O taxista

23/10/2008

O taxista que nos levou do restaurante para casa era extremamente gentil e educado. Tinha dvd no carro, repetiu várias vezes que nós é que mandávamos e pediu “por favor” insistentemente. No entanto, queria de todo jeito ir da Vila Olímpia aos Jardins pela Rebouças, esticando o caminho e o valor da corrida.

Quando chegamos em casa, compreendi: ele era a metáfora perfeita do lugar que eu acabara de visitar. Não do restaurante, mas do público que o freqüenta e do lugar em que ele está instalado.

É o Buddha Bar, encravado dentro da Daslu.

O Buddha Bar tem um público curioso. Rapazes fortificados por horas de musculação mostram seu peitoral em camisetas de grife justas. Moças bronzeadas e torneadas nas mesmas academias vestem vestidos curtos (bem curtos), na fronteira da vulgaridade – às vezes, além dela.

Uma juventude dourada que vai lá, acho, mais para ver-e-ser-vista do que para comer a boa comida de Bel Coelho.

Bel Coelho é uma chef jovem, que fez bastante sucesso no tranqüilo e inventivo Sabuji, antes de tentar (e não conseguir) a sorte em Londres. Para nossa sorte, ela voltou e comandou a instalação da filial brasileira do Buddha.

Misto de restaurante, bar e lugar de balada, o Buddha é um “restaurante-lounge”, seja lá o que isso significar. Ou seja, um lugar a princípio não recomendado para quem quer apenas um jantar gostoso. A música aumenta com o passar das horas e, por volta das 22, já está muito além do que devia. Mas é aí que os jovens dourados chegam. E que você tem que ir embora.

Apesar da grandiosidade, a decoração é de bom gosto e o salão é bonito, cercado de divindades hinduístas e com um imenso Buda no fundo – à sombra do qual jantei com minha mulher ontem. Não levei minha filha porque o lugar, evidentemente, não é afeito a crianças.

Comemos bem. O couvert é inexpressivo: uma manteiga e uma pasta meio sem graça, pão sueco e – único ponto positivo – um salmãozinho marinado com rodelas de pepino, para marcar a inclinação oriental da casa, reforçada pelo cardápio de sushis e sashimis que acompanha as criações da chef.

Mas eu não tinha ido lá para a balada, nem para comer sushi. Os sushis, aliás, se tornaram mesmo cardápio de balada paulistana – talvez por serem, em bom português, uma espécie de finger food avant la lettre.

Fui para jantar e, por isso, cheguei cedo e encontrei o restaurante ainda com cara de restaurante, vazio e tranqüilo. A atenção do serviço foi completa, quase no limite do exagero (sabe aquele garçom que não aceita que você tome dois goles de vinho sem que sua taça seja completada entre um e outro? Pois é). Mas nada que incomodasse demais.

E a cozinha? O pato de Pequim não empolga, mas é correto. O robalo com pupunha em cama de castanha de caju, passas e grãos é para lá de bem servido e trazido no ponto exato (ou seja, um pouco antes daquele em que a maioria dos restaurantes serve um pescado). Uma delícia. O carré de cordeiro vem macio, quase assustadoramente macio, e o risoto de grãos que o acompanha é rico e saboroso. Peca apenas pelo excesso de queijo, que encobre um pouco o gosto dos grãos.

De sobremesa, um trio de crème brulée inteligente e gostoso, principalmente o de gengibre. A lichia recheada, acompanhada de água de rosas e gelatina de balsâmico é deliciosa, absolutamente deliciosa. Mas eu confesso que queria comer mais do que as três que vieram no prato. Um pouco mais. Umas vinte mais.

O café é Nespresso, caro, mas vale. E a carta de vinhos, bastante diversificada, traz preços e procedências de todo tipo. Fiquei com um Borgonha básico, que acompanhava as várias carnes que comemos.

O restaurante é bom? É. O lugar é bonito? É. O programa é 100%? Não. Talvez seja implicância ou preconceito, mas não me sinto à vontade nesse mundo dasluziano. Não é uma questão de preço, até porque os praticados pelo Buddha Bar são altos, mas ficam bem aquém dos de um D.O.M. ou Fasano.

É a simpatia artificial. É a juventude dourada e a cortesia opaca. É a impressão de que o taxista revela algo que não é palpável, mas é real: um público que não tem idéia do que é um restaurante ou do que é uma pessoa que não pertence àquele mundo. Que é gentil, mas não enxerga ou respeita o outro. É algo que me deprime.

O que eu queria? Que o talento da Bel Coelho estivesse em outro lugar. Até porque saí com a impressão de que, quando acabar a moda do Buddha Bar – e moda é sempre breve –, o público pólo-country vai bater em outra vizinhança e o restaurante vai pifar.

Buddha Bar

Avenida Chedid Jafet, 131, Vila Olímpia, SP

tel. (11) 3044 6181

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Buddha Bar

2 Respostas to “O taxista”

  1. Fernanda Says:

    adoro ler seu blog e suas observações…


  2. Obrigado, Fernanda!
    Gostoso ler seu comentário.
    Beijos!


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