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Twelve Bistrô

20/04/2012

 

Certos restaurantes nos atraem por motivos que não são necessariamente ligados à boa comida. Claro que ela não pode ser ruim —nesse caso, não há conversa.

 

Mas o bom atendimento, a boa ambientação ou algum motivo que não se consegue explicar fazem com que voltemos sempre, que mantenhamos aquele endereço na mira de uma próxima refeição.

 

É mais ou menos isso que acontece com o Twelve Bistrô. Há comidas boas por lá? Sim, mas também há pratos mal executados. O atendimento é bom? Mais ou menos: não é ruim, tampouco é atencioso. O ambiente é agradável? Muito. Especialmente a parte da frente, uma varanda coberta, que sugere relaxamento e informalidade e denuncia o hibridismo da casa.

 

Porque, apesar de ter bistrô no nome, não é um bistrô —se bem que, em São Paulo, é bastante difícil definir o que é um bistrô: a padaria aqui perto de casa, por exemplo, chama seu bufê de café da manhã de bistrô.

 

Twelve é parte lanchonete, parte restaurante. Serve almoço executivo, tem cardápio enxuto e também hambúrgueres, petiscos e cervejas. As cervejas, aliás, são um bom atrativo. Com relativa variedade, a carta inclui bons rótulos brasileiros e estrangeiros, permitindo que escapemos das malfadadas pilsens-sem-gosto servidas a setenta graus negativos.

 

A vocação híbrida, a varanda, as cervejas. Acho que é isso que me atrai no Twelve. E, claro, dois pratos: a coxinha de rabada e o fish & chips. A coxinha exagera um pouco no alho e no alecrim, mas é frita com precisão e a rabada, saborosa.

 

O fish & chips, salvo engano, não tem equivalente em São Paulo. Preparado com robalo —e não com bacalhau, cod, que predomina nos pubs ingleses—, é suculento, úmido, crocante. Uma delícia.

 

A parte negativa vem nos hambúrgueres, que poderiam ser destaques da casa, mas vêm inevitavelmente além do ponto. Todas as vezes em que pedi, pelo menos, vieram. Tentei até dizer que preferia mal passado, mesmo assim não deu certo.

 

Fácil de corrigir, claro. E no dia em que corrigirem será um elemento a mais para me atrair ao Twelve Bistrô. Além do ambiente, da varanda, da coxinha, da cerveja, do fish & chips e, provavelmente, de mais algumas coisas que não sei identificar e que me levam para lá.

 

 

Twelve Bistrô

Rua Simão Álvares, 1018, Pinheiros, SP

tel. 11  3562 7550

 

Itadakimasu

01/04/2012

 

Colaboração e fotos de @bronza

 

A surpresa, o inesperado às vezes alteram radicalmente nossa vida, transformam tudo aquilo em que acreditamos. Quem nunca se deu conta, de repente, de um grande erro que cometia ou do disparate do que dizia?

Não sou, claro, exceção.

Andava outro dia pela Liberdade. Hora do almoço, ligeiramente faminto. Cogitei entrar num ou noutro restaurante, desisti. Preferi flanar por ali, descer uma ladeira, subir outra, virar à direita, à esquerda. A esmo.

De repente, não mais que de repente, vi uma porta minúscula, quase insignificante. Duas pessoas saíam dela, sorridentes em sua conversa de sons que não reconheci.

Por que não arriscar?

Passei a porta, subi os quinze ou vinte degraus que levavam a um salão minúsculo —quatro mesas—, de luzes fracas. Cumprimentei, com ligeira inclinação do dorso, uma senhora que estava encostada à parede meio descascada de um vermelho fanado.

Nenhuma resposta. Mesmo assim dei um passo e meio em direção à mesa mais próxima, única vazia, e me sentei. A senhora veio até a mesa e parou, sempre em silêncio. Ensaiei dizer algo, ela apenas moveu brevemente a cabeça, em recusa: não me entendia. Não falávamos a mesma língua.

