O direito de comer – capítulo I

04/07/2009


O garçom me trouxe o i-pod e pediu que o colocasse. Com voz macia e olhar gentil, sugeriu o volume 1. Não fosse eu impor a audição aos demais sentidos.

Suave e delicado, o som começou a entrar pelos ouvidos. Vento, farfalhar de folhas, ruídos de pequenos insetos.

Quase imergia quando notei que o rapaz posicionava, à minha frente, todo um arsenal.  Quatro pequenos balões, dois vermelhos e dois amarelos, se alternavam em torno do espaço em que ficaria o prato. À direita e à esquerda, instrumentos desenvolvidos no próprio restaurante e que substituiriam, com vantagem, os talheres que alguns restaurantes, hóspedes do passado, ainda insistem em usar.

Havia um pequeno perfurador com um círculo na outra ponta, onde se via o logotipo elegante e criativo do restaurante. Havia um artefato curvo e macio, colorido, parecido a uma esponja bem seca. Havia dois pegadores (um marrom, outro violeta), como os de salada, recobertos com uma película fina e sedosa.

Meus ouvidos filtravam o som bucólico do i-pod. Meus olhos assistiam ao espetáculo de cores e formas.

Chegou o prato, branco-polar com desenho de formas irregulares negras e marrons. Sobre ele, um tutano esferificado sobre espuma de ossobuco. Quatro cubos os ladeavam, de um violeta forte.

O garçom me orientou a manejar o pegador marrom com a mão direita. Devia aprisionar as pequenas esferas, uma a uma (a suavidade da película não permitiria que elas se rompessem), e levá-las à boca. Simultaneamente, o polegar e o dedo mínimo da mão esquerda controlavam o perfurador e estouravam um dos balõezinhos amarelos.

O ar exalado pelo balão trouxe às minhas narinas o inconfundível aroma de risoto, enquanto a esfera de tutano explodia seu sabor na boca. Sincronização perfeita, que contava ainda com os mugidos, ao longe, que saíam pelos fones do i-pod.

Em seguida (e sempre seguindo as rigorosas instruções do garçom), mergulhei o artefato curvo e macio, esponjoso, na espuma de ossobuco e o levei à boca com a mesma mão direita. A esquerda perfurou o balão vermelho e o cheiro de tomates frescos da Toscana me invadiu no exato instante em que espremi a esponja e deixei a espuma escorrer pela boca.

O segundo pegador serviu-me para envolver um dos cubos violetas. Larguei-o delicadamente sobre a língua e, em segundos, me dei conta que nenhum rótulo de Gaja podia superar a sensação que aquele barolo gelificado proporcionava, sobretudo quando associado aos mugidos cada vez mais próximos e ao ruído de bovinos pastando que o i-pod oferecia.

Alternei os elementos e os balões até encerrar o prato. Olhei em volta, tecnoemocionado, e não vi o garçom. No i-pod, o som parara.

Onde ele estaria? Teria ido buscar a sobremesa? Me traria mais surpresas? A sensação de abandono fazia parte da refeição? Ativaria algum sentimento ainda estático? Aprofundaria o êxtase? O que estava acontecendo?

[Aguarde, leitor, o próximo capítulo. O que virá? Ar refrigerado de grana padano? Semifreddo di caponata? Em breve, neste mesmo blog]

7 Respostas to “O direito de comer – capítulo I”


  1. Você andou visitando Heston Blumenthal?

  2. fernanda Says:

    ai que curiosidade, onde foi isso meu Deus!

  3. alhos Says:

    Constance & Fernanda,
    aguardem os próximos capítulos.
    Mas alerto que não saí de São Paulo.
    Abraços!

  4. Benny Says:

    Ta com cara de FatDuck mesmo , mas pelo qu eu sei Heston nao abriu nada por aqui em sampa. Será que foi um sonho depois de algumas garrafas de vinho? Curioso !!! Abs

  5. Gourmet Blasé Says:

    Fiquei muito tecnocurioso, mas meu tecnoapetite não se manifestou de forma positiva.

    Será que o Capitulo II virá antes ou depois do post sobre Vecchio? Ou será o Giuseppe La Rosa enlouqueceu e está servindo risoto no balãozinho?

    Estou confuso… mas talvez seja o efeito do álcool do almoço!

    Abraços!

  6. alhos Says:

    Benny & Gourmet,
    é mesmo incrível como São Paulo guarda surpresas.
    O capítulo II deve sair na segunda. Ou terça. Talvez quarta. Quinta sem falta.
    Abraços!


  7. […] *Confiram o suspense tecnoemocional criado pelo Alhos neste post. […]


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