Por que ir a restaurante? (parte I)

03/06/2009

Por que é bom ir a um restaurante?

A pergunta, claro, pode ter mil respostas e nenhuma delas é perfeita.

Vai-se a restaurante por motivos diversos: matar a fome, mudar de ares e temperos, esconder-se, ver e ser visto, divertir-se, ostentar, espairecer, experimentar.

A lista poderia prosseguir até a eternidade e incluir verbos que indicassem gestos e ações que, individualmente, podem nos espelhar ou indignar, mas que, no fundo, são lícitos.

Confesso que vou a restaurantes por quase todos esses motivos. Não gosto de ver e ser visto (porque sou tímido), nem ostentar (porque não tenho o quê). Fora isso, assinalo todas as alternativas acima.

Nem sempre, porém, dá certo. Mas quando dá certo, dá de verdade.

Pensei nisso duas ou três vezes em maio, mês de aniversário, que, também por isso, faz a gente sair mais de casa e olhar mais para dentro.

Mas acho que só me dei conta mesmo quando li um comentário do Luiz Horta, no Twitter. Ele dizia que, numa noite e num restaurante, recuperara seu gosto de comer fora.

Dias antes eu havia ido exatamente a esse restaurante; dias depois, voltaria lá. Marcel – de que já falei nesse blog algumas vezes.

Fui lá para uma primeira comemoração de aniversário, no início de maio. Nesse dia, comemos à la carte – na verdade, já fazia uns meses que sabia o que queria comer no aniversário.

Abri com dois belos pedaços de um foie fabuloso (não tem melhor em SP – também já disse isso), com uva na cachaça e broto de beterraba (do jardim do restaurante). A noite já teria valido a pena só com ele.

O único pensamento triste que passou pela cabeça foi a piedade das pobres almas que recusam foie e fazem campanha contra ele, convictas de que bom mesmo para o planeta são a soja e a criação hormonal de frangos e salmões sem gosto.

Por falar em salmão, minha filha devastou, de entrada, um carpaccio desse mesmo animal (com sabor), defumado. Também ótimo.

Dos principais, minha mulher preferiu o cherne em cama de rosti de pupunha grelhado com aspargos (frescos) e azeite. Que dizer? O aspargo tinha maciez incrível e o sabor do cherne – taí um peixe incrível – era exuberante.

Meu confit de pato com melaço e alecrim acompanhado de bolinhos de batata conseguiria um bom posto entre os top-five patos de SP (um dia ainda faço o ranking do pato paulista; é que ainda falta um ou dois para provar…). Para meu gosto, o alecrim excedia um pouco, mas nada que atrapalhasse o prato (e o pato).

Pedimos suflê de cupuaçu de sobremesa, mas Raphael Despirite, o chef, mandou antes um suflê de açaí para provarmos. Muito bom – mesmo para quem não coloca açaí entre os cem sabores mais agradáveis do mundo. Os de cupuaçu dispensam comentários: são conhecidos e sempre maravilhosos.

Para acompanhar tudo isso, minha filha ficou na água e minha mulher e eu dividimos o Montravel que havíamos levado (Cuvée 100 pour cent 04, do Château Moulin Caresse). O restaurante não cobra rolha.

A conta final de R$ 280 reais foi para lá de boa, embora não seja real: aproveitei a promoção para aniversariantes (50% de desconto nos pratos principais) e aumentei o valor do serviço (por conta do vinho levado).

Saí de lá com a certeza de que devia voltar logo – até porque acompanhei, com o rabo do olho, a degustação na mesa ao lado. De fato, voltamos no final do mês – mas isso é tema para o próximo comentário.

Saí de lá, sobretudo, com a sensação de que descobrira uma razão a mais para ir a restaurantes. Simples e tantas vezes esquecida: ficar feliz de um jeito diferente de como (e do quanto) sou feliz em casa. Por isso, Marcel.

Marcel

Rua da Consolação, 3555, Cerqueira César, SP

Tel. 11  3064 3089

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Marcel

13 Respostas to “Por que ir a restaurante? (parte I)”

  1. Carlos Says:

    Totalmente de acordo.Parabéns pelo post, muito bom. E parabéns (sempre!) ao Raphael e sua arte.

  2. Julinho Says:

    Comilão,
    Além da comida do Raphael ser inteligente e gostosa, lembremos que ele atingiu uma certa regularidade, que falta a muito restaurante. Sempre é bom.
    Abraço!

  3. alhos Says:

    Carlos,
    e você viu in loco, ontem…
    Abraços!

    Julinho,
    sim. Conheci o trabalho do Raphael no começo do ano passado e uma das coisas que me disseram é que ele era muito bom, mas irregular. Bem, de lá para cá fui muitas vezes ao Marcel. Nunca, absolutamente nunca, fiz uma refeição que não fosse, pelo menos, muito boa. E a lista das inesquecíveis é grande.
    Abraços!