Único ocidental por ali, fiz gesto de quem quer o cardápio. Novo silêncio, novo movimento breve e negativo de cabeça. Aparentemente não havia cardápio. Apelei, então, para a linguagem universal: mão na direção na boca, queria comer.

Ela balançou a cabeça breve e agora afirmativamente e se retirou.

Voltou minutos —longos minutos— depois.

Naquele momento vislumbrei o paraíso, manifesto na plasticidade que só a culinária japonesa oferece e, em seguida, no prazer gustativo inenarrável. O mais belo e saboroso teishoku que já provara.

Precisa dizer alguma coisa?

 

Camarõezinhos, legumes e brotos no ponto exato. A anchova, de textura perfeita, tinha pele crocante e era pura suculência.

Croc-croc… Nhac!

 

E o gohan… Ah, o gohan! A imagem fala por si:

Mais que um gohan: um gol-han, gol de placa-han!

 

Para comer com o tato, o olhar, o olfato, a audição (as canções nipônicas completavam o clima). Sentidos eriçados, meu paladar vibrava.

E o bolso agradeceu ao receber a conta de meros 15 reais —cerca 8 euros: em que parte do planeta se come tão bem por tão pouco?

Emocionado como nenhuma comida jamais me deixara, saí de lá em puro enlevo. Não hesitei. Telefonei para meu amigo Bronza, especialista em comida japonesa (ele almoça na Liberdade, em média, seis dias e meio por semana) e consultor para assuntos gastronômicos e fotográficos.

Falei da revelação que vivera —para que serve uma refeição se não nos surpreender?— e propus que voltássemos lá, juntos, no dia seguinte. Ele recusou: demoraria demais, me disse. Marcamos, então, para o jantar do mesmo dia.

Tão empolgado que estava, nem consegui voltar para casa. Também não queria sair do universo japonês em que casualmente penetrara e que me transportara para outros tempos e lugares.

Fiquei zanzando pelas ruas do bairro oriental até que escurecesse e afinal chegasse a hora de jantar.

Demorou. Como demorou!

Às 18h30, hora de reabertura da casa, estávamos lá, na porta.

Bronza veio munido de explícita e impressionante desconfiança. Óbvio que não tinha acreditado nos elogios que eu fizera por telefone. “Você rasgou seda demais”, me disse. Respondi com movimento negativo e breve da cabeça.

Subimos ritualmente os degraus. Lá estava a mesma senhora e a recepção foi idêntica à do almoço: imóvel e silenciosa.

Busquei a mesma mesa, nos sentamos, fiz o gesto de quem quer —precisa— comer.

Aguardamos.

Pedi a Bronza que fotografasse os pratos: era comida de se comer também com os olhos e queria que os leitores do blog percebessem.

Chegaram os fresquíssimos sushis: 

Nham, nham…

 

E os niguiris:

Olha a textura!

 

Comíamos em postura quase religiosa. Vez ou outra, um de nós se levantava de espanto e reverenciava a senhora.

E nem sabíamos o que nos aguardava…

Huuuummm!!!

 

O porco não parecia desse mundo. O molho, concentrado, exalava aromas que nunca havíamos sentido. O sabor… Não, nenhuma palavra conseguiria expressar.

Bronza reconheceu, finalmente, que não havia exagero no que eu lhe dissera. Estávamos diante do melhor restaurante japonês de São Paulo. Japonês de raiz, que oferecia a preços baixíssimos uma impressionante qualidade de ingredientes e uma inacreditável profundidade de sabores.

Mas eu também precisava admitir algo.

Muitas vezes recusei publicar fotos no blog e repeti o mantra —hoje sei, equivocado— de que as imagens não tinham a capacidade expressiva das palavras.

Pedi a ele que autorizasse o uso das fotos e, a bem da verdade, nem devia ter escrito nada no post. Porque agora reconheço: imagens falam mais do que mil palavras.

Pelo menos, só elas conseguem mostrar o que é uma refeição no paradisíaco e incomparável Itadakimasu.

 

Itadakimasu

Rua Maboroshi, 14, Liberdade, São Paulo

(a casa não tem telefone)

 

ps. Caso você, leitor, tenha ficado empolgado ou indignado, alerto:

- repare na data em que o post foi publicado;

- dê uma olhada nos comentários e nas respostas a eles.

