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Imagine

17/03/2012

 

Imagine que, numa bela manhã de março, você se prepare para jantar num dos melhores restaurantes de São Paulo e fazer uma degustação que provavelmente será memorável.

 

Imagine que, às onze em ponto dessa manhã, um amigo —iniciais A.B.— o convide para almoçar no restaurante que serve o melhor almoço executivo da cidade. Você aceita, obviamente.

 

Imagine que, ao chegar ao restaurante para almoçar com o amigo, você descubra que não comerão o executivo, mas um menu especial de quatro tempos e muitos miúdos.

 

Imagine, então, que o primeiro prato é nada mais nada menos que fígado de tamboril. Sim, o fígado mais delicioso do mar, preparado com delicadeza, servido com suave consonmé. Diálogo lindo, sabores suaves e definitivos.

 

Imagine que o segundo prato é uma das mais deliciosas lasanhas que já comeu na vida: recheada com cabeça de porco e acompanhada de pedaço de porco preto.

 

Imagine.

 

E não pare mais de imaginar, leitor, até o final do texto, porque chegou à mesa um prato de rim de vitela com feijõezinhos, mostarda e couve. Separadamente são bons; reunidos numa só garfada, é extraordinário.

 

Como se não bastasse, ainda vem uma ótima sela de cordeiro com purê de batatas e verduras e a torta de chocolate mais saborosa do hemisfério sul, com sorvete artesanal de doce de leite e pitada de flor de sal.

 

Depois de um almoço desses, é óbvio que a alegria é imensa: imagine a tarde que passei.

 

E quase não dava para imaginar que ainda faltava o jantar.

 

Ele começou com abacate tratado e apresentado como foie gras sobre mini arroz e cercado de mini cogumelos: era maxi suave, maxi marcante. Derretia e se espalhava pela boca.

 

Na sequência, um passeio pelas águas iniciado por vieiras rapidamente tostadas com maçã verde e creme incisivo de limão.

 

Imagine que em seguida chegou à mesa uma comida que se mexia: lascas de bacalhau com maionese de bacalhau, pupunha e bonito seco. O melhor prato da noite.

 

Pelo menos até a chegada do prato seguinte: namorado à meunière —meunière de verdade, e as alcaparras vinham na forma de pipocas. Mudei de ideia e cheguei à conclusão de que este, sim, era o melhor da noite.

 

Um petisco delicioso —torrada com manteiga de anchova— antecedeu o sempre bom camarão com açafrão e tagliatelle de cenoura. E o entrecôte grelhado também estava ótimo, no ponto exato, com manteiga de alecrim, cebolas assadas, cogumelos e dois tubérculos: purê de mandioquinha e chips de inhame.

 

Uma fatia de grana padano, um sorvete delicioso de lichia e um já clássico da casa: suflê de cupuaçu.

 

Faço o balanço de tanta imaginação —vivida passo a passo, como ocorre com as boas imaginações— e concluo com facilidade: foi um dia e tanto.

 

Um dia em que comi a comida de dois dos melhores e mais criativos chefs de São Paulo. Dia em comi em dois dos restaurantes de melhor comida e melhor custo benefício da cidade.

 

Imagino que nem precise dar nomes.

 

Mas não custa.

 

O almoço foi no Epice, de Alberto Landgraf.

 

O jantar foi no Marcel, de Raphael Despirite.

 

E acho improvável que eu volte a ter um dia assim. Nem na imaginação.

 

 

 

Epice

Rua Haddock Lobo, 1002, Jardins, SP

tel. 11 3062 0866

 

 

Marcel

Rua da Consolação, 3555, Jardins, SP

tel. 11 3064 3089

 

 

2011 à mesa

15/12/2011

Fim de ano, hora de balanço.

Cogitei soltar uma nova fornada do Alho de Ouro, idiossincrático e bissexto prêmio, mas desisti.

Preferi falar dos lugares que valeram a pena, para mim, em 2011.

Duas estreias que, além de serem as mais interessantes do ano, ainda por cima rimam: Julice e Epice.

Julice, a padaria que me deu alegria atrás de alegria —e a melhor das alegrias, a de ter um delicioso pão, alimento essencial, sempre por perto.

Epice, o restaurante que criou um almoço executivo sensacional e que, se conseguir à noite a excelência que demonstra de dia, pode se tornar um dos melhores de São Paulo.

Os quatro melhores jantares do ano aconteceram em restaurantes de estilos muito diferentes: uma inacreditável degustação na Brasserie de Erick Jacquin —um dos grandes jantares da vida, não só do ano—, outra degustação maravilhosa com Roberta Sudbrack, a revelação da absoluta delícia do Clandestino e um jantar decisivo num de meus refúgios favoritos, a Tappo.

Fora isso, a conclusão de que Marcel, Ici e 210 Diner continuam deliciosos. Que o Tordesilhas prossegue na lista dos restaurantes essenciais da cidade. Que o Emiliano corrigiu a afetação de seu serviço e sua comida está melhor do que nunca. Que a Casa da Li, a princípio uma rotisserie, virou também um excelente restaurante.

Mas se eu tivesse que escolher meu restaurante do ano, escolheria o AK, agora AK Vila, uma reestreia. Perdi a conta de quantas vezes comi lá, do quanto minha geografia da cidade foi alterada para que eu frequentasse mais a Vila Madalena. No AK Vila, além da comida sempre boa, descobri o acolhimento e o prazer que sentia no AK da Mato Grosso e que eu supunha ter perdido na mudança. Não perdi.

E, como tudo tem seu lado ruim, o ano também trouxe grandes decepções. Um jantar caríssimo, cheio de afetação e sem brilho no Arola 23. Uma refeição igualmente cara e desleixada no Kinoshita. E o desconfortável desaparecimento do Jun Sakamoto, em meio a um jantar em seu balcão, sem que qualquer satisfação fosse dada aos clientes —que haviam cumprido todas as recomendações dadas por telefone, quando da reserva.

Mas faço as contas e vejo que o balanço foi positivo. As coisas boas ultrapassaram em muito as ruins e esse 2011 à mesa valeu a pena.

Agora, descansar e descansar, porque nos outros setores foi um ano pesado demais. E esperar que, com ou sem o fim do mundo, 2012 seja um ano muito bacana para todo mundo.

Meus vinte, hoje

30/08/2011

 

Começou como um desabafo, ao sair de um jantar inexpressivo: ‘Não há, em São Paulo, mais de vinte restaurantes que de fato valham a pena’ — escrevi no twitter.

A cifra é arbitrária. O comentário, idiossincrático. Mesmo assim o repeti mais de uma vez.

Então passaram a me cobrar que fizesse a lista.

Não foi fácil, claro. E ela não representa necessariamente os melhores restaurantes de São Paulo. Três das principais casas da cidade estão ausentes — D.O.M., Maní e La Brasserie de Erick Jacquin — e gosto das três. Apenas não acho que tenham a necessária regularidade, o que muitas vezes torna ruim a relação custo-benefício.

Claro que posso ter esquecido de algum lugar. Assim que lembrar, acrescento. Obviamente, ela está em ordem alfabética. E tem 21 nomes, não vinte.

Finalmente: não custa lembrar que a lista se refere a… hoje. Amanhã pode ser outra.

 

AK Vila

Amadeus

Brasil a Gosto

Chef Rouge

Così

Dalva & Dito

210 Diner

Emiliano

Epice

Fasano

Gero

Ici

Jun Sakamoto

Marcel

Mocotó

Parigi

Picchi

Sal Gastronomia

Tappo

Tordesilhas

Zena Caffè

 

Sob a lua, um camelo

26/05/2010

 

Temos de ser justos: quem tem bossa é o camelo. O dromedário também, mas o camelo tem em dobro.

Só que, no Brasil, bossa passou a significar talento, vocação. Isso foi lá pelos anos 50 e hoje ninguém mais elogia o outro dizendo que o sujeito “tem bossa”. Das tantas novas bossas que havia — o presidente Juscelino Kubitschek, por exemplo — só restou a bossa nova, movimento musical.

E a expressão, além de indicar talento e novidade, até ficou associada ao Brasil, país que só tem camelos em zoológico.

O Projeto Cozinha Bossa Nova pegou emprestada a força da expressão e se dispôs a reunir chefs jovens. A primeira edição aconteceu em abril e levou Rodrigo Oliveira, do Mocotó, para cozinhar com Raphael Despirite, do Marcel.

Os jantares ocorrem às terças-feiras e isso, para mim, é um problema — e não vou explicar por quê. Resumo: não pude ir e fiquei salivando de longe, tal qual um camelo sem bossas.

A segunda edição foi ontem. Despirite recebeu Joca Pontes, do restaurante Ponte Nova, de Recife.

Camelei, camelei, aproveitei uma coincidência que me liberava mais cedo do trabalho, e fui. Além, claro, da oportunidade quase garantida de comer bem, duas coisas empolgavam: conhecer a comida de Joca Pontes, que nunca provara, e o próprio cardápio proposto.

Porque o cardápio revelava, talvez até melhor do que o da primeira edição (olha aí o despeito de quem não foi!), a junção de estilos.

Ei-lo: polvo grelhado com saladinha de chuchu e beterraba; “linguine” de pupunha com creme de couve-flor, coentro e aratu de pedra; lascas de bacalhau com migas de pão e manjericão, acompanhado de compota de tomate e cebolas ao perfume de laranja; cherne na manteiga de limão sobre purê de jerimun e leite de coco; entrecôte grelhado, mandioquinha e ora-pro-nóbis; queijos; creme queimado ao perfume de umburana; suflê de cupuaçu.

Não valia a pena atravessar um deserto para chegar lá? Valeu.

O único ponto frágil me pareceu a saladinha que acompanhava o polvo: sem graça. Fora isso, todos os sabores que tinham que estar ali estavam — e do jeito como deveriam estar. Polvo perfeito, aratú delicioso, bacalhau excelente, entrecôte suculento. Acompanhamentos sempre adequados, bem dosados, incisivos no diálogo com as carnes.

O creme queimado de sobremesa era fino e macio, delicado e saboroso. O suflê de cupuaçu, um jovem clássico, dispensa comentários.

Mas a estrela da noite, aquele prato pelo qual eu daria uma corcova, foi o cherne. Ligeiramente picante, ligeiramente adocicado, ligeiramente untuoso, ligeiramente ácido, ligeiramente cremoso. Um daqueles grandes pratos, que permitem experimentar os sentidos e os gostos, discerni-los, aprová-los. A combinação que justifica o conceito de bossa nova: novidade, talento, sutil brasilidade (seja o que isso for, estava lá).

Saí do restaurante e, sob a lua — como ficam os camelos no bonito poema de Jacques Roubaud —, voltei para casa cheio de bossa.


Mau humor, bom humor

25/05/2010

 

Já disse uma vez, e repito: não vou a restaurantes porque escrevo o blog; escrevo o blog porque vou a restaurantes.

A diferença é importante: me dá a liberdade de ir aonde quero ir, sem as obrigações e regras que pautam o quotidiano de um crítico gastronômico.

Claro que não vou escrever apenas sobre as casas de que mais gosto. Afinal, gosto se discute, sim, e não pode ser ele a pautar as análises e comentários que, correta ou equivocadamente, publico.

Quando como um prato que não é meu preferido ou quando vou a um restaurante cujo ambiente ou tratamento me desagrada, procuro separar as coisas e não deixar que o comentário se torne refém de minhas preferências e idiossincrasias.

Até confesso uma aqui: trilha sonora. Prefiro comer sem música, mas um fundo de clássicos ou jazz não me incomoda. Fora isso… Bem, fora isso, tenho que separar minhas manias de minha análise.

E também não vou a restaurantes para ser “surpreendido”. Pode até acontecer alguma surpresa e eu gostar dela. Mas vou para comer. Por isso, espero bons ingredientes, boa execução, boa apresentação, sabores definidos, prazer.

Nessa altura do texto, calculo que você, leitor, esteja pensando: Hoje o sujeito está de mau humor.

Não só, nem tanto.

Tem um mau humorzinho de fundo, sim. Ele sempre bate quando ouço defesas exageradas dos experimentalismos na cozinha ou sua equiparação a uma arte. Não tenho dúvida de que há ciência e arte na cozinha, mas o limite de ambas é a atenção ao comensal.

