Que Brasil?

15/03/2009

Brasilidade é um conceito complicado. Não à toa, foi debatido por mais de cem anos, desde a independência e até a metade do XX.

Na verdade, identidade, seja qual for, é complicada. Porque ou ela é natural – e nesse caso não cabem discussões: temos que nos conformar – ou é uma construção, e daí não pode ser tomada como absoluta e irreversível.

Natural não é. Então, temos que assumir sua condição instável, variada, oscilante. Temos que saber que cada época, cada grupo social, cada localidade constrói o perfil identitário que lhe apraz. E que ninguém é dono ou senhor da brasilidade.

A produção cultural brasileira se esforçou titanicamente por caracterizar essa tal brasilidade até os anos 50. De lá para cá, salvo por meia dúzia de acadêmicos e uns políticos baldios, o tema saiu de moda. Para reaparecer trinta anos depois, em meio ao debate gastronômico.

E hoje, 2009, a discussão culinária continua quente. A comida brasileira passou a ter pais e mães, que combatem, às vezes raivosamente, outros interessados em assumir a origem e a paternidade do que é digerido em terra tupiniquim.

Só que não existe exame de DNA para identidade nacional – muito menos para comida nacional.

Ainda mais num país como o Brasil que, política e culturalmente, sempre preferiu sublimar as diferenças, ignorar que qualquer identidade era impossível e inventar caricaturas de si mesmo.

Tudo isso vem à cabeça em meio às polêmicas recentes sobre que restaurante é mais brasileiro. No termômetro da brasilidade, uns defendem o Mocotó; outros, o Lá em casa. Há, ainda, quem exclua o foie, por francês, e lembre que coisa nossa é a mandioca – se estivéssemos no Peru, nos restaria comer milho.

Pode também aparecer alguém para dizer que a verdadeira gastronomia era a indígena, e que daí em diante é pura afetação. Ou, ao contrário, afirmar que nada havia antes que Mara Salles ou Alex Atala pusessem a mão na massa (de tapioca, é claro).

Também é curioso ver certas tipologias da culinária nacional, produzidas por sociólogos e historiadores de plantão, que se esforçam em criar taxonomias da brasilidade na cozinha, diferenciando quem a pratica, numa escala que vai do naïf ao modernista, do regional ao assimilador, do colonial ao contemporâneo.

Ou acompanhar a glorificação da espontaneidade e da precariedade por aqueles que empunham armas contra quem pesquisa e inova. Ou observar a celebração de ídolos – idolatria: outra velha marca dessas terras – sob a forma de carne grelhada, torresmo ou feijão.

Para que tudo isso, meu Deus?, pergunta meu paladar.

Porém meus olhos, cansados de um debate inócuo, da beligerância das abstrações intelectuais e das vaidades pessoais, não perguntam nada.

Os olhos se limitam, vez ou outra, a lembrar que se algum signo consegue contemplar, e precariamente, os dois séculos de Brasil independente é o da diversidade e – melhor ainda – o da tolerância. Mas também eles não são plenos ou definitivos.

Lembrar que podemos nos perder em meio aos labirintos de um romantismo ingênuo ou de um modernismo ultrapassado. Ou na ânsia do absoluto e do definitivo.

Lembrar que a arrogância nacionalista produziu mais monstros do que identidades. E que conceitos podem se impor a ingredientes, e derrotá-los.

Talvez por isso – e apoiados enfaticamente pelo paladar – meus olhos se recusem a julgar em termos sociológicos e datados o que a boca, logo ao sul, mastiga.

Por isso, eles podem considerar que um foie com uva e cachaça é “comida brasileira” – se o rótulo interessar a alguém.

E que pequi, brasileiro ou não, não tem graça.

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10 Respostas to “Que Brasil?”

  1. Ricardo Oliveira Says:

    Parabéns pelo texto.Antes de ficarem rotulando comida, aprendam a fazê-la!!!

    Abraço

  2. alhos Says:

    Obrigado, Ricardo.
    É isso mesmo.
    Abraços!

  3. Fernanda Says:

    adorei o texto, porém acho que isso não tem a ver com comida. Isso tá mais pra luta de classes do que qualquer outra coisa. Um pouco cansativo. Como todas as coisas absolutas.
    bjs

  4. alhos Says:

    Fernanda
    pois é… não sei se é questão de classe.
    Acho que alguns dos participantes da polêmica tentam transformá-la em.
    Mas que os furores nacionalistas cortam todas as classes.
    Sobretudo é cansativo, muito cansativo.
    Beijos!

  5. Joaquim Says:

    Creio que eu errei de caixinha de comentário ,sobre o assunto postei no debaixo.No entanto ,eu quero dizer que tenho horror a qualquer tipo de nacionalimo ,na cozinha então eu acho uma bobagem.A história sempre desmentiu as ideologias ,na culinária como em qualquer aspecto da vida a humanidade sempre procurou a integração ou alguém já esqueceu as aulas sobre os caminhos da Índia e a busca pelas especiaris?

  6. alhos Says:

    Pois é, Joaquim.
    E sobre a circulação no Mediterrâneo, sobre os alimentos originais da América, da África. E assim por diante…
    Abraços!

  7. Ricardo Reno Says:

    Comilão,

    Está faltando tempo de estrada, tradição, cultura erros e acertos. Ainda há um longo caminho a percorrer em busca de uma identidade. Só estamos no começo.

    Abraços

  8. alhos Says:

    Ricardo,
    é isso mesmo.
    E sempre lembrar que ninguém (indivíduo ou coletivo) é sempre igual. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades – já cantou/contou Camões.
    Mudamos porque assimilamos, transformamos, sintetizamos. E nos preocupamos em enxergar o outro, não exclui-lo.
    Abraços!

  9. Carol Says:

    adorei o texto. aposto que Drummond também teria aprovado.

  10. alhos Says:

    Obrigado, Carol.
    Mas não sei, não…
    O homem era muito, muitíssimo rigoroso!
    Abraços!


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