Tão longe, tão perto

31/07/2009

Nas duas últimas semanas, fui incontáveis vezes a dois tipos opostos de restaurante. Convites coincidentes de amigos me levaram a churrascarias-rodízio; a visita a São Paulo de uma cunhada vegetariana, a restaurantes naturais.

Impossível pensar em propostas mais diferentes. E os públicos, então, são radicalmente distintos. Enquanto a diversidade prevalece nas churrascarias, a clientela dos restaurantes naturais é, no geral, homogênea. Mais homogênea do que, por exemplo, a do Café de la Musique ou do Maní, embora, é claro, com outro estilo.

Nas casas que ficam no eixo Pinheiros-Vila Madalena-Pompéia, o tom é dado pelo jeito Vila Madalena de ser, e derivados. Saias longas, blusas largas, tecidos crus e cabelos modernos, calculadamente despenteados. Estilo relaxado – no bom e no mau sentido. Alguém poderia dizer “alternativo”, embora a alternativa já tenha se tornado padrão em muitos espaços. No centro ou nos Jardins, predomina o público que trabalha nos arredores. Sempre, no entanto, há muitas pessoas sozinhas e raríssimos risos. Nenhuma criança (fora, é claro, minha filha). Feições mais contraídas e aparência de seriedade, quase sisudez. Homogeneidade.

Nos rodízios é o oposto. Risos, vozes mais altas, trios, quartetos, famílias, enormes grupos de amigos. De tudo. Na visita a uma delas, esperei por um amigo por meia hora, sentado na entrada da casa. Observei atentamente os clientes que chegavam e não consegui discernir qualquer padrão. Gente carregando mala, policiais militares, cinco homens de aparência para lá de suspeita (ficaram longe dos policiais), casais comuns e exóticos, pessoas idosas acompanhadas de netos, mulheres sozinhas de meia-idade. Funcionários e burgueses, donas de casa e aposentados, jovens, adultos e crianças. Absolutamente tudo. Heterogeneidade na potência máxima.

No entanto, tanta diferença nas propostas das casas e em seus comensais acaba quando lembramos que o ponto de inflexão de ambas é o mesmo: a carne – que umas idolatram e outras repudiam. É em relação a ela, essencialmente, que definem e afirmam sua identidade. Difícil imaginar maior valorização das carnes do que nesses restaurantes.

Também a possibilidade de variação parece limitada. Claro que o bufê de saladas dos rodízios de primeira é impressionante. Poderia passar meses comendo só da mesa de frios dos melhores rodízios, por exemplo. E sempre aparece uma novidade no mundo dos cortes de carne. Do outro lado, é interessante ver algumas experiências de incorporação de traços da culinária árabe ou de aproveitamento de raízes e de frutas nos pratos salgados das casas naturais.

Mas ambos preferem, explícita e intencionalmente, se limitar. Uns para não tirar a atenção dos comensais em relação às carnes. Outros para não perder o apelo da comida saudável.

O efeito, para quem apenas gosta de comer, é que enjoa. Alguns bufês naturais oferecem quinze, vinte alternativas, mas, quando você come, só encontra dois ou três sabores diferentes porque os ingredientes se repetem ou são sufocados pelo predomínio de massas e da indefectível (e, convenhamos, bastante nociva para o ambiente) soja.

Algumas churrascarias servem o rodízio em ritmo tão frenético que, se você esquecer de, a cada serviço, mudar o cartãozinho para “não quero”, rapidamente acumula três ou quatro bichos diferentes em seu prato, igualados pelo sabor da mesma grelha, pela sobreposição das fatias e pelos caldos que restam e se misturam. Muitos naturais adotam o estilo galpão e valorizam a precariedade das condições como se fosse algo positivo. O serviço, na maioria deles, também é atrapalhadíssimo. Pouca gente, sempre correndo e trombando. Dificilmente seu suco chega antes da metade da refeição. Às vezes, você nem consegue pedi-lo.

Nos dois casos, há uma espécie de ostentação da autenticidade – no espaço, nos trajes de funcionários e clientes, na postura dos comensais. Para uns, a autenticidade do assador, estágio anterior ao do cozinheiro; para outros, a convicção de que quem evita carnes vive melhor do que quem as devora. Tudo, porém, resvala no artificialismo.

Cansa, simplesmente cansa. Por isso, depois de duas ou três visitas a essas casas, o interesse e o paladar de comilão são superados por um olhar de etnólogo e você passa a se interessar mais pelo ambiente, pelas pessoas e pelos rituais sociais que cada uma dessas casas engendra do que pela comida em si.

Longe de mim formular qualquer hipótese antropológica ou rejeitar mais um almoço nas boas casas dos dois tipos (poucas, bem poucas: contei duas de cada a que voltaria). Nem pretendo caricaturar uma ou outra clientela. Apenas continuo achando que come melhor quem varia o que come. E quem evita preconceitos ou idéias fixas.

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22 Respostas to “Tão longe, tão perto”


  1. Alhos,
    muito bom retrato! Parabéns. Acho que a única vantagem das churrascarias de rodízio é oferecerem, pelo culto à variedade, as ditas “carnes de segunda” (cupim, costela), coisa que as demais casas de carne não fazem. No mais prefiro a Parilla Argentina para um bom bife, sem perda do interesse pela fauna frequentadora.
    abraços

  2. alhos Says:

    Obrigado, Carlos.
    É verdade: são poucas as churrascarias não-rodizio que servem outras carnes além das óbvias.
    Agora, o público é mesmo o grande espetáculo. Dos restaurantes naturais, também.
    Abraços!

  3. Carola Says:

    Juntando o papo do Twitter com o Blog, tenho almoçado muito no Moema Natural (tem peixe, frango e soja), que fica perto do escritório e custa R$19 com salada, pratos quentes, bebidas e sobremesa!
    Comida gostosa, tem pão feito na casa, simples e agradável!
    Fica a dica


  4. Alhos,
    por birra, eu não sei o que quer dizer “natural”….
    abraços!

  5. alhos Says:

    Carola,
    fui ao Moema Natural. É bom e honesto, sim.
    Beijos!

    Carlos,
    também não gosto do termo. Convencionou-se usá-lo mas é obviamente inadequado por inúmeros (e também óbvios) motivos…
    Abraços!

  6. Gourmet Blasé Says:

    Alhos.

    Coincidentemente fui semana passada no Vento Haragano, a convite de um amigo. Achei bem caro pelo que me foi oferecido.

    Primeiramente levei um vinho (muito bom) e fui informado duas vezes pela mesma pessoa que seria cobrada uma taxa para abrí-lo. Me pareceu bem indelicado, pois se o vinho era bom, provavelmente eu seria alguém que conhecia os “protocolos” e a chamada “taxa de rolha”. Vai ver me acharam com cara de caipira mesmo… que ganhou um vinho e queria tomá-lo lavando a égua comendo carne até não poder mais. Deixei para lá.

    Contei exatas 12 vezes em que me foram oferecidas as carnes, com o sinal vermelho de “NÃO QUERO COMER”. Estava engraçado até… apoiei o cartão no copo, pra ficar mais evidente ainda que não queria comer… diminuiu o assédio, mas não parou. Eu já comentava rindo para meu amigo: “Esses FDP só podem ser daltônicos… PQP”. Bom… mais uma vez acho que me consideraram um capira, que mesmo com algo óbvio, não entenderia o protocolo de como usar o cartãozinho verde/vermelho. Também deixei para lá.

    A praga dos sushis, tão comuns em churrascaria, e os diversos pratos que nada tinham de gaúcho, que é a proposta do lugar, também deixei para lá.

    Me atendo SOMENTE a comida, posso dizer que estava de amargar. A costeleta de cordeiro estava esturricada… horrível… comi de teimoso. A linguiça apimentada que costuma ser saborosa, também horrível. Comi mais algumas carnes e algumas coisas da mesa de salada e tudo bem mediado. A banana a milanesa não estava docinha e meio dura. Enfim… acho que estou ficando bem chato… eu não era assim… sério… blogar e ler blogs acaba nos tornando MUITO exigentes.

    Gostaria de saber se nas suas andanças pelas churrascarias mencionadas uma delas foi o Vento Haragano… e se sua experiência foi melhor que a minha.

    Abs!

  7. alhos Says:

    Gourmet,
    uma pena tudo isso.
    Fui ao Vento Haragano, sim, e comi bem lá – sobretudo a costela. O ancho também estava bom. Experimentei poucas coisas do bufê e comi poucos tipos de carne. O único ponto negativo foi o cordeiro, seco e sem sabor. Fora isso, tudo correu bem.
    Abraços!

  8. Luiz Says:

    Alhos, belo texto, resume meu sentimento em relação ao assunto abordado.

    Me permita uma sugestão. Conhece o Bistrot da Casa do Porto na Al. Franca ?
    Recomendo. E não deixe de provar o Aligot !

    Abraço !

  9. Ricardo Reno Says:

    Olá Comilão, tudo bem?

    Para mim o grande problema destas casas é o tamanho e o estilo industrial que se imprime no ato de comer. Uma profusão de comidas, cheiros, pessoas, sons e chão escorregadio. Prefiro os lugares onde pode-se pedir o corte preferido, no ponto certo, com um bom acompanhamento como o Leôncio ou Varanda Grill para citar alguns.

    Sábado passado passei em frente do Picchi por volta das 12:30 da manhã e já estava fechado. Uma pena um lugar tão bom mas não sei porque ignorado pela crítica. Vida longa ao Picchi!!

    Abraços

  10. alhos Says:

    Luiz,
    obrigado!

    Fui duas vezes ao Bistrô da Casa do Porto. Gostei, sim. Preciso ir mais. Até porque, além da boa comida, tem preço honesto e é perto de casa.

    Abraços!

    Ricardo,
    tudo bem?

    É isso: tudo é desmedido, excessivo nos rodízios. Não deixa de haver uma beleza na coisa – o ritual, a dinâmica, a peculiaridade do serviço. Mas também prefiro, para comer uma boa carne, as casas que servem à la carte.

