Na língua do P

01/05/2009

 

Paradoxo começa com p.

E um paradoxo de São Paulo é que, com tantos restaurantes italianos, seja tão difícil comer comida italiana. Claro que sempre tem o Fasano. E o Vecchio Torino. Tinha o Massimo, que não sei como anda depois da saída do próprio.

Mas esses são caros demais.

E as cantinas, com uma ou outra exceção, são horríveis.

Há ainda os que são bons, mas carecem de renovação, como o Tatini.

Talvez por isso um restaurante como o Due Cuocchi faça tanto sucesso. Ser correto, no precário panorama da comida italiana de São Paulo, já é suficiente para ficar lotado continuamente.

Bem perto do Due Cuocchi, porém, fica um restaurante que raramente vejo na mídia, mas que é meu italiano preferido.

E começa com p: Picchi.

Foi com ele, inclusive, que abri esse blog. Mas fazia tempo que não ia.

Pier Paolo Picchi (p, p, p), o chef, tem boa trajetória, que inclui o Emiliano e algumas casas européias de alto nível.

Foi nosso eleito para abrir uma semana doméstica de comemorações.

Ao chegarmos, um pouco depois das 8, estava vazio. Nos preocupamos. Desnecessariamente. Duas horas depois, quando acabávamos o jantar, o salão bonito e elegante, com um mezanino charmoso, estava quase lotado. Nós é que temos mania de comer cedo. Ou os demais paulistanos comem tarde demais.

Tudo começou com um generoso couvert. Excelente sardella, molho de tomate cru (muito bom), pão saboroso, alhinhos cremosos e um bolinho salgado com manjericão, que é uma perdição. Vem, ainda, um caldo de cenoura com gengibre (o gengibre intenso, mas não picante, e cenoura encoberta). É dos poucos couverts que valem a pena e o que custam (12,50).

Após o couvert, há sempre uma cortesia do chef. Houve época em que era uma inesquecível bresaola de atum. Ontem, para delírio de minha filha, foi uma polenta (com p) precisa com ragu de carne bovina. Forte, mas sem exagero. Ótima.

O garçom sugeriu uma entrada e resolvemos topar: carpaccio de peixe-espada (e peixe começa por p) levemente puxado no limão, com lulinhas bem macias, uma rodela de tentáculo de polvo e camarão. Muito bom. E com ingredientes que justificavam o preço, meio alto (35).

Já poderíamos ir embora, satisfeitos, mas ainda faltavam os pratos principais.

Minha mulher pediu uma perdiz (claro: com p) que vinha num molho estilo madeira, acompanhada de bruscheta de espinafre com queijo de cabra. Regular. A bruscheta era gostosa, mas pesada. O molho, forte demais. E a carne da perdiz mais rija do que devia.

Enquanto isso, eu comia o prato com que sonhei no caminho de ida: lombo de leitão numa cama de couve com feijão branco. A couve tem um toque adocicado. O feijão, forte, deve ser preparado ma gordura de porco, pois mantém o sabor do bicho. Delicioso. E o lombo. Ah, o lombo. É, de longe, o melhor porco (qual é a inicial de porco?) servido em São Paulo. Sabor, textura, crocância, intensidade… Tudo.

Não aguentávamos comer mais nada, mas ainda pedimos sobremesa. Minha filha tomou um sorvete de creme, sem grande atrativo. Minha mulher e eu dividimos a pêra (porque pêra é com p!) cozida no vinho, com açafrão e mascarpone. Muito, muito boa.

Saímos de lá de alma lavada: é possível comer comida italiana muito boa em São Paulo, por um preço total de 230 reais (só com água) – que não é barato, mas é honesto.

E a casa começa por p, como suas pastas, que comeremos na próxima visita e que são das melhores da cidade.

Picchi

Rua Jerônimo da Veiga, 36, Itaim,  SP

Tel.  11  3078 9119

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Picchi

7 Respostas to “Na língua do P”

  1. Ricardo Reno Says:

    Olá Comilão, tudo bem?

    Concordo, até com os restaurantes citados. Você recomendou o Picchi em outro post para uma leitora. Procurei na internet e fiquei curioso, depois deste post mais curioso ainda.

    Uma dica para para sua filha, que gosta de sorvete de creme. Duas bolas de um bom sorvete de creme um pouco de azeite extra virgem e uma pitada de flor de sal. A receita é do chef Jamie Oliver. Tenho certeza de que ela vai surpreender-se.

    Abraços

  2. Joaquim Says:

    Alhos ,eu acho que restaurante italiano em S.Paulo é um caso sério ,a maioria são fraudes anunciadas,fico perplexo com guias que os enchem de estrelas.Gosto muito do Gero e do Fasano ,mas é como vc. diz não é para todo dia ,são caros.Surpreendetemente ou não, o Gero do Rio é muito melhor do que o de S.Paulo e melhor do que o Fasano do Rio que é mediocre.Alexandra Forbes gostou muito do Tappo aí em S.Paulo,eu ainda não conheço ,mas confio no gosto da minha musa gourmet.Gosto do Duo ,mas ele é apenas correto.Os do Sérgio Arno são cozinhas de penitenciária,terríveis.Acho o quadro triste.Por outro lado ,no Rio ,não há uma febre de restaurantes italianos ,mas tirando alguns micos dourados ,destacam-se o Gero e o Domenico

  3. alhos Says:

    Ricardo,
    tudo bem?
    Foi exatamente depois de ter citado o Picchi, num comentário, que me dei conta de há quanto tempo não ia lá. Ou será que o citei porque já andava com vontade de ir? O fato é que a citação foi decisiva para eu ir logo. Vá, sim. Depois, me diga o que achou.
    E obrigado pela sugestão. Vou testar. Não só com a Lia; também comigo, que em geral acho sorvete de creme bobo.
    Abraços!

    Joaquim,
    tudo bem?
    A Tappo é muito boa. Acho que demorou algum tempo para se firmar, após a abertura. Hoje, Benny Novak faz comida italiana com toques não-italianos de ótima qualidade.
    Abraços!

  4. Maria Isabel Says:

    Alhos,
    Que texto espirituoso e bem escrito, como sempre!
    Bem, e, acima de tudo, o chef é uma pessoa muito gentil, talentosa e agradável. Vida longa ao Picchi (pessoa e resturante).

    Abraços.

  5. alhos Says:

    Maria Isabel,
    obrigado.
    É verdade: Picchi é sempre atencioso com os clientes.
    Abraços!

  6. Ricardo Reno Says:

    Olá Comilão, tudo bem?

    Fui hoje,domingo, ao Picchi matar a minha curiosidade. Não foi possível pois estava fechado!!! De curioso fiquei intrigado. Por que alguns restaurantes fecham domingo?!? Cada um gere o seu negócio como bem entende, mas existem coisas em determinados ramos que não são simpáticas.

    Abraço

  7. alhos Says:

    Ricardo,
    puxa, que azar. Lamento.
    O Picchi não abre, de fato, aos domingos.
    É difícil saber o que move as escolhas de horário dos restaurantes.
    Tomara que, na próxima, tenha mais sorte.
    Abraços!


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