O espectro de Marco Pierre White

06/02/2010

Cada um tem seus mitos e seus fascínios. Se alguém quiser me oferecer um jantar e pedir que eu escolha o restaurante — qualquer restaurante do mundo —, a resposta está na ponta da língua: Yew Tree Inn.

É o refúgio de Marco Pierre White nos arredores de Londres. Três estrelas precoce, ex-patrão de Ramsay, Batali e Blumenthal, White virou mito, ainda mais depois que devolveu as estrelas ao Michelin e, teoricamente, se aposentou.

Infelizmente até hoje ninguém me fez semelhante proposta e tive de guardar a resposta…

No mês passado, fui a Londres. O carrossel do quotidiano, porém, me impediu de percorrer as quase setenta milhas até lá. Fazer o quê? Ora, ir ao L’Escargot, que fica ali mesmo, no Soho londrino.

L’Escargot nasceu em 1927, está instalado num prédio do século XVIII e tem gravuras de Miró, Matisse e Picasso nos salões. A decoração é elegante sem exageros: tradição e modernidade dialogam adequadamente. O restaurante teve muitos donos ao longo da história, e a lista inclui a participação societária de Jancis Robinson & her husband. Hoje está sob o comando de White — o restaurateur, não o chef.

O chef se chama Joseph Croan, mas o nome de White é que vai na fachada. E ele parece ter influenciado decisivamente a composição do cardápio, resumido e consistente, voltado à valorização dos ingredientes e à (aparente) simplicidade na execução.

Éramos seis na mesa e três pessoas, inclusive minha mulher, optaram pelo salmão orgânico acompanhado de curly kale, batatas e creme fraîche. Praticamente cru, o salmão tinha o sabor dos salmões de antigamente, quando ainda eram peixes. A couve (como se traduz curly kale?) era macia e crocante, identicamente quase crua.

Minha filha preferiu a coxa de pato, servida com lingüiça defumada de Morteau, chucrute, batatas e molho de vinho tinto. Um tanto forte para seus dez anos, mas a carne do pato vinha macia e com sabor marcante, intensificado pelo contraste alsaciano com o repolho e o molho.

Um cordeiro quase inacreditável de tão bom chegou para minha cunhada (ok, tecnicamente é concunhada, mas não vamos complicar as coisas), servido com tomatinhos confit, compota de abobrinha, batatas com queijo e molho de azeitonas pretas. A sensação era de morder o bicho relaxado, meio vivo e sonado. Uma delícia.

Mas o melhor prato — ah, meus caros — era o meu. Galinha d’angola silvestre assada e acompanhada simplesmente de batatas cozidas e do molho extraído no próprio preparo. A sensação do mato, do que é bruto e vivo, com a maciez e a intensidade que só as caças têm.

Ainda comemos boas sobremesas (torta de grapefruit & mousse de chocolate amargo com café e creme fraîche com laranja), mas a verdade estava ali, no meu prato principal: a cozinha que finge não existir, que parece não ter interferido nos sabores do que prepara.

A cozinha que não pretende ostentar sua condição de transformadora, embora seja óbvio que agiu. O reverso da celebrização de chefs e das receitas mirabolantes, de preparos que alteram a forma, a consistência e a aparência para “surpreender” o cliente.

No L’Escargot não há esse tipo de surpresa. A grande surpresa é que ainda existem cozinhas que não querem se impor ao que servem, ao que foi caçado, criado, cultivado. Cozinhas discretas e diretas.

Não, Marco Pierre White não estava lá. Sim, ele acompanhou espectralmente nosso jantar, a quase setenta milhas de Yew Tree. Não, não passou minha vontade de ir, um dia, a Yew Tree. Sim, saímos do restaurante com riso de orelha a orelha.

L’Escargot

48 Greek Street, Soho, Londres

http://www.whitestarline.org.uk/LEscargot_Restaurant.htm


Anúncios

10 Respostas to “O espectro de Marco Pierre White”

  1. Benny Says:

    Alhos , sinceramente …estou emocionado.
    Adoro MPW sem exageros, em minha opinião não tem pra ninguem. Ele é o cara e ponto.

    abs

  2. alhos Says:

    Benny,
    de acordo.
    Ainda irei ao Yew Tree…
    Abraços!

