Presente & passado

19/12/2008

Nossa relação com o passado é complexa. Dificilmente conseguimos escapar de algumas armadilhas.

A mais comum delas é a tentativa de ignorá-lo, tão comum em um mundo que acelera o tempo e tenta dissolver a memória.

Outra (e igualmente terrível)  é a idealização do passado como um tempo glorioso e ideal, repleto de purezas perdidas com as mudanças e intervenções humanas.

Espécie de rousseauísmo banalizado, que os anos 60 cultivaram com ardor e que, de vez em quando, ainda dá o ar da graça. Principalmente em restaurantes naturais.

Por isso sempre entro neles ressabiado. Me controlo para não falar de minha paixão por entranhas, nem mencionar qualquer apreço por carnes de caça. Também jamais ouso lembrar que o plantio da soja faz mais mal para o planeta do que a ingestão do fígado gordo de pato.

Foi com todos esses cuidados que entrei no Le Manjue Bistrô, comandado pelo chef Renato Caleffi. No caso, o nome da casa, vindo do francês arcaico, já mostrava o risco do rousseauísmo.

Mas não é assim, não. O couvert é muito gostoso, com sotaque oriental no nan (normal e grissini), no relish de cebola, no pepino com iogurte apimentado.

A caponata de banana verde, embora bem pensada, ofende minha idolatria pela Sicília. Mesmo assim, boa. O patê de berinjela e o pesto de manjericão também animaram.

Dentre os pratos principais (sempre acompanhados de uma saladinha), o filé de tilápia veio com molho de fruta vermelha e cuscus marroquino de quinua. Bem feitos, embora o molho fosse forte demais para o sabor delicado do peixe. De qualquer forma, é opção melhor do que a do início do restaurante, quando era o pesto de manjericão que cobria a tilápia.

O camarão com leite de coco e quinua com pupunha era bom, embora um tanto pesado.

Mas o melhor prato foi o jambalaia – espécie de risoto, um pouco mais mole – de cogumelos selvagens e crocante de queijo. Saboroso, intenso, variando texturas.

O vinho da casa, tomado em taça, é sem graça. Cabernet sauvignon de origem italiana e, claro, orgânico, mas inexpressivo.

A casa, bem arrumada, charmosa e agradável combina bem com a comida de Caleffi. E o cardápio, tolerante, até tem carne vermelha – para que eu despache de vez meu temor com os naturais.

Também tem quinua em profusão, o que é inevitável nos restaurantes paulistanos de hoje. Aliás, quem foi que determinou que todo mundo tem que usar quinua? Que coisa.

Le Manjue, apesar do nome, revê o passado, e não apenas o cultua. Faz – como é de moda dizer, em mais um termo da crítica literária que migrou para a gastronomia – uma releitura da cozinha natural.

Só não precisava de outra releitura: a de uma cantora que repassava, com voz enjoada e num volume acima do aceitável, canções da bossa nova durante todo o jantar. Mas isso é fácil de consertar: basta trocar o disco.

Le Manjue Bistrô. Restaurante orgânico e funcional

Rua Inácio Pereira da Rocha, 273, Vila Madalena, SP

tel. 11 3034 0631

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Le Manjue Bistrô

3 Respostas to “Presente & passado”

  1. Ricardo Reno Says:

    Boa tarde,

    Você não acha que há restaurantes demais fazendo a mesma comida, e teimando nos mesmos ingredientes? Numa padronização, muito próxima com a dos vinhos? Tenho lido vários blogs de crítica gastronomica, e muitas vezes fico com a impressão de que o texto é muito melhor do que o prato. A dificuldade maior hoje, deve ser garimpar o diferente.

    Sds

    Ricardo

  2. alhos & passas Says:

    Ricardo,
    tudo bem?
    Obrigado pelo comentário.
    Você tem razão.
    Este, aliás, é um dos problemas derivados – creio – da proliferação de restaurantes, tantas vezes sedentos de copiar um modelo que supõem bem sucedido. São restaurantes muito parecidos no visual e na comida. São bonitos na aparência, com um jeito moderno, exploram os ingredientes da moda (e aí entra a quinua…), mas não conseguem definir seu perfil, nem sua peculiaridade. Inúmeras vezes, as receitas e os procedimentos também são reproduzidos de outros.
    E passamos a encontrar comidas parecidas, ocasionalmente bem feitas, mas imitativas…
    Bons são os restaurantes que conseguem dar um salto e sair da mesmice. Raros.
    Mas sou otimista. Acredito que os meros imitadores e banalizadores acharão seu caminho ou fecharão – isso é meio inevitável. E, aos poucos, do modismo passaremos para um cenário mais consistente.
    Tomara.
    Abraços!

  3. Ricardo Reno Says:

    Caro Comilão,

    Você conhece o Quinta da Canta? Fica na serra da Cantareira.

    Abraço


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