Como disse Noel…

27/11/2009

O Carlos Dória levantou a lebre, eu comentei e ele comentou o comentário. O que me resta? Ora, comentar o comentário ao comentário, é claro.

É Noel Rosa quem dá a resposta mais categórica à questão: “A verdade, meu amor, mora num poço”. Se não bastasse, ainda sapeca a referência: “É Pilatos, lá na Bíblia, quem nos diz.”

Pronto, está tudo resolvido. A verdade existe, mas é inacessível. E nem podemos duvidar da constatação: a fonte é fidedigna. Nada mais, nada menos do que um livro revelador, em que devemos, por definição, acreditar.

Noel adorava uma brincadeira: definiu a verdade como sólida e a colocou num pântano e na boca de um omisso…

Mas o que ele tem a ver com o pato (e com o rosbife, o porco e os moluscos)?

É que essa dubiedade nos atrai e nos convém. Gostamos de verdades do mesmo jeito que gostamos de duvidar delas. Gostamos de acreditar e de deixar uma fresta de desconfiança.

Dória fala do prêmio do Paladar e, ao mesmo tempo, de muitos outros. Porque qualquer escolha implica a adoção de uma verdade, íntima ou pública, individual ou coletiva. Ele afirma que o prêmio persegue um “verismo” e que constrói sua legitimidade num tripé: o empirismo da prova sucessiva de um mesmo prato por vários jurados; a somatória das opiniões individuais; a transparência nos procedimentos de avaliação. Os três elementos comporiam um efeito de verdade que substituiria a verdade em si.

Concordo. E acho inevitável. Porque, se a verdade pura e absoluta (aquela que, diz Borges, só conheceremos “do outro lado do ocaso”) mora num poço, temos de construir verdades conjunturais: aquilo em que podemos acreditar dadas as circunstâncias e de acordo com os conhecimentos disponíveis.

Não importa que nome damos a essa verdade: já houve quem a chamasse de “comunicacional”, de “consensual”, de “relativa”. Para descarregar o vocabulário, fico com uma metáfora, que tampouco é minha: linha do horizonte.

Essa verdade é a linha para a qual os olhares podem convergir, onde alocam seu ponto de fuga e, na distância, definem sua perspectiva.

Doze jurados, doze perspectivas. Coincidentes em alguns casos. Divergentes em outros. É possível obter um consenso? Não creio. É possível, isso sim, simular um consenso. É isso que faz a academia sueca, quando concede o Nobel. Não é o que faz a Câmara Brasileira do Livro, que define jurados por categoria, faz as contas dos votos e entrega, ao vencedor, as batatas — quer dizer, o Jabuti (que não pode, por restrições legais, ir para a panela, o que, convenhamos, é uma pena).

De qualquer forma, todos estão comprometidos com o resultado: a instituição que promove a eleição e aqueles que ela escolheu como jurados. A responsabilidade é individual e é coletiva. Eu não gostei do rosbife do Maní, nem do cassoulet do Freddy? Apesar da rima, não gostei. E dou meus motivos nas justificativas que ainda irão para a página eletrônica do jornal. Mas reconheço a legitimidade de quem o comeu em outra circunstância, com outro preparo, talvez outros ingredientes, e os elegeu.

Minha suspeita autoridade de eleitor se combina com a inquestionável autoridade dos demais jurados e conforma uma opinião que é responsabilidade de todos nós. O jornal a expõe e a autentica de forma simbólica (como instituição promotora que é) e representativa (pelos votos de cinco de seus funcionários, mais de um terço dos eleitores).

O jogo, portanto, tem ida-e-volta. O esforço, mais do que preocupação democrática, parece ser o de produzir uma verdade e, ao mesmo tempo, mostrar sua incompletude: a tal linha do horizonte.

E o leitor do jornal (ou da revista ou do site ou do blog) recebe um mosaico de opiniões sobre pratos e restaurantes. Tomara que, diante de alguma dúvida, ele tenha vontade de cruzar a angulação de seu olhar com a dos doze olhares votantes. Daí ele vai saber que é possível que alguns tenham achado inesquecível o raviolini do Fasano e outros o tenham considerado horroroso.

Por isso, tão importantes quanto as justificativas de votos são as justificativas de “não-voto” (ou, em vários casos, de “quase-voto”). É lá que mora a incerteza, é lá que o verismo é contrastado pela dúvida. Onde se reconhece a verdade e se nota a profundidade do poço.

Principalmente: é lá que está o diálogo e o dissenso — o que sempre deveríamos buscar e que encontrou lugar possível nessa conversa entre blogs. Obrigado também por isso, Dória.



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19 Respostas to “Como disse Noel…”


  1. O consenso do dissenso, enfim! Ótimo texto, Alhos. Abração dos Que Pets.

  2. alhos Says:

    Demian,
    hahaha.
    Obrigado!
    Consenso acerca da necessidade/inevitabilidade do dissenso.
    Abraços!

  3. Ricardo Oliveira Says:

    Alhos,

    Você dá “um banho” de crítica, inteligência, educação e humildade , em todos os seus companheiros “pseudo-críticos”.

    Abs.

  4. Alfredo Eb Says:

    Muito prazeroso esse debate.
    Pode até ser gratuito, como disse o Dória, mas vale ouro.
    Grato.

  5. alhos Says:

    Ricardo & Alfredo,
    obrigado.
    O debate é bom mesmo.
    E felizmente temos vários bons críticos e comilões atualmente.
    Abraços!

  6. Bronza Says:

    Concordo com os comentaristas anteriores, excelente texto, Alhos.

    Essas reflexões se tornaram possíveis graças, também, à publicação dos votos e das justificativas de voto. Divirjo, portanto, do Dória, para quem o Paladar poderia ter recorrido aos mesmos jurados sem “abrir” cada voto em particular.

    A rápida e profícua troca de ideias e de posts após a divulgação do prêmio contribuiu para reforçar a importância dos blogs de gastronomia.

    Parabéns a todos os envolvidos.

    Abraços!

  7. alhos Says:

    Bronza,
    obrigado pelo comentário.
    Você contribuiu para o debate com os comentários no blog do Carlos Dória.
    E gosto também da individualização dos votos.
    Abraços!

  8. cris couto Says:

    Alhos,
    Se não pôde ser até agora em outro lugar, que bom que o blog se tornou um veículo onde, enfim, pode-se levantar a bandeira do dissenso e da crítica à crítica – a dos prêmios, que para mim, nunca tiveram o caráter de verdade (verdade esta reafirmada diariamente em qualquer texto jornalístico que relata “os fatos”), apenas o de um recorte, num momento específico. Um recorte, inclusive, que não escapa de questões políticas, nem sempre evidentes mesmo para quem o faz. É como costuma dizer um amigo meu (e seu também), replicando a máxima: “A unanimidade é burra”.
    Parabéns pelo texto tão saboroso.

  9. alhos Says:

    Cris,
    obrigado, menina.
    Gostamos de acreditar que há verdades, daquelas irredutíveis.
    A metáfora do recorte é muito boa.
    Fiquei curioso de saber quem é esse amigo em comum…
    Abraços!

  10. jb Says:

    vocês são amigos do nelson rodrigues?

    abraços!

  11. alhos Says:

    Julio,
    Nelson Rodrigues? Eu, hein?!
    Abraços!

  12. Maria Says:

    Alhos, muito bom o texto e ainda melhor a discussão.

    Quanto ao comentário acima, deve ser uma brincadeirinha com o comentário da Cris. É que a frase “a unanimidade é burra” é do Nelson Rodrigues.

    Um abraço!

  13. alhos Says:

    Maria,
    tudo bem?
    Obrigado!
    Sim, era brincadeira.
    Abraços!

  14. eduluz Says:

    Alhos,este papo filosófico sobre gastronomia é muito bacana, mas acho rebuscado demais prum negócio simples.
    Estes prêmios (Vejinha, 4 Rodas, Paladar) irão sempre dar a sensação de ter alguma coisa estranha mesmo porque, também dão a impressão de ser um jogo de cartas marcadas (eu não concordo totalmente com este parecer!!).
    Na verdade, acho que o grande erro nesta história é chamar alguma coisa de prêmio e pior ainda, premiar!!
    Eles deveriam ser chamados de “indicação” ou que o valha e a resolução final seria a do consumidor já que todos sabemos que a qualidade da comida depende de uma série de fatores (dia, horário, temperatura, etc) além do principal: a individualidade!!
    O que eu estranho, sinceramente, é o
    Paladar (suplemento de qual sou um suspeito admirador) se vangloriar de “empanturrar” os jurados como se fossem gansos!! rs Que achem alguma outra forma que não essa!
    Apesar de tudo, gostei bastante dos teus comentários excetuando os do post anterior sobre os piores pois não acho que algum estabelecimento possa ser considerado ruim através de poucas visitas ( se você foi muitas vezes neles, retiro essa afirmação se bem que já fui muitas ao Carlota e não o incluiria numa lista de restaurantes a não visitar! Tá vendo como cada um tem o seu jeito de ve as coisas?).
    Abs.

  15. alhos Says:

    Edu,
    tudo bem?

    Se servir como salvo-conduto, lhe digo que tentei ao máximo diminuir o peso conceitual da discussão. E não acho que seja rebuscada; ela tenta ultrapassar o senso-comum.

    Há vários fatores que interferem num prato, claro. Mas quando a quantidade de sal na carne é absurdamente exagerada ou você não consegue partir o bolinho com a faca nem com os dentes ou o recheio da sobremesa chega encaroçado e semi-congelado é porque há problemas que não derivam da individualidade do avaliador. E é bom que o comensal saiba que pode pagar 50 reais por um prato, ou 15 por uma sobremesa, e receber isso.

    Quando falo que considero prêmios como referências está implícito o desfecho óbvio da coisa: quem opta, sempre, é o comensal. Mas acho bom que ele tenha disponível um volume variado de informações e de opiniões. A partir delas (e com elas) ele pode optar.

    Acho importante para os restaurantes também. Como referência ou marketing, não importa. Para usar um exemplo, acho importante ver o reconhecimento que um restaurante como o Ici teve nos prêmios da Veja SP e do Paladar. Acho importante que se mostre que uma cantina simples de bairro como o Marina di Vietri serve, por 30 e poucos reais, uma das melhores massas que comi nos últimos tempos. Acho importante que as pessoas lembrem que temos um restaurante como o Fasano, que busca um patamar de qualidade (apesar do preço, claro) especialmente elevado.

    Pessoalmente não me empanturrei. Comi muito e até engordei uns quilinhos. Mas nunca fiquei enfarado.

    Finalmente: minha lista dos piores – e creio ter deixado isso claro no post – é a relação das experiências bem ruins nas visitas feitas para o prêmio. Não tenho vontade de voltar logo ao Due Cuochi, ao Marais ou ao Emiliano porque fui muito mal atendido nos três lugares. Não tenho vontade de voltar logo ao Carlota porque a sobremesa que me foi servida lá estava muito abaixo do tolerável. Claro que em outras visitas o resultado pode ser diferente. E não apenas por motivos individuais (sinceramente não acredito no completo relativismo, que desemboca na impossibilidade de julgar ou comparar coisas), mas porque as cozinhas podem oscilar. No entanto, aquilo que pagamos no final da conta, nunca oscila (para baixo, pelo menos).

    Abraços!

  16. Ricardo Reno Says:

    Olá Comilão, tudo bem?

    Estranhei seu voto no Filé do Moraes, mas entendi perfeitamente depois de ler seu comentário sobre ele. Acho que esta discussão toda nos remete ao seguinte fato: não há mais o que falar sobre a comida dos restaurantes de sempre. O preciosismo técnico é exagerado e acredito para maioria dos leitores, eu inclusive, inacessível ao paladar de um simples mortal.

    O que ficou de saboroso, como sempre, foram seus comentários no paladar e os posts no seu blog. Suas opiniões vem sempre na pitada certa.

    Abraços

  17. alhos Says:

    Ricardo,
    obrigado.
    Por questões de espaço, os comentários publicados na revista foram parcialmente cortados. Espero que alguns votos e não-votos fiquem mais claros quando todos os textos forem publicados na internet.
    A categoria “carnes” foi, para mim, a mais fraca de todas. Embora o ojo de bife do Arturito, o entrecôte da Brasserie e a alcatra do Marais estivessem gostosos e fosse notável o domínio técnico (principalmente no prato do Arturito), nenhum empolgou. O filé do Morais tem melhor relação custo-benefício (que não é, por si só, um critério de escolha) e, além disso, revela incrível longevidade e regularidade e mostra uma personalidade que não percebi nos demais. Daí o voto.
    Abraços!

  18. Marcelle Says:

    Alhos,

    Fico embevecida com as discussões daqui e do Dória, mesmo sabendo de todas as imperfeições de avaliações como essa acho que o simples fato de provocar discussão já é importante demais para ser ignorado. E acho que é isso que a gastronomia necessita hoje.
    Obrigada por mais esse maravilhoso texto.

  19. alhos Says:

    Marcelle,
    puxa, muito obrigado. O mestre é o Dória.
    Abraços!


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