Que o cozinheiro experimente à vontade, dê asas à imaginação, divirta-se. Mas o cliente não pode sofrer, no bolso e no paladar, as consequências dos riscos que o chef resolve correr. Em bom português, não tenho vocação para porquinho da Índia.

Só que o mau humor acaba aqui e, no seu lugar, entra a defesa do conforto.

Porque na semana passada, e por absoluta coincidência, comi fora quatro vezes e as quatro em restaurantes que associo ao conforto e à satisfação. Mais do que isso, e também por absoluta coincidência, não pedi em nenhum deles pratos que não conhecesse. Fui no certo e no sabido.

Numa sexta-feira, almocei vareniques de batata doce, com creme de haddock, amêndoas e endro. De sobremesa, o mais lúdico de todos os pains perdus. No AK.

No mesmo dia, jantei no Marcel e segui o menu degustação de Raphael Despirite. Dois cinco pratos, só não conhecia um: o bacalhau em lascas com farofinha crocante de pão, batata com ervas e azeite de manjericão. No mesmo nível (altíssimo) do bacalhau do menu.

Na quarta seguinte, almocei no 210 Diner (sim, sei que ainda não escrevi sobre ele, embora tenha ido lá mais de dez vezes; escreverei em breve). Pedi o Piggie Burger, que já comera duas vezes.

E finalmente na sexta-feira, uma semana depois do início dessa história, jantei o quase incomparável cassoulet do Ici, seguido de um imenso pain perdu.

Ou seja, quase nada variou: lugares, pratos, resultados. Também revivi a completa satisfação, sorriso no rosto, com que normalmente saio desses restaurantes.

O nome é qualidade, é conforto — o melhor antídoto para cansaço e mau humor.

Incrível é que aí, sim, houve surpresa. Claro que já sabia — todos sabemos — que uma boa refeição deixa a alma mais leve. Mas toda vez que isso acontece bate aquela sensação de inusitado: a surpresa que confirma a regra.

Por isso, quis escrever a história concisa dessas quatro visitas. E lembrar a melhor motivação que pode haver para sair de casa: o prazer. O resto (olha o mau humor de volta, gente!) quase sempre é conversa fiada.


Alho de Ouro

22/12/2009

Fim de ano, balanços.

Não vou instituir nenhuma premiação por aqui, nem direi quais são os melhores restaurantes de São Paulo. Há listas e gentes que fazem isso com maior competência.

Mas não resisto a dizer quais foram os restaurante em que melhor comi neste 2009 (em território nacional).

Não necessariamente os melhores, embora eu os ache muitíssimo bons.

E sim aqueles a que tive mais vontade de ir e a que fui mais vezes.

De saída, declaro que dois restaurantes são hors-concours: Fasano e D.O.M.. Bons demais, gosto demais deles, poderia almoçar e jantar lá diariamente. Só que vou menos a eles do que gostaria — e é fácil imaginar o motivo. De qualquer forma, cada um no seu estilo (e tenho que confessar: entre eles, prefiro o Fasano), são fundamentais.

Sem mais delongas e em ordem alfabética, o Alho de Ouro deste ano (epa, não era uma premiação!) vai para…

AK

Ici

Marcel

Sal

Tappo

Além disso, vale lembrar que em 2009:

- meu melhor jantar aconteceu no dia 21 de julho no Parigi (a comida foi muito boa, mas “melhor jantar” implica várias outras coisas, inclusive o momento…)

- os melhores almoços da categoria bom, barato, bem bacana e nada banal foram os do Sinhá

- o melhor prato dentre as centenas que provei foi o raviolini de pato com perfume de laranja, do Fasano.

- por mais absurdo que soe, a revelação do ano, para mim, foi o Pomodori. Claro que não é novo, mas renasceu mais barato e muito melhor.


Antes que comecem os protestos e as reclamações, as discordâncias sustentadas e as idiossincrasias, repito: são os que me deixaram mais feliz (assim mesmo: subjetivamente) em 2009.

