Abaixo do tom

06/04/2010

 

Não gosto de comentar casa recém-aberta. Me recolho, leio o que outros escrevem. Ou vou e calo, deixo amadurecer.

Por isso esperei tanto tempo para falar sobre o Dui, aberto em julho do ano passado. Esperei também por ver o incrível desencontro das avaliações que as resenhas faziam: de elogios rasgados a críticas contundentes.

Esperei, sobretudo, porque gosto da cozinha de Bel Coelho e acho que alguém que conseguiu trabalhar bem até no peculiar Buddha Bar sempre merece crédito.

No sábado passado, de Aleluia, minha mulher e eu fomos lá. A primeira impressão foi ótima: salão bonito, bem projetado, agradável, elegante. Evidentemente rico, mas sem ostentação.

A carta de vinhos, apesar de visualmente confusa, tem boa variedade de rótulos e preços. Casa cheia, predominância de público de meia-idade. Tudo parecia promissor.

Sentamos abaixo de uma caixa de som e a música estava alta demais para nós. Pedimos e o garçom instantaneamente diminuiu o volume. Mais um ponto positivo.

O serviço, aliás, é muito bem treinado e age na medida exata: disponível e com atenção contínua, mas sem excessos ou bajulações.

Aceitamos o couvert, que traz broa feita na casa, pães (bons) da padaria próxima, manteiga adornada com alecrim, flor de sal misturada com ervas, azeite agradável e pasta de queijo de cabra, de sabor tênue demais. No conjunto, couvert correto, sem maiores adjetivos.

Estranhamos um pouco o cardápio; ele combina pratos convencionais com novidades que não são tão novidades — idéias que já se tornaram fórmulas repetidas da inovação (tapas, toques asiáticos, insistência nas sementes e grãos). Apostamos, porém, que a execução mostraria a diferença do Dui em relação a muitas casas que ostentam menus parecidos.

Pedimos, como pratos principais, o ravioli de cabra com beterraba, azeite e limão siciliano e um clássico da casa: costelinhas de porco no mel de engenho, purê de abóbora e quiabo empanado.

O queijo caprino do ravioli novamente ficou abaixo do tom. O limão prevalecia e a beterraba, ausente em pedaços, contribuiu basicamente na coloração da massa e com ligeiríssimo sabor.

A costelinha estava incrivelmente macia: nota dez em textura. Pena que o excesso de gordura e o sabor discreto demais a comprometessem. O melaço lhe dava cor, mas não impunha seu gosto e sua doçura. O purê de abóbora também era exato na textura e frágil no sabor. Os quiabos, agradáveis, sequinhos e crocantes, cumpriam bem seu papel.

De sobremesa, meu figo assado com pistaches caramelados e balsâmico era gostoso. Pelo preço do prato (19 reais), entretanto, poderia não se resumir a uma unidade.

A outra sobremesa pedida foi o ponto triste da refeição: morangos e lichias com sorvete de gengibre. A idéia era boa. Só que os morangos estavam passados. Minha mulher mostrou a fruta estragada à moça que veio retirar o prato. Ela, comiserada, concordou: “Que pena!” E nenhuma medida foi tomada, como se a má condição do morango não fosse responsabilidade de ninguém por ali. O prato não foi trocado e seu valor foi incluído normalmente na conta.

Fora o episódio do morango — uma daquelas bobagens que infelizmente são mais comuns do que supomos e fazem um restaurante perder clientes e confiabilidade — a refeição foi razoável. O que é pouco para uma conta que bateu nos trezentos reais (acompanhada de duas garrafas de água e um Rioja simples, por 87). Pouco para uma chef com o prestígio e o passado de Bel Coelho. Todos os sabores ficaram abaixo do que deveriam e a execução confirmou a pouca ousadia do cardápio.

Se eu tivesse ido logo depois da abertura da casa, não teria dúvida de que era questão de tempo para que ajustes fossem feitos e erros, corrigidos. Quase um ano depois, porém, é difícil projetar o destino da casa.

O que temo? Que o Dui se torne mais um restaurante bonito e inexpressivo, como tantos que existem em São Paulo.

O que quero? Que o Dui arrisque mais, intensifique o sabor do que serve, defina melhor sua personalidade. E que não demore outro ano para isso.


Dui

Alameda Franca, 1590, Jardim Paulista, SP

Tel.  11  2649 7952

Como chegar lá (Guia 4 Cantos): Dui


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21 Respostas to “Abaixo do tom”

  1. luiz Says:

    público de meia idade para mim é desanimador e não promissor. fora isso, crítica certeira. abraço!

  2. alhos Says:

    Luiz,
    obrigado.
    Você tem razão. Soou estranho.
    É que temíamos a moçada baladeira que frequentava (frequenta?) o Buddha Bar. O comentário do Bicho sobre o Dui falava desse público. Por isso o caráter promissor da meia idade… Mas nunca é, não é?
    Abraços!

  3. manuela Says:

    Alhos
    Considero a Bel Coelho uma chef comum, não entendo que passado ela tem para ter prestigio já , que eu me lembre, nunca parou mais de um ano em restaurante algum.É mais uma criação da nossa sofrivel critica gastronomica.A Bel é bonita, fala bem, estudou no Santa Cruz e estagiou com algum chef espanhol que está na moda alem de ter sido capa da trip com o Alex Atala, já é motivo para ter prestigio e passado.Que passado ? Dos finados Sabuji e Madeleine ? Do Buda Bar? Ou da mal sucedida tentativa de abrir um resurante “brasileiro” em Londres ? Dificil entender quando vocês falam “chef com o passado e prestigio”.
    Bom, pelo menos a Bel tem mais bom gosto, é menos prepotente e mais culta que seu semelhante masculino Alex Atala.
    Chef por chef, para mim estão no mesmo nivel : comum.

    Agora em relação a critica

  4. eduluz Says:

    Alhos, defina meia idade? E ainda mais, promissora? E porque nunca é?
    Abs.

  5. alhos Says:

    Manuela,
    tudo bem?
    O “prestígio”, você tem razão, é construído pela crítica – merecido ou não.
    Mas quando falo de “passado” estou me referindo ao Sabuji e a uma experiência muito boa que tive no Buddha Bar.
    A comida que provei no Dui está abaixo de ambos.
    Acho que faltou um pedaço de seu comentário: a frase final ficou incompleta.
    Abraços!

    Edu,
    meia idade é, numa clássica definição, a idade da meia. rs
    Pouco promissora porque o passado tende a prevalecer ao futuro – ao menos na quantidade.
    Brincadeiras à parte, expliquei o motivo do “promissor” na resposta ao comentário do Luiz.
    Minha mulher e eu somos pessoas de 40 e poucos anos. Ouvimos mais de um relato de que o público do Dui era semelhante ao do Buddha Bar: garotada bronzeada em busca de agito. Daí o alívio de chegarmos lá e vermos que, pelo menos naquela noite, predominavam pessoas de idade próxima à nossa, que iam ao restaurante para comer.
    Abraços!


  6. Olá, me chama Renata e gostaria de saber se você tem espaço para anunciantes no blog.

    Beijos e fico no aguardo.

  7. Joaquim Says:

    “Que pena”,parece até uma frase mágica .Foi o que eu ouvi por duas vezes no Fazano ,quando um nhoque veio salgado demais e um peixe além do ponto .O nhoque foi cobrado ,o peixe não,apesar de ambos os pratos terem sido devolvidos,e nada oferecido em troca.Foi o que eu ouvi da sub chefe, recentemente no Arturito,quando o polvo pedido e devolvido, veio duro feito sola de sapato ,mas devidamente cobrado.Foi o que eu ouvi no Nostradamus em Fortaleza ,considerado o melhor restaurante do nordeste pelo guia 4 rodas,quando a sobremesa ,mil folhas ,veio completamente estragada ,com fungos e rançosa ,nada foi oferecido em troca ,mas também não cobraram.

  8. Ricardo Reno Says:

    Olá Comilão, tudo bem?

    Também fui ao Dui e saí com saudade dos antigos inquilinos, o Empório Siriúba.

    Abs

  9. alhos Says:

    Renata,
    a bem da verdade, nunca pensei nisso.
    Acho que poderia ter se, claro, não envolvesse publicidade de restaurantes comentados ou “comentáveis” porque isso implicaria em conflito de interesses.
    Me escreva, por favor, no endereço alhospassas@uol.com.br
    Abraços!

    Joaquim,
    tudo bem?
    O bacana desse negócio de “que pena!” é que inscreve o problema numa espécie de dimensão mágica ou mística em que ninguém tem responsabilidade pela coisa.
    Horrível.
    Abraços!

    Ricardo,
    tudo bem?
    Não cheguei a conhecer o Empório Siriúba. Pelo visto, perdi.
    Abraços!

  10. Dina Bresson Says:

    Alhos,
    Meia idade quer dizer meio chato? Pq estou achando muita firula para pouco conteúdo! Conheco varios enochatos, agora vou comecar a lista dos gastrochatos, com vc encabeçando! Queijo abaixo do tom? Eh musica ou eh queijo?
    A unica coisa para mim tênue aqui eh a linha da leitura agradável e da que encomoda! Vc ganhou no segundo quesito!
    Entao, vou fazer com essa leitura o que faço com restaurantes que não gosto! Não vou mais!
    Adio!

  11. alhos Says:

    Dina,
    você tem todo o direito de não voltar ao blog.
    Mesmo assim esclareço: o “tom” abaixo do queijo de cabra era uma metáfora da falta de sabor.
    Abraços!

  12. Ju Tedesco Says:

    Alhos, quem diria que uma simples expressão(meia-idade) causaria tanta polêmica…!

  13. alhos Says:

    Ju,
    tudo bem?
    Viu que coisa?
    E o mais engraçado é que usei de brincadeira.
    Abraços!

  14. tadzio Says:

    Os “encomodados” que não voltem mais!

    Se tem um cara que não é gastrochato é SR. Alhos.

    Abs. tádzio

  15. alhos Says:

    Obrigado, Tadzio.
    Mas há controvérsias, há controvérsias…
    Abraços!

  16. Adrina Says:

    Não entendi a revolta da comentarista, mas ela também não entendeu a metáfora, então ficamos na mesma. O seu blog é excelente, Sr. Alhos, e espero que continue assim, isento e expressando a sua opinião sem se preocupar em agradar a ninguém.

  17. alhos Says:

    Adrina,
    obrigado.
    Sigamos, sigamos.
    Abraços!

  18. rodrigo Says:

    olá gostaria de falar com o dono do blog….

  19. alhos Says:

    Rodrigo,
    tudo bem?
    Por favor, escreva para alhospassas@uol.com.br
    Abraços!

  20. Dri e João Says:

    Muito caro para nós, por enquanto… quem sabe um dia?

    Aliás, mudamos de endereço. Traímos o movimento e agora estamos no http://www.mtv.com.br/fastfooddepobre

    Seu link já tá lá!

    Dá uma passada, já tem posts novos!

    Abraços!

  21. alhos Says:

    Dri & João,
    obrigado pelo link e boa sorte no novo endereço.
    Abraços!


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