Intimidade

19/11/2009

Não sei bem quando comecei a gostar de comer bem. Provavelmente nunca saberei. Porque essas coisas acontecem aos poucos: você descobre um gosto, depois outro, e assim vai.

Mas é possível encontrar alguns momentos decisivos. Certas viagens de férias, por exemplo, com a decorrente descoberta de sabores e preparos. Ou uma (infelizmente) breve temporada em que morei fora do Brasil e descobri coisas que jamais imaginara.

Claro que as visitas a restaurantes — o “programa” comer fora, talvez, antes da comida — também pesaram. E a comida deliciosa de minha mulher, que perde para poucos chefs de São Paulo.

Não tenho, porém, lembrança de um momento mágico — semelhante, por exemplo, à primeira ostra, que Bourdain descreve como um alumbramento.

Se eu tivesse que arriscar um palpite sobre quando brotou o gosto, acho que remeteria à infância. Um aprendizado inconsciente, gradativo. Principalmente nos almoços que meu pai preparava.

Ele era um cozinheiro bissexto. Cozinhava, acho, meia dúzia de vezes por ano. Não mostrava o preparo para ninguém, não gostava que entrassem na cozinha. Era cheio de manias e tiques com os instrumentos que usava, sempre dispostos da mesma forma, na mesma ordem. Nem preciso fechar os olhos para lembrar como deixava as vasilhas de ingredientes sobre a pia ou como posicionava, em perfeita simetria, as colheres com que mexia as panelas.

E a comida era extraordinária.

Com ele soube o que era cassoulet, com ele aprendi a comer pato. Com ele, e só com ele, descobri o sabor de um incrível bife que levava seu nome, igual ao meu, e era preparado com cerveja.

Seu rigor era comparável ao método. Certa vez, o arroz de Braga — uma de suas especialidades — deu errado. Nunca mais fez. Nunca mais comi arroz de Braga.

Meu pai ia raramente a restaurantes. Quando eu era pequeno, não tínhamos dinheiro para isso. Quando as vacas engordaram um pouquinho, eu já adulto, vez ou outra almoçávamos fora no domingo e o destino mais comum era o Tordesilhas, no primeiro endereço, uma rua sem saída aqui pertinho. Foi lá que, juntos, descobrimos cupuaçu.

Mas durou pouco. O que lhe faltava, agora, era vontade. Parou de desenhar e de pintar, hobbies de amador que também fazia com extremo rigor e bons resultados. Parou de cozinhar. O cansaço da idade o atingia e a comida se tornava transitória demais, como a vida.

Provavelmente ele se surpreenderia se soubesse que, tardiamente e com todas as minhas limitações e imperfeições, comecei a escrever sobre o tema.

Me surpreende também e, quando busco as origens incertas desse interesse, não consigo deixar de pensar nele.

Ainda mais hoje, dia em que ele faria 80 anos.

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28 Respostas to “Intimidade”

  1. Daniela Says:

    Alhos, que lindo o seu relato . To aqui com os olhos marejados. E, olha a história se repetindo com a sua filha. Abs,

  2. alhos Says:

    Obrigado, Dani.
    Mas tem uma diferença grande: não cozinho…
    Beijos!

  3. Joana Says:

    Que bonito, Alhos!

  4. Leticia Z Says:

    Lindo. Eu penso muito no meu avô e nos seus churrascos de domingo. Enquanto preparava a carne, eu passava prla cozinha para roubar os tequinhos de carne crua.
    E na minha mãe, que sempre odiu clara de ovo, mas na nossa frente respirava fundo e comia, pelo exemplo.
    Os dois me ensinaram a comer de tudo, sem frescura, me ensinaram a arriscar e ser verdadeira com os meus gostos.

  5. Luiz Says:

    Caro, belo texto.
    Um brinde ao Sr. Alhos Sênior.
    Abraço.

  6. alhos Says:

    Obrigado, Joana.
    Beijos!

    Letícia,
    obrigado!
    Gostei da expressão: “ser verdadeira com meus gostos”. É isso.
    Abraços!

    Luiz,
    obrigado.
    Claro que, ao escrever, me lembrei de seu maravilhoso texto sobre seu pai.
    Brindarei com cerveja, que era a bebida de que ele gostava.
    Abraços!


  7. ALhos,

    Passei o dia na rua. Só agora li seu post.
    Lindo. Tocante. Terno.

    Acima de tudo, de orgulhar um PAI!

    Abraços

  8. Susana Says:

    Também li o relato com os olhos marejados, naturalmente. Linda forma de homenagem, pensar no que permaneceu. Bjs!

  9. Claudio Says:

    Na primeira vez que li seu post hoje de manhã, fiquei pensando. Ah! Eu sei quando comecei a gostar de comer bem, quando vinha visitar meu Tio aqui em Sampa. Agora no final do dia, depois da Mesimarja(liquor de framboesa) li de novo e repensei, será? Lembrei do meu tio nos passeios em São Paulo. Acho que foi a introdução de um Neofito ! Estou aprendendo a gostar… Obrigado Casal Alhos(Marcel)

  10. alhos Says:

    Helena & Claudio,
    obrigado, queridos.
    Abraços!