Agora, Alhos, Passas e Maçãs viaja um pouco: durante janeiro come e bebe em outras latitudes; volta em fevereiro.

Um 2010 suculento para todos nós!


SPRW: Marcel

11/09/2009

 

O Marcel é o Marcel. Inclusive na Restaurante Week.

O atendimento é gentil, o ritmo da refeição é tranqüilo, as porções são suficientemente fartas e o menu é coerente com a proposta da casa: cozinha francesa temperada com a inventividade do chef Raphael Despirite.

Chegamos por volta das 19h30 para não ter que esperar. Havia apenas uma mesa ocupada. Pedimos água e vinho, descartamos o couvert e fizemos nossas escolhas.

Nós três optamos pela sopa de tomate, cenoura, croûtons e pó de azeitona. Agradável e saborosa (mesmo para quem, como eu, não é exatamente fanático por sopas), com um toque curiosamente adocicado dado pela azeitona madura.

Minha mulher e minha filha preferiram a bela posta de salmão como prato principal, acompanhada de molho de cogumelos. O peixe veio obviamente no ponto e os cogumelos estavam saborosíssimos.

Meu medalhão de filé tinha a mais bela apresentação da noite. A carne, também inevitavelmente no ponto, ganhava força na redução de vinho tinto e as batatas rústicas dialogavam bem – pelo menos as que consegui salvar depois do vigoroso ataque de minha filha a elas.

A única sobremesa era composta por um par de profiteroles, recheadas de sorvete e com calda de chocolate amargo. Prefiro quando as profiteroles vêm com crème patissière, mas estavam ótimas.

A refeição durou, com o café final, duas horas. Às 21h30, a casa estava lotada e umas dez pessoas esperavam no bar.

Mesmo na RW, o serviço manteve, entre um prato e outro, aquele saudável tempo que faz toda a diferença num jantar. Em parte porque nenhum dos pratos – com a óbvia exceção da entrada – estava preparado com antecedência. Todos mantinham o frescor da comida recém-feita ou montada na hora – as profiteroles, por exemplo, chegaram à mesa crocantes.

Ritmo, diriam alguns, é tudo. O sistema Usain Bolt de expedição e serviço – aplicado na Week por restaurantes como a Brasserie de Jacquin e o Antiquarius – destroi o prazer de comer. Food tem que ser slow.

Saímos de lá convictos de que a Restaurant Week de São Paulo vale a pena.

Basta você saber escolher – o que nem sempre é fácil.

Basta evitar as casas que, ridiculamente, desprezam o cliente do evento e o tratam diferentemente de sua clientela habitual. Falemos português claro: basta evitar os restaurantes que, pelo pedantismo ou por arcaica crença na supremacia das classes ricas, destratam o cliente que supõem que não voltará em dias normais.

Basta optar por aqueles que nos respeitam e se respeitam. Que, na hora h, mostram o que são.

Por isso, Marcel. Que é o Marcel, inclusive na Restaurant Week.

Marcel

Rua da Consolação, 3555, Cerqueira César, SP

Tel. 11  3064 3089

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Marcel


Por que ir a restaurante? (parte II)

05/06/2009

 

Fim de maio: já estava na hora de encerrar as comemorações do meu aniversário.

Para cumprir a promessa feita no início do mês, voltamos ao Marcel, agora para a degustação.

Começamos com o habitual foie com uva na cachaça e broto de beterraba. Pequeno: só a ponta mais saborosa da peça – bem saborosa.

A segunda entrada era uma novidade para nós: gema de ovo caipira com farofa de cogumelos (batidos e rebatidos no liquidificador) e cogumelos laminados, acompanhados de brotinhos – um deles, de jambu, para encerrar o prato com uma sensação tátil diferente.

Antes do primeiro prato principal, o chef mandou um prato de cogumelos fresquíssimos, recém-chegados do Rio Grande do Sul, levemente salteados, com pinoli e emulsão de alho. O mérito do prato, no caso, foi não mexer no que já tem sabor por si mesmo. Deliciosos cogumelos.

Os pratos principais foram bacalhau e cordeiro.

