Tradicional

30/08/2009

 

Só fui a Portugal uma vez e faz muitos anos. Quinze, para ser mais preciso. E confesso que não foi lá essas coisas.

Lisboa estava em obras, para responder a exigências da Comunidade Européia. Eu, em meio às atividades de um congresso imenso e infértil, tentei conhecer a cidade e comer bem. Mas a cidade era hostil e os amigos, parcos. Minha namorada e eu não vivíamos os melhores dias de nossa história e… Bem, vou poupá-los de detalhes íntimos.

O fato é que as poucas lembranças boas que guardei são as de uma fortaleza moura e de um jantar num restaurante apropriadamente chamado Atira-te ao rio, às margens do Tejo, onde, em companhia de quatro amigos, demos cabo de dez garrafas de um agradável branco da José Maria da Fonseca.

Do congresso não lembro nada. Nem o que falei, muito menos o que ouvi. Mas todo mundo sabe que congressos servem para flerte e turismo, não para boa atividade intelectual. Fora isso, fiz jantares até bons, mas sempre peixes além do ponto, em molhos profusos e pesados. E doces conventuais que provocavam aquela dor atrás da orelha, sinal de que o açúcar estava batendo na aorta – junto com o amor, que naqueles dias andava de folga.

Um dia ainda voltarei a Portugal e mudarei minha impressão da boa terra. Até que isso ocorra, e a cada vez que vou a um dos restaurantes portugueses de São Paulo, fico cá a relembrar aqueles quinze dias, sem nenhuma mitologia da saudade. Porque o padrão da comida é idêntico. Às vezes, bem executado, às vezes, mal. Mas sempre comida pesada, desmedida, anacrônica. Luiz Américo de Camargo, crítico atento, já comentou a falta de renovação das casas portuguesas da cidade.

Recentemente almocei no Bela Sintra. O restaurante é bonito, bem mais agradável do que a casa que lhe deu origem. O serviço é atencioso. O couvert, dos melhores de São Paulo, tem bolinhos de bacalhau e croquetes que dão vontade de nunca parar de comer. A carta de vinhos é relativamente restrita e traz poucos rótulos abaixo de 100 reais, mas oferece opções.

E a comida? Muito boa, dentro da proposta.

Minha mulher pediu um bacalhau à Herdade do Esporão. Posta bonita, assada no azeite, coberta de alho-porró, acompanhada de legumes e verduras fritas (a cenoura estava rija, mas a rúcula frita estava ótima, ligeiramente adocicada) e batatas. Ótimo pescado, que poderia ter saído do forno bem antes – mas não no conceito que preside a casa.

Preferi o arroz de pato, farto e gostoso, mas carregado demais no bacon, cujo sabor se sobrepunha muitas vezes ao da ave.

De sobremesa, minha filha ficou com os ovos nevados, de apresentação linda e lúdica; minha mulher preferiu a salada de laranja (laranja em rodelas com calda) e eu, para levar o tradicionalismo às últimas conseqüências, pedi ovos moles. Doce, doce, doce. Doce.

Pratos principais e sobremesas bem feitos, gostosos, com ingredientes de ótima qualidade. Mas tudo pesado e antigo – para o bem e para o mal. Porque tradição é importante e não pode ser jogada no lixo, mas tampouco deve se impor e nos amarrar a um passado genérico, bruto, impermeável.

Saí do restaurante lembrando de 94, minha solitária visita a Portugal. Reconheci mais uma vez que A Bela Sintra é das melhores casas de São Paulo na sua especialidade e que cumpre integralmente o que promete, ainda que a preços altos demais.

Não sei quando voltarei. A Portugal, queria voltar para apagar as marcas ruins da primeira viagem. Para descobrir o que há de novo na gastronomia de lá, que ainda não chegou a São Paulo. Ao Bela Sintra, voltarei hora dessas.

Mas não deixa de ser um pouco desconfortável pensar que, daqui a dez dias ou quinze anos, pode estar tudo igual.

A Bela Sintra

Rua Bela Cintra, 2325, Jardim Paulista, SP

Tel.  11  3891 0740

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): A Bela Sintra


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13 Respostas to “Tradicional”

  1. Gourmet Blasé Says:

    Grande Alhos!
    Passei quinze dias em Portugal em 2005 e gostei bastante. Lisboa está fantástica e a malha ferroviária do país é novíssima. Fui também para o Porto, Coimbra e afins. Como lá se encontra bacalhau em todas as esquinas, é difícil achar um realmente excelente. O melhor que comi foi em Sintra, numa versão com tomates e cebolas. Os Pastéis de Belém são um capítulo a parte, excepcionais (comi uns 12 em dois dias).
    Quanto ao Bela Cintra, concordo que a comida é boa, mas o preço é absurdo.
    Agora, arroz de pato com bacon??? Cadê o chouriço português???
    Abs!

  2. alhos Says:

    Gourmet,
    tudo bem?
    Não tenho dúvida de que Lisboa é ótima. É que viagens – assim como certos dias ou visitas a restaurantes – às vezes entram tortas. Preciso voltar.
    O arroz de pato tinha chouriço português, sim. Mas o bacon se impunha.
    Abraços!

  3. Ricardo Oliveira Says:

    Alhos,

    O que chateia e desanima no Bela Sintra é a cópia fiel do couvert e alguns pratos do Antiquarius.Falta de personalidade!!!Patético!!!O mesmo acontece nos filhotes do Fasano, igualmente patético!!!!A salvação do Bela Sintra é a Chef Portuguesa que trouxeram, isso , espero,pode mudar o conceito da casa.

    Abs.

  4. Ricardo Reno Says:

    Olá Comilão, tudo bem?

    Concordo, mas pelo pequeno número de casas portuguesas, ainda bem que temos algumas boas opções. Outro dia recomendaram-me o Ora Pois, na Vila Madalena, você já foi?

    Abraços

  5. Adrina Says:

    Desculpa a ignorância (sou só leitora, não gastrônoma), mas para mim ficou um pouco confuso. Você afirma que os pratos estavam bons e bem feitos, porém pesados (para o bem e para o mal). Não seria um contrasenso?

  6. manuela Says:

    Alhos,
    não vejo tanta relação em evolução e boa gastronomia, pelo contrario , a evolução na gastronomia costuma ser lenta , gastronomia está muito ligada a tradição
    na história recente acredito que só houveram 3 grandes mudanças realmente grandes :
    1-a influencia da gastronomia francesas nas outras ( principalmente na apresentação )
    2-a nouvelle cosine
    3-a nova cozinha espanhola
    existe arte em gastronomia, mas o principal são os costumes e os ingredientes disponiveis, a “evolução” na gastronomia é muito mais ligada a esses dois itens ( ingredientes disponiveis e costume ) do que qualquer outro fator

  7. alhos Says:

    Ricardo Oliveira,
    tudo bem?
    Apesar das muitas semelhanças entre os dois cardápios, prefiro o Bela Sintra ao Antiquarius. Não apenas pelo ambiente. Ocorre que nunca fui bem atendido, nem comi bem no Antiquarius. É uma casa com muitos fãs (dentre eles, algumas pessoas cuja opinião respeito muito), o que faz acreditar que tenha sido azar meu ou triste coincidência.
    Aguardemos o que a nova chef propõe. Já constam alguns pratos dela no cardápio, mas não cheguei a prová-los. Tomara haja renovação, sim.
    Abraços!

    Ricardo Reno,
    tudo bem?
    Fui três vezes (dois almoços, um jantar) no Ora Pois! da Vila Madalena. A comida me pareceu inexpressiva e um tanto burocrática. Dos demais portugueses (fora Antiquarius e Bela Sintra), gosto mais d`A Casota e, principalmente, do Bacalhoeiro.
    Abraços!

    Adrina & Manuela,
    obrigado pelos comentários. Respondo-os junto porque acho que vocês apontaram aspectos diferentes de uma mesma questão.
    Há, de fato, uma contradição, intencional, na minha frase e, a bem da verdade, no comentário inteiro. Um paradoxo que é meu, mais do que dos restaurantes. Dizer que os pratos estavam “bons e pesados, para o bem e para o mal” significava reconhecer a boa execução dentro da proposta da casa e, ao mesmo tempo, a limitação (proposital) desta proposta.
    Por isso não falei em falta de evolução, mas em falta de renovação. Apesar das palavras se combinarem (evolução é adaptação e renovação supõe, igualmente, movimentos de adaptação), elas têm, pelo menos nesse caso, ressonância desigual. E falar em renovação não significa depreciar a tradição; ao contrário, implica pensar o tratamento e a atualização da tradição.
    Nenhuma tradição, afinal, é estática ou natural. Elas são historicamente construídas e reconstruídas. Quando uma casa se dispõe a repetir um mesmo conjunto de receitas e desenvolvê-las com as mesmas técnicas e procedimentos não há respeito à tradição, mas apego a uma fórmula, que é igualada, artificialmente, à tradição.
    Claro, também, que é inevitável lembrar do ensaio inicial de um dos livros do Bourdain, em que ele menciona a insistência orgulhosa dos portugueses em manter os ingredientes e suas formas tradicionais de preparo. No entanto, isso não impede (até porque é inevitável) que os tempos mudem e, com eles, as vontades.
    Tudo isso para dizer (e pedindo desculpas pela resposta longa demais e um pouco tortuosa) que o paradoxo e a tensão estavam no princípio de tudo…
    Abraços!

  8. Ricardo Oliveira Says:

    Manuela,

    Creio que a evolução na gastronomia está mais ligada á evolução da técnica.Não podemos esquecer que a culinária japonesa influenciou muito, inclusive a Nouvelle Cuisine.

    Abs.

  9. alhos Says:

    Boa lembrança, Ricardo.
    Abraços!

  10. Luciana Says:

    Caro, A Bela Sintra e Bacalhoeiro são, também para mim, portugueses de respeito. Acho louvável a proposta do Bacalhoeiro – aquele investimento todo em uma região fora do eixo ao qual a cidade está acostumada. Corajosos e competentes.

    Quanto a Portugal,vai parecer parcial, mas, por favor, volte. A capital vem ganhando pinceladas de vanguarda, não só em bairros como Santos, por exemplo. O Chiado é cada vez mais “fixe”, como eles dizem, mas ainda mantém aquele colorido nostálgico. Óbidos é um lugar mágico e Coimbra ainda respira aquela atmosfera saudosista. Aliás, essa atmosfera é fundamental para a beleza e a identidade de Portugal. Sabe o que mais me encanta por lá? Chegar a uma cidade pacata e pequena e encontrar um restaurante altamente conceituado entre as casotas, com gastronomia excelente, bom serviço e detalhes como copos, talheres e guardanapos de qualidade.

    Por exemplo, descobrir, na região de Fátima, o restaurante Tia Alice (o quarto segredo, a propósito), onde tive um dos melhores almoços de minha vida, assim como no Tromba Rija, em Leiria, este último devidamente finalizado com uma cesta de frutas secas à mesa, a serem acompanhadas com muito licor de amêndoas amargas bem gelado. E há tantos outros…

    É muito bom ter fome em Portugal…

    Bjs

  11. alhos Says:

    Luciana,
    tudo bem?
    Ler seu comentário me deu vontade de comprar a passagem imediatamente…
    Voltarei, pois.
    Não voltei até hoje por falta de oportunidade, não de vontade. Meus compromissos de trabalho me levaram para outros lugares. Mas quero, sim.
    E, quando for, vou revirar seu lindo e novo portal para pegar todas as dicas possíveis e imagináveis…
    Beijos!

  12. manuela Says:

    ricardo oliveira
    na verdade houve uma troca, a culinaria japonesa influenciou a nouvelle cuisine e a culinaria francesa influenciou a japonesa, houve até um intercambio patrocinado pelo governo japones como parte dos preparativos para a olimpida de 1964

  13. alhos Says:

    Obrigado, Manuela.
    Abraços!


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