    Quanto ao Picchi. Será que não abririam mais tarde – às 13? Verifiquei no site e dizem que o almoço começa às 12, mas muitas casas abrem apenas às 13 no sábado. De qualquer forma, há, pelo menos, um erro de informação.

    Por que não aparece na mídia? Para mim, é um mistério. Das casas da mesma faixa, a única que, a meu ver, equivale em qualidade ao Picchi é a Tappo. Sei que é controverso, mas considero o Picchi superior ao tão badalado (e vizinho) DCC. E há determinados pratos lá que quase não tem comparação: o porco e as massas são excelentes. Por isso, endosso sua conclamação: vida longa (e mais divulgação) ao Picchi!

    Abraços!

  11. Ricardo Reno Says:

    Comilão,

    Quis dizer 00:30 da manhã de domingo.

    Voltando ao assunto carne e Picchi, experimentei o cupim e achei maravilhoso. Nem nem sou amante de cupim, mas modo como é preparado, vale a pena.

    Abraços

  12. alhos Says:

    Desculpe a confusão, Ricardo.
    E continua o erro de informação: deveria ficar aberto até 1, de acordo com o site. Pena.
    Nunca comi o cupim de lá. Provarei.
    Abraços!

  13. manuela Says:

    gourmet
    eu acho que a plitica de rolha mais correta é essa :
    se o vinho é especial e nao tem similar na carta – nao cobre rolha
    se for um vinho normal nada mais justo do que cobrar rolha
    de qualquer maneira se a politica do restaurante for de cobrar rolha nao vejo erro em deixar isso bem claro

  14. alhos Says:

    Manuela & Gourmet,
    nessa história, concordo com a Manuela.
    Acho bacana quando não cobram rolha, mas tem gente que abusa. Me disseram que, no Roux, atravessavam a rua e compravam vinho no Pão de Açúcar defronte. Resultado: a casa passou a cobrar.
    Já levei, por distração, um vinho que tinha na carta do restaurante e quase morri de vergonha. Tinham que ter cobrado a rolha em dobro.
    A política de cobrar o preço do vinho nacional de menor custo me parece justa. Se não cobrarem nada, pagamos mais 5 ou 10% de serviço – o que dá mais ou menos na mesma.
    No caso específico do Vento Haragano, o público é extraordinariamente variado – como ocorre nos rodízios – e eles não devem ter como saber se o comensal sabe ou não da prática de cobrança de rolha. Deve ser por isso que insistem tanto. Mas, claro, não pode ser grosseiro.
    Abraços!

  15. ruduarte Says:

    Prezado Alhos: tudo bom?
    Cada dia gosto mais de seu Blog.

    Concordo com o Carlos Dória: A Parrilla Argentina é imperdível. E na primera garrafa não cobra rolha…

    Abraço

    Rubén Duarte

  16. alhos Says:

    Rubén,
    tudo bem?
    Também gosto da Parrilla Argentina. O problema é que, pela distância, só dá para ir de vez em quando. Mas vale muito, sim.
    Abraços!

  17. Mario Says:

    Alhos

    Semana passada almocei no Pobre Juan da rua Tupi. O serviço foi atencioso, e o ambiente é muito agradável.Acho uma boa dica para quem está em Higienópolis, na minha opinião um bairro carente de uma boa parrilla.O couvert é muito interessante, com um paozinho de alecrim bem gostoso.Pedimos empanadas de carne de entrada e estavam muito boas.São as Saltenas, que não levam azeitona e passas.Pedi o corte Monumental de Nunes, que vem a ser o prime rib com osso.Os outros pedidos da mesa foram Ojo de bife e o bife pampeano, que é um corte alongado do contra filé
    para duas pessoas, muito bem servido.Todas as carnes estavam perfeitas.O único senão foram as batatas souflee, que achei muito secas.Fica a dica.

  18. alhos Says:

    Mario,
    tudo bem?
    São muito boas as carnes do Pobre Juan.
    Para aqueles lados gosto também do Tranvía. O rim deles é muito bom.
    Abraços!

  19. Mario Says:

    Alhos

    Minha restriçao ao Tranvia é o modo de servir as carnes naquela grelha de ferro, que acabam por passá-las do ponto.
    Um abraço e continue com o blog, que está muito bom.Espero ansioso por novos posts.Vamos trabalhar, amigo…..

  20. alhos Says:

    Mario,
    verdade: é preciso tomar cuidado, lá, para que a carne não passe do ponto.
    A vantagem é a relação custo-benefício – além da forma de salgar.
    E obrigado pelo comentário sobre o blog. Acho que nessa semana ainda aparece mais um post.
    Abraços!

  21. eduluz Says:

    Alho, tá de férias bloguísticas ?? rs
    Só pra avisar que te citei lá no DCPV num post sobre uma quase ida à Tappo, certo?
    Abs e boa férias !! rs

  22. alhos Says:

    Eduardo,
    tudo bem?
    Os dias estão corridos…
    Mas em breve publicarei novo post.
    E obrigado pela referência!
    Abraços!


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