O bacalhau, na textura e no ponto exato, vinha com o acompanhamento de três nhoques fritos, tomate confitado, azeite e um bolinho de batata. Para lembrar que bacalhau é um tremendo peixe, apesar de tão maltratado em restaurantes e casas de família (as nossas, por exemplo).

O cordeiro tinha um molho puxado no curry e trazia, junto, um maravilhoso folheado de raízes: mandioquinha, cará e inhame. O cordeiro estava ótimo; o folheado, melhor.

Depois, o fechamento clássico: queijo de coalho com melaço e grana padano, manga com aparência de fios de ovos e suflê de cupuaçu.

Durante a refeição toda, uma miríade de brotinhos de todo tipo passearam pelos pratos e os refrescaram, variando e combinando sabores. Que eles cresçam e se multipliquem…

Acompanhamos tudo com um Tondonia Reserva 99, de López Heredia, que ainda agüentaria com tranqüilidade uns 30 anos, mas já estava muito bom.

Conta de 280 reais; aumentamos o serviço e corrigimos o total para 300 para compensar a não-cobrança de rolha.

Maio encerrava com glória. Já tínhamos absoluta certeza de que valia muito a pena ir a restaurantes.

Tanto que começamos a planejar as comemorações de junho – mês do aniversário da nossa filha…

Por que ir a restaurante? (parte I)

03/06/2009

Por que é bom ir a um restaurante?

A pergunta, claro, pode ter mil respostas e nenhuma delas é perfeita.

Vai-se a restaurante por motivos diversos: matar a fome, mudar de ares e temperos, esconder-se, ver e ser visto, divertir-se, ostentar, espairecer, experimentar.

A lista poderia prosseguir até a eternidade e incluir verbos que indicassem gestos e ações que, individualmente, podem nos espelhar ou indignar, mas que, no fundo, são lícitos.

Confesso que vou a restaurantes por quase todos esses motivos. Não gosto de ver e ser visto (porque sou tímido), nem ostentar (porque não tenho o quê). Fora isso, assinalo todas as alternativas acima.

Nem sempre, porém, dá certo. Mas quando dá certo, dá de verdade.

Pensei nisso duas ou três vezes em maio, mês de aniversário, que, também por isso, faz a gente sair mais de casa e olhar mais para dentro.

Mas acho que só me dei conta mesmo quando li um comentário do Luiz Horta, no Twitter. Ele dizia que, numa noite e num restaurante, recuperara seu gosto de comer fora.

Dias antes eu havia ido exatamente a esse restaurante; dias depois, voltaria lá. Marcel – de que já falei nesse blog algumas vezes.

Fui lá para uma primeira comemoração de aniversário, no início de maio. Nesse dia, comemos à la carte – na verdade, já fazia uns meses que sabia o que queria comer no aniversário.

Abri com dois belos pedaços de um foie fabuloso (não tem melhor em SP – também já disse isso), com uva na cachaça e broto de beterraba (do jardim do restaurante). A noite já teria valido a pena só com ele.

O único pensamento triste que passou pela cabeça foi a piedade das pobres almas que recusam foie e fazem campanha contra ele, convictas de que bom mesmo para o planeta são a soja e a criação hormonal de frangos e salmões sem gosto.

Por falar em salmão, minha filha devastou, de entrada, um carpaccio desse mesmo animal (com sabor), defumado. Também ótimo.

Dos principais, minha mulher preferiu o cherne em cama de rosti de pupunha grelhado com aspargos (frescos) e azeite. Que dizer? O aspargo tinha maciez incrível e o sabor do cherne – taí um peixe incrível – era exuberante.

Meu confit de pato com melaço e alecrim acompanhado de bolinhos de batata conseguiria um bom posto entre os top-five patos de SP (um dia ainda faço o ranking do pato paulista; é que ainda falta um ou dois para provar…). Para meu gosto, o alecrim excedia um pouco, mas nada que atrapalhasse o prato (e o pato).

Pedimos suflê de cupuaçu de sobremesa, mas Raphael Despirite, o chef, mandou antes um suflê de açaí para provarmos. Muito bom – mesmo para quem não coloca açaí entre os cem sabores mais agradáveis do mundo. Os de cupuaçu dispensam comentários: são conhecidos e sempre maravilhosos.

