Mau humor, bom humor

25/05/2010

 

Já disse uma vez, e repito: não vou a restaurantes porque escrevo o blog; escrevo o blog porque vou a restaurantes.

A diferença é importante: me dá a liberdade de ir aonde quero ir, sem as obrigações e regras que pautam o quotidiano de um crítico gastronômico.

Claro que não vou escrever apenas sobre as casas de que mais gosto. Afinal, gosto se discute, sim, e não pode ser ele a pautar as análises e comentários que, correta ou equivocadamente, publico.

Quando como um prato que não é meu preferido ou quando vou a um restaurante cujo ambiente ou tratamento me desagrada, procuro separar as coisas e não deixar que o comentário se torne refém de minhas preferências e idiossincrasias.

Até confesso uma aqui: trilha sonora. Prefiro comer sem música, mas um fundo de clássicos ou jazz não me incomoda. Fora isso… Bem, fora isso, tenho que separar minhas manias de minha análise.

E também não vou a restaurantes para ser “surpreendido”. Pode até acontecer alguma surpresa e eu gostar dela. Mas vou para comer. Por isso, espero bons ingredientes, boa execução, boa apresentação, sabores definidos, prazer.

Nessa altura do texto, calculo que você, leitor, esteja pensando: Hoje o sujeito está de mau humor.

Não só, nem tanto.

Tem um mau humorzinho de fundo, sim. Ele sempre bate quando ouço defesas exageradas dos experimentalismos na cozinha ou sua equiparação a uma arte. Não tenho dúvida de que há ciência e arte na cozinha, mas o limite de ambas é a atenção ao comensal.

Que o cozinheiro experimente à vontade, dê asas à imaginação, divirta-se. Mas o cliente não pode sofrer, no bolso e no paladar, as consequências dos riscos que o chef resolve correr. Em bom português, não tenho vocação para porquinho da Índia.

Só que o mau humor acaba aqui e, no seu lugar, entra a defesa do conforto.

Porque na semana passada, e por absoluta coincidência, comi fora quatro vezes e as quatro em restaurantes que associo ao conforto e à satisfação. Mais do que isso, e também por absoluta coincidência, não pedi em nenhum deles pratos que não conhecesse. Fui no certo e no sabido.

Numa sexta-feira, almocei vareniques de batata doce, com creme de haddock, amêndoas e endro. De sobremesa, o mais lúdico de todos os pains perdus. No AK.

No mesmo dia, jantei no Marcel e segui o menu degustação de Raphael Despirite. Dois cinco pratos, só não conhecia um: o bacalhau em lascas com farofinha crocante de pão, batata com ervas e azeite de manjericão. No mesmo nível (altíssimo) do bacalhau do menu.

Na quarta seguinte, almocei no 210 Diner (sim, sei que ainda não escrevi sobre ele, embora tenha ido lá mais de dez vezes; escreverei em breve). Pedi o Piggie Burger, que já comera duas vezes.

E finalmente na sexta-feira, uma semana depois do início dessa história, jantei o quase incomparável cassoulet do Ici, seguido de um imenso pain perdu.

Ou seja, quase nada variou: lugares, pratos, resultados. Também revivi a completa satisfação, sorriso no rosto, com que normalmente saio desses restaurantes.

O nome é qualidade, é conforto — o melhor antídoto para cansaço e mau humor.

Incrível é que aí, sim, houve surpresa. Claro que já sabia — todos sabemos — que uma boa refeição deixa a alma mais leve. Mas toda vez que isso acontece bate aquela sensação de inusitado: a surpresa que confirma a regra.

Por isso, quis escrever a história concisa dessas quatro visitas. E lembrar a melhor motivação que pode haver para sair de casa: o prazer. O resto (olha o mau humor de volta, gente!) quase sempre é conversa fiada.


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10 Respostas to “Mau humor, bom humor”

  1. Carola Says:

    Faltou o Sal Gastronomia!
    Restaurante sem “surpresas”

  2. alhos Says:

    Verdade, Carola.
    Preciso voltar lá urgentemente.
    Beijos!

  3. andrea Says:

    Alhos,
    é sempre um prazer ver nosso nome citado em seu blog.
    Obrigada pelas visitas, e pelas sempre contundentes observações.
    abraços,
    Andrea

  4. alhos Says:

    Obrigado, Andrea.
    Mas o prazer, eu o renovo a cada refeição no AK. Obrigado.
    Abraços!

  5. Benny Says:

    Merci mon ami !!

    abs

  6. alhos Says:

    De rien, Monsieur.
    Abraços!

  7. Benoit Tourneur Says:

    Sinceramente, o Ici me decepcionou e muito… O magret alem do ponto e o escargot que parecia uma borracha! Fui 3x vezes para ter certeza que nao era bom! Certeza confirmada!
    O que esperar de um chef que faz Cordon Bleu em Londres? Nada alem disso…
    Benoit Tourneur

  8. alhos Says:

    Benoit,
    obrigado por seu comentário.
    Minha experiência não coincide com a sua. Comi diversas vezes os escargots e o magret no Ici sem que tivessem ocorrido os problemas que menciona.
    Não entendi, porém, o comentário sobre o Cordon Bleu londrino. Não sei de nada que o desmereça. E obviamente não acredito que seja admissível qualquer sugestão xenófoba.
    Abraços!

  9. Benoit Tourneur Says:

    Alhos,
    O magret se come extremamente MAL PASSADO e la o magret e’ praticamente ‘a point’. Nao fiz alusao a xenofobia, e sim quis dizer que com rarissimas excecoes (Fat Duck, Gordon Ramsay´e cia) sabemos que no UK a cozinha e a qualidade dos alimentos e sofrivel! Infelizmente, no Brasil nao temos cultura gastromica. Por isso, se compara o ruim com nada, c.q.d ele fica bom!

  10. alhos Says:

    Benoit,
    fica aqui registrada sua opinião.
    Respeito-o, mas divirjo.
    Primeiro, porque já comi magret de pato em diversos locais, bons e ruins – mais de uma vez ruins na França.
    Segundo, porque jamais suponho ‘cultura’ – gastronômica ou não – no singular. Creio que haja distintas formas e manifestações e que não é possível julgar uma manifestação cultural a partir de princípios de outra. Em outras palavras, creio que existe, sim, cultura gastronômica no Brasil, na Inglaterra ou nos Estados Unidos – para ficar em três exemplos -, e que podemos identificá-las e considerá-las se abandonarmos os valores de inspiração francesa.
    Terceiro, porque acho que o clichê que afirma que não existe boa comida na Inglaterra – ou no Reino Unido como um todo – há tempos já foi derrubado. Me sinto à vontade para dizer que algumas das melhores refeições que fiz em 2010 (ano em que visitei, inclusive, Paris) foram em Londres.
    Abraços!


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