  3. eduluz Says:

    Marco Pierre? O que fez chorar o Ramsay? (segundo o GNT).
    Taí, pelo jeitão dele eu jamais iria a um restaurante dele.
    Abs.

  4. alhos Says:

    Edu,
    tudo bem?
    Corre essa história…
    A trajetória dele é impressionante e os conceitos que defende me agradam muito.
    Abraços!

  5. manuela Says:

    “cozinhas que não querem se impor ao que servem, ao que foi caçado, criado, cultivado”
    Isso não deveria ser regra ?

  6. alhos Says:

    Manuela,
    tudo bem?
    Adoraria que fosse, mas atualmente não é.
    Abraços!

  7. Ricardo Reno Says:

    Olá Comilão, tudo bem?

    O melhor das tuas viagens são os pratos que sua filha pede. Para uma menina de dez anos já tem um paladar e uma curiosidade bem apurados. Imagino que nas letras a curiosidade e bom gosto devam ser parecidos. Mais uma vez um texto delicioso. Parabéns!!!

    Abraços

  8. alhos Says:

    Ricardo,
    tudo bem?
    Obrigado!
    Sou suspeito, claro, mas acho minha filha maravilhosa em todos os campos…
    Seu paladar, no entanto, é pouco afeito aos picantes e, nesta viagem, ela se ressentiu muito do excesso de condimentos – sobretudo, pimenta-do-reino – das cozinhas inglesa e francesa. Aos poucos, calculo, ela se acostumará mais a esses sabores.
    Abraços!

  9. Jefferson Says:

    Comilão,

    já há algum tempo, eu e minha companheira temos buscado por boa comida em São Paulo na medida do possível, e na das mais modestas, a de estudante, rs. Não a toa, a chance para erros é pequena, e decidir encarar os preços de um restaurante as vezes se torna uma pequena missão.

    Por meio de conselhos seus e de outros blogs, muitas vezes até no puro chute, conseguimos fazer bom uso do dinheiro, e, sem querer querendo, conhecemos 4 dos seus 5 alhos de ouro de 2009 (ficou faltando a Tappo, pena, e os hors concours, ainda distantes da nossa realidade..)

    Enfim, tudo isso para dizer que, seguindo os seus passos, fui hoje ao L’Escargot para o almoço. Sem a minha parceira, mas com uma amiga, éramos os únicos jovens no belo salão, iniciativa elogiada pela simpática recepcionista, pois, segundo ela, era uma pena a pequena diversidade de clientes naquele horário.

    A comida, como eu já esperava, foi muito agradável. Até mesmo as folhas, que eu costumo comer no máximo com indiferença, eram agradáveis na vitela com cogumelos. Na minha visita, porém, o ponto alto foi a sobremesa (a última em que me “assustei” desta forma com uma sobremesa havia sido com o pain perdu), uma bela torta com calda e espuma de blackcurrant – fugiu-me o nome em português,perdão.

    Por toda essa experiência, agradeço pelo post, que me deu uma luz neste lugar onde muitas vezes a comida é motivo de piada (e com razão, frango com curry e abacaxi que tive em um pub foi assustador, agora no mau sentido). Além disso, há de se mencionar a bela iniciativa de oferecem pães, manteiga e café ao final inclusos no menu du jour. Não sei se o mesmo ocorre em muitos restaurantes europeus, embora os portugueses também foram generosos nesse aspecto.

    Após o agradecimento, uma pirracinha: ainda tenho alguns meses em Londres, o que quer dizer que me resta tempo para visitar o Yew Tree, ainda mais agora que descobri que lá também há menus por 15,50 e 18,50 libras…

    Abraços!

  10. alhos Says:

    Jefferson,
    tudo bem?
    Fico muito, muito contente por seu relato e, claro, pela gostosa refeição.
    Agora, Yew Tree… Muita sorte por lá. Depois, por favor, relate a visita!
    Abraços!


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: