O direito de comer – capítulo II

05/07/2009

[Prévia Advertência

Cuidado, leitor, cuidado. Não se afobe. Não vê que o mundo é cheio de gente apressada?  Comida apressada e leitores mais apressados. Veja: foi a pressa que fez Brutus dar ouvido ao diz-que-diz e correr à escada do Senado. No que deu? Matou o pai e ainda entrou para a história como tonto.

Quer outro exemplo? Dou. Faz poucos dias, minha tia, senhora feita, andava com fome. Faltou-lhe paciência e entrou no primeiro lugar que viu. Nem conto o que ingeriu. Esta, afinal, é uma prévia advertência, não um remate de males. Tampouco são linhas com vocação escatológica. Deixo isso para os programas infantis e me atenho ao que tenho de dizer: não tenha pressa. O apressado, diz o ditado, vira crudista.

Digo mais: não acredite naqueles que falam que de novela basta o princípio e o fim, abandonado o meio. São uns despeitados que nunca fariam o Sansão num filme épico. Admira que não estejam numa passarela. Não, leitor, todos os capítulos são precisos. De outro jeito, perde você o fio, logo depois o interesse (que é a meada), e fico cá eu sem leitor.

Portanto, não comece a ler essa breve novela (não tema: é breve) pelo capítulo 2. Retroceda um pouco ou olhe de lado. Vê essa ligação aí, que diz capitulo 1? É ela. Vá, leia e volte. E, para mostrar que terá uma recompensa, já aviso: quando voltar, lido o capítulo 1, pule a advertência prévia, que não é assim tão breve, e passe logo ao 2.]

Capítulo 2

O mundo em derredor era um ruído incomum. Alta, longa e na dúvida majestosa, uma voz se aproximava.

Eu, perdido em minha crispação, não via nada ou discernia o que me cercava. Senti, porém, as gotas frias do suor que corriam pela nuca e algum tremor nas zonas periféricas.

A voz chegou mais perto e notei que não era uma, eram duas, três vozes que me falavam.

Abri finalmente os olhos, na expectativa de encontrar o garçom e, quem sabe?, um carpaccio de stracotto alla fiorentina ou um omelete de mascarpone.

A princípio tonto, entre a doçura e o frenesi, envolvido num mar de moléculas, só podia perceber três sombras. Aos poucos elas se definiram e, no lugar do garçom, estavam minha mulher, minha filha e minha cachorrinha-salsicha – viva, crua e peluda.

Como foram parar lá? Aliás, onde eu estava?

Falavam comigo e o vozerio ganhava significado. Olhos abertos, encontro gentes, sala e computador defronte. Ultrapasso o umbral do delírio e consigo reagir, voz vacilante: “Ma dove siamo?”. Uns minutos mais e entendo o que me dizem: “Você está bem?”, “Pai, o que está acontecendo?”, “Au, au!”

A consciência, essa desejada das gentes, retorna e me vejo diante das fotos que o pessoal do Bicho postou, em segunda mão, sobre a nova temporada do El Bulli. Só que os pratos eram outros, embora as novidades, paradoxalmente, talvez fossem as mesmas. Súbito me passa uma idéia pela cabeça: como o novo fica rapidamente velho, meu Deus!

Minha mulher volta a perguntar se estou bem. Hesitante, faço um gesto positivo qualquer. Ela insiste, ainda preocupada: “Vamos mesmo jantar fora ou é melhor cancelar a reserva no Vecchio Torino?”

Ouço o nome do restaurante a que iríamos e entendo a dinâmica do delírio. Esconjuro os instantes passados, seco o resto do suor, percebo minhas mãos firmes. Desvio o olhar – ainda atônito, não mais angustiado – da tela do computador e percebo que misturei, numa catarse esdrúxula, as imagens que via com a refeição que pretendia fazer. Rompo o círculo mágico e, antes de ir para o banho, respondo, confiante e aliviado: Sim.

[Pois é, leitor, nada como um final feliz, não é? Mas a saga continua. No próximo post, a descrição da visita ao Vecchio Torino e, ao final, uma breve explicação sobre a origem da série]

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2 Respostas to “O direito de comer – capítulo II”

  1. Nelson Schapô Says:

    Comilão, amigo meu, meu igual, meu irmão, é um tremendo prazer ler os seus textos. Fico daqui aguardando suas visitações para cada vez mais admirar o saber com sabor.
    Forte abraço, NS

  2. alhos Says:

    Schapô, companheiro,
    você por aqui: que honra.
    Obrigado. Mas prazer maior será quando conseguirmos marcar aquele jantar aqui em casa. Quem sabe aproveitamos os amargos dias do final de julho?
    Abraços!


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