De volta ao Sal

15/02/2009

Fazia tempo que não íamos ao Sal – que minha filha define como seu restaurante favorito.

Logo na chegada, ela soube que não havia os chips de alho-porró do couvert, mas absorveu bem o golpe.

Começamos com uma ótima entrada de pupunha grelhado. Tenro, adocicado, saboroso.

Uma longa espera – mais de 50 minutos – para os pratos principais: a fritadeira quebrou, desculpou-se o garçom. Enquanto isso, vinho e couvert reposto.

Quando os pratos chegaram, o chef veio à mesa repetir as desculpas pela demora. Ok, problemas acontecem. Mas a prova dos nove, claro, era a comida.

Minha mulher e minha filha comeram o salmão com crosta de pistache, calda de cardamomo, acompanhado de risoto de grãos e aspargos frescos. Ótimo, o risoto. Mas o peixe estava um pouco seco. E o cardamomo, inexpressivo.

A curiosidade é que já havíamos comido esse prato antes e o problema fora o oposto: excesso de cardamomo, encobrindo o sabor do salmão. Mudou, talvez demais.

Meu cunhado pediu o atum em crosta de gergelim, com molho teryiaki, arroz negro, pupunha e tomate. É um clássico do Sal, sempre impecável. Felizmente, continua assim.

Para quebrar o tom marítimo da mesa, meu sobrinho foi de cupim na manteiga de garrafa, com mandioca e farofa de banana. Macio e saboroso.

Eu estava curioso por meu prato.

Mas talvez estivesse ainda mais ansioso para provar o que minha irmã pediu: o filhote.

Já o tinha provado em novembro passado e achei que precisava de ajustes. Recebeu. A carne do peixe continua fabulosa e servida no ponto.

O purê de banana da terra, que na outra visita veio pesado e excessivamente cremoso e untuoso, agora estava mais leve, delicado, e com muito mais gosto de banana. O coentro, excessivo em novembro, veio na dose certa, sem impor sua força ao peixe. E os mini-legumes, ótimos.

Ou seja, o filhote mudou na dose certa e para bem melhor. Ufa!

E meu prato? Bem, nunca o tinha provado. E saí de lá com a impressão de que foi a melhor coisa que comi até hoje no Sal, em inúmeras visitas: tentáculo de polvo com batata salteada e brócolis no alho. Macio, forte, gostoso. Muito gostoso. Tremendamente gostoso. Falar mais o quê?

Poderíamos ter dispensado as sobremesas, de tanto vinho (três garrafas, com praticamente apenas três bebedores) e tanta boa comida.

Mas fomos em frente. Não havia a melhor delas: o charuto crocante de banana. Pedimos o carpaccio de abacaxi e o garçom avisou que ele também não poderia ser preparado: problemas com o próprio abacaxi, muito azedo.

Veio então o bom, mas exageradamente (e bota exageradamente nisso) doce, brigadeiro com castanha do Pará e sorvete de paçoca.

Para horror de minha mulher, que detesta sagu, pedi as ovas de sagu com leite de coco, frutas e calda de maracujá. E gostei: fresco, não muito doce, delicado. Sem contar que sagu me lembra a comida de minha avó.

Desde nossa primeira visita ao Sal, passou muito tempo. E muita coisa mudou por lá. O lugar foi reformado e ampliado, o chef ganhou prêmios, o restaurante agora fica lotado.

A principal mudança, porém, é mais lenta e mais importante: a cozinha mostra cada vez mais solidez, os pratos passam por pequenos ajustes e melhoram.

Maturidade talvez seja a palavra-chave. Algo pouco comum nos restaurantes paulistanos, que duram pouco ou perdem o eixo ou sobem descontroladamente seus preços.

Por isso, e cada vez mais, minha filha tem razão ao elegê-lo seu restaurante favorito.

Sal Gastronomia

Rua Minas Gerais, 350, Higienópolis, SP

tel. 11 3151 3085

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Sal

6 Respostas to “De volta ao Sal”

  1. Ricardo Reno Says:

    Olá Comilão, tudo bem?

