Errâncias

13/06/2010

Comecei a escrever este texto na quarta cedo, daí li o do Luiz Américo — na mesma linha e que dizia tudo — e o abandonei.

Sei lá por quê, hoje quis escrever de novo.

Terça à noite, saí cedo do trabalho e quis jantar em algum lugar. Pensei em um ou dois endereços em Higienópolis, mas preferi ficar nos arredores de casa.

Girei uns quarenta minutos, meio sem rumo.

Desisti do primeiro porque o trânsito do quarteirão era tanto, mas tanto, que nem deu vontade de virar a esquina.

Desisti do segundo quando passei devagar diante da casa e ela estava vazia. O que menos queria era ser o alvo das atenções de todos.

No terceiro resolvi parar. Encostei o carro e esperei por cinco minutos, dentro dele, enquanto o manobrista solitário cuidava de outros dois carros. Quando chegou minha vez, recebi o tíquete e entrei no restaurante.

Havia duas mesas vazias na parte externa e uma, na interna. Fazia frio e eu quis sentar na área protegida. Me espremi, sentei, relaxei.

Então o rapaz veio dizer que tinha se enganado: pedia desculpas, mas a mesa estava reservada e eu teria de levantar. Sabe quando bate aquele desânimo que vem do fundo da alma? Pois é, bateu.

Levantei, peguei minhas coisas, confirmei que não queria sentar na parte externa e saí.

Enquanto esperava o carro de volta, o rapaz reiterou as desculpas e insistiu que eu ficasse, avisando que uma mesa seria logo liberada na área de dentro.

Agradeci: ele estava de fato constrangido e queria mesmo resolver. Mas algo tinha se quebrado na minha vontade de ficar e o jantar dificilmente seria prazeroso.

De volta ao volante, fiz três curvas, diminuí a velocidade e ainda olhei para dentro de um quarto restaurante. Totalmente vazio.

Acelerei e segui para um endereço certo: minha casa.

São essas errâncias e os pequenos detalhes, as tais miudezas, que, tantas vezes, desanimam.



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13 Respostas to “Errâncias”

  1. Helena Gasparetto Says:

    Alhos,

    Na minha opinião, esses detalhes jamais são pequenos. Sâo grandiosos e importantíssimos!
    Eu defendo sempre essa tese de que há que se prestar atenção nos detalhes. Sempre. Por tão pouco, perde-se um afeto. No caso, um cliente!

    Beijos
    Helena

  2. alhos Says:

    Obrigado, Helena.
    Mas, fora a bobeada do rapaz, que nem foi grave, todo o resto é exclusiva responsabilidade minha.
    As errâncias, no caso, são mais internas.
    Beijos!

  3. Mario Netto Says:

    Alhos
    Desculpe a franqueza, mas você agiu errado.Se o representante do restaurante lhe indicou a mesa,o acomodou devidamente, o ônus do erro é da casa.O cliente não pode ser penalizado.A postura correta seria permanecer na mesa.Ele é que devia se virar e encontrar outra para a reserva.Infelizmente, nós, brasileiros, somos muito bonzinhos, como bem dizia Kate Lira nos anos 80!!!

  4. alhos Says:

    Mario,
    tudo bem?
    Pode ser que você tenha razão.
    Mas eu queria jantar. E não troco um jantar por uma briga. Aliás, briga nunca está no meu cardápio. Gosto de conversa.
    Abraços!


  5. Se não há de ser, não será.

  6. eduluz Says:

    O que sobrou?
    Jantar (e bem) não é somente uma questão de alimentação.
    É uma questão de espírito.
    Pelo clima do texto, dava pra imaginar o final. Muito bom!!

  7. alhos Says:

    André,
    é isso: às vezes simplesmente não tem que ser.
    Abraços!

    Edu,
    tudo bem?
    Obrigado.
    Se não der para aproveitar o, digamos, contexto, não adianta, não é?
    Abraços!

  8. manuela Says:

    Alhos
    Você deveria comer mais em casa, cozinhe você ou treine uma cozinheira, com certeza alem de economizar dinheiro você vai comer melhor do que na maioria dos restaurantes que frequenta.Tambem é mais saudavel , use produtos organicos , peixe fresco e bons azeites.Quem sabe aprendendo a cozinhar você se deslumbre menos com chefs e restaurantes.Gaste seu dinheiro de outra maneira, arte contemporanea por exemplo( nossos artistas são mais talentosos que nossos cozinheiros).
    Agora, se você vai nos restaurantes para badalar, continue indo.

  9. alhos Says:

    Manuela,
    tudo bem?
    Não tenho nada contra quem badala – em restaurantes ou outra parte. As pessoas escolhem o que desejam fazer, claro. Mas não entendi o que lhe pareceu badalação nesse relato: eu, desconsolado e errante pelas ruas dos Jardins…
    E infelizmente sou das pessoas que menos badala… rs Questão de estilo apenas.
    Também – fora umas duas ou três – raramente me deslumbro com comidas de chefs e restaurantes.
    Em tempo: como 3 ou 4 vezes por semana em restaurantes e faço as demais refeições em casa: não cozinho, mas, como já relatei outras vezes aqui no blog, acho que poucos chefs de São Paulo cozinham como minha mulher. Essa média, inclusive, deve ser menor do que a da maioria dos paulistanos, forçados a almoçar fora quase todos os dias.
    Finalmente: tenho que discordar de sua avaliação de nossa arte contemporânea. E isso não é um elogio aos chefs.
    Abraços!

  10. manuela Says:

    Alhos
    Não tenho nada contra quem badala,ir a restaurante é sempre “badalo” no sentido não pejorativo.Então ir a um restaurante para relaxar e se divertir tudo bem.Agora comer bem é dificil, nunca um restaurante vai usar materia prima igual a que você pode usar em casa, ir a restaurante quatro vezes por semana é pouco saudavel e caro, logo acho que você vai pelo badalo e nada contra isso.
    Quanto a arte brasileira discordo, vai ver a exposição da dora longo na galeria vermelho ou da andrea rocco na thomas cohn, só para citar duas boas exposições em cartas.

  11. alhos Says:

    Manuela,
    tudo bem
    Agora entendi.
    Mas não é, não.
    Abraços!

  12. manuela Says:

    Alhos
    Va nas exposições e depois me diga se sua opnião sobre nossa arte contemporanea mudou.

  13. alhos Says:

    Manuela,
    cheguei a ver a da Dora Longo, que acho que já acabou.
    Não vi a da Andrea Rocco, mas conheço algo do trabalho dela.
    Minha área de trabalho é relativamente próxima ao mundo das artes visuais, o que me obriga a ter alguma noção do que está acontecendo nesse campo.
    Prometo-lhe, porém, que terei mais boa vontade nas próximas mostras. rs
    Abraços!


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