Reclamação de uma formiga

26/11/2008

Uma pergunta, só uma.

Mas ela indica que quem escreve este blog tem parentesco com formigas.

Lá vai ela: por que os doces e sorvetes de nossos bons restaurantes não estão à altura de seus pratos salgados?

As exceções são poucas. Há, claro, alguns doces inesquecíveis…

A tarte tatin do Chef Rouge, por exemplo.

O suflê de cupuaçu do Marcel.

O sorbet de maçã verde com gelatina de saquê do Jun.

E mais umas duas ou três que, se me esforçasse um pouco mais, conseguiria lembrar. Mas nunca um cardápio com cinco ou seis opções numa mesma casa.

Ok, meu parentesco é com formigas um pouco mais exigentes, e não muito brasileiras. Logo, sem muita paciência com o excesso de açúcar que grassa na terra tupiniquim – uma tradição (ou será maldição?) herdada de Portugal.

Será que é porque falta chef pâtissier mesmo em restaurantes que tinham obrigação de tê-lo?

Será que é porque somos muito condescendentes – a ponto de eleger o bem pensado, mas exagerado, nada delicado e tantas vezes mal apresentado Mil e uma noites, da Tenda do Nilo, como um dos melhores doces da cidade?

O curioso é que temos alguns ótimos chefs pâtissiers na cidade: Flavio Federico e Fabrice Le Nud, para ficar nos dois nomes mais óbvios.

Comprar os sorvetes de Le Nud sai tão mais caro do que usar os industrializados de supermercado, com seu inconfundível gosto artificial de espessante? Ou de fornecedores para restaurantes, que tantas vezes não conservam bem seus produtos ou os conservam excessivamente?

Por quê? É a pergunta de uma formiga inconformada por tantas vezes não conseguir encerrar uma refeição no mesmo padrão em que a iniciou.

Por quê? Por quê?

Anúncios

4 Respostas to “Reclamação de uma formiga”

  1. Fernanda Says:

    estava pensando em mudar algumas sobremesas no sal para o ano que vem e comentei com o henrique sobre a questão do açúcar nas nossas sobremesas e ficamos avaliando. A qu menos sai é a que tem menos açúcar e a que mais sai é excessivamente doce, que é o brigadeiro. Eu sou louca por doce e não consigo comer essa sobremesa. Antigamente o sorvete que acompanhava era de baunilha, quebrava um pouco o doce do brigadeiro aí alguns clientes começaram a pedir para trocar pelo sorvete de paçoca, ficou um doce mesmo ainda com praline de castanha e calda de chocolate….enfim, talvez o próprio brasileiro prefira os doces mais agressivamente doces, é muito grande a diferença do quanto sai o brigadeitro para as outras sobremesas.
    abs
    fernanda

  2. alhosepassas Says:

    Pois é, o gosto brasileiro é este mesmo. As receitas mais antigas que nos chegaram já indicam o apreço pelos doces muito doces no Brasil. Em geral, doces de origem conventual e seguindo o célebre padrão da doçaria portuguesa. Além de ter muito açúcar, eles eram – e são – bastante untuosos.

    Portanto, não há como abandonar esses doces excessivos dos cardápios… Vem de longe a tradição de pesar a mão no açúcar.

    Comi apenas uma vez o brigadeiro de vocês, já na fase sorvete de paçoca. Achei bem pensado e preparado, mas não consegui chegar ao fim, devido à doçura excessiva. Do seu atual cardápio de sobremesa, meu preferido é o crocante de banana.

    Abraços!

  3. Julinho Says:

    Servir uma boa sobremesa é ter respeito pelo freguês, e além do mais, corrige algo que não veio tão bom durante o jantar. A mesma coisa com o café. A última impressão é a que fica!
    Para citar apenas um exemplo ruim: Nessa semana estive no bistrô do Claudinho Troisgros (o filho) e após um jantar caro e meia boca, me serviram um creme brulée com essência de baunilha cepera. É o cúmulo da picaretagem!
    Sou da opinião que qualquer restaurante que cobre mais de 15 reais por uma sobremesa tem que ter chefe confeiteiro, ou muita intimidade com o assunto!

  4. Alhos, Passas & Maçãs Says:

    Julinho,
    obrigado por seu comentário.
    Já freqüentei muito seu restaurante, numa época em que trabalhava aí perto. Hoje em dia, vou ocasionalmente.
    E leio seu blog. Concordo com muita coisa e discordo de outras – do tom de alguns posts, por exemplo. Mas concordâncias e discordâncias fazem parte do jogo. Felizmente.
    Nesse caso, concordo inteiramente. Um especialista na praça de doces ou um chef que entenda muito do assunto é essencial!
    O preço das sobremesas normalmente está nos dois dígitos. Há alguns casos inacreditáveis, como o da tarte tatin do Massimo. E o dos doces do Antiquarius.
    Abraços!


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: