O exemplo da Melilli

22/11/2008

É fácil comer bem em São Paulo – isso todo mundo sabe.

Temos uns quatro ou cinco chefs de primeiríssima, outro tanto de chefs muitos bons e uma nova geração promissora.

Difícil – e isso também todo mundo sabe – é comer bem e pagar pouco.

Aí está nosso drama. E daí a alegria quando aparece um restaurante como o Famiglia Melilli.

Lá está um dos novos e bons chefs, Renato Carioni, que saiu do Cantaloup, comprou essa antiga cantina e vai fechá-la em breve.

Porque depois da ceia de Natal, começa uma reforma que só termina em fevereiro, quando a casa reabre com outro nome na fachada: Così.

Enquanto o Natal não chega, Carioni oferece um menu relativamente pequeno, mas variado, preparado com a atenção de quem conhece a alta gastronomia.

E cobra preços de cantina – para superar o drama de quem adora comer bem, mas é assalariado.

Resta aproveitar. E tenho aproveitado. Em novembro, jantei pelo menos uma vez por semana lá, e pretendo ir muito mais vezes.

O couvert é simples: a sardela é agradável, sem acidez ou picante excessivo, mas a berinjela em conserva é apenas correta – sem maiores adjetivos.

Vale mais a pena dispensá-lo e privilegiar as entradas, que são interessantes. O salmão com abacate, puxado no limão, é agradável e bem concebido. A lasanha de berinjela neutraliza a acidez do ingrediente e compõe bem com queijo derretido.

Meu favorito, porém, é o ovo perfeito com polenta, mix de cogumelos e fígado gordo de pato. Fegato grasso, porque é restaurante italiano – e não foie gras, como chamaria um francês.

E aí vale lembrar: não há discurso ecológico ou nacionalista que consiga tirar o prazer de comer um foie bem preparado, apenas selado.

É uma maldade com o pato? É. Mas não maior à que impõem aos frangos, para acelerar seu crescimento. E bem inferior ao estrago que a plantação extensiva da soja – idolatrada pelos naturebas – faz em escala global.

E não: ora-pro-nóbis não é melhor que foie. Nem pequi ou cambuci. Muito menos mocotó com fava.

Desnecessário dizer: começo com o fígado todas as vezes que vou lá. E o preço é quase inacreditável: 28 reais.

Nos pratos (primi ou secondi), muitos acertos. A paleta de cordeiro com feijão branco e cenoura traz carne macia e saborosa e feijão mais duro do que o normal – por isso, melhor.

O risoto de abóbora com queijo taleggio derretido é um pouco mais pesado do que deveria – mas com o queijo lombardo na jogada, isso pode ser inevitável.

Já o salmão com risoto de verduras e calda de legumes não traz verduras, mas legumes. Ok, tecnicamente legume é verdura, mas quem pede um prato com esse nome espera… verduras: coisas verdes, em geral em folhas. O risoto vem (claro) no ponto preciso. Só que a calda de laranja é um tanto inexpressiva. Um pouco mais de acidez e amargor cairia bem e ajudaria a contrastar.

O nhoque de cará recheado de cordeiro se parece com um ravioloni e é ótimo.

O polpetone surpreende pela leveza: friti, friti, como diria Roberto Benigni, e obviamente recheado, mas suave. Uma delícia.

Como delicioso é o coelho desfiado com polenta cremosa (que leva queijo). O bichinho de pelagem macia vem com a carne muito macia e sabor intenso.

Para acompanhar, a carta de vinho é quase inacreditável. O sobrepreço se limita, no caso de alguns rótulos argentinos básicos, a apenas 4 reais em relação ao praticado pela importadora no varejo. No geral, é a mais honesta e menos lucrativa que já vi na vida (exceção, claro, aos restaurantes ligados a importadoras).

Então, tudo é perfeito? Infelizmente, não.

As sobremesas – fora o bom, correto e úmido tiramisù – são fracas. O sabor da mousse de banana com sorvete é encoberto pela forte e excessiva calda de maracujá. O salame de chocolate e amêndoa é uma boa idéia, atrapalhada pelo péssimo sorvete de creme que a acompanha. Os sorvetes, industrializados, não são da casa e a prejudicam.

E em todas as visitas houve deslizes. Numa delas, a berinjela do couvert parecia um pouco azeda. Avisamos o garçom, que a levou ao chef. Ele a provou e gentilmente veio à mesa para esclarecer que se tratava do gosto forte da alcaparra usada na redução. Trocou a porção e a nova não tinha o sabor desagradável da primeira.

Em outra visita, o ovo perfeito com polenta trouxe de brinde um pequeno pedaço de plástico. Notificamos o garçom, que disse que ia verificar e não deu retorno.

O coelho também trouxe surpresas: pequenos pedaços de osso escaparam do olho de quem o desfiou e ameaçaram o prato – e o cliente.

Também o ovo perfeito, em outra ocasião, passou do ponto. A gema começou a coagular, perdendo parte do delicioso efeito que seu derramamento sobre a polenta provoca.

E o salame de chocolate com amêndoa careceu de frescor. O desagradável “gosto de geladeira” denunciava que já havia ultrapassado o momento ideal ou que a conservação tinha problemas.

Os erros desmerecem o restaurante? Lógico que não. Os acertos ganham de goleada e compensam qualquer ida. Tanto que continuarei a freqüentar a casa no mesmo ritmo. Da próxima vez, provarei o menu-degustação que, segundo o garçom, pode ser servido, embora não conste do cardápio.

Porque o Famiglia Melilli tem muito a mostrar – além, claro, do reconhecido talento de Renato Carioni, que comanda a cozinha, e também cozinha.

O Famiglia Melilli mostra que é viável servir ótima comida a custo muito baixo: os pratos estão todos na faixa de 20 ou 30 reais.

Mostra que, se você estiver disposto a abrir mão do luxo nas louças, nos cristais, no ambiente e na decoração, pode comer muito bem e barato.

Resta que o exemplo seja seguido. Pelo próprio Così, inclusive, que poderia manter o padrão de seu breve antecessor.

Famiglia Melilli

Rua Barão de Tatuí, 302, Santa Cecília, SP

tel. (11) 3826 5088

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Famiglia Melilli

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