dissessem que pelo resto da vida só poderia comer miojo ou outra bobagem não daria a menor bola. Porque hoje faz doze anos que minha filha nasceu.

 

Faz doze anos que ela nasceu e, por uma dessas armadilhas da natureza, teve que brigar para viver. Brigou doze horas, depois outras quatro; brigou mais oito dias. Então viemos para casa e a vida recomeçou. Sem percalços, sem mágoas.

 

Por que falaria de comida hoje?

 

Melhor falar da felicidade incrível do dia a dia, dos medos e das angústias — que também ocorrem —, dos clichês tão verdadeiros que dá vontade de listar um a um. Dos sorrisos longos, do sol no olhar.

 

Porque hoje minha filha faz doze anos.

 

 

 

A nhanha

27/04/2011

Ela calculou que devia deixar a taça mais para a direita, linha reta com o braço apoiado. Ele nem percebeu. Olhava mais para o alto, buscava alguma coisa no rosto dela, talvez a boca — não, ele não escapava do clichê.

No centro da mesa, um mar de objetos: azeite, vela, pães, telefones, tudo mais ou menos abandonado, só para atrapalhar a circulação das mãos.

Então ela deslocou ligeiramente o corpo para frente e ele segurou mais forte o cabo da taça, tinha que tocar em algo, firmar. Só não via o movimento da perna, dela, sobre salto, quinze, sob a mesa, ainda distante da dele. Ficava assim meio marujo, na maré baixa.

Ela, terrena. Mas faltava jogar o dado, tentar regrar o acaso. A escassez no gesto era compensada por algo excessivo em ambos: o queixo dela, a gravata dele.

Vieram os pratos, massa, e o vinho ia — também a garrafa, na sua coerência literal, contribuía para o engarrafamento na mesa.

Havia (obviamente) risos. E alguma dança, feita com os pulsos.

Pensei que o pessoal do Animal Planet faria um ótimo programa sobre o peculiar ritual de acasalamento que começava: típico de Homo sapiens, subespécie classe média alta, subsubespécie freqüentador de restaurante da moda.

Daí foi a vez dele — cabe ao homem, afinal? — tentar abrir espaço. Deslocou uma taça, contornou outra, derrubou planejadamente a rolha, rasgou o sorriso tímido, procurou algo e encontrou o azeite. Só mesmo na imaginação do narrador vizinho o objetivo era a mão dela.

Ainda não, na realidade. Demoraria minutos, horas, meses, talvez nunca, para que algo ali se completasse. Talvez por isso, ela preferiu acomodar as costas na cadeira, avançar a perna para o lado, abdicar do contato direto em favor da mastigação.

Devia estar boa a massa deles, tanto que adiava o desfecho do começo, empacava o ritual — veja só, pessoal do Animal Planet, isso não acontece com lontras.

Só que meu prato estava ruim e, mesmo consciente do prejuízo para a narrativa, pedi a conta e fui embora.

Sobre mamutes, crenças e estupefações

24/03/2011

 

O Paladar de hoje é todo dedicado à mamutesca obra de Nathan Myrhrvold. O assunto, grosso modo, é tecnologia e ciência na cozinha.

Tudo é fabuloso no trabalho de Myhrvold. O empenho, a obsessão, a disposição para o confronto, o resultado: cinco polpudos volumes, que, como já observou Carlos Dória, muitíssimos citarão, pouquíssimos lerão.

A reportagem, assinada por Olivia Fraga, respeita o alto padrão do caderno, sem igual nessas terras em que (nem) tudo dá.

Li, reli e não contive a estupefação. Só que ela não surgiu em função do que Myhrvold afirma ou faz. Aparentemente há pesquisas profundas e palpites vagos, criteriosamente misturados. Óbvio que não li a obra; portanto, não avalio.

Fiquei, na verdade, estupefato com o pano de fundo de tudo isso: uma contradição profunda e desconfortável:

Tudo parece estar revolvido, tudo parece ser contestável e contestado, iconoclastia é a palavra de ordem.

No entanto, persiste — firme e robusta — a crença na positividade e verdade da tecnologia e da ciência.

Persiste, ainda, a aposta de que elas podem viver desconectadas da realidade, observando-a de fora, protegidas e superiores.

Se não bastasse, também persiste o autorreconhecimento como vanguarda.

Pois é.

A mesma positividade e verdade científicas que durante quase todo o século XX foram questionadas — inclusive pela microbiologia, aparente eixo de abertura da obra.

O mesmo desprezo pelo mundo real e suas assimetrias, seu acaso, seu incalculável. O desprezo que Mallarmé, Nietzsche e tantos outros denunciaram como autoritários.

A mesma autocelebração como vanguarda, independentemente do conceito não frequentar os debates culturais mais consistentes desde a década de 1950. Num tempo que não pode ser representado como linha, num mundo em que os caminhos são tantos, e tão diferentes uns dos outros, como identificar quem está à frente?

Claro que essas crenças subterrâneas jamais seriam admitidas pelos discursos em geral empolgados dos que celebram as molecularidades gastronômicas e assemelhados.

Mas sua prática e as cifras que subjazem à sua retórica confirmam.

Meu Deus — me resta evocar —, não bastou o horror trazido pela revolução industrial do XVIII e a ciência da bomba no XX? Tecnologia e ciência, caros positivistas, é sempre bom e verdade?

Não valeria a pena, junto com a iconoclastia de fachada, exercitar um pouco a autorreflexão e, melhor, a autocrítica?


Vida e obra de um quase anônimo – parte II

20/12/2010

 

Durante anos me dediquei a um determinado trabalho. Quantos? Não sei, acho que uns dez, talvez doze ou quinze, talvez a vida inteira.

Claro que não cuidava dele todo dia. Ia e voltava, esquecia por meses, por um ano e pouco. Depois retornava, mais amadurecido (ah, ilusão…).

Acabei esse trabalho por volta de maio deste ano. Mas não bastava acabá-lo; ele precisaria ainda ser colocado à prova, e esta só ocorreria na metade de dezembro.

Meses de alguma expectativa e de pelo menos uma dúvida séria: faria uma festa para comemorar o sucesso que, pretensioso, esperava que ele tivesse?

Bicho parcialmente do mato, sou avesso a festas. Prefiro as comemorações miúdas, com pouca gente e olho no olho.

Planejei, então, e sempre com a arrogância de quem supõe que tudo vá dar certo, uma celebração íntima. Comprei meu vinho favorito de todos os tempos, guardei cuidadosamente a garrafa e fiquei a matutar onde jantaria, com mulher e filha, na noite de 15 de dezembro, dia em que tudo se resolveria.

Ao saber de meus planos, minha mulher perdeu a paciência. Lembrou que, em quatorze anos de convivência, só fiz uma festa, que foi de aniversário e há mais de doze anos. Que não fazia qualquer sentido, era até injusto, que tanta gente importante para que meu trabalho desse certo fosse excluída da comemoração.

Capitulei. Mas impus condições: não queria me preocupar com nada, sobretudo não queria cuidar da arrumação de nosso apartamento no dia seguinte. Queria que a festa fosse fora de casa, que pudéssemos chegar, comer e beber bem, conversar com a família e os amigos, ir embora, dormir e acordar sem afazeres.

Os termos do acordo de paz foram selados e resolvemos procurar um restaurante que fizesse eventos. Mas havia um problema: alguns conhecem meu nome, outros talvez o conheçam — o nome de batismo mesmo, o que está na estropiada certidão de nascimento mencionada no texto inicial desta saga.

Era necessária, então, uma estratégia: eu escreveria aos restaurantes nos casos em que tivesse certeza, ou quase, de que não seria reconhecido; ela entraria em contato com aqueles em que certa ou provavelmente sabiam de meu nome.

Ocorre que minha mulher tem incríveis qualidades, muitas mesmo, mas lhe falta o gosto pelo uso do computador. Brinco que ela verifica suas mensagens eletrônicas, sem falta, a cada dois meses… Cabia, então, a mim acompanhar o andamento das conversas virtuais e, vez ou outra, estimulá-la a ligar o computador e olhar a caixa postal.

Ultrapassado um percalço ou outro — e descartados os três ou quatro ‘organizadores de eventos’ que nunca nos honraram com suas respostas —, acumulamos cinco orçamentos. E lhes confesso, meus caros: fiquei estarrecido.

O mais baixo pedia mais de oitenta reais por pessoa e se dispunha a oferecer alguns petiscos de entrada e uma massa. Just it, como diz a marca de tênis. Continha ainda um alerta, que tomei por ameaça: se o evento ultrapassasse tantas horas de duração (quatro ou cinco, não lembro), haveria um acréscimo de 20 ou 30% no preço.

Minha mulher e eu nos entreolhamos e foi a vez dela concordar comigo: a comemoração seria mínima, restrita, no meu padrão usual.

Não entro no mérito dos custos, nem avalio o adicional de tempo. Imagino a dificuldade de pagamento de funcionários, espaço, de tudo. Acredito que os orçamentos fossem justos e honestos. Mas eu simplesmente não podia pagar o que me pediam. Ponto final.

Quer dizer, ponto e vírgula. Porque lembrei de um restaurante a que vou com menos frequência do que gostaria, que já comentei aqui no blog e que só funciona no almoço. Lembrei sobretudo de já ter visto, alguma vez, que aceitava organizar eventos noturnos. O Sinhá.

Mas ali todo cuidado era pouco. Sei que Julio Bernardo, dono e chef, acompanha meu blog, me segue no twitter; eu o sigo no twitter e acompanho seu blog. Muitas vezes já trocamos opiniões e conversas virtuais. Tinha dúvida se me reconheceria fisicamente, mas sabia que conhecia meu nome.

Empregamos então a velha técnica de expor o nome apenas de minha mulher. Ela escreveu, esclareceu as condições do evento e pediu um orçamento.

Quando ele chegou, veio a boa surpresa: o valor era pelo menos 25% abaixo do menor que antes recebêramos, oferecia um farto e inteligente bufê e, fora o vinho, incluía tudo. Daria para fazer a festa e, na expectativa de tê-la no bom espaço e com a comida do Sinhá, até eu me empolguei.

Marcamos para o dia 16. A previsão era de que o 15 fosse longo demais para permitir comemorações no seu final.

No dia 15, tudo deu certo, voltei para casa lá pelas nove e pouco da noite, peguei minha garrafa de vinho, fomos jantar a dois num de nossos restaurantes favoritos, o Marcel.

No 16, São Pedro, inclemente, descarregou fartas águas sobre São Paulo, tornando intrafegável o que já é normalmente caótico.

Um terço de nossos sessenta convidados simplesmente não conseguiu chegar ao restaurante. Os que conseguiram chegar comeram bem, conversaram muito, beberam, e todos que não conheciam o Sinhá, sem qualquer exceção, lamentaram ter demorado tanto a provar sua comida. Os derradeiros saíram de lá à meia-noite, quando a chuva já tinha passado, e, espero, tenham chegado sãos e secos em casa.

Nos momentos em que o chef esteve no salão, procurei ser discreto e não chamar atenção. Minha mulher prosseguia sendo a responsável por toda comunicação.

Não adiantou: no dia seguinte, lhe escrevi para agradecer e perguntei se tinha me reconhecido durante a festa. A resposta foi categórica: ‘Claro que sim, mas não quis constrangê-lo.’ Profissionalismo e respeito.

E eu?

Comi um pouco de tudo e vi que tudo estava muito bom. Percebi mais uma vez a dedicação dos funcionários de lá, gentis o tempo todo; confirmei a correção da escolha do lugar e, claro, a seriedade e honestidade da casa.

Reconheci que, como sempre, minha mulher tinha razão: era necessária essa festa. Por várias horas, ri, conversei, estive com pessoas muito importantes e bacanas. Fui feliz sem restrições.


Vida e obra de um quase anônimo – parte I

17/12/2010

 

Gosto do anonimato, do blog sem nome e sem rosto.

Claro que tal constatação não é novidade para quem me lê. Mesmo assim, alerto o leitor desavisado: gosto muito.

Cada vez, porém, é mais difícil manter-me anônimo. Ano e meio atrás, contava três ou quatro lugares onde conheciam meu rosto. Hoje essa cifra cresceu, deve ter dobrado.

Também aumentou o número de pessoas que podem não saber do rosto, mas associam o blog ao nome que consta de minha antiquíssima, hoje esfarelada, certidão de nascimento. Fazer o quê?

Certa vez Luiz Américo Camargo, do Estado, escreveu algo que me marcou. Ele disse saber que às vezes era reconhecido, mas felizmente nunca ninguém — as palavras são dele — “avançara o sinal”, tentara propor ou fazer algo que ferisse sua idoneidade e o compromisso que ele sabe ter com seu leitor.

Percebi a mesma coisa em alguns almoços que tive a honra e o prazer de partilhar com um amigo querido e crítico importantíssimo, Arnaldo Lorençato, da Veja São Paulo — no fundo, o responsável (culpado?) pela existência deste blog. É fácil notar a diferença de atitude quando percebem quem estão servindo. Mas, mesmo quando é patente o reconhecimento, nunca vi qualquer tentativa de “avançar o sinal”. O nome disso é respeito.

E vamos colocar as coisas no lugar: uma coisa é a qualidade, a importância e o impacto de uma crítica publicada por Luiz Américo ou por Lorençato; outra, muito menor, ínfima, é a produzida pela fala menos competente e justamente menos difundida de um blog.

Por isso me sinto à vontade para dizer que continuo a gostar do anonimato, mas hoje o suponho menos essencial — e, em alguns casos, impossível.

Gosto, sobretudo, por motivos diversos, que vão de minha timidez ao pavor de receber algum benefício indevido — pavor talvez herdado de um distante bisavô prussiano ou, mais provável, de um pai que prezava, em primeiro lugar, pelas relações absoluta e rigorosamente republicanas, em que ninguém poderia ter privilégios não acessíveis a outros.

Questões, no fundo, pessoais — e que procuro observar igualmente na vida real, tão distante do mundo das comidas.

Por serem temas e dilemas (reconheço: ocasionalmente, dramas e exageros) íntimos, não espero ou suponho que se tornem regra geral. Leio blogs e críticos formais conhecidos e reconhecidos a cada passo e nem por isso os deprecio. E não custa lembrar que o grande Saul Galvão, cuja credibilidade nunca foi posta em dúvida — e nem poderia —, era facilmente reconhecido já no umbral de qualquer restaurante.

Crítica melhor, em resumo, é crítica diversificada. Enxergamos melhor quando aproveitamos mais os olhos disponíveis, nossos e alheios. Em bom português: posso praticá-la aqui e ali, sempre de maneira imperfeita, mas continuo a ser sobretudo um leitor dos textos dos outros. Parodio um escritor famoso e fabuloso: me orgulho mais das críticas de restaurantes que li do que das que fiz.

Me orgulho de ler semanalmente os textos de Luiz Américo e Arnaldo; me orgulho de acompanhar blogs, como o dos BIchos e muitos outros que não cito aqui para não cometer injustiças e esquecer alguém.

Dito tudo isso, calculo que o paciente leitor que me acompanhou até agora esteja encafifado: aonde esse sujeito vai chegar? Por que dá voltas, voltas, e não diz a que veio?

Pois na semana que vem lhes contarei. Não, não quero fazer qualquer suspense barato. Desculpem-me se assim o parece.

Apenas evito que essa introdução — moldura que era para ser breve e ficou longa — se torne mais importante do que um caso que vou contar: o dos caminhos meio pedregosos de alguém que gosta do anonimato e pretendeu fazer uma festa num restaurante.

A história não pode (nunca pode) ser sufocada pela moldura. Fica para o próximo post. Mas os tranquilizo: o final é feliz.


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