Difícil é comparar

20/05/2009

Difícil é comparar

Por coincidência, comi recentemente em duas das chamadas cantinas paulistanas.

Numa delas não entrava há anos – uns dez.

Na última vez que fora lá, encontramos uma grande quantidade de cabelos no prato de minha mulher. Avisamos o garçom.

Ele olhou com ar de perito, analisou e, categórico, constatou: “É loiro. Na cozinha, são todos morenos.” Deu as costas e foi embora, deixando o mistério no ar.

Minha mulher e eu ficamos furiosos. Pagamos a conta (integral) e, na saída, paramos para conversar com o dono do restaurante, figura famosa. Relatamos o episódio e ouvimos explicação ainda mais contundente: “Isso é normal. Pode acontecer em todo lugar. Quem não quer que isso aconteça, vai ao Fasano.”

Não queríamos que acontecesse; então, não voltamos mais lá. Mas tínhamos absoluta certeza de que muitas casas (além do Fasano) serviam pratos calvos.

Pois é. Até que, três ou quatro semanas atrás, um amigo me convidou para jantar lá e era irrecusável (pelo amigo). Fui, recebi uma massa no ponto e não encontrei nada no prato – fora o que devia estar lá. Menos mal.

A outra cantina que visitei recentemente é bem melhor. Uma das melhores de São Paulo. Tem massa própria, algumas boas idéias no cardápio, um ambiente sem camisa no teto e maus cantores esgoelando, num italiano precário, ao lado da mesa.

Fui lá no Dia das Mães com minha mãe, irmã, cunhado e sobrinhos. Almoçamos massas corretas.

Nos dois casos, contas baixas, se comparadas às dos restaurantes que normalmente freqüentamos: uns setenta reais por pessoa (só água).

Mas se o preço conta, outras coisas também contam. A qualidade dos ingredientes. O sabor – ah, o sabor, que não pode ser banal. O serviço, minimamente atento. A execução, que não demonstre sua pressa e ocasional desleixo na textura da comida. A aparência, que não traga indícios de visita ao microondas para compensar algum problema na sincronização. A sobremesa, que seja diferente do pavoroso pavê de chocolate que comi numa delas. O café, expresso e não aguado. A carta de vinhos, que tenha… vinhos.

Tudo aquilo que diferencia um bom restaurante de um restaurante dispensável.

Ao sair de lá, pensei que havia visitado, nos dias imediatamente anteriores, o Picchi, o Maní e o Marcel.

Como não comparar?

Sim, sei que a proposta é outra, que são universos culinários distintos.

Mas a inevitável comparação torna cada vez mais difícil ir a casas que, por cinqüenta reais a menos, não oferecem boa comida.

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14 Respostas to “Difícil é comparar”

  1. Ricardo Reno Says:

    Comilão, tudo bem?

    O que você não faz pelos amigos, não é? Só uma dúvida, é o mesmo do jantar de Páscoa?

    Abraços

  2. alhos Says:

    Ricardo,
    tudo bem?
    Não, não. Deus me livre.
    A esse eu não ia há dez anos.
    Os dois ficam em Pinheiros – tanto o da gastronomia capilar quanto a boa, ma non troppo.
    Abraços!

  3. Daniela Says:

    Comilão, que situação! Ouvir do dono que é normal encontrar cabelo no prato é dose.
    Giggio ou Nellos?
    Abraços,
    Daniela.

  4. alhos Says:

    Nossa, Daniela, faz tanto tempo.
    Na época ficamos enfurecidos; hoje, rimos do inusitado da coisa.
    O dono (soube disso quando finalmente voltei lá, há duas ou três semanas) já se aposentou e a casa segue.
    Abraços!

  5. paolanp27 Says:

    Ia perguntar a mesma coisa… Giggio ou Nellos….. eheheheheheh

  6. alhos Says:

    Pois é, Paola.
    Deixo para a imaginação dos leitores…
    Abraços!

  7. Ricardo Reno Says:

    Olá Comilão, tudo bem?

    Finalmente fui ao Picchi ontem. Muito bom mesmo, couvert uma taça de proseco outra de vinho. Entrada, polenta com gorgonzola.Pratos principais um lombo com feijão branco, maravilhoso e cupim com polenta. Saborosíssimo e olha que não sou fã de cupim. Uma sobremesa café mais um porto de cortesia, muito simpático. R$ 238,00, valeu cada centavo. Obrigado pela dica, não sei se você leu na coluna do Luis Américo sobre Pillico e Bia. Almocei um domingo lá, vale a pena também.

    Abraços

  8. alhos Says:

    Ricardo,
    tudo bem?
    Li sobre o Pilico e a Bia na coluna do Luiz Américo, sim. Preciso ir lá.
    Bacana que gostou do Picchi. Não tem italiano melhor por aqui – tenho cada vez mais certeza.
    Esse lombo de leitão é coisa seriíssima. E, claro, a gentileza e a simpatia de todo o atendimento.
    Da próxima vez, prove as massas.
    Abraços!

  9. Julinho Says:

    Saindo do tópico,
    Desde que comecei a acompanhar seu blog,
    o design anterior é o meu preferido.
    Você prefere esse?
    Mas não quero ser um puta chato, por favor!
    Abraço e continue escrevendo, independente do lay out, que é só um detalhe.
    O que interessa é o contéudo e isso você tem!

  10. alhos Says:

    Julinho,
    obrigado pelo comentário e pela sugestão.
    Ando testando o visual.
    Usei o anterior (cor de vinho e creme) por um bom tempo, antes de trocá-lo por aquele que deve ter sido o primeiro que conheceu (no túnel) – e de que não gostei muito.
    Voltei para o cor de vinho.
    Agora resolvi deixar um pouco com esse jeito mais moderno e limpo (ou clean, em bom português).
    Vejamos no que dá.
    Abraços!

  11. Fritz Brenner Says:

    Qual o nome das cantinas?
    Abs,

  12. alhos Says:

    Pois é, Fritz.

    Prefiro não dizer o nome da primeira porque o episódio do cabelo é antigo. Não tem relação com o que a casa faz hoje. Quando voltei lá recentemente soube, inclusive, que o dono já está aposentado. Passou.

    Mas ok quanto à segunda casa. É o Divina Itália, que já elogiei aqui no blog e que continuo a achar que é das melhores cantinas de SP. Talvez não no dia das mães.

    Abraços!

  13. Zeca Says:

    Não dá mais para ir em cantinas em São Paulo, as massas são horrorosas, sempre cozidas acima do ponto, molengas, o molho brando é só farinha e pouca manteiga, o sugo em geral ácido ou até azedo. A conta muito próxima dos restaurantes normais. Junmte um pouco mais de grana, tenha paciência e vá ao Due Cochi. Se é uma casa de comida italiana e insiste em te servir massa de pacote, esqueça, é para nunca mais voltar.

  14. alhos Says:

    Zeca
    Pois é, na maioria dos casos, sim.
    Há algumas poucas que ainda servem algo razoável ou bom.
    E você tem razão quanto ao preço: cada vez mais alto.
    Abraços!


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