Tiros na Nona Avenida

20/02/2009

 

Tem restaurante que vale pela sensação que provoca, e não pela comida.

Foi assim com a Trattoria Casa di Isacco.

Voltávamos de um passeio cinco cocares: completo e absoluto programa de índio.

Exaustos e com fome, caminhando pelo frio e pela Nona Avenida, olhávamos aqui e ali, em busca de um lugar para comer.

O vento começou a bater mais forte e não resistimos: entramos no primeiro lugar que pareceu razoável. Era a tal Casa di Isacco, em plena Hell’s Kitchen – lugar que já foi barra pesada e que manteve o nome, mas hoje é tranqüilo.

O nome da trattoria nos fazia pensar em comida italiana e judaica. Nem tanto. Prevalecia a entonação espanhola – sabe lá Deus por quê. Sangria e jamón por todo lado. Jamón, não prosciutto.

Mas o melhor era o ambiente – esse, sim, bem italiano. Italiano de filme americano. Parecia o restaurante em que Michael Corleone matou os que tramaram o atentado contra Don Vito.

Ou um pouco mais lúgubre. Tudo bem escuro. O garçom, simpático, mas com uma cara meio suspeita. O salão, absolutamente vazio.

Certo, eram cinco e pouco da tarde e recém começara o serviço noturno. Mas que dava a impressão de que, de repente, começaria um tiroteio, dava.

Na dúvida, fui ao banheiro para ver se não tinha uma arma escondida atrás da caixa de descarga.

Voltei à mesa, enquanto aguardávamos os pedidos: massas (afinal, estávamos numa trattoria), uma recheada de lagosta, outra de ricota.

E eis que a porta da frente se abriu. Por um instante paramos e o tempo pareceu se interromper.  Entrou um casal. Ele, com um jeito para lá de suspeito. Ela, não: seu estilo era facilmente identificável, e talvez até a profissão.

Íntimos da casa, sentaram-se ao fundo. Depois descobriríamos que ele era o dono do lugar, e gentil. E aprenderíamos que não se deve julgar alguém pela aparência.

De qualquer forma, almoçamos com a expectativa do tiroteio iminente ou da irrupção da polícia.

A comida não era boa, mas não era ruim. A sangria da casa – bem feito: quem mandou pedir um negócio desses? – era horrorosa. Mas pelo menos foi o mais próximo de sangue que encontramos por lá.

Pagamos a conta – cara para a comida: os indefectíveis 140 dólares de quase sempre, coma bem ou coma mal. Mas ninguém ali ia questionar nada.

Na saída, ajeitei o sobretudo. O chapéu ficou assim meio inclinado. E seguimos para o hotel sem olhar para os lados.

8 Respostas to “Tiros na Nona Avenida”

  1. Julinho Says:

    Belo texto. Parabéns pela escrita fluente.
    Abraço.

  2. alhos & passas Says:

    Obrigado, Julinho.
    Abraços!

  3. Ricardo Oliveira Says:

    Concordo com o Julinho, belo texto.Lembrou um filme que assisti, “Um banquete para a máfia”.

    Abraço

  4. Ricardo Reno Says:

    Olá Comilão, tudo bem?

    Um texto saboroso, parabéns.

    Abraço

    PS: Não tinha suco cranberry neste lugar?

  5. alhos & passas Says:

    Ricardo,
    tudo bem?
    Obrigado.
    Não vi esse filme. Vou procurá-lo.
    Abraços!

  6. alhos & passas Says:

    Ricardo,
    tudo bem?
    Obrigado, também!
    Tinha suco de cranberry, sim. E minha filha o tomou. Minha mulher e eu é que sofremos com a sangria.
    Abraços!

  7. Ricardo Reno Says:

    Filme?

  8. alhos & passas Says:

    Ricardo,
    foi o outro Ricardo (Oliveira) que falou de um filme.
    É que acho que deu um tilt aqui: saíram as respostas, mas não os comentários que as motivaram.
    Acho que agora deu certo.
    Abraços!


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