 

O doce e o salgado

28/03/2012

 

Dia de semana, vontade de comer fora de casa.

 

Pegamos nossa filha na escola e fomos em busca do restaurante em que pretendíamos almoçar. Cheio. Espera de quarenta minutos. Inviável.

 

Atravessamos a rua e entramos no Na cozinha.

 

Pequeno, informal. Almoço executivo a bom preço, mas preferimos recorrer ao cardápio.

 

Boa porção de pastéis, enquanto esperávamos os principais — minha mulher escolhera o cupim de panela com mandioca frita e quibebe; minha filha, o penne com mix de cogumelos e aroma de trufas; eu optei pelo baião de dois com medalhão de filé, farofa e melaço.

 

Porções grandes, quase exageradas. Massa no ponto certo, carnes corretamente preparadas.

 

Uma característica do cupim e do baião, no entanto, nos chamou atenção para um fenômeno que parece se alastrar por São Paulo: a tendência a adoçar os pratos salgados.

 

Veja, leitor, não tenho nada contra a combinação de doces com salgados.

 

Ao contrário: lembranças infantis me trazem almoços preparados por meu pai, pródigo e preciso na associação desses sabores mais complementares que antagônicos.

 

O cuidado, no entanto, precisa ser redobrado. Facilmente o dulçor impera, rompe o equilíbrio.

 

Não sei se é tendência atual —paulistana? Brasileira? Global?—, mas cada vez mais a presença do doce ofusca outros ingredientes, se impõe antes da sobremesa.

 

Infelizmente foi isso que aconteceu com nossos pratos do Na cozinha. Talvez um problema de concepção, talvez um erro de execução.

 

Tanto que até desistimos da sobremesa: a cota de açúcar consumida nos principais já bastava. O garçom, porém, ofereceu um simpático manjar com flores, cortesia da casa. Aceitamos e gostamos.

 

Não gostamos, porém, da conta final. Quase duzentos reais para um almoço casual é demais (alguém poderia dizer, e com razão: bem feito, quem mandou não optar pelo almoço executivo?).

 

Preço salgado (peço, claro, desculpas pelo trocadilho…), indicativo de outra tendência, igualmente preocupante, de muitas casas de São Paulo: ultrapassar os limites razoáveis do que é possível cobrar em função do que é servido e nas condições em que é servido.

 

Na cozinha é restaurante simples —intencionalmente simples—, adequado para refeições ágeis, rápidas.

 

Ao cobrar preços tão excessivos quanto o dulçor de nossos pratos, prejudica seriamente a relação custo-benefício e, num certo sentido, se descaracteriza: afinal, informalidade —qualquer informalidade— não combina com excessos.

 

 

Na cozinha

Rua Haddock Lobo, 955, Jardim Paulista, São Paulo

tel. 11 3063 5377

 

Imagine

17/03/2012

 

Imagine que, numa bela manhã de março, você se prepare para jantar num dos melhores restaurantes de São Paulo e fazer uma degustação que provavelmente será memorável.

 

Imagine que, às onze em ponto dessa manhã, um amigo —iniciais A.B.— o convide para almoçar no restaurante que serve o melhor almoço executivo da cidade. Você aceita, obviamente.

 

Imagine que, ao chegar ao restaurante para almoçar com o amigo, você descubra que não comerão o executivo, mas um menu especial de quatro tempos e muitos miúdos.

 

Imagine, então, que o primeiro prato é nada mais nada menos que fígado de tamboril. Sim, o fígado mais delicioso do mar, preparado com delicadeza, servido com suave consonmé. Diálogo lindo, sabores suaves e definitivos.

 

Imagine que o segundo prato é uma das mais deliciosas lasanhas que já comeu na vida: recheada com cabeça de porco e acompanhada de pedaço de porco preto.

 

Imagine.

 

E não pare mais de imaginar, leitor, até o final do texto, porque chegou à mesa um prato de rim de vitela com feijõezinhos, mostarda e couve. Separadamente são bons; reunidos numa só garfada, é extraordinário.

 

Como se não bastasse, ainda vem uma ótima sela de cordeiro com purê de batatas e verduras e a torta de chocolate mais saborosa do hemisfério sul, com sorvete artesanal de doce de leite e pitada de flor de sal.

 

Depois de um almoço desses, é óbvio que a alegria é imensa: imagine a tarde que passei.

 

E quase não dava para imaginar que ainda faltava o jantar.

 

Ele começou com abacate tratado e apresentado como foie gras sobre mini arroz e cercado de mini cogumelos: era maxi suave, maxi marcante. Derretia e se espalhava pela boca.

 

Na sequência, um passeio pelas águas iniciado por vieiras rapidamente tostadas com maçã verde e creme incisivo de limão.

 

Imagine que em seguida chegou à mesa uma comida que se mexia: lascas de bacalhau com maionese de bacalhau, pupunha e bonito seco. O melhor prato da noite.

 

Pelo menos até a chegada do prato seguinte: namorado à meunière —meunière de verdade, e as alcaparras vinham na forma de pipocas. Mudei de ideia e cheguei à conclusão de que este, sim, era o melhor da noite.

 

Um petisco delicioso —torrada com manteiga de anchova— antecedeu o sempre bom camarão com açafrão e tagliatelle de cenoura. E o entrecôte grelhado também estava ótimo, no ponto exato, com manteiga de alecrim, cebolas assadas, cogumelos e dois tubérculos: purê de mandioquinha e chips de inhame.

 

Uma fatia de grana padano, um sorvete delicioso de lichia e um já clássico da casa: suflê de cupuaçu.

 

Faço o balanço de tanta imaginação —vivida passo a passo, como ocorre com as boas imaginações— e concluo com facilidade: foi um dia e tanto.

 

Um dia em que comi a comida de dois dos melhores e mais criativos chefs de São Paulo. Dia em comi em dois dos restaurantes de melhor comida e melhor custo benefício da cidade.

 

Imagino que nem precise dar nomes.

 

Mas não custa.

 

O almoço foi no Epice, de Alberto Landgraf.

 

O jantar foi no Marcel, de Raphael Despirite.

 

E acho improvável que eu volte a ter um dia assim. Nem na imaginação.

 

 

 

Epice

Rua Haddock Lobo, 1002, Jardins, SP

tel. 11 3062 0866

 

 

Marcel

Rua da Consolação, 3555, Jardins, SP

tel. 11 3064 3089

 

 

Dos privilégios

10/03/2012

 

Entro na Julice. Doze pessoas na fila. Uma moça grávida, um rapaz com bebê de colo.

 

Espero pacientemente. Todos esperamos.

 

Sábado de manhã: inevitável esperar.

 

Eis que chega um chef de restaurante próximo, aparentemente amigo da casa. Ele abraça o caixa, segue até o fundo da padaria, conversa com a própria Julice por alguns minutos.

 

A fila anda, as funcionárias, pacientes, atendem, mas não dão conta.

 

Agora sou o quarto na fila e há três pessoas atrás de mim.

 

O chef ignora a fila e começa a escolher os pães. É prontamente atendido.

 

Indignado, desisto.

 

Ao sair passo pelo caixa e reclamo. Recebo um olhar de desdém e uma resposta inesperada: “Ai, querido, não dá para ver!”

 

Volto para a casa sinceramente chateado. Adoro os pães de lá, respeito muitíssimo o trabalho da Julice —já escrevi mais de uma vez sobre isso aqui no blog.

 

Resolvo relatar o episódio no twitter. Outros também reclamam do atendimento.

 

Então, o twitter oficial da padaria me responde e nega: não, o “chef” só foi cumprimentar os funcionários e depois entrou na fila. A fila é respeitada.

 

Esclareço que, lá, o chef não é chef; é um cliente comum.

 

E que não!, não foi assim. Ou a casa quer dizer que sou mentiroso?

 

Pior que o desrespeito é a tentativa de iludir o cliente.

 

Instantes depois, outro cliente que estava lá —o que tinha o bebê no colo— confirma, pelo twitter, minha versão e diz que, depois que saí, o caixa e o chef ironizaram minha reclamação e riram dela.

 

É a vida. Afinal, os privilegiados também sabem rir. Aliás, sobretudo eles.

 

Para os comuns, existem as filas (nem sempre respeitadas) e as redes sociais.

Dois adendos e duas conclusões (às 18h de 12 de março de 2012):

- o responsável pelo twitter oficial da Julice, em outro gesto pueril, parou de me seguir e de seguir várias pessoas que endossaram as reclamações;

- um amigo me informou que o caixa é também o gerente e o administrador do twitter oficial da Julice. Se a notícia se confirmar, todos os erros foram cometidos pela mesma pessoa;

- uma conclusão: o episódio aparentemente não provocou qualquer mudança na padaria; prevaleceu a disposição de desconsiderar a voz dos clientes, não assumir os erros nem responsabilizar os culpados por estes erros;

- outra conclusão: o assunto Julice se encerra aqui. Só voltarei ao tema se houver desculpas oficiais, reconhecimento dos erros cometidos e, dessa forma, possibilidade de diálogo adulto, sério e profissional.

 

La Mar

26/02/2012

 

Hesitei muito, muito mesmo, antes de escrever sobre La Mar Cebichería. Não por gostar ou não do lugar, mas por minha pura e simples ignorância: tenho dificuldade para entender a comida peruana, foco da casa.

 

Sei que há uma vasta e consolidada tradição brasileira de falar sobre tudo e especialmente sobre aquilo de que não se entende e eu mesmo a pratico de vez em quando. Mas a leviandade de alguns comentários —e, nesse mundo das comidas, é uma festa— me incomoda cada vez mais.

 

Na verdade, escrevo cada vez menos para o blog porque me desconforta comentar algum prato ou restaurante com uma ou duas visitas apenas. E minhas refeições em restaurantes são financiadas por meu salário de assalariado —ganho, diga-se de passagem, com bastante custo—, logo…

 

Por motivos mais ou menos óbvios —tradições consolidadas, hábitos alimentares, etc.—, é muito mais fácil decifrar a dinâmica de um jantar francês ou italiano. Quando ceviches e causas chegam à mesa, no entanto, que repertório acionar para compreender a —lamento se acharem que teorizo, mas a palavra é exatamente esta:— semântica daquela cozinha, seus significados, seus sentidos, as interpretações possíveis de um sistema que só conheço desde muito longe?

 

Porque não importa que a comida peruana esteja na moda pelo mundo afora e que o próprio La Mar tenha filiais em meia dúzia de países ou cidades: interpretar sua comida à luz de paladares treinados por outras comidas é reducionismo, é banalização.

 

Daí tanta hesitação. Finalmente, porém, venci o pudor e resolvi escrever. Não analisarei, nem avaliarei. Apenas constatarei. Serei superficial e provavelmente banal. Não importa.

 

A casa é séria, seu trabalho é interessante. O serviço, de uma gentileza e de um didatismo impressionantes, sem incorrer no insuportável exagero de algumas casas com sua prática de declamar cardápios e, vez ou outra, receitas. Não, a garçonete de forte sotaque peruano que nos atendeu na última visita explicou com cuidado o que desconhecíamos, preocupou-se com nossas escolhas, recomendou corretamente.

 

Num sábado à noite, com o agradável salão lotado, pedimos uma “barca de causas” e uma degustação de ceviches.

 

As causas são purês de batata, em versões pequenas, com pimentas, recheios e coberturas. Das cinco provadas, a melhor era a “antigua”: peixe empanado, cebola, aji amarelo, dedo de moça, coentro, molho tártaro.

 

Dos quatro ceviches que compunham a degustação, preferimos o “clássico”, preparado com peixe, cebola roxa, dedo de moça e coentro e imerso no indefectível leite de tigre. O “nikei” —cubos de atum em molho adocicado— também agradou bastante.

De sobremesa, os picarones (rodelas de massa frita com melado e especiarias) estavam bons e a “crema volteada” —com maçãs assadas e chantilly de capim limão—, deliciosa.

