Maioridade

14/08/2009

 

Você gostaria de começar num emprego novo e dois ou três dias depois ser categórica e definitivamente avaliado por seu desempenho? Eu, não.

Isso vale também para restaurantes. Por mais que seja convidativo visitar e avaliar uma casa nos seus primeiros dias ou meses de funcionamento, fico sempre com a sensação de injustiça. Respeito quem acha que se o restaurante saiu na chuva é para se queimar, mas não desejo mandar ninguém para a fogueira.

Por isso raramente comento uma visita a restaurante antes que ele atinja sua, digamos, velocidade de cruzeiro. Isso pode acontecer em dois ou três meses. Em seis, conforme o caso. Passou disso e não deu certo, a coisa é mesmo feia e toda reclamação é válida.

Antes disso, vou, penso, considero. E fecho o bico.

Fui ao Arturito logo no início. Detestei.

Não a comida – porque ninguém pode desconsiderar o talento e a dedicação de Paola Carosella, das melhoras chefs hoje em São Paulo. Mas todo o resto. O ambiente, a obscuridade, a música, certa afetação no serviço.

Engavetei minhas opiniões e deixei o tempo passar. Aqui e ali acompanhei notícias e opiniões sobre o restaurante. Até que chegou a hora de voltar.

Por precaução, aproveitei um dia em que minha filha tinha uma festa e fui só com minha mulher.

Na entrada, as primeiras boas notícias: mais luz e menos som. O barulho aumentou inevitavelmente quando a casa encheu (perto das 21h), mas o tum-tum do som não deu o ar da graça.

Após o couvert agradável, cujo ponto alto é o azeite com parmesão e alecrim, pedimos o magret de pato curado. Preparado na casa (como os embutidos), é acompanhado de radicchio, avelãs, redução de Porto, mel e balsâmico. A garçonete orientou que passássemos uma camada de manteiga na torrada e nela colocássemos o peito do pato com a verdura. O resultado foi excelente. Mas poderia comer o peito curado sozinho. Quilos, horas a fio.

Como pratos principais, pedi um dos clássicos locais: ojo de bife maturado e assado no forno a lenha. Veio na forma adequada, bem assado no exterior e com o interior avermelhado, suculento, mostrando que forno a lenha não é para principiantes, mas quem sabe usá-lo – e Carosella já provou, faz tempo, que sabe – consegue resultados incríveis. A batata “Asterix”, amassada e gratinada, acompanhava bem a carne.

Minha mulher preferiu o camarão rosa grande, muito bonito e acompanhado de “riso pastina”, um quase-risoto bem puxado no limão siciliano, com mascarpone e rúcula. Camarões no ponto (ou seja, bem menos cozidos do que a maioria dos restaurantes os serve), saborosos e suculentos. E delicioso o riso pastina.

Na sobremesa, dividimos uma porção imensa das melhores profiteroles já provadas em São Paulo. O Nespresso fechou bem a refeição.

Conta final de 330, que incluiu águas, um decanter de 375 ml de um crianza (cujo nome, vejam o absurdo, não anotei) e o deslize de aplicar o custo do serviço sobre o preço do estacionamento.

O serviço atencioso mostrou que também nesse campo houve ajustes. O público se diversificou, incluiu pessoas de várias idades, que passaram a dividir o espaço democraticamente com os comensais bem modernos.

Saímos de lá felizes. Arturito, diminutivo do nome da rua, chegou à maioridade. E Paola Carosella continua ótima.

Arturito

Rua Arthur de Azevedo, 542, Pinheiros, SP

Tel.  11  3063 4951

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Arturito

8 Respostas to “Maioridade”


  1. Acho que você está certíssimo, Alho. Claro, que minha curiosidade me leva sempre aos novos restaurantes que surgem na cena gastronômica. Mas só me pronuncio de primeira se realmente gostar. Se não gosto, me calo. Volto mais tarde pra uma segunda impressão. Mas, na grande maioria dos blogs, não é isso que acontece, né? Pra dar o furo e gerar polêmica, o pessoal sai metendo o pau em restaurantes recém abertos…Concordo com você: também acho meio injusto isso. Olha, tô cada vez mais fã do seu blog, do seu método e do seu bom senso!

  2. Mario Says:

    Alhos
    Concordo em termos.Acho uma tremenda cara de pau e falta de profissionalismo abrir qualquer negócio, mesmo fora da área de restauração, na base do improviso.E para a maioria, a primeira impressão é sempre a que fica….

  3. alhos Says:

    Constance,
    obrigadíssimo!
    Acho que o espaço dos blogs permite as duas coisas: tanto a opinião imediata quanto a lentidão na opinião.
    Prefiro a segunda, mas respeito a primeira (que seria inaceitável num jornal ou numa revista).
    Beijos!

    Mario,
    tudo bem?
    Não estava me referindo a improvisações: elas são sempre insuportáveis.
    Me referia às dificuldades que surgem sempre que colocamos as coisas na prática – em qualquer área.
    Calculo que um restaurante, como tantas outras coisas, tenha uma logística complicadíssima, que envolve gentes e tudo mais, nem sempre sob controle, mesmo quando foi exaustivamente treinado. Afinal, vale a máxima que agradaria tanto ao presidente: treino é treino…
    E concordo quanto ao fato de que, muitas vezes, a primeira impressão é a que fica. Até porque os preços cobrados desestimulam a volta a um lugar em que as coisas não deram certo.
    Abraços!

  4. eduluz Says:

    Alhos, concordo com o teu conceito, mas não sigo! Normalmente não gosto de ir em restaurantes que acabaram de abrir. Espero um tempo, leio as opiniões da maioria ( inclusive a sua! rs) e se eu gostar do estilo, vou!
    Mesmo assim, se não gostar da comida, não posto!!
    O Arturito foi uma das exceções e quebrei a cara.
    Fui logo no início e achei bonzinho. Comida super francismallmaniana (nao adianta.Não consigo gostar da comida dele!! rs) demais e caro! Prometi pra mim que não ia mais. Vamos ver se dou uma segunda chance já que algumas coisas que me incomodaram já foram sanadas ( som, escuridão, etc).
    Abs.

  5. Gourmet Blasé Says:

    Grande Alhos, o gentleman dos blogueiros!

    Concordo que uma pessoa recém contratada não pode ser julgada logo nos primeiros dias, mas também sabemos que muitas vezes essas pessoas tentam demasiadamente nos impressionar na entrevista, nos mostram um curriculum invejável e exigem um salário altíssimo.

    Acho que o bom chefe deve constantemente dar o feedback do desempenho ao novo funcionário, pois somente dessa forma ele poderá entender os pontos que desafinou e se acertar perante a filosofia e expectativas da empresa. Espera-se que o funcionário seja adulto e aceite críticas numa boa.

    Se não fossem as duras críticas de todos ao Dalva & Dito, mesmo sendo uma casa nova, talvez o Poletto tivesse afundado o empreendimento e o Alex não teria tomado as providências para reestruturar a casa. Não tenho dúvidas que as críticas ajudaram o Alex a abrir os olhos.

    Quanto a restaurantes novos, deslizes são aceitáveis, agora, gororoba de péssima qualidade, não. Vejo por aí muito estrelismo, pouco amor e resultados sofríveis. Paulo Barros e o chef Wagner se demonstraram muito competente já nos primeiros dias do Le Marais, comprovei já no segundo dia de funcionamento.

    Abraços!

  6. alhos Says:

    Edu,
    obrigado…
    Normalmente também não vou logo que abre, não.
    Vale a pena voltar ao Arturito.
    Fiquei felizmente surpreso com as mudanças – inclusive no cardápio.
    Abraços!

    Gourmet,
    não tenho dúvida quanto à utilidade que algumas críticas podem ter para os restaurantes. Mas, às vezes, o estrago é maior do que a ajuda. No caso do Dalva & Dito, se alguma crítica pesou positivamente foi a do Lorençato, feita já após alguns meses de funcionamento e com a seriedade e o prestígio que se reconhece no trabalho dele.
    Acho que um dos principais problemas de um restaurante recém-aberto é a irregularidade. A comida de uma refeição pode não retratar o que é a casa. Para lhe dar um exemplo: fiz uma das piores refeições de minha vida num restaurante que, hoje, é dos meus favoritos.
    Abraços!

  7. Fernando Says:

    Acho que não existe uma regra rígida a respeito de novas casas. Eu também já comi muito mal em restaurantes que hoje são meus favoritos. E já comí muito bem em casas recém abertas e quando voltei a decepção foi imensa. Quanto ao Arturito, muito irregular. Tem ótimos dias e outros sofríveis. Mas tem defeitos claros: Pouca oferta de vinhos e todos com preços acima do razoável. A cozinha depende muito da presença da Paola. Não pretendo voltar tão cedo, não.

  8. alhos Says:

    Fernando,
    tudo bem?
    Há muitas variações: o pessoal do Bicho publicou o link de um artigo em que o Frank Bruni fala do envelhecimento e vigor das casas novas, contrastando-os com o declínio das que já estão aí faz tempo. Claro que “novo” para ele não é um ou dois meses.
    Do Arturito: sem dúvida, a carta de vinhos do Arturito é complicada. Esqueci o nome do que tomei – além da distração – porque simplesmente o escolhi pelo preço, uma das poucas opções “arriscáveis” abaixo dos cem reais.
    Interessante seu comentário sobre a irregularidade e a dependência da presença da chef. Não tenho experiência para concordar ou discordar. Fui duas vezes, em ambas ela estava e a comida era boa. Mas é ruim, de fato, quando um restaurante não funciona sem a chef presente.
    Abraços!


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