Passado & presente

14/02/2010

 

Certos restaurantes trazem o ar rarefeito, mas decisivo, da memória.

Foi lá que jantei com meus padrinhos antes do casamento. Foi lá que tantas vezes comi patos e cordeiros memoráveis. Foi lá que minha filha provou escargot pela primeira vez. Foi lá que comemorei uma meia dúzia de aniversários, meus e alheios.

Foi no Chef Rouge.

Por isso já falei a tanta gente que é dos meus preferidos em São Paulo.

E foi no Chef Rouge que jantei na sexta-feira passada.

A decoração continua a mesma — e gosto dela, embora normalmente prefira ambientes visualmente mais limpos (em bom português, clean).

O serviço segue cortês, sem ser contaminado pela praga da falsa intimidade e da bajulação que tomou de assalto alguns de nossos bons restaurantes.

O couvert ainda é agradável. A carta de vinhos continua reduzida, mas suficiente. E o menu traz uma interessante sugestão de pratos do Mediterrâneo; não chega a compensar a retirada da coxa de pato no molho de cassis — um dos patos top-five da cidade —, mas atrai.

Minha filha escolheu a tagliarini Le Procope, uma das homenagens do Chef Rouge a outros restaurantes. Molho de limão, azeitonas pretas e presunto cru. Massa no ponto exato, saborosa, sem excesso no limão.

A escolha de minha mulher foi a melhor da noite: cavaquinha rapidamente chapeada com salada verde, batata e creme fraîche. A crème vinha carregada demais na acidez e carecia do sabor prometido de queijo caprino, mas o crustáceo estava delicioso.

Meu cassoulet infelizmente derrapou. O pato, minúsculo e meio insosso, me fez lembrar, nostálgico, de bons e fartos cassoulets au confit de canard dentro e fora da cidade. O feijão estava bem equilibrado e consistente, mas os demais embutidos chegaram inexpressivos. O garçom esqueceu-se de deixar o arroz acessível ou voltar a servi-lo. Portanto, só na primeira rodada pude combiná-lo com o restante.

A sobremesa é obrigatória no Chef Rouge. Minha filha quis a boa e bonita torta mousse de chocolate. Eu escolhi a normalmente incomparável tarte tatin. Mas dessa vez ela não empolgou: faltava-lhe a crocância característica, o que denunciava que o frescor já se fora. Além disso, a fatia, muito pequena, veio toda desmantelada, feia.

O último dissabor veio na conta, bem acima do que devia: quase 500 reais, resultado de pratos que giram em torno de 60, 70, alguns a 80 reais.

O que são 500 reais? Depende, claro, do que se come. Mas uma refeição como a que fizemos (sem entrada, 3 pratos, duas sobremesas, águas e vinho — Borgonha básico a 130, com sobrepreço excessivo) sairia por 40% a menos em vários bons, talvez melhores, restaurantes de São Paulo. Portanto, foi caro demais.

Balanço geral: saímos de lá chateados. Foi um mau jantar? Não. Mas não foi o Chef Rouge de nossa memória, da correção em todos os pratos, do preço que sempre achamos justo.

Tudo o que vivemos lá continuará conosco. Só não queríamos que o teatro das boas lembranças vivesse esse quase entreato.


Chef Rouge

Rua Bela Cintra, 2238, Jardim Paulista, SP

Tel.  11  3081 7539

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Chef Rouge


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11 Respostas to “Passado & presente”

  1. Adrina Says:

    Um prato por 80 reais? Hummm… não, obrigada.

  2. Joaquim Says:

    Alhos,infelizmente não se come mais barato em S.Paulo ,principalmente nos restaurantes dos jardins.Hoje ,tomar vinho é sempre um sufoco ,tomar um borgonha vagal a 130 reais dói o coração.Eu adotei a seguinte regra ,quando eu vejo que o sobrepreço é excessivo ,caso principalmente das casas do grupo Fasano ,eu não bebo,posso ser alcoolatra ,mas nao sou idiota.Quanto ao rouge ,posso at’e entender sua nostalgia ,mas ainda bem que caiu a ficha,o rest.’e bem med’iocre.

  3. alhos Says:

    Adrina,
    tudo bem?
    Depende do prato a 80… Mas, claro, precisa ser muito bom para valer o preço.
    Abraços!

    Joaquim,
    sim, está caríssimo comer em São Paulo e as cartas de vinhos estão especialmente infladas.
    Quanto ao Chef Rouge, discordo: já comi muito bem lá e espero voltar a comer bem. Há uns três anos, ele estava no mesmo nível, por exemplo, do Ici, que hoje é muito superior. Tomara eles recuperem o espaço que tinham.
    Abraços!

  4. Semiramis Says:

    500 reais para três pessoas? Dureza hein…

  5. alhos Says:

    Semiramis,
    tudo bem?
    Depende da comida. No caso, infelizmente, não compensou.
    Abraços!

  6. manuela Says:

    Local agradavel.Serviço, carta de vinhos e couvert corretos.
    Mas o menu parece uma biblia de tão grande e a massa com vieira eu não consegui terminar de tão enjoativo.
    Uma pena

  7. alhos Says:

    Manuela,
    tudo bem?
    Concordo integralmente – só não posso palpitar sobre a massa com vieira porque nunca a comi.
    Um enxugamento no cardápio (na quantidade de opções e no preço dos pratos) e alguns ajustes na cozinha e voltaria a ser um restaurante bastante bom.
    Abraços!

  8. Jean Jacques Martin Says:

    Moro em Paris 4 meses por ano, 8 aqui e tenho o Chef Rouge como um dos melhores restaurantes de São Paulo, há sim restaurantes medíocres e este não é o caso, mas também há paladares medianos. Como muito bem onde quer que o Jacquin cozinhe e me encanta a comida e o ambiente do Chef Rouge, eles tem consistência, diferente dos outros restaurantes franceses com toque + nova-iorquino, que também agradam. Está mesmo impraticavel o preço, em todos os bons…160,00 por pessoa com cavaquinha e vinho infelizmente se tornou rotina…

  9. alhos Says:

    Jean Jacques,
    concordo com a qualidade e consistência do Chef Rouge. Espero que retomem logo a regularidade que sempre caracterizou a casa.
    Quanto aos preços: os preços de alta gastronomia se tornaram regra em São Paulo, mesmo quando a comida e o serviço não são alta gastronomia. Lastimável.
    Abraços!

  10. Joao Says:

    500 reais 3 pessoas é um absurdo.
    Nao depende da comida nao, para qualquer comida é um absurdo!
    tem gente q vive um mes com essa grana.

    isso é um mau gerenciamento do dinheiro ou burrice mesmo

  11. alhos Says:

    João,
    tudo bem?
    Compreendo sua indignação e sei dos desajustes profundos que, historicamente, ocorrem na distribuição de renda no Brasil.
    A alta gastronomia, no entanto, é cara, sim. A questão, na avaliação de qualquer custo, é o que se oferece em troca do que é cobrado.
    Abraços!


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