Para acompanhar tudo isso, minha filha ficou na água e minha mulher e eu dividimos o Montravel que havíamos levado (Cuvée 100 pour cent 04, do Château Moulin Caresse). O restaurante não cobra rolha.

A conta final de R$ 280 reais foi para lá de boa, embora não seja real: aproveitei a promoção para aniversariantes (50% de desconto nos pratos principais) e aumentei o valor do serviço (por conta do vinho levado).

Saí de lá com a certeza de que devia voltar logo – até porque acompanhei, com o rabo do olho, a degustação na mesa ao lado. De fato, voltamos no final do mês – mas isso é tema para o próximo comentário.

Saí de lá, sobretudo, com a sensação de que descobrira uma razão a mais para ir a restaurantes. Simples e tantas vezes esquecida: ficar feliz de um jeito diferente de como (e do quanto) sou feliz em casa. Por isso, Marcel.

Marcel

Rua da Consolação, 3555, Cerqueira César, SP

Tel. 11  3064 3089

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Marcel

E a SPRW melhorou

06/03/2009

 

Tem sido difícil aproveitar a SPRW. Restaurantes lotados, que recusam reservas.

Pessoalmente, isso é ruim. Coletivamente, é bom.

Mostra que os restaurantes não estão engessando suas mesas, para variar mais o público.

Mostra que as pessoas estão aproveitando a oportunidade de pagar mais barato por comida melhor elaborada.

Mostra que muita gente que habitualmente não freqüenta bons restaurantes está aproveitando a chance.

Mostra que, se os preços abaixassem um pouco, a freqüência aumentaria muito.

Tomara que sirva de exemplo.

Individualmente, não consegui arrumar meus horários para ir, por exemplo, ao AK ou ao Sal.

Liguei para o Marcel, que também não aceitou reserva, mas que orientou para chegar por volta das 19, dizendo que ainda seria possível nos acomodar.

Normalmente não vou a restaurante sem reserva. Ao contrário da maioria dos paulistanos, não gosto de fila e de espera.

Mas arriscamos. Chegamos lá e o maître nos acomodou na única mesa que ainda estava disponível – às 19.

O garçom perguntou se aceitávamos o couvert. Aceitamos. Claro que ele não faz parte do preço da SPRW, mas vale a pena.

Pedimos, de entrada, a brandade de bacalhau e palmito pupunha. Ao contrário do que previa o cardápio, felizmente não veio com vinagrete de azeitonas pretas. Mas, infelizmente, tampouco trazia os chips de presunto cru. Uma torrada fina e uma folha de erva cidreira a completavam.

Estava ótimo e comemos com prazer e rapidez.

Enquanto esperávamos os pratos principais, o couvert foi reposto e o devoramos novamente .

Para principal, minha mulher e minha filha preferiram a truta com emulsão de alho porro e abobrinhas. Eu fiquei com o ravióli de lingüiça e pinoli.

Ambos estavam deliciosos. Bem concebidos, bem executados. Com muito sabor e sem excessos. Comida boa. Ponto. Não sobrou uma gota nos pratos.

Para a sobremesa, minha mulher e eu ficamos com a crème brulée de maracujá e minha filha preferiu o sorvete de baunilha com calda de frutas vermelhas. Bons.

Raphael Despirite, o chef, ainda veio à mesa perguntar se tínhamos gostado da refeição – como faz quando comemos a degustação. Isso é respeito pelo cliente – independentemente de quanto ele está pagando, se está aproveitando uma promoção ou não.

Ou seja, SPRW respeitada, clientes respeitados, restaurante merecidamente cheio.

O Marcel, que já era bom, está cada vez melhor.

E reparei que o foie com uva na cachaça retornou ao cardápio. É o melhor da cidade. Portanto, assim que acabar a SPRW e as coisas ficarem mais tranqüilas, volto lá para comê-lo.

Pode estar complicado para aproveitar a SPRW, mas saímos de lá com a sensação de que, mesmo se não formos a mais nenhum restaurante nessa semana, ela já valeu a pena.

Marcel

Rua da Consolação, 3555

tel.  11  3064 3089

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Marcel

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