  11. alhos Says:

    Gun,
    sabemos, não é? Sabemos.
    Beijos!


  12. Alhos!
    Emocionante e gostoso de mais ler td isso!
    Eu com os pais no interior me remeti aos otimos finais de semana que meu pa todo metodista tirava para cozinhar para nós!
    Parabéns!

  13. mdv Says:

    Fiquei muito tocado tb, grato, abs M


  14. As paixões verdadeiras que aprendemos com nossos pais nos marcam pela vida afora. Com minha mãe aprendi a comer; com meu pai, aprendi a ouvir música. Não por acaso, minhas duas maiores paixões na vida… E, sem dúvida, o maior legado que os dois me poderiam deixar.

  15. Maria Says:

    Alhos, acho que essas referências são as coisas mais preciosas que podemos herdar. E tendo consciência disso reverenciamos essas pessoas a toda hora. Belo presente de aniversário.

    Beijo.

  16. Benny Says:

    Alhos meu caro,emocionado escrevo e digo que apesar da minha mãe judia ter um apelo de obrigatoriedade na minha educação alimentar, que por sinal foi muito errada, meu Pai,hoje sem dúvida meu maior fã, foi quem me mostrou o melhor das artes,da musica,da gastronomia,do cinema,teatro……..
    um gd abraço

  17. alhos Says:

    Ariana, MDV, Maria,
    obrigado!
    Vamos catando marcas do passado e tentamos compreender o presente. Melhor: juntar os dois tempos.
    Abraços!

    Constance & Benny,
    obrigado!
    Falando de música. Vale a constatação de Noel: quem acha, vive se perdendo.
    Esta talvez seja a chave: achar os toques que, direta ou indiretamente, nos deram para que possamos nos perder ainda mais no bosque do passado, nos labirintos da memória.
    Abraços!

  18. Adrina Says:

    Prezado escriba, que texto emocionante. Eu sinto cobiça, assumo, pelas histórias de pai que ouço, pois não tive oportunidade de conviver com o meu, mas as leio ou ouço com ouvidos e coração aberto, tentando reconstruir as cenas na minha cabeça. Lindo texto, parabéns!

  19. Schapô Says:

    Alhos,

    o texto é lindo e tocante. Evoca a memória afetiva e a memória gustativa, talvez as mais vigorosas.
    Ajustando o calendário, novembro é o mais cruel dos meses e, entre uma garfada e um gole, lembramos que “não há outros paraísos que os paraísos perdidos”.
    Fraternal abraço

  20. alhos Says:

    Adrina,
    obrigado.
    Lembranças & imaginação. Assim vivemos.
    Abraços!

  21. alhos Says:

    Nelsão,
    e nem há lilases que consigam germinar na terra morta.
    Precisamos dar essa garfada e esse gole juntos.
    Abraços!

  22. o avestruz Says:

    Alhos,
    Que baita texto este, rapaz, capaz de amolecer até coração feito de pedra. Já o coraçãozinho deste avestruz que vos escreve, e que perdeu o pai este ano, é feito de manteiga, gorda e generosa, como aquela que lambuzava os sanduíches de pão francês e presunto cozido da infância.
    Meu velho, que cozinhava maravilhosamente bem e sempre reclamava do resultado; me ensinou tanto sobre comida, bebida, música e cinema, que olho no espelho e me vejo metade avestruz, metade reflexo e avesso deste cara que tanto amei.
    Parabéns pelo blog e pelo texto.
    Um grande abraço d’o avestruz

  23. alhos Says:

    Avestruz,
    obrigado por seu comentário.
    E seguimos lidando com as perdas e as memórias.
    Abraços!

  24. paolanp27 Says:

    Olá Alhos

    Q texto lindo….

    Meu pai tb cozinha maravilhosamente bem….
    Aliás, pq pais geralmente cozinham tão bem?
    Será a dose generosa de carinho? eheheh

    Abraços!

    http://localdagula.wordpress.com

  25. alhos Says:

    Paola,
    obrigado por seu comentário.
    Sem dúvida, está na quota do afeto…
    Abraços!

  26. Mirtes Says:

    Alhos, que coisa mais gostosa que é lebrar do seu pai, e enfim dos nossos pais.
    Lembro tanto da polenta de semola de milho feito pelo meu José… Nunca mais comi uma polenta igual e pensar que um gosto assim não passeia pela minha boca a pelo menos 28 anos.
    Ainda bem que minha mãe, 83 anos, já está melhor, pois vou pedir para que ela faça as alcachofras da minha infância. Não podemos perder tempo, não é mesmo?
    Beijos

  27. alhos Says:

    Mi,
    não percamos tempo no presente, pelo que vivemos, nem no passado, pelo que lembramos.
    Beijos!


  28. […] estranhas. Ou melhor, ocorrem de maneiras estranhas, insuspeitas. Dias desses, li o lindo texto de alhos, passas e maçã sobre sua relação com gastronomia e a memória de seu pai. O texto, belíssimo e bem escrito até […]


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