Mistérios paulistanos – parte II

08/09/2008

Outro mistério – este, ainda menos compreensível – é o sucesso do La Frontera.

Ok, o lugar é cult (do lado de um cemitério), o chef tem atitude e, dizem as moças, é bonito.

Fora isso… O couvert é um conjunto de fatias de pão (às vezes, geladas!) com manteiga inexpressiva e azeite idem.

O ojo de bife acompanhado de salada verde – destaque do pequeno cardápio que privilegia as carnes vermelhas – mostra uma das primeiras e principais deficiências da casa: o fornecedor de carnes. Numa cidade como São Paulo, com tantas casas que servem carne de boa a fabulosa, é difícil entender porque o La Frontera se abastece tão mal.

Há pratos interessantes e com concepção (porque um pedaço de carne com salada verde pode ser bom ou ruim, mas é óbvio). É o caso da garoupa com legumes. Bem preparada e saborosa. Só que vem pouco, muito pouco, no prato.

Das sobremesas, merece destaque o canoli com chocolate belga. O creme do recheio podia ter uma pitada mais forte de cítrico, mas é gostoso. Já o bolo de chocolate belga com sorvete e mexerica cristalizada tem apenas uma mexeriquinha. Uma. Por quê? Sei lá.

O serviço é um caos. Os pedidos têm que ser repetidos, nada chega à mesa sem uma boa espera. A desatenção absoluta é a marca. No almoço de domingo, então, é caso seriíssimo. O garçom gira a bandeja e quase acerta a cabeça de minha mulher: raspa seu cabelo. Ele pede desculpas? Claro que não. Nem deve ter percebido – como também não percebeu que devia trazer o suco de minha filha, insistentemente pedido (e que só chegou depois que apelamos ao maître).

Mas nem todo mundo é desatento. Como a fila é grande, quem cuida da lista de espera fica ligado. Aponta para minha mesa e avisa o garçom: “vê se eles desocupam logo.” O comentário, simpático e gentil, é feito a meio metro da mesa, em tom suficientemente audível e acompanhado de gestual inconfundível.

Eu até queria mesmo ir embora. O problema é que não traziam a conta, apesar dos vários pedidos. Para agradar ao moço da lista, fui pagar no caixa e aproveitei para reclamar. O chef – que em nenhum momento foi à cozinha – ouviu e pediu desculpas. Disse que da próxima vez será melhor e deu o clássico tapinha no ombro enquanto nos acompanhava até a porta. Para um bom brasileiro, significa “deixa para lá, mano”.

Da próxima vez será melhor. Será mesmo? Não, nunca foi. Sempre foi igual. Vai entender.

La Frontera

Rua Coronel José Eusébio, 105, Consolação, SP

tel. (11) 3159 1197

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): La Frontera

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2 Respostas to “Mistérios paulistanos – parte II”

  1. Ana Massochi Says:

    Alhos , Doria teve a gentileza de enviar tua impressão do La Frontera , claro, morri de vergonha .
    Passo tempo , trabalhamos bastante e gostaria que voltaras para ter tua opinião
    Abraço
    Ana

  2. alhos Says:

    Ana,
    muito obrigado por seu comentário e por sua atenção.
    O comentário foi publicado em 2008. Muita coisa se passou de lá para cá. La Frontera não se tornou um dos meus lugares favoritos, mas a tragédia daquele domingo não se repetiu em tempos recentes.
    Abraços!


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