 

Como interpretar, não sei. Mas comemos bem e nos divertimos durante a refeição, imaginando a sintonia fina que tem que ser empregada na combinação e na gradação do uso das pimentas, no recurso a um ou outro pescado, nas combinações só aparentemente fáceis dos diversos ingredientes.

 

Talvez por isso, dessa vez, ultrapassei a hesitação e decidi escrever sobre o La Mar. Porque, no fim das contas, é importante compreender a semântica de uma cozinha —e, de forma mais geral e muito mais importante, do mundo que nos cerca—, mas a verdade profunda de um jantar é simplesmente comer bem.

 

 

La Mar Cebichería

Rua Tabapuã, 1410, Itaim, São Paulo

Tel.  11 m3073 1213

 

De bom humor

19/02/2012

 

Ultimamente as hamburguerias —nome estranho, convenhamos— proliferam por São Paulo. Boas ou ruins, sofisticadas ou banais.

 

E eu gosto de hambúrguer. Tanto o bacana, com carne especial e cheio de bossa, quanto o mais óbvio, na chapa, com alface e tomate. Só imponho uma condição: que seja bom e valha o que custa. Dos nove aos quarenta reais, tem que valer.

 

Dos da chapa, no velho estilo, meu favorito é o do Hobby da Cardoso de Almeida. Para os mais elaborados, recorro a três lugares, exatamente nessa ordem: 210 Diner, St. Louis e Ritz. Experiências em outras partes nem sempre foram bem sucedidas.

 

No meio de tanto hambúrguer e de tanta hamburgueria —sim, o nome é estranho, por mais que tenha virado moda o uso desse sufixo para tudo—, resolvi finalmente conhecer uma que não é nova, mas aonde, sei lá por quê, nunca tinha ido: a Hamburgueria Nacional.

 

Oito e meia da noite de um sábado e um dos dois amplos salões já estava quase todo ocupado. Meia hora depois, o outro também ficaria cheio.

 

Sobre a mesa, um aviso anunciava que o sanduíche de lá havia sido considerado o quarto melhor do mundo. Minha mulher e eu estávamos de bom humor e, por isso, ignoramos a insólita peça publicitária. Não importa que periódico tenha feito a eleição; qualquer pessoa consegue facilmente imaginar que é impossível comparar hambúrgueres do mundo inteiro —um ranking mundial, portanto, soa estapafúrdio.

 

A estrutura do cardápio leva o cliente a montar seu próprio hambúrguer. Parte-se da carne —tipo e tamanho preferidos— e acrescentam-se os complementos: queijos, molhos, etc. Novamente o bom humor nos salvou. Não ligamos para o fato de que não havia, na prática, uma proposta da casa para o sanduíche e compusemos os nossos.

 

Pedi com queijo de Minas; minha mulher, com queijo suíço. Para provar: maionese de wasabi e barbecue. Acompanhamento: uma porção de mandioca frita.

 

Chegaram os lanches e o bom humor teve que resistir à carne além do ponto e de sabor inexpressivo. A fortíssima maionese de wasabi e o concentrado barbecue encobriam qualquer outro sabor do qual se aproximassem; abandonamos os dois. No outro extremo, o queijo de Minas não revelava qualquer gosto.

 

Diferente era a mandioca frita, que era puro bacon: no sabor e no cheiro. Perguntamos à garçonete por que ela não avisara que o acompanhamento era preparado com bacon e, para nossa surpresa, ela respondeu que não era. Gentil, ofereceu uma resposta ao nosso espanto: “devem ter usado a mesma fritadeira em que fritaram bacon e daí fica o gosto”.

 

Ah, bom… Mas o humor resistiu: como reclamar diante de explicação tão prosaica e sincera?

 

O serviço, de fato, era a única coisa que escapava na experiência mal sucedida. Gentil, atenciosa, a garçonete ainda nos recomendou o sorvete, artesanal e terceirizado, de que “nunca ninguém reclamou”.