  4. […] No fim das contas, foi o Raphael Despirite, chef do Marcel, que fisgou o Bicho – especialmente por ter conseguido surpreender na adversidade. Claro que ainda contou com um empurrãozinho de outros blogs: o Alhos vive dizendo que é um dos seus restaurantes favoritos, e que a degustação (R$ 98) é o maior negócio… (a propósito, este post já tava quase pronto quando ele publicou mais um texto elogiando o lugar, vejam lá). […]

  5. alhos Says:

    Obrigado, Bicho!
    Abraços!

  6. Marcelo (MDV) Says:

    Não sei bem como chamá-lo, mas gostaria de registrar aqui minha alegria de ler um texto tão bem escrito, que usa, mas não abusa da ironia, é delicado, mas não tem receio de não agradar. Enfim, parabéns, já virei um habitué e fã. PS: cheguei aqui através do chef Julinho, outro que tb me encanta. E pensar que tudo começou quando digitei (errado) um nome de um livro de gastronomia (de que pouco entendo) que queria presentear ao meu cunhado, no meio de março passado!
    PS2. Moro na rua mencionado do Marcel, gozado, não sabia que ele estava tão perto, se for aonde estou pensando, fica num flat entre a Oscar e Estates, o que me provoca uma certa resistência. De qualquer forma, o preço está ainda além do meu poder aquisitivo atual, mas assim que isso mudar (espero que breve!), farei questão de ir lá, com minha mulher, a pé!!

  7. alhos Says:

    Marcelo,
    tudo bem?
    Obrigado por seu comentário.
    Isso mesmo: o Marcel fica no térreo de um hotel ou flat. Não atrai muito de fora e o interior é tradicional. A diferença em relação a inúmeros outros restaurantes de hotel é a comida.
    E é verdade: o preço cobrado é bom em relação a restaurantes equivalentes ou inferiores. Mas, de qualquer forma, é bastante alto para os padrões médios de assalariamento de um brasileiro (que não seja doido a ponto de gastar quase tudo que ganha comendo, como é meu caso).
    Sugiro que aguarde a oportunidade para conhecê-lo, talvez numa grande comemoração.
    Abraços e visite sempre blog!

  8. Ricardo Reno Says:

    Olá Comilão, tudo bem?

    Já comi este cherne, é indecente de bom. Dos suflês tirando o de açaí, que para meu gosto é doce demais, pode ser qualquer um do cardápio. Pela idade do Raphael e o que ele ainda vai inventar, assunto e boas lembranças não vão faltar.

    Fui ao Sal ontem, jantar excelente, mas o que chamou-me atenção foi a manteiga misturada com mel e limão. Idéia simplesmente fantástica.

    Abraços

  9. alhos Says:

    Ricardo,
    tudo bem?

    É verdade: Raphael ainda tem muita coisa pela frente. Nem dá para imaginar o que ainda pode vir da cozinha dele. O cherne, ah, o cherne. Coincidentemente ele falou do fornecedor do cherne no blog dele, ontem ou anteontem, (http://cozinhabio.blogspot.com) e de um problema sério: como comprar peixe sem ser enganado.

    Estou para voltar ao Sal. Desde abril não vou lá. Mas você tocou num assunto interessante e muitas vezes negligenciado: manteiga. Está na moda usar manteiga Aviação. Ok, é boa. É, inclusive, a manteiga que uso aqui em casa. Mas é de se esperar que um restaurante de nível médio para cima prepare a manteiga que serve. Ou crie algo a partir de uma base industrializada. Mesmo que a saída seja aparentemente simples. Mas suficiente para dar personalidade a ela e ao couvert.

    Abraços!

    ps. correção feita. Achei meio estranho, mas não falei nada porque podia ter mudado…

  10. MDV Says:

    Com certeza vou voltar sempre que possível – senão nos comentários (já que tenho pouco a acrescenta), ao menos visitando seus posts, abração M

  11. alhos Says:

    E comente sempre quiser, Marcelo.
    Abraços!

  12. Gourmet Blasé Says:

    Olá alhos! Adoro seu blog, muito bem escrito e com ótimas dicas, igual o dos bichos. Ambos me incentivaram a também blogar! Se puder dar uma passadinha para conhecer… gourmetblase.wordpress.com… ainda em soft opening… ahuahuahua… mas em breve, com revisão dos textos, categorias, tags e tudo que um blog tem direito.

    Ah, quanto ao Marcel, quero ir em breve conferir.

    Abraços do Gourmet Blasé!

  13. alhos Says:

    Gourmet,
    obrigado.
    Vou passar lá, sim.
    Queria saber lidar direito com essas tags e categorias e tudo mais. Sou meio analfabeto na área…
    E vá ao Marcel. É ousado, surpreendente, consistente e, principalmente, saboroso!
    Abraços!


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: