Piscidade

22/06/2009

 

Minha mulher e eu estamos na meia-idade.

A expressão é feia e cafona, mas otimista: sugere que ainda viveremos o mesmo tanto que já vivemos. Pas mal.

Para alguns, meia-idade é a idade do réptil: você começa a enrugar e sente mais frio, principalmente nos extremos – daí ser também a idade da meia.

Para outros, é a idade do lobo ou da loba, cuja voracidade por carne jovem e tenra se acentua, às vezes no limite do ridículo.

Nós preferimos evitar a reptilização ou a lupanização. Meia dúzia de valores e alguns cuidados físicos ajudam.

No entanto, cada vez mais nos damos conta de que estamos na idade do peixe, piscidade.

Não, não melhoramos em natação, nem passamos a soltar bolhas. E tomamos o cuidado de observar se andam brotando guelras e escamas pelo corpo.

Também na nossa filha, que está na primeira idade, embora acredite estar na segunda.

Porque cada vez mais comemos peixes e outros animais marinhos.

Nessa semana mesmo, fizemos seis refeições seguidas com esses animais.

A melhor delas foi a do domingo, dia em que completamos onze anos de casados (sim, casamos tarde para os padrões brasileiros) e, para comemorar, fomos comer… bichos do mar!

Num dos melhores, talvez o melhor restaurante de pescados de São Paulo. Com uma chef muito talentosa: Bella Masano.

Amadeus.

Ele não aparece tanto na mídia quanto deveria, nem é muito lembrado quando se fazem as listas do que temos de melhor por aqui. Vez ou outra ganha um prêmio – como o da Vejinha, no ano passado. Menos, porém, do que merecia.

Primeiro, o couvert gostoso, com pães, manteiga, creme de abóbora, beterraba, trouxinha de polvo e pastel de camarão.

Minha filha enlouqueceu com o pastel e pediu mais um ao garçom. Gentil, ele trouxe outros três; ela, sem titubear, deu cabo deles. Depois ainda enfrentou os dois saborosíssimos filés de truta com palmito pupunha grelhado e abobrinha em cubos e crisps.

Minha mulher e eu optamos pela “sinfonia de camarões”, uma degustação do crustáceo que quase provoca uma overdose das boas: camarão grande com fundo de alcachofra (puxada demais no limão, ficou com o sabor encoberto); o incomparável cuscus de camarão de lá (do qual andava com uma saudade brutal), com folhas verdes; sorvete de tangerina como tira-gosto; camarão rosa na grelha com shitake, acompanhado de azeite de alho com raspas crocantes de alho; camarão gratinado com ervilhas (frescas) e palmito; camarão grande com molho de tomate, azeitonas pretas e manjericão, acompanhado de arroz de azeitonas pretas.

O sabor do bicho era, em todos os pratos, intenso: camarão de primeira, com preparo cuidadoso e deixado no ponto de cocção exato, sem enrijecimento ou perda daquela maciez e textura de semi-cru. Meu preferido foi o grelhado com shitake e alho. Dispensaria o molho e acompanhamento do último prato (bem feitos e saborosos; o problema é comigo: não sou fã de azeitona preta).

O Muscadet de Sèvre et Maine sur Lie funcionou bem com os pratos e tinha preço razoável em meio à caríssima carta, que me impediu de pedir o Riesling em que fui pensando. Talvez valha mais a pena recorrer à opção de vinho em taça, extraído das máquinas.

A sobremesa de nossa degustação era um straciatelli (com frutas secas, castanha, mel e sorvete sem-graça de creme) crocante e com doçura na medida. Minha filha preferiu o ótimo prato de morangos flambados com nêspera e sorvete.

Para fechar, Nespresso acompanhado de uvas cobertas de chocolate, telha e chantilly. Tudo muito bom.

O serviço, de resto, deve ser dos melhores de São Paulo: desde a gentileza de quem atende o telefone para a reserva até o cuidado de quem orienta o cliente ao estacionamento (gratuito, diga-se de passagem) e a atenção curiosa de colocarem um saquinho de lixo no carro. Sem contar que, pela primeira vez na minha vida, ouvi um garçom oferecer a nota paulista.

Chegamos em casa e corri para o espelho. Será que, além de guelras, escamas, não estavam surgindo em meu rosto longos bigodes e olhos protuberantes?

Será que uma casca rosada se formava ao redor do meu corpo, decretando minha definitiva metamorfose em animal marinho?

Não notei nada de diferente. Até agora, continuo humano, demasiadamente humano. Meia-idade, humanidade integral. Mesmo assim, preferi escrever e publicar o comentário logo. Para dizer como é bom, como é muito bom, como é ótimo, o Amadeus.