 

Claro que não seríamos os primeiros a reclamar, embora os dois sabores que pedimos —morango e chocolate— estivessem ruins. A moça também não reclamou do fato de termos deixado os sorvetes quase inteiros e assim ficamos quites.

 

Ligeiramente desconcertados com todos os problemas que cercavam o hambúrguer eleito por alguém como o quarto melhor do mundo, pegamos o carro e fomos embora. Por incrível que pareça, de bom humor.

 

 

Hamburgueria Nacional

Rua Leopoldo Couto Magalhães Junior, 822, Itaim, São Paulo

tel.  11  3073 0428

 

 

Bacana

11/11/2011

 

É bacana falar de restaurantes bacanas, com comidas e propostas bacanas, mas obviamente não é a eles que vamos diariamente —minha conta bancária, pelo menos, não permite.

 

O dia-a-dia é da comida em casa e de almoços muitas vezes rápidos em restaurantes capazes de servir boa comida com preço acessível a mais bolsos.

 

Boa comida a preço acessível. Onde exatamente?

 

Curiosamente, São Paulo, que tem uns vinte restaurantes de excelente qualidade, não oferece tantas opções assim de almoço digno e feliz.

 

Há sempre os menus executivos —alguns deles já comentados por aqui—. E, no outro extremo, as redes de fast food. Que, ao contrário do que alguns leitores podem supor, eu não desprezo; acho que têm seu lugar na geografia (ou seria anatomia?) urbana e, desde que não se tornem hegemônicas no espaço e no paladar, cumprem seu papel.

 

Faz uns anos, porém, que a cidade foi tomada por algo que fica a meio caminho entre os menus executivos e os fast food: os restaurantes que cobram por quilo e os que funcionam no sistema de bufê.

 

Eles respondem, inicialmente, pela agilidade: quando o horário é apertado, pedir à la carte pode complicar bastante a vida.

 

Poucos, no entanto, merecem ser citados ou lembrados. Bem poucos. Fecho os olhos, calculo rapidamente e chego a um número inferior a cinco.

 

O problema dos “quilos” é mais ou menos óbvio: ou você prepara um estapafúrdio prato em que mistura tudo com tudo e tudo se perde, ou você enfrenta a desagradável fila da balança meia dúzia de vezes.

 

Prefiro, por isso, os bufês. Mesmo quando os garçons ficam exasperados diante da quantidade de pequenos pratos que faço. Porque simplesmente não consigo misturar coisas que não podem ser misturadas. Então, pego um pouco de salada (prato número 1), algum petisco (2), outro petisco (3), uma das opções quentes (4), outra das opções quentes (5), e assim por diante.

 

Veja, leitor, não sou glutão. São porções, repito, pequenas, mas quero comer de tudo —fora as massas, presenças inevitáveis, mas sacrificadas nos bufês—, e de tudo como um pouco.

 

A felicidade se instaura quando você se dá conta, lá pelo quarto ou quinto prato usado, que as coisas estão boas e que vale a pena seguir em frente. Ou seja: quanto melhor a comida, mais pratos…

 

Agora siga o que comi e faça as contas de quantos pratos usei no Amici:

 

— Legumes cozidos no ponto exato, com sabor bem definido;

— Caponata (um pouco mais ácida do que gosto, mas bem feita);

— Mandioca frita, sequinha e crocante;

— Calabresa frita, saborosa;

— Croquete de carne, bem gostoso;

— Parmigiana (obviamente estamos falando de berinjela);

— Sobrecoxa de frango desossada com sálvia (muito bom), acompanhado de purê de batata e cebola roxa, cuja textura estava um pouco irregular e a cebola predominava demais;

— Ragu de ossobuco: ótimo. Ótimo. Ótimo!

— Feijoada boa com farofa melhor ainda;

— Bisteca de porco com molho marcante e agradável de limão.

 

Dez? Dez.

 

Dez!

 

É, o pessoal da pia não deve ter gostado.

 

Mas saí com sorriso de orelha a orelha. Acentuado pelo bolo de banana de sobremesa, muito bem feito —um pouco mais doce do que gosto, mas isso é questão de gosto mesmo.

 

Porque é bom falar de restaurantes bacanas com comidas e propostas bacanas, mas é muito bom falar de restaurantes que garantem um almoço delicioso num dia comum.

 

Coisa que, por sinal, além de rara, é muito bacana.

 

Amici

Rua Araçari, 200, Itaim, SP

tel. 11 5641 9110

 

Obsessão

17/09/2011

 

Olho a mesa da copa e conto: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito.

 

Oito.

 

Oito pães. Duas baguetes, dois croissants de amêndoa e chocolate. E ainda centeio com castanha do Pará, linhaça com castanha do Pará, calabresa com Beaujolais, só centeio.

 

Pão demais para três pessoas comerem num só dia, ou dois.

 

No entanto, é inevitável. Inevitável desde que abriu a Julice. Eu — que nem moro tão perto — vou lá toda semana, às vezes mais de uma vez.

 

Invento todo tipo de pretexto para passar defronte, comer o brioche, o pain au chocolat, o de gorgonzola, o de açafrão e passas, tantos outros.

 

Ou acordo, nas margens da Paulista, e pego o carro para atravessar quatro quilômetros e tomar café da manhã lá.

 

No 7 de setembro, sem qualquer compromisso antes do meio dia, o despertador me acordou às 8 e fui comprar pão para começarmos bem o dia.

 

Obsessão, diriam os ingênuos.

 

Não é. Acontece que pão é coisa séria, bem séria.

 

Pão está na origem de tudo, simbólica e fundamentalmente.

 

Pão, que uns associam ao alívio da fome saciada e outros, à delicadeza, à profundidade do gosto, à textura, ao calor do forno e da alma.

 

O pão da Julice passou a representar tudo isso para mim, que vivo numa cidade cujas padarias viraram supermercados, se encheram de produtos desnecessários e esqueceram da qualidade de seu produto básico, essencial.

 

Nessa cidade, há uns meses, apareceu a Julice.

 

Não é, portanto, obsessão. Ou talvez seja. Aquele traço obsessivo expresso na ânsia de encontrar um croissant que de fato valha a pena, que faça lembrar croissants comidos em outras latitudes.

 

O prazer de comer um anacrônico panetone de agosto e descobrir, pela primeira vez em muitos anos, que ele não traz aquele insuportável cheiro de essência. Traz gosto e leveza.

 

Traço obsessivo — aquele que a vida aos poucos provoca no paladar da gente — de não querer mais coisas ruins ou sem graça, desnecessárias.

 

Obsessão do sabor.

 

Obsessão pelo pão da Julice.

 

Julice Boulangère

Rua Deputado Lacerda Franco, 536, Pinheiros, SP

tel.  11  3097 9144  3097 9162

 

 

Meus vinte, hoje

30/08/2011

 

Começou como um desabafo, ao sair de um jantar inexpressivo: ‘Não há, em São Paulo, mais de vinte restaurantes que de fato valham a pena’ — escrevi no twitter.

A cifra é arbitrária. O comentário, idiossincrático. Mesmo assim o repeti mais de uma vez.

Então passaram a me cobrar que fizesse a lista.

Não foi fácil, claro. E ela não representa necessariamente os melhores restaurantes de São Paulo. Três das principais casas da cidade estão ausentes — D.O.M., Maní e La Brasserie de Erick Jacquin — e gosto das três. Apenas não acho que tenham a necessária regularidade, o que muitas vezes torna ruim a relação custo-benefício.

Claro que posso ter esquecido de algum lugar. Assim que lembrar, acrescento. Obviamente, ela está em ordem alfabética. E tem 21 nomes, não vinte.

Finalmente: não custa lembrar que a lista se refere a… hoje. Amanhã pode ser outra.

 

AK Vila

Amadeus

Brasil a Gosto

Chef Rouge

Così

Dalva & Dito

210 Diner

Emiliano

Epice

Fasano

Gero

Ici

Jun Sakamoto

Marcel

Mocotó

Parigi

Picchi

Sal Gastronomia

Tappo

Tordesilhas

Zena Caffè

 

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