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Prêmio Paladar 2009

26/11/2009

Em setembro foram entregues os prêmios da Veja São Paulo — Comer & Beber. Ontem à noite foram distribuídos os do caderno Paladar.

Prêmios, em qualquer área, são referências. São sistematizações.

Por isso, exigem regras prévias que classificam e generalizam: tornam possível a comparação. Afinal, sob olhar rigoroso, tudo pode resultar, numa perspectiva ou noutra, incomparável. O mesmo vale para listas de “melhores livros”, “melhores discos” ou “melhores restaurantes”.

Daí precisarmos abstrair diferenças. Se não o fizermos, viveremos — tal qual Funes, famoso personagem de Borges — num mundo de individualidades absolutas e de pleno relativismo.

Prêmios também implicam inclusões e exclusões. E são sempre passíveis de críticas e rejeições.

Quando se limita tanto — caso do prêmio Paladar, que determina um conjunto fechado de 50 e poucos pratos, 30 e poucos restaurantes — é possível fazer uma longa lista do que não podia ter ficado de fora e perguntar o motivo de certas escolhas.

Quando se abrange tanto — caso do prêmio da Veja SP, que define um universo amplo de restaurantes: quase tudo que há na cidade — é possível questionar a diversidade de critérios em que os jurados se baseiam e duvidar se todos de fato conhecem todos os lugares.

A concepção dos dois prêmios é diversa. O da Veja supõe a presença constante e regular dos julgadores nos restaurantes: trabalha a longo prazo e fotografa com grande angular. O do Paladar valoriza o aqui e agora e fotografa com zoom.

Pessoalmente gosto de ambos. Porque ambos são o que prêmios são: referências.

Não à toa, a Veja SP Comer & Beber virou o verdadeiro guia gastronômico da cidade e o Paladar virou revista para ser melhor guardado. Não à toa, são respeitados dentro e fora da área.

Mas é óbvio: nem todos concordaremos com seus resultados. Sempre há o desconforto com uma ou outra escolha — ou com todas.

Na Veja, que elege “restaurantes”, suponho que o voto deva considerar tudo: da hora da reserva à saída do restaurante. A comida é fundamental, mas não é o único objeto de avaliação. E isso é bom. Porque comer fora envolve um conjunto grande de movimentos — além, claro, da mastigação. Um mau serviço ou um atendimento displicente pode jogar fora a boa qualidade da comida.

No Paladar, que elege “pratos”, creio que deva se restringir ao que foi comido. E, dadas as características do prêmio, naquele dia e naquele horário. O entorno continua importante e merece ser declarado, mas não pode determinar a escolha.

O primeiro “comentário blogueiro” aos resultados do Paladar 2009 destacou a diversidade da opinião dos eleitores. Acho que a variação de voto — e falo aqui especificamente como jurado dessa edição do prêmio, e não como teórico do assunto — resultou, em muitos casos, da irregularidade de nossos restaurantes. Pelo menos quatro pratos que receberam votos — um deles foi o vitorioso em sua categoria — estavam intragáveis em minhas visitas.

E se prêmios são referências, esta é uma questão séria que mereceria melhor discussão. Pagamos 60, 70 reais por um prato e ele pode chegar à mesa cheio de sabor ou totalmente sem gosto. Temperado na medida exata ou carregadíssimo de sal. Claro que todos podem errar e sempre é possível devolver. Mas onde está o controle de qualidade dessas casas? O próprio crítico do Estado, Luiz Américo, falou recentemente disso em seu blog.

Outra questão que o rali do prêmio Paladar levanta — ou, pelo menos para mim, levantou — vem da má qualidade de muitos dos pratos provados. Havia dias em que eu chegava em casa arrasado. Ok, o dinheiro desperdiçado não era meu. Mas quantas vezes já saí de restaurantes com a sensação de injustiça? E quantas pessoas não são lesadas dia-a-dia?

São Paulo tem restaurantes incríveis. Come-se muito bem por aqui, apesar das altas contas. Mas tem também muita coisa ruim, embalada em decorações modernas e bacaninhas.

Também por isso prêmios são referências. Para que as pessoas normais (ou seja, todas aquelas que não vão a 30 e poucos restaurantes diferentes no prazo de 17 dias) tenham alguma base na hora de escolher onde farão aquele jantar da sexta à noite ou onde comemorarão os dez anos de casamento.

Por isso, guardo a edição anual da Veja SP Comer & Beber. Por isso, guardarei a do Paladar.

No final das contas, entre abstrações, generalizações, inclusões e exclusões, calculo que todos ganhamos com a sistematização de avaliações e as comparações que os prêmios oferecem. Desde que, claro, não acreditemos que o gosto e a experiência alheia possam substituir a nossa.

Dois comentários para encerrar.

Primeiro. Um júri popular elegeu o melhor couvert. Claro que também entrei no site do Paladar e dei meu votinho eletrônico. Dividido entre meus dois couverts preferidos (Picchi e AK), acabei por votar no AK.

Segundo. Não vou reproduzir aqui os comentários sobre 50 e poucos pratos que provei. Todos os textos de todos os jurados estão (ou estarão) na página do Paladar — os elogiosos e os críticos, os que levaram o voto e os que não o levaram. Mas me dou o direito de deixar aqui quatro listas:

— a dos melhores pratos que provei durante a maratona;

— e, triste, a dos piores;

— a dos restaurantes que visitei nessas semanas e, hoje, tenho a impressão de que não consigo viver sem eles;

— a dos restaurantes a que não tenho, hoje, qualquer vontade de voltar.

Alguns discordarão. Claro. E ainda bem. Eu mesmo posso, amanhã, discordar. Ainda bem.

 

Os doze melhores pratos (e até arrisco dizer que estão em ordem de classificação — se é que isso é possível):

1. Raviolini de pato, do Fasano (o melhor de todos; de vez em quando ainda fecho os olhos para pescar, semanas depois, um pouco de seu gosto);

2. Paleta de cabrito, do Gero

3. Moules & frites, do Ici

4. Ravioli de quiabo e frango, do Pomodori

5. Pain perdu, do Ici

6. Porco à moda caipira, do Pomodori

7. Paleta de cordeiro, do Maní

8. Robalo com caruru, do Tordesilhas

9. Ovo mollet empanado com purê de pupunha e molho de cogumelo, do Così

10. Tutano, do Ici

11. Arroz Maria Isabel, do D.O.M.

12. Spaghetti ao vôngole, do Marina de Vietri

 

Os dez piores pratos (em ordem alfabética; em alguns deles, erros graves de execução):

— Barriga de porco, do Vito

— Cassoulet, do Freddy

— Costeleta de cordeiro com batata gratinada, do Due Cuochi

— Explosão de chocolate, do Carlota

— Feijoada com carpaccio de pé de porco, do Maní

— Filé au poivre, do La Casserole

— Lasagna alla bolognesa, do Aguzzo

— Moti recheado com chocolate, do Kinoshita

— Rosbife em crosta de lapsang souchong, do Maní

— Tartare de vieira com cítricos, do Eñe.

 

Os quatro restaurantes a que quero voltar logo — até porque o serviço está à altura da maravilhosa comida:

— Fasano

— Ici

— Gero

­— Pomodori

 

Os quatro restaurantes a que talvez demore a voltar — até porque, nos três primeiros casos, a comida, mesmo quando boa, foi azedada pelos erros graves de serviço:

— Due Cuochi

— Le Marais

— Emiliano

— Carlota

 

Comentários de outros blogueiros-eleitores:

Que bicho

Neide Rigo

 


Escolha de pai

11/08/2009

Dia dos pais, aqui em casa, comemoramos na sexta.

No domingo, dia oficial, os restaurantes são cheios e chatos. Resumo: comemoramos na sexta.

Onde? Pensei e me dei conta de que nunca fui com minha filha a um de meus restaurantes favoritos. Meu francês favorito.

Vou lá desde que abriu, ainda em outro endereço. Tem a única sommelière que faço questão de consultar. Perdi a conta das visitas que já fiz. E por coincidência, e por incrível que pareça, nunca fui com minha filha. Estava decidido: Ici.

Casa cheia; serviço um pouco apressado, mas correto; couvert agradável. Os pasteizinhos faziam parecer até que a comemoração era para Lia. Não era, era para mim.

Pedimos clássicos: confit de pato e cassoulet.

Na sobremesa, outros clássicos: profiteroles, mil-folhas, tortinha de chocolate amargo.

A sommelière, uma pena, não estava; então, eu mesmo escolhi o borgonha Marsannay Les Vaudenelles, que tinha sobrepreço justo.

Tudo ótimo, claro. Tudo clássico.

Porque dia dos pais tem que ser assim, nada diferente dos outros. Uma comemoração que não o distinga do quotidiano regular e feliz que vivo com minha mulher e minha filha há – nossa! – dez anos.

Sei que é papo de pai. Mas voltei para casa certo de que tinha feito uma boa escolha. Também do restaurante.

Ici Bistrô

Rua Pará, 36

Tel.  11  3257 4064

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Ici Bistrô

Confiança

28/10/2008

Todo mundo tem seu restaurante de confiança. Aquele a que você vai quando não está com muita vontade de pensar e de escolher.

Lá – você sabe – vai encontrar boa comida e o que é menos comum do que se supõe: regularidade.

Tenho uns dois ou três nessa categoria.

Ontem à noite, saí da reunião de pais na escola de minha filha e fui a um deles: o Ici.

O atendimento é bom sem ser exagerado; a sommelière é atenciosa, honesta e, ocasionalmente, surpreende.

Sobretudo, a comida de Benny Novak é boa.

O ventinho noturno, após dias de calor horroroso, me fez esticar o olho para o cassoulet.

Minha mulher pediu o magret, acompanhado de figo e purê de batatas com azeite trufado.

Não havia nem cheiro (literalmente) do azeite, mas o magret veio com precisão: intenso e delicado. Aquele jeito ambíguo do peito do pato, que é macio, mas não se deixa dobrar.

Meu cassoulet, acompanhado de uma coxa de pato confit, era uma delícia. A coxa: assada e rapidamente passada na frigideira para a pele ficar crocante. O feijão: mordível – ou seja, sem amolecer demais e ficar pastoso. A línguiça, saborosa, mas não impositiva.

Na sobremesa, uma única tarte tatin, cuja massa poderia ser mais crocante.

Café correto, numa xícara transparente – acho ruim.

Um Bordeaux básico, a preço honesto, e uma conta correta.

Um restaurante, enfim, de confiança.

Ici Bistrô

Rua Pará, 36, Higienópolis, SP

tel. (11) 3257 4064

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Ici