A única coisa que não entendo é por que estou sentindo uma vontade imensa de imergir.

Amadeus

Rua Haddock Lobo, 807, Cerqueira César, SP

Tel. (11) 3061 2859

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Amadeus

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19 Respostas to “Piscidade”


  1. Alhos,
    você tem razão. A Bella Masano não é das pessoas queridinhas da midia, embora competente como tantos outros que a midia desdenha.
    Acho as ostras ali também imperdíveis. Quiçá para uma fase pós-peixes e crustáceos.
    Abrçs
    Dória

  2. alhos Says:

    Carlos,
    a Bella Masano é de fato ótima.
    E saí de lá salivando pelas ostras. Preciso voltar lá para comê-las logo.
    Abraços!

  3. Gourmet Blasé Says:

    Alhos,

    Acho que o Amadeus se tornou o melhor e quase único lugar para se comer camarão decente em São Paulo. É um lugar que entende do bicho!!! Considerava o Don Curro páreo para o Amadeus, mas em minhas duas últimas visitas, senti uma queda na qualidade. O Amadeus, continua o mesmo, anos a fio. O cuscuz, com certeza é o melhor da cidade.

    Quanto ao gosto por peixes e crustáceos, cheguei a conclusão que os adoro e comeria por dias… camarões, baby lulas, polvo, mexilhões, bacalhau… mas quando lembro de um bom steak tartare… hummm… de uma cotoleta de vitela… de uma cordorna… acho que sou um eclético comilão.

    Em tempo: Parabéns pelos 11 anos de casado! Abraços.

  4. MDV Says:

    Alhos, esse lugar é meu desejo número 1 para restaurantes e há muito tempo! Moro perto e costumo passar em frente, a pé ou de carro, umas 4 ou 5 vezes por semana, e sempre penso como seria bom comer lá com minha família e amigos… Ainda não tá no meu modesto orçamento, mas depois deste texto, não duvido que mais pra frente vou ter de resolver isso!! abração M

  5. alhos Says:

    Gourmet,
    obrigado.
    É verdade. Camarão é no Amadeus. Gosto do Porto, mas não para camarão.
    E adoro o camarão com açafrão e fettuccine de cenoura do Marcel.
    Na verdade, apesar de estar na piscidade, gosto de todo tipo de carne. Se tivesse que escolher um só tipo de carne (felizmente essas coisas são apenas retóricas!) seria pato. Daí é um caso sério de amor.
    Mas estou aproveitando essa fase píscia. Acabei de comer arroz de polvo (de novo).
    Abraços!

    MDV,
    então, somos meio vizinhos.
    Você tem razão. É caro, bem caro. Mas o preço é honesto pelo que é servido (qualidade do ingrediente, concepção, execução, serviço, tudo).
    Reserve uma grana e vá.
    Abraços!

  6. Daniela Says:

    Comilão, nem preciso dizer que fiquei morrendo de vontade.
    Há um bom tempo que não vou ao Amadeus, sou apaixonada pelo cuscus. Um dos melhores que já comi.
    Não sei se conseguiria dar cabo de todo o menu degustação.
    Meu aniversário está chegando e quem sabe não me presenteio com uma refeição lá.
    Abs,

    Daniela.

  7. Carola Says:

    Bem lembrado Alhos, faz muito tempo que não volto lá, no final quero sempre conhecer coisas novas e acabo esquecendo dos bons antigos!

  8. alhos Says:

    Daniela,
    pois é, também fazia tempo que não ia lá. A gente até esquece como é bom. Bom mesmo. Sem exagero nas catalanices ou deslizes. Muito bom. Vá lá comemorar, sim.
    Abraços!

    Carola,
    é verdade: nessa ânsia que temos de variar os lugares às vezes passamos muito tempo sem ir aos que de fato importam.
    Abraços!

  9. Ricardo Reno Says:

    Comilão,

    Já experimentou o bacalhau? O bicho é bem tratado lá.