    Fui ao Sal a semana passada e comi o filhote e o sagu de sobremesa, os dois estavam muito bons mesmo. O lugar é simpático só que clean demais. Parece-me que as vezes gasta-se uma fortuna com decoração mas o aconchego, o calor, a alma ficam em segundo plano. Sinto isto também no D.O.M., assim como foi um choque quando o Le Coq Hardy saiu da Adolfo Pinheiro e foi para perto do Iguatemi. Pareceu-me que a identidade, ou alma, do restaurante ficou em Santo Amaro. A primeira vez que comi um suflê, foi no Marcel, perto do Hilton, inesquecível.Também não consigo imaginar o La Casserole em outro endereço.Sei não, ou sou saudosista demais, ou preciso rever meus conceitos.

    Abraços

  2. alhos & passas Says:

    Ricardo,
    tudo bem?

    Concordo com você quanto à necessidade de um ambiente acolhedor. Imaginar o Casserole em outro lugar é mesmo impossível.

    No Sal, especificamente, me sinto bem. Gosto do jeito como o espaço foi organizado, da proximidade com a galeria. Acho que há acolhimento no jeito clean de lá.

    O que me incomoda muito em restaurantes é barulho (música alta, por exemplo) e excesso de obscuridade. E há muitos que são assim.

    Abraços!

  3. Fernanda Says:

    Olá,td bem?
    Acho que descobri quem é meu assíduo cliente comilão. Pelos pratos e pelo dia que quebrou a fritadeira….
    Legal saber que vc conhecia o sal desde o começo, é uma história bonita e muito divertida. Bem surreal. Aquele espaço, o serviço…afe.
    Sabe que as críticas são muito positivas. E as suas têm sido muito legais, bem próximas de como o Henrique pensa. (Aliás concordo com vários comentários seus de outros restaurantes)Quando vc falou do filhote ele já estava incomodado com o purê, com o peixe, já queria tirar do cardápio. Mas ele insistiu, absorveu seus comentários e parece que melhorou. Muito bom saber.Acho que esse é um amadurecimento dele. Trocar, saber o que tá exagerado, o que é da personalidade dele, o que pode ser melhorado.
    Claro que tem críticas que o Henrique não concorda e não muda (as minhas por exemplo)…Agora ao salmão!
    Ah, e as batatinhas do polvo, vc gostou? Vinha reparando que estavam sobrando muitas no prato e não sabia se era pq eles colocam muito (o Herique é farto) ou se não era lá essas coisas…
    abs
    Fernanda

  4. alhos & passas Says:

    Fernanda,
    esse é o problema de escrever logo o comentário. Houve uma época em que eu esperava semanas antes de escrever; agora, apressei. Da próxima vez coloco uma peruca cacheada, como fez a Ruth Reichl ao visitar o Daniel.

    Mas bom que as críticas ajudem e que façam sentido. E ainda bem que não tiraram o filhote do cardápio. Ufa!

    Gostei das batatinhas do polvo e não deixei sobrar, não. Só lamentei que não viessem mais cinco tentáculos, para comer o polvo completo…

    Abraços!

  5. Ricardo Reno Says:

    Comilão,

    Se o que te incomoda é musica alta e excesso de obscuridade melhor não ir ao Arturito da Paola Carosella. Algumas pessoas reclamaram, através de blogs, e ela disse que ia mudar, não fui conferir ainda. Em tempo, a comida continua boa, mas o Julia deixou saudades.

    Abraços

    PS: Você está ficando famoso hem?? Quanto a peruca não vai adiantar, é só observar o que a menina de 9 anos está comendo.

  6. alhos & passas Says:

    Pois é, Ricardo, ainda não fui conhecer o Arturito exatamente por isso. Acompanhei a polêmica no blog do Julio Bernardo e no Bicho. Inclusive a resposta dela ao pessoal do Bicho. Mas uma hora vou lá.

    Vou ter que colocar peruca na minha filha, também. E salto alto, para ultrapassar o 1,30 que ela tem.
    Abraços!


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