Não me escondo, nem me revelo. Gosto desse relativo anonimato.
De um ano e pouco para cá, quando comecei a levar mais a sério essa história de blog de comidas, nunca mais reservei restaurante em meu nome.
Ou melhor, reservei, sim. Uma vez, ganancioso, para aproveitar um desconto de aniversário. E, outra vez, fizeram uma reserva em meu nome. Só soube depois e lamentei.
Fora isso, gosto – repito – desse relativo anonimato. Relativo porque soube que duas ou três vezes me associaram ao blog. Fazer o quê? Não fico bem com aquelas perucas da Ruth Reichl.
E gosto porque assim não corro o risco de ter algum privilégio – prática anti-republicana que os brasileiros adoram.
Sem contar que sou tímido e fico constrangido com freqüência inadequada para minha idade.
Por isso levei um susto quando tocou o telefone aqui em casa e me chamaram pelo nome. Depois soube como descobriram, e não houve nenhuma pirotecnia.
Era do restaurante Jun Sakamoto, que pedia desculpas pelo dia em que fomos e ele, não (vide Lost in Lisbon). E nos convidava para jantar.
Minha mulher e eu confabulamos, analisamos se devíamos ou não. Aceitamos.
Mas que fique claro desde aqui, leitor, que dessa vez não houve anonimato e pode ter havido algum privilégio. Só que, se houve, não percebi. Os demais clientes do balcão foram servidos identicamente a nós.
No dia certo, descemos do táxi e atravessamos a rua, meio ressabiados. A porta nos foi aberta e minha mulher e eu fomos tratados pelo nome. Mais estranheza.
Sentamos no balcão e, enquanto esperávamos a entrada do Jun, nos foi servido um meca com creme de mandioquinha e aspargos. Uma delícia, que combinou com o Veuve Cliquot que havíamos escolhido para acompanhar os sushis.
Então Jun entrou, cumprimentou os sete clientes que estavam à sua frente e empunhou uma das facas. Começou a fatiar os animais que estavam na vitrine, na ordem exata em que estavam posicionados. E eram maravilhosos.
A seqüência foi a seguinte: atum, toro, salmão (com limão siciliano), olho de boi, meca, robalo (com shissô), linguado (com limão japonês), pargo (com shissô), arenque (também com shissô), cavalinha marinada, lula (daquela arredondada, mais espessa, com sal negro do Havaí e limão), vieiras (com sal trufado), enguia (com tarê), camarõezinhos (com limão e sal), uni (com limão e sal) e ovas de salmão.
Ufa…
Movimentos obviamente exatos. Apresentação impecável dos dezesseis sushis. Coreografia precisa com o auxiliar que fazia a finalização. Poucas palavras. Apenas um esclarecimento sobre a lula e outro sobre o quadro com malaquitas na parede.
Sabores intensos, maravilhosos, às vezes incomparáveis. Meus favoritos foram o arenque, a cavalinha e a lula. Mas o que dizer do uni ou do toro, que se desfez na boca? E dos demais? Peixe, afinal, é peixe e, quando é bom, vira um sonho.
Jun saiu de cena e nos serviram ainda um tartare de atum com foie e ovas (muito bom, mas, infelizmente, não senti o foie) e um par de ostras (carnudas e com sapore di mare, como as boas ostras sabem ser e ter) num caldo de saquê. Para minha sorte, minha mulher não gosta de ostra e só comeu uma; logo, fiquei com três. Mas comeria mais três dúzias com tranqüilidade.
Para fechar, o sorvete de maçã verde com gelatina de saquê, que é das melhores sobremesas de São Paulo – inclusive pela simplicidade.
Na hora da conta, novo pedido de desculpas e a oferta do jantar. Pagamos apenas o champagne e o serviço. Correto, profissional, gentil.
Saímos para a rua certos de que às vezes podemos abrir do anonimato. Desde que isso fique claro para quem ler o blog.
E que Jun continua a ser o melhor sushiman de São Paulo. De longe.
Jun Sakamoto
Rua Lisboa, 55, Pinheiros, SP
tel. 11 3083 0510
Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Jun Sakamoto