    Abraços

  10. Joaquim Says:

    Alhos ,pirarucu feito bacalhau é uma das piores coisas que eu já comi ,mas o fresco é divino,foi como eu o comi no Tordesilhas no caldo do tucupi e com mini legumes.Aliás o Tordesilhas foi minha grande alegria nessa viagem ,ele representa atualmente o melhor caminho ,entre vários existentes da comida brasileira.Fui para comparar com o Dalva e Dito ,mas é corvadia a comparação.O Tordesilhas é um restaurante fadado ao sucesso e o outro nitidamente já fracassou.A mesa ainda pediu de entrada uma comissão de frente ,nome de um mix de pequenas porções de várias delícias e um filhote,outro peixe.A sobremesa me entusiasmou ,cocada com sorvete de tapioca e uma calda de tamarindo que transformou a sobremesa em algo de outro mundo.Sensacional.Outra alegria paulista foi o Sub Astor,quem não entende de bebida e de pequenos pratos ,não deve ir ,o Sub é para gente que passou do estágio do arroz com feijão e da cachaça ruim,e aposta em coisas diferentes e sabe apreciar um drink bem feito,e gosta de rock.Em suma ,o bar não é sofisticado no sentido bobo da palavra ,é mais do que isso ,é de extremo bom gosto ,verdadeiramente um bar como poucos.Sobre o Amadeus ,assino embaixo,uma casa de respeito.

  11. alhos Says:

    Ricardo,
    tudo bem?
    Nunca comi o bacalhau de lá. Provarei. Pretendia voltar hoje para comer ostras e estava em dúvida se prosseguiria com bacalhau ou cavalinha. Mas não deu. Deixo anotada a sugestão do bacalhau. Quando der, vou de novo e provo.
    Abraços!

    Joaquim,
    tudo bem?
    O Tordesilhas é excelente. Freqüento desde que era numa rua sem saída, aqui pertinho de casa, e já era bastante bom.
    Quanto ao Dalva & Dito, prefiro ir com calma. Não tive boas experiências lá, mas acho que devemos esperar mais um pouco. A casa está com cinco meses. Havia muita expectativa e houve, evidentemente, equívocos. Mas aguardemos. Estou esperando mais um pouquinho para testar de novo.
    Não conheço o SubAstor. Soube dele recentemente e não sou muito de bar (até pelo horário). Mas hora dessas voi lá.
    Abraços!

  12. Ricardo Reno Says:

    Comilão,

    Você conhece o Amazônia? Fica na rua Rui Barbosa 206, Bexiga. Uma casa simples no aspecto mas que serve pratos típicos, acho que vale a visita.

    Abraços

    Joaquim,

    Fica a dica, mas não tem termos de comparação com o Tordesilhas.

    Abraços

  13. alhos Says:

    Ricardo,
    tudo bem?
    Fui só uma vez lá. Comi o pato. Não escrevi ainda sobre ele porque, antes, quero provocar a maniçoba.
    Mas é um bom lugar, sim. Bom preço, comida bem feita, sem afetação.
    Abraços!

  14. Joaquim Says:

    Alhos ,a questão não é só em termos de comida ,eu creio que como empreendimento,o D e D é complicado, eu fui num sábado e o andar de baixo estava vazio ,no salão de cima as mesas só giraram uma vez.A casa é belíssima ,apesar do tom meio mexicano.E a comida é extremamente cara ,por que o cara vai lá para comer moqueca capixaba por um preço astronômico, se ele sequer tem a garantia de que ela é bem feita?O meu prato ,um porco na lata estava bom ,mas o lombo de cordeiro estava duro e metade da carne era gordura e o cheiro do animal estava acima do limite da tolerância.O que era aquele cheiro?Pô,eu sou do Nordeste ,aqui não tem isso não ,é coisa de animal do qual não foi retirado as glândulas.Ou então o bicho era velho demais e chamamos ele aqui de pai de chiqueiro.A comida em si ,repete os clássicos da cozinha regional e só ,no Tordesilhas há criatividade ,dinamismo,um caminho muito mais musical do que o adotado por D &D.Vc. que esperar ,ótimo ,eu também tenho tempo ,mas será se o mercado vai dar tempo ao restaurante?

  15. alhos Says:

    Joaquim,
    pois é. Por incrível que pareça, os problemas do Dalva & Dito começam mesmo nos fornecedores e no conceito que baseia o restaurante, como você notou.
    Mas sou otimista… Resta aguardar.
    Abraços!

  16. tadzio Says:

    eu nunca comi o camarão com alho da Bella Masano mas a receita já apareceu em varios formatos em revistas gastronomicas, sou fã da receita e já fiz algumas vezes com uma quantidade beeeeem maior de camarões fica bom mesmo!
    Abs Tádzio

  17. alhos Says:

    Tádzio,
    tudo bem?
    É muito bom, não é?
    Abraços!

  18. tadzio Says:

    Bom demais!!!
    Em quantidades pantagruélicas e pão!
    fica bem bom 😀

  19. alhos Says:

    Tadzio,
    gostei das “quantidades pantagruélicas”!